19.10.17

USP lembra os que tombaram na luta contra a ditadura militar

Bem, meu prezado leitor, minha cara leitora, começo com uma nota triste e envergonhada: errei. Ao longo dos últimos dias, venho divulgando que a data de nascimento de Carlos Lamarca foi 23 de outubro de 1937. Está errado: foi 27 de outubro.
Fui induzido ao erro pelas fontes que consultei, mas a responsabilidade é totalmente minha, que deveria ter buscado confirmação em outras documentações. Agradeço ao leitor e visitante das redes sociais Antonio Silvany, que fez a gentileza de me alertar para o erro. Silvany, que mora em Feira de Santa, participa de um grupo chamado “Lamarca, O Revolucionário”, no qual acabo de me inscrever também.
De qualquer forma, isso nem de longe invalida nossas homenagens.  O aniversário de 80 anos do nascimento do capitão da Esperança será na sexta-feira da semana que vem, e a celebração acontece alguns dias antes, na segunda-feira, 23 de outubro, como a gente vem divulgando.  O ato será às 19h na sede da Fundação Lauro Campos, na alameda Barão de Limeira, 1.400.


Bem, encerrada a sessão de correção, permita que eu conte o que fiz hoje, na quarta etapa da série de oito corridas que estou fazendo em homenagem aos já mencionados oitenta anos do nascimento de Lamarca.

A cada dia corro ou caminho até um local, aqui em São Paulo, que lembre a luta desse grande brasileiro ou seja marca da resistência contra a ditadura militar.
Hoje fui até a Cidade Universitária, que é como chamamos o campus da Universidade de São Paulo no Butantã, na zone oeste de São Paulo, do ladinho da marginal Pinheiros.
A USP, por si só, é um local de memória da paulistanidade e da brasilidade, palco e templo da inteligência e do debate democrático [nem sempre, é bom que se diga]. Durante a ditadura militar, muitos dos integrantes da comunidade uspiana foram perseguidos pelo governo, sendo presos e torturados; mais de quarenta foram mortos ou desapareceram por causa de suas opiniões políticas.
Em 2012, depois de acirrado debate na comunidade acadêmica –que também abriga gente retrógrada e antidemocrática--, foi inaugurado um memorial em homenagem a esses professores e alunos da USP que tombaram na luta pela construção de um Brasil mais justo e livre.


Trata-se de um monumento com uma série de onze blocos de cimento encadeados, cada um deles carregando alguns dos nomes dos homenageados. A lista completa, de acordo com boletim da Associação dos Docentes da USP, é esta:
Como se vê, aparecem ali nomes muito conhecidos de todos os que se batem pela democracia e pela soberania nacional.
Iara Iavelberg dava aulas na Faculdade de Psicologia, Vladimir Herzog era professor de jornalismo, Alexandre Vannucchi Leme estudava geologia, Frei Tito era aluno da psicologia.
Iara, como se sabe, foi a paixão revolucionária de Lamarca. Os dois se conheceram em abril de 1969 e ficaram juntos até a morte, os dois assassinados na Bahia em 1971–Iara no final de agosto, em Salvador, Lamarca no mês seguinte, na Pintada.

Nos seus últimos dias, o capitão escreveu para ela cartas apaixonadas. Em uma delas, dizia: “O nosso amor é uma realidade que veio sendo transformada – hoje atinge um nível nunca por mim sonhado, mas vamos continuar transformando. Sonho com ele numa fazenda coletiva – juro não ser ciumento e lutar junto contigo pela tua liberdade – e vou te amar mais intensamente, isto é possível, sinto que é. Nosso amor não está isolado na realização de nós dois, nem nos milhares de filhos que teremos, ele nasceu e estará umbilicalmente ligado à Revolução e construção do Socialismo”.
Os passos de Iara e seu romance são comentados e historiados num bom artigo da jornalista Gabriela Moncau, que publicou na “Revista Adusp” de outubro de 2013 o texto “Revolução e Paixão na Vida Admirável de IaraIavelberg” (clique no título para ver o documento original).
Depois de assassinarem Iara, os esbirros da ditadura trataram de disfarçar o crime dizendo que ela havia cometido suicídio. A versão foi mantida ao longo de anos, ainda que a família e militantes da luta democrática tivessem sempre procurado restabelecer a verdade.
A Comissão Nacional da Verdade, em um primeiro momento, referendou a versão de suicídio. Não chegou oficialmente a mudar de opinião, mas considerou que ela teria sido induzida a tirar a própria vida, como mostra trecho do relatório da CNV que reproduzo a seguir.


Durante muito tempo prevaleceu a versão de que Iara Iavelberg se matou, disparando contra o próprio coração para evitar as torturas a que certamente seria submetida se apanhada viva no apartamento da Pituba, Salvador (BA), em 20/08/1971, onde estava encurralada pelos órgãos de segurança, entre eles agentes do DOI-CODI/RJ deslocados para aquele Estado na perseguição final a Carlos Lamarca, morto no mês seguinte.
Na própria CEMDP foi aprovada num primeiro julgamento, em 1998, por apertada maioria de votos, uma interpretação que aceitava a versão das autoridades do regime militar, o que resultou em indeferimento. Reapresentado em 2002, o caso foi deferido por unanimidade após a ampliação dos critérios da Lei nº 9.140/95, que na redação introduzida pela Lei nº 10.875, de 2004, passou a admitir a responsabilidade do Estado nas mortes em que a pessoa cometeu suicídio na iminência de ser presa. Mas a Comissão Especial não adotou posicionamento formal rechaçando a versão de suicídio, embora alguns integrantes do colegiado tenham se manifestado explicitamente nesse sentido.
No momento de sua morte, Iara Iavelberg era uma das pessoas mais procuradas pelos órgãos de repressão política em todo o país, na medida em que já era conhecida a sua relação amorosa com Carlos Lamarca, inimigo número 1 do regime militar naquele momento. Na mesma operação de cerco, foi presa Nilda Carvalho Cunha, de 17 anos, que morreria em novembro do mesmo ano, logo após ser solta com profundos traumas decorrentes das torturas."
Sobrinha de Iara, a roteirista Mariana Pamplona produziu o filme “Em Busca de Iara” (clique para acessar o site oficial), em que desmonta a versão de suicídio. Se você não viu, não deixe de assistir.

VAMO QUE VAMO!!!





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