15.11.16

Segundo dia do resto de nossas vidas tem chuva e sol e dúvidas

Tem muita gente que diz –e a própria razão cartesiana apoia—que numa jornada o mais importante é o primeiro passo. Há que começar, tomar a iniciativa, sair da zona de conforto, tirar a bunda do sofá, se mexer, enfim.
Tudo bem, mas o que acontece depois do primeiro passo? Ou depois do primeiro dia de uma jornada que vai ter sei lá quantas manhãs? Ou depois do primeiro tiro de canhão? Ou da tomada revolucionária do poder?
Não basta começar, há que prosseguir. A palavra de ordem, espécie de lema de meus amigos do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra), é muito educativa e esclarecedora sobre a ordem dos fatores e a imperiosa necessidade de que se sigam e combinem: “Ocupar, resistir, produzir”.
Nem é preciso chegar a tempo. Nos meus tempos de coral –sim, fui um esforçado, mas nem sempre afinado, cantor no naipe dos baixos--, a gente, os coralistas, estava sempre nervoso às vésperas de alguma estreia.
Era quando estudávamos mais, preparávamos com mais intensidade, fazíamos sessões extras de ensaio, testávamos voz e organizávamos o corpo para a sessão que viria. Havia que debutar, dar o primeiro passo, mostrar o mundo nosso filhote musical.


O maestro, no entanto, experiente e calejado por centenas de momentos como aquele, não relaxava ao final do espetáculo. Cobrava presença no ensaio seguinte, que se seguia mais exigente até que os anteriores.
Isso porque se sabe: no segundo dia é que dá merda, o povo desafina, o solista esquece o texto, a prima dona vai de vestido rasgado, os baixos parecem ter engolido giz, contraltos brigam com tenores, sopranos desembestam de vez do jeito delas...
Hoje foi o segundo dia de meu projeto de percorrer, na chegada de meus 60 anos, distância equivalente à de sessenta maratonas. Plano esse que tem um filhote, a intenção pouco recomendável de rodar, caminhando e correndo, 600 quilômetros até a data exata de meu aniversário, 14 de fevereiro.
A ideia inicial era começar tudo no dia primeiro de janeiro de 2017, marco do ano novo. Uma fratura por estresse no joelho esquerdo, porém, jogou minha vida e meus planos de pernas para o ar. Se esperasse até a data marcada, haveria grandes chances de não atingir o objetivo.

Então eu, que não sou obrigado, resolvi começar já, porque depois é mais tarde. Ontem abri os trabalhos com uma caminhada de três quilômetros –que é o tanto que o meu prezado amigo ortopedista considera adequado para o presente estado do meu bendito joelho.
E hoje, será que prosseguiria? Pretendia caminhar pelo menos três quilômetros a cada dia, todos os dias, até o final do ano. Isso já me daria uma boa quilometragem acumulada para tornar menos pesados os 45 dias de 2017 que me levariam até meu aniversário.
Acordei de má vontade, cansado da noite mal dormida –dores nos ombros me fazem acordar várias vezes ao longo da noite. Para completar, cá em São Paulo chovia uma aguinha fina, penetrante, pentelha, cenário ideal para preguiçar e deixar as coisas para depois.
A questão é que os velhos não têm muito tempo (eu ainda não sou velho, faltam para isso três meses menos um dia). Há que aproveitar cada minuto do dia, descansar e agir. Por isso,  me fui.
Desta vez, saí com a companhia de minha mulher e de minha filha mais velha –espero, ao longo dessa jornada, ter a participação e o apoio de muita gente, com quem possa conversar e de quem possa tirar ideias e compartilhar conceitos sobre o que nos espera nesse momento.
Descemos os três a avenida Sumaré, que está no feriado –assim como aos domingo—parcialmente fechada ao trânsito de veículos.
Aproveitamos. E vimos muitos velhos e muitos jovens, muitos adultos e muitas crianças aproveitando as nesgas de sol que chegavam ao planeta em meio à nebulosidade e á instabilidade do dia.
É o que precisamos fazer. Curtir o que temos. E seguir em frente.
Vamo que vamo!


600 aos 60 – etapa 2 – 2016 nov 15
4 km caminhados em 49min42
Quilometragem acumulada: 7,45 km
Tempo acumulado: 1h26min20



14.11.16

Chegando aos 60 anos, jornalista aposentado encara 60 maratonas

Desempregado, com dor de cabeça, nariz encatarrado, ouvidos entupidos, garganta irritada, tosse seca, lombar gritando e joelho com fratura por estresse, acordei hoje para o primeiro dia do resto de minha vida.
Daqui a exatos três meses completo 60 anos. Tenho medo do que vem depois e quero muito mais. Chegar até aqui foi uma vitória: quando nasci, a expectativa de vida dos homens brasileiros não chegava a 50 anos. Hoje, as estatísticas me dizem que posso viver talvez mais 20 anos, quem sabe 30, quiçá 40. Ou não.
Há que celebrar. Maratonista que sou por decisão, jornalista que sou por profissão, me jeito de festejar é correr. E contar histórias. Das corridas, dos corredores, da vida que é corrida.
Assim, inventei para meus 60 anos um projeto que tem tudo isso. E, se der sorte, ainda pode ser que traga uns trocos pro novo veinho. Chama-se “60 maratonas aos 60 anos”.
Fiz até apresentação de PowerPoint sobre a empreitada, para ver se conseguia adesão de alguma empresa disposta a bancar meus sonhos. O texto de apresentação começa assim:
 “60 maratonas aos 60 anos é um projeto cultural-esportivo-jornalístico realizado pelo jornalista, escritor e ultramaratonista Rodolfo Lucena, que chega aos 60 anos e tenta desafiar a idade e a distância ao mesmo tempo em que conta histórias do mundo da Terceira Idade, seus desafios e suas conquistas. Ao ingressar oficialmente na Velhice, o jornalista iniciará uma jornada que, ao longo do ano, vai cobrir distância equivalente à de 60 maratonas – 2.532 quilômetros.”
Lá vou eu!!!!  - Foto Ayrton Vignola

Não se trata de bater recorde. Para alguns, essa distância é café pequeno; para outros, é impossível. Para mim, é um desafio importante, mais do que fiz em qualquer um dos anos de minha vida corrida. Não é inédito, mas é uma forma de mostrar que pessoas comuns, mesmo velhas e com físico apenas regular, acima do peso, com mais gordura que o recomendado, mal e mal em forma, conseguem realizar –ou, pelo menos, podem tentar realizar—coisas surpreendentes.
Para acrescentar sal e pimenta ao meu projeto, já fiz logo um filhote para ele, subproduto, um sonho dentro do sonho: o 60 maratonas aos 60 anos é um projeto embarrigado.
Assim: sem desrespeitar o plano geral dos tais 2.532 quilômetros ao longo de 2017, queria dar uma arrancada geral para chegar ao dia do meu aniversário, 14 de fevereiro, com uma distância marcante, significativa, desafiadora.
Meti na cabeça que, a contar de primeiro de janeiro de 2017 e até o dia dos tais 60 anos completos, correria distâncias tais que me permitissem chegar, na hora de apagar as velinhas, aos 600 quilômetros acumulados.
Sonho de pobre, porém, está fadado ao fracasso. Quando a gente pensa que as coisas estão se ajeitando, vem lá a marvada sorte e entorta tudo.
Na manhã do dia sete de novembro, domingo da semana passada, saí para correr com uns amigos, gente do sensacional grupo Corredores Patriotas Contra o Golpe. Estamos organizando a segunda edição da Corrida e Caminhada Fora Temer!, que será no próximo dia 20 –COMPAREÇA!!! (saiba mais CLICANDO AQUI)--, e fazemos reuniões assim, correndo.
Pois estávamos na saída do Minhocão, hoje elevado Presidente João Goulart, quando uma dor aguda no joelho me fez parar, pedir aos companheiros para reduzir, caminhar um pouco. 
Percurso de minha última corrida deste ano; a dor no joelho anunciou: fratura por estresse vem aí!

Não tínhamos sequer completado dez quilômetros, e o sofrimento impediu que eu prosseguisse.
Esperei que, com aplicação de gelo no joelho, melhorasse.
Nada.
Fui ao pronto-socorro, raio-x saiu limpo, o médico deu um anti-inflamatório e falou para avaliar. Na dúvida, como a dor estava forte –eu não conseguia andar sem mancar--,pediu uma ressonância magnética e me orientou para buscar atendimento especializado.
Resultado: fratura por estresse no joelho esquerdo, a minha quarta nesses 18 anos de corrida. Mais precisamente:
“Aparecimento  de  traço  de  fratura  subcondral  com  microfratura  do  trabeculado  ósseo  na  periferia  posterossuperior  do  côndilo  femoral lateral,  com  edema  da medular óssea, sem desvios. Esta fratura não era observada no exame anterior.”
O exame anterior, outra RM, havia sido feito em junho por causa de uma dor aguda exatamente ou quase exatamente no mesmo ponto, do lado de fora do joelho esquerdo, um pouquinho abaixo da rótula, que hoje chamam de patela.
A fratura por estresse é o seguinte: o osso está lanhado, machucado, ferido, trincado, mas não está quebrado.
Pela minha experiência, a fratura por estresse é algo caótico. Acontece por acúmulo de esforço, somatório de pressões até que uma coisinha qualquer seja a gota d`água, o grão de areia que provoca a avalanche. Também surge a partir de um único evento, uma queda, uma torção, um esforço extra num ponto fraco sabe-se-lá-por-quê.
O tratamento básico é tirar o estresse, dar tempo ao tempo para que o corpo possa recuperar as estruturas defeituosas, fortalecer o que está fraco, colar o que está trincado. No caso de um corredor, suspender as corridas.
Um mês e meio de gancho, mais provavelmente dois meses, me disse o ortopedista que viu meu exame e deu as orientações para o tratamento. “Caminhar pode”, concedeu ele, que também é maratonista e conhece o grau de fissura que o corredor tem pelas corridas.
A frase acendeu uma luzinha na minha mente, que já estava perdida, enveredando pela depressão, calculando que o projeto dos 60 anos estava perdido, que nunca mais conseguiria correr daquele jeito, que quando voltasse aos treinos estaria tão gordo que era melhor já ir subindo num carrinho de lomba...
Caminhar pouco, disse o médico, e ir só até o limite da dor. Melhor: descobrir quando e por que começa a doer e parar antes disso.
Bom, melhor do que nada.
Nos meandros do turbilhão de  pensamentos negativos, positivos e muito pelo contrário que me dominavam, aos poucos vai surgindo a ideia: “Não vamo nos entregrar pros homi”, velha frase brizolista que pregava a resistência política e até militar mesmo nas condições mais adversas e que bem servi de resposta para a maldita fratura, a gordura, a dor nas costas, a cabeça inchada, os ombros doloridos, a garganta inflamada, os ouvidos entupidos.
Decidi tocar o projeto para a frente.
Ao longo do ano, dá para fazer os 2.532 quilômetros; afinal, sou brasileiro, e não desisto nunca, sou gremista e vou à luta para o que der e vier.
Talvez seja impossível completar os 600 quilômetros até o dia do meu aniversário, se eu começar a contar desde primeiro de janeiro de 2017. Então, por que não começar agora, já, neste momento?
Uma professora de canto e impostação de voz, muito querida, costuma dizer: “Primeiro, a gente vai lá e faz com o que tem; depois, melhora”.
O que temos é esse corpo alquebrado, mas decidido. Então, vamo que vamo. Se não dá para correr, vou caminhar. Se não dá para ser depois, há de ser agora.
Começo aqui minha jornada.
Hoje caminhei três quilômetros e quatrocentos e cincoenta metros em um terreno plano, nas calçadas da avenida Doutor Arnaldo, pedaço do espigão da Paulista, uma das regiões mais alta de São Paulo. Não tive dor na jornada, mas, depois, o joelho reclamou e lhe dei uma dose de gelo.
Volto amanhã e depois e depois e ainda no outro dia. Pelo menos, é meu plano. Enquanto der, como der.
Primeiro vou completar 600 quilômetros até meu aniversário; depois sigo para os outros 1.932 quilômetros. Se não der, não deu, mas não vou desistir antes de começar.
Minha histórias não serão só das corridas ou caminhadas. Vou falar da velhice, de amor, de esperança, de dinheiro e falta de grana, da aposentadoria e da desaposentadoria, de comilanças e dietas, de exercícios e de política, do que vier na cabeça ao longo do caminho –não são apenas as melancias que se ajeitam no andar da carroça, os pensamentos tomam tento na vereda do percurso.

Tenho o apoio da Eleonora, minha companheira de vida, paixão, trabalho e luta, e das minhas filhas. E com elas e por elas que ando e saio todo dia a dar mais um passo, sempre mais um passo.
Não conto com patrocinadores (por enquanto, espero), mas tenho a parceria amiga e incentivadora do pessoal da Força Dinâmica. Alexandre Blass é meu treinador, Marcelo Semiatzh o guru do movimento –os dois me ajudaram a combater minhas dores e a voltar a correr e a enfrentar maratonas.
Não tenho agora (ainda?), como em outras empreitadas, suporte institucional de centros médicos, de fisioterapia e nutrição. Mas ouço a  orientação abalizada do ortopedista Henrique Cabrita, médico maratonista que também virou amigo ao longo dos anos.
Seria sensacional ter mecenas –empresas, associações, instituições—a bancarem viagens maravilhosas em que eu possa contar para você aventuras incríveis de um velhinho no mundo das maratonas.
Espero que isso venha a acontecer. Mas, se não vier, não há problema, combateremos à sombra.
O mais importante é seguir sempre com a sua companhia amiga, sua leitura simpática, seus comentários de crítica e incentivo. Diariamente, temos aqui um encontro marcado para jogar conversa fora e aprender mais um pouquinho sobre cada um, desafinar o coro dos contentes e desfrutar a vida como ela vem, tentando sempre que ela fique do jeitinho que a gente gosta.

Vamo que vamo!

600 aos 60 – etapa 1 – 2016 nov 14

3,45 km caminhados em 36min28
Quilometragem acumulada: 3,45 km

Tempo acumulado: 36min38

7.11.16

Homenagem tardia a Carlos Alberto Torres, o capitão do Tri

Perdão, leitores, mas hoje este seu blogueiro vai mudar de assunto.
Deixo por instantes nossas queridas corridas e maratonas para entrar nos campos sagrados do futebol e mandar minha saudação para Carlos Alberto Torres, o capitão do Tri, que foi jogar em outras paragens.
Homenagem atrasada, por certo, devido a circunstâncias da vida; mas não por isso feita com menor carinho.
Carlos Alberto, o gol de Carlos Alberto na final da Copa de 70, para ser mais exato, é uma das mais gloriosas memórias do início de minha adolescência.
Mais tarde, com mais capacidade para compreender os meandros da bola e as diabruras do esporte, entendi por que aquele momento foi tão lindo, tão brilhante. Aquele gol guardava em si a essência do futebol, de tudo o que há de bom no futebol: o engenho e a arte, a violência, a concatenação, o espírito de grupo, as parcerias, a surpresa, o disparo final.
Carlos Alberto também achava isso, como ele me contou em uma conversa que tivemos por telefone há mais de dez anos, quando ele estava meio que encostado do esporte, desempregado depois de ter, como técnico, contribuído para livrar o Flamengo do rebaixamento no Brasileirão.
A entrevista com o capitão foi parte de um especial que fiz sobre os 40 anos da primeira edição dos Jogos Pan-Americanos realizada no Brasil (São Paulo-1963). Tive a honra de conversar com quase todos os brasileiros que conquistaram medalha de ouro naquele Pan –um dia isso acaba virando livro.
Bom, enquanto esse dia não chega, deixo com você, como homenagem ao grande Carlos Alberto Torres, a íntegra da entrevista que fiz com ele.
Trata-se de um raro momento em que o capitão revisita a juventude dele mesmo. O texto foi originalmente publicado na então Folha Online, o braço internético da Folha.


RODOLFO LUCENA: Carlos Alberto, como foi sua participação no Pan de 1963?
CARLOS ALBERTO TORRES: Eu era jogador do Fluminense, já era titular do time profissional. Tinha 18 anos. Em 1963 teve um fato que para mim marcou, eu não esqueço, porque já naquela época eu era apontado como futuro titular da seleção brasileira. E a seleção brasileira, na mesma época do Pan, teve uma excursão para a Europa. Foi até uma excursão meio..., que não foi bem, não é? O time sofreu, perdeu da Bélgica, parece que de 5 a 1 [exatamente], quer dizer, não foi bem a seleção, mas eu estava cotadíssimo para jogar naquela seleção que foi para a Europa. Foi o próprio João Havelange, que era presidente da CBD, na época, que não permitiu que eu fosse. Ele falou que eu teria que jogar o Pan-Americano. Quer dizer, foi bom para a minha carreira, primeiro porque eu não fui naquela excursão em que os resultados foram péssimos, e segundo porque pude jogar o Pan-Americano e ganhar o título, não é?

RODOLFO LUCENA: Como foi sua carreira até chegar ao Pan? Como você começou?
CARLOS ALBERTO TORRES: Ah, eu morava na Vila da Penha, que é o berço de vários jogadores: Romário, Wanderley Luxemburgo, meu próprio filho Alexandre Torres também começou lá, enfim, e outros jogadores, na época, porque era onde havia campos de pelada. Dali eu fui para o Fluminense, com 15 anos, 15 para 16, jogar no juvenil. E, com apenas dois anos, você veja, que isso aí foi no ano de 60, eu tinha 15 para 16 anos, início de 60, antes de três anos, eu já era titular do time do Fluminense, do juvenil até o time principal.

RODOLFO LUCENA: E daí você já estava ganhando? Ou seja, estava vivendo do futebol?
CARLOS ALBERTO TORRES: Já dava um pouquinho, não é? Comprar um carrinho usado, um Volkswagen, não um carrinho importado como é hoje. Em 63, eu comprei um Volkswagen 60.

RODOLFO LUCENA: Foi a sua primeira compra com o que ganhava no futebol?
CARLOS ALBERTO TORRES: É, foi a primeira coisa mesmo, porque eu tinha dificuldade, porque eu morava na Vila da Penha e para chegar nas Laranjeiras, onde eu treinava, ou ia de ônibus ou pegava carona, não é? Com quem morasse na Vila da Penha e morasse na cidade. Eu levava mais de uma hora, uma hora e meia pelo menos, para ir da minha casa até as Laranjeiras. Então, a compra do carro foi mais uma questão de me facilitar a ida para as Laranjeiras, diariamente, não é.

RODOLFO LUCENA: E como foi no Fluminense?
CARLOS ALBERTO TORRES: Então, eu comecei no juvenil em 60. Em 62, eu comecei a ter as primeiras oportunidades com Zezé Moreira, que era o técnico do time principal. Ele me colocava sempre em alguns jogos do time principal. Depois, a minha oportunidade real de me tornar titular do Fluminense foi num Torneio Rio-São Paulo em 63. Aí o Jair Marinho era o titular, eu era do time juvenil e aspirante. Naquela época, eles aproveitavam o time juvenil para jogar no aspirante, porque naquela época não tinha categoria de juniores, então, até 18 anos mesmo era juvenil. Aí, o Jair Marinho, infelizmente, teve um lance no jogo contra o Botafogo pelo Torneio Rio-São Paulo, fraturou a perna, num lance com o Amarildo, e eles me pegaram no juvenil e me colocaram no titular e eu fiquei. Isso foi no início de 63, fevereiro, março, alguma coisa assim, quer dizer, ainda tinha 18 anos, ainda ia completar 19 naquele ano em julho e aí fiquei como titular.
E ainda teve outro fato, que era o Torneio Rio-São Paulo acontecendo enquanto tinha também o Pan, não é. Nós ficamos concentrados no Morumbi. Naquela época, não tinha nada ali, tinha só o campo do São Paulo e meia dúzia de casas, daquelas casas bonitas que tem hoje, não é? Então, nós treinávamos lá e ficamos concentrados um mês, mais ou menos, nos preparando para o Pan-Americano.
Eu me lembro que, naquela época, quando nós estávamos concentrados, o Fluminense foi jogar no Pacaembu contra o Santos. Foi um puta dum jogo. Aí eu fui convocado pelo Fluminense e fui liberado pela CBD, na época, e eles me permitiram que eu jogasse esse jogo contra o Santos. Foi um sábado à noite no Pacaembu, eu me lembro que nós ganhamos de 4 a 2 do Santos. O grande Santos, e eu garoto... Rapaz, foi, eu lembro, uma emoção filha da mãe para mim, eu joguei muito bem e o Fluminense ganhou de 4 a 2. Um detalhe interessante que eu não consigo esquecer no decorrer do jogo, porque eu ia muito para a frente e voltava, porque naquela época tinha o ponta para marcar. Hoje, não, hoje o cara só vai, não é? Naquela época, a gente tinha que ir e voltar para marcar o ponta. O ponta do Santos era o Pepe. O Pepe era um grande jogador. E eu lembro que o Pelé falava para o Pepe: "Pepe, não volta, não, que o garoto aí vai muito para a frente, vou meter a bola nas costas dele". Mas só que eu era muito rápido, eu chegava muito junto no Pepe, não é? Eu ia, eles metiam a bola lá, eu chegava e tomava a bola do Pepe. Foi um jogo assim. Tive muitos jogos na carreira, mas esse em especial tem detalhes que a gente não esquece. E, aí voltei depois do jogo para a concentração do Morumbi.

RODOLFO LUCENA: E como era a concentração?
CARLOS ALBERTO TORRES: Veja bem, o técnico nosso era o Antoninho, não é? O Antoninho, que depois viria a ser olheiro da seleção. Antoninho foi quem, praticamente, descobriu os grandes jogadores aí hoje no futebol. Ele faleceu há uns dois ou três anos, infelizmente. Bom, e o Antoninho era o técnico do Fluminense também, mas ele estava se dedicando naquele momento a preparar a seleção. O Antoninho era um cara bacana. Nós ficamos muito tempo lá concentrados, aproximadamente um mês, eu não sei te dizer exatamente o tempo, mas foi mais ou menos um mês porque existia um interesse muito grande da CBD em preparar um time para ser campeão. A competição sendo disputada aqui no Brasil, então, eles queriam que a gente, realmente, conseguisse alcançar o título, e o Antoninho era um cara muito legal e pelo fato de a gente ficar lá no Morumbi que, naquela época, não tinha nada. Tinha o campo do Morumbi e não tinha mais nada. O Palácio do Governo naquela época já existia e não tinha absolutamente mais nada.
A gente ficava ali. A concentração do São Paulo, no estádio, eu acho que ainda existe, os quartos. Então, era grande, sabe? Tinha umas salas para assistir televisão e jogos e a garotada, todos nós éramos bastante jovens, então, todo mundo animado com a perspectiva de ganhar a medalha de ouro nos Jogos Pan-Americanos. Então, era um ambiente gostoso que a gente tinha.

RODOLFO LUCENA: De quem você lembra mais? Quem se destacou no futebol?
CARLOS ALBERTO TORRES: A gente não pode esquecer, por exemplo, o Nenê, que era do Santos e foi para a Itália, não é? Jogou, acho que até hoje ele vive lá na Itália. O outro, o Luís Henrique, que hoje é supervisor aí, não é? Aliás, por sinal, o melhor supervisor que existe aí no futebol brasileiro. O Arlindo, que foi para o México e continua morando no México até hoje.

RODOLFO LUCENA: Você lembra de um Airton Baptista Santos, que marcou oito gols contra os Estados Unidos?
CARLOS ALBERTO TORRES: Ele foi centro-avante do Flamengo, jogou na seleção. Em 64, no ano seguinte, teve a Copa das Nações, foi a seleção principal e aí eu já fui como titular, o Airton foi como reserva. O Jairzinho foi nessa seleção também, em 64.

RODOLFO LUCENA: Você lembra dos adversários do Pan?
CARLOS ALBERTO TORRES: O único adversário que eu lembro, sinceramente, é os Estados Unidos, que nós metemos uma goleada neles.

RODOLFO LUCENA: Bem, o Pan foi sua primeira conquista com a seleção. Conte como seguiu sua carreira?
CARLOS ALBERTO TORRES: Você veja, aí eu já era titular do Fluminense. No ano seguinte, com 19 anos, titular da seleção brasileira, pô, barrei o Djalma Santos. Na Copa das Nações, fomos convocado eu e o Djalma e eu fui o titular. Mas o Brasil não ganhou o título não, quem ganhou o título foi a Argentina. Nós ganhamos da Inglaterra, no Maracanã, perdemos da Argentina em São Paulo e ganhamos de Portugal no Maracanã. Nós ficamos com o segundo lugar na Copa das Nações. Mas aí já como titular.
Aí no ano seguinte, me transferi para o Santos, no início do ano de 65 e continuei sendo convocado para a seleção. Várias vezes, apesar de não ter ido à Copa do Mundo de 66, que até hoje eu não sei por quê. E o pessoal daquela época também não sabe o porquê de eu não ter ido, porque já na época eu era cotado como o melhor lateral do Brasil, não é? Era titular da seleção em todos os jogos de preparação aqui no Brasil, jogos amistosos, e uma semana antes anunciaram que eu não iria para a Copa do Mundo.
Foi assim uma decepção grande. A própria imprensa, o torcedor ninguém entendendo por que eu não fui. Por outro lado, foi até bom, porque o Brasil fracassou na Copa de 66.
Depois, em 67, eu já voltei a ser convocado para a seleção e aí até já como capitão da seleção. Apesar da pouca idade, eu tinha 23 anos de idade, mas o fato de já em 67 eu ser capitão do Santos. Depois que o Zito abandonou o futebol, eu fui guindado à função de capitão do time do Santos, do timaço do Santos, não é? E, com certeza, o fato de eu ser, na época, capitão do time do Santos, que era o melhor time do Brasil e do mundo, ajudou a que eu fosse escolhido capitão da seleção. E eu fiquei capitão da seleção até quando eu parei de jogar na seleção brasileira.

RODOLFO LUCENA: Apesar de ser lateral, você marcou uma quantidade razoável de gols em sua carreira?
CARLOS ALBERTO TORRES: É, eu fiz bastante gols. Olha, segundo uma vez me foi dado, eu fiz acho que cerca de 85 gols, porque eu fiz muitos gols também no Fluminense, na seleção brasileira, não é? Acho que foi 85 gols. Isso que me foi dado, não é? Eu nunca me interessei muito. Naquela época, também a gente tinha poucos recursos de estatísticas, de ter dados, filmes.
Eu não tenho nada. Da época em que eu joguei aqui no Brasil eu não tenho nada de coisas minhas. Tenho algumas coisinhas da Copa de 70, tenho alguns jogos. Jogos, não é? Mas não tenho assim de mim fazendo gols. Eu não tenho da época, mesmo na época de Santos e do próprio Fluminense de 76, antes de eu ir para os Estados Unidos, eu não tenho quase nada aqui comigo guardado.
Em alguma época aí deste ano e do ano que vem, vou pegar uns seis meses assim para fazer um levantamento de coisas minhas nas televisões, em arquivos de jornais. Eu estou pensando em escrever um livro daqui a uns dois ou três anos, então eu vou precisar de muita coisa que tem guardada aí nos arquivos.

RODOLFO LUCENA: Falando nisso, qual foi o momento mais emocionante da sua carreira, foi o gol lá contra a Itália?
CARLOS ALBERTO TORRES: Ah, foi. O gol é o grande momento do futebol. E aquele gol no fim do jogo liquidou definitivamente com qualquer dúvida ou esperança que a seleção italiana ou a própria torcida pudesse ter, não é? Os 3 a 1 contra um puta de um time contra os italianos, de repente os caras podem até empatar, e aí a gente está devendo futebol, não é? Mas o quarto gol eliminou qualquer chance que a seleção da Itália pudesse ter ainda no jogo. E a jogada do gol não é? Porque não é só o gol. O gol que eu fiz, tudo bem, eu que dei o chute final, mas a jogada que antecedeu o gol é que foi uma coisa.

RODOLFO LUCENA: O passe do Pelé?
CARLOS ALBERTO TORRES: Não, começou lá atrás, com o Clodoaldo, não é? Ele driblou quatro italianos só com o corpo, aí dali para o Rivelino, do Rivelino para o Jairzinho, do Jairzinho para o Pelé e o Pelé dando aquele passe para mim. Quer dizer, a jogada do gol foi muito bonita, não é? Porque, às vezes, a gente vê aí em jogos jogadas maravilhosas, mas que não resultam em gol. Agora, foi uma jogada sensacional, que resultou num gol.

RODOLFO LUCENA: E envolveu o time?
CARLOS ALBERTO TORRES: A metade do time. Porque eu não lembro, não sei se foi o Piazza ou o Gerson, alguém tirou a bola do jogador italiano e deu para o Clodoaldo. Quer dizer: já é um jogador, ou Piazza ou Gerson, Clodoaldo, Rivelino, três, Jairzinho, quarto, Pelé, cinco e eu seis, metade do time, sem que os caras tocassem na bola.

RODOLFO LUCENA: Foi mais legal do que erguer a taça?
CARLOS ALBERTO TORRES: Ali liquidou, não é? Então, a emoção maior, porque aí você junta a feitura do gol com a certeza da conquista do título. Quer dizer, duas emoções numa só e que, po, eu lembro que todo o time correu, na hora que eu fiz o gol. Todo o time correu para cima de mim e todos nós nos congratulando, nos abraçando e alguns chorando, entendeu?... Eu chorando.
Foi um negócio, logo após a feitura do gol, a marcação do gol foi um momento que eu não esqueço, a gente não consegue esquecer e, principalmente, porque até hoje você veja, em todo mundo, esse gol que eu fiz é considerado até hoje o terceiro gol mais bonito de todas as Copas. Então, quando tem Copa do Mundo lá vem o gol. Então, a gente não consegue esquecer. Você veja, muita gente você pergunta, quem fez o primeiro gol do Brasil? Muita gente não lembra. Quem fez o segundo? Agora, quem fez o último gol da Copa de 70? A maioria das pessoas lembra, porque marcou muito, não é?
Não é pelo gol, porque eu cheguei ali e dei uma porrada, bom um passe daquele Pelé. Não foi um passe que eu chutei, driblei, não. A feitura da jogada, na minha opinião é que marcou aquele gol que eu fiz.

RODOLFO LUCENA: E depois você jogou até que ano?
CARLOS ALBERTO TORRES: Joguei até 82, depois eu terminei jogando lá fora. Foi no ano de 81, mas num campeonato em que eu fui emprestado pelo Cosmos, fui lá, depois retornei já com a intenção de terminar minha carreira. Já estava com 37 anos para 38, mas aí o Cosmos pediu que eu jogasse mais um ano, que eles queriam me homenagear e fizeram um jogo de despedida contra o Flamengo lá em New York, uma festa muito bonita, por sinal.

RODOLFO LUCENA: O futebol te enriqueceu?
CARLOS ALBERTO TORRES: É, olha, enriqueceu pelos conhecimentos, experiência, entendeu? Agora, não, que na época, quando você diz, na época em que eu jogava, não é? Eu apenas adquiri experiência, conhecimento, enfim, mas financeiramente aquela não se ganhava. Eu? Eu tenho certeza que se eu jogasse futebol hoje ficaria bilionário, não era milionário, não, ficaria bilionário. Ia ganhar muito dinheiro. Comparando com aquilo que alguns jogadores ganham hoje. Alguns jogadores que eu digo, alguns jogadores top, não é? Tem jogador aí que ganha US$ 100 mil, US$ 200 mil, eu ia ganhar igual ao Ronaldinho. Isso sem falta modéstia. Agora, eu sigo trabalhando no futebol como treinador, então não posso deixar de reconhecer que toda vez que eu trabalho, eu ganho dinheiro.
Eu consegui me colocar pelo trabalho que eu fiz como campeão brasileiro pelo Flamengo. Já fui campeão pelo Fluminense, pelo Botafogo, já trabalhei no Corinthians duas vezes, Atlético-MG, enfim. No Flamengo... Isso aí o que fez? Me colocou num nível não inferior à maioria dos treinadores. Eu não posso dizer a você: não, estou no mesmo top do Wanderley Luxemburgo ou do Zagalo ou do Carlos Alberto Parreira, não estou, porque, infelizmente, encontro problema para fazer um prosseguimento da minha carreira, não sei por quê.
Você veja, eu estou sem trabalhar. Eu trabalhei no Flamengo o ano passado, tirei o time do rebaixamento, levei o time para a final da Copa Mercosul, mas, infelizmente, é um negócio, que eu não sei explicar, eu não tenho reconhecido o meu trabalho. Senão, estaria preparando um time aí para o campeonato brasileiro.
Mas, infelizmente, eu não consigo ter uma seqüência, por exemplo, de pegar um time hoje e ficar até o final do ano que vem como alguns treinadores ficam, conseguem ficar, infelizmente. Mas, eu consegui chegar num patamar que, quando eu trabalho, eu ganho dinheiro. Não é contratinho de meia dúzia de reais, é contrato bom. Então, aí eu consegui fazer minha vida, graças a Deus, mas não como jogador. Como jogador, realmente, não.

RODOLFO LUCENA: E como técnico qual foi sua maior conquista?
CARLOS ALBERTO TORRES: Olha, eu já conquistei alguns títulos, um Campeonato Brasileiro é um título importante. Poucos treinadores ganharam Campeonatos Nacionais. O Minelli foi campeão três vezes, O Wanderlei Luxemburgo também. O Telê Santana ganhou dois, mas eu ganhei um com o Flamengo. Mesmo assim, eu faço questão de falar, a grande conquista que eu tive no futebol brasileiro, como técnico, foi no ano retrasado ter tirado o Flamengo do rebaixamento. Para mim, foi uma conquista. Imagine um clube da importância e da grandeza do Flamengo indo para a segunda divisão.

RODOLFO LUCENA: É, e ele já estava quase lá?
CARLOS ALBERTO TORRES: Aí, quando me chamaram, eu consegui tirar o time do rebaixamento, quer dizer, eu junto com todo mundo. Não fui eu sozinho, claro, mas eu no comando do time. Fui lá e tirei o time do rebaixamento.

RODOLFO LUCENA: E a que você atribui o fato de você não conseguir dar continuidade aos trabalhos?
CARLOS ALBERTO TORRES: Juro por Deus que eu não sei. Eu gostaria muito de hoje estar preparando o time. Por exemplo, eu estava agora recentemente fazendo, ainda estou, não vou dizer que não estou, estou ligado ainda a um clube no Haiti.

RODOLFO LUCENA: No Haiti?
CARLOS ALBERTO TORRES: No Haiti, é. Eu fui lá em outubro de 2002, fui convidado para participar de um evento, não é? Aí fui lá, me convidaram, cheguei lá, conversando com o dono do time, Violetti. Fiquei hospedados na casa dele. É um cara muito rico lá, sabe? Aí conversando com ele, trocando idéia, ele me convidou para trabalhar com ele, mas não aquele convite de ficar lá o tempo todo, mas sim para dar idéias. Aí ele me pagou uma quantia lá, pagou adiantado: "Olha, você assume um compromisso comigo até o final de janeiro". Eu falei: "Está legal. Depois, a gente conversa se você quiser continuar".
Fui lá, montei o Departamento de Futebol para o cara, montei o Departamento Médico. Comprei o material aqui no Brasil, ultra-som, ondas curtas, infravermelho, remédios, mandei dois baús de medicamentos para o time. Hoje, temos tudo montado, mesa de massagem, porque não existia isso lá. Ao mesmo tempo, ele pediu, em janeiro, para eu preparar o time para o campeonato que está sendo disputado agora. Então, eu tenho orgulho de dizer que o trabalho que eu, junto com algumas pessoas que eu levei, preparador físico, preparador de goleiro, massagista, fisioterapeuta.
Hoje o nosso time é considerado o melhor do Haiti, por toda a imprensa. Eles falam que é o único time que tem padrão de jogo e não sei o quê. Ô, isso é legal, eu tive a chance de em outubro o cara falar comigo, me convidar. Aí fui a um torneio na Jamaica. A repercussão da participação num torneio da Jamaica, e nós ficamos em segundo lugar, perdendo no saldo de gols para o Anet Garden, que é o melhor time da Jamaica, base da seleção da Jamaica, que foi à Copa do Mundo de 1998, entendeu? E nós empatamos de 0 a 0 na decisão contra esse time e dominando o jogo. Então, no Haiti, a repercussão, que foi mostrado na televisão, eu hoje, graças a Deus, tenho um puta dum nome lá no Haiti, entendeu?

RODOLFO LUCENA: Hoje você mora onde??
CARLOS ALBERTO TORRES: Eu estou morando na Barra da Tijuca. Meus filhos já estão grandes, não é? Tenho uma filha, também, tenho quatro netos, apesar da pouca idade, eu casei cedo, tive meus filhos cedo também. Nós temos uma família feliz.

E agradeça todo dia a Deus que você está vivo, que você pode olhar, pode andar, pode comer. Seja agradecido a Deus. Não peça nada. Agradeça. Essa é a minha mensagem.

11.10.16

Cruzando São Paulo, corrida celebra luta do Comandante Jonas

Alguns de pura emoção, outros com certo temor, todos tremeram quando ela pediu para tomar em suas mãos a pá e mergulhou o instrumento no monte de areia à sua frente.

Apesar de um pouco trêmula pela idade, ainda em recuperação de males que a levaram a ficar dias sem conta em uma UTI, ela deixou de lado a bengala que lhe servia de apoio e partiu para a ação.


Foto Eleonora de Lucena

Se fez forte e, com as mãos que tinha, com o vigor adormecido de seus 85 anos, segurou a pá, mergulhou a ferramenta na terra, conseguiu trazer dali um montinho de areia, ergue a pá por centímetros e ainda teve forças para virar o instrumento, derrubando a terra.

Assim, com suas próprias mãos, de pé e sem que ninguém a apoiasse –braços protetores ficaram em seu redor, mas ela se mantinha erguida por si mesma--, contribuiu para o plantio de uma caramboleira no jardim Para Não Dizer que Não Falei das Flores, uma área muito especial no cemitério da Vila Formosa, na zona leste de São Paulo.

Ninguém conseguiu conter as lágrimas em meio a palmas para o vigor e exemplo de Ilda Martins da Silva, viúva de Virgílio Gomes da Silva, o Comandante Jonas, primeiro combatente da democracia desaparecido depois de passar pelas câmaras de tortura da Oban (Operação Bandeirantes), em 29 de setembro de 1969.

A cerimônia, no final da manhã de 9 de outubro último, marcou o encerramento de homenagens ao Comandante Jonas que vinham desde o início da manhã, começando com uma grande corrida pelos escaninhos da memória, estimulados pelas ruas de São Paulo.


Gregório, na extrema esquerda, e a turma de corredores presentes à Corrida pela Memória Virgílio Gomes da Silva

Pouco antes das sete horas, éramos nove os corredores reunidos nos altos da zona norte da cidade, no Jardim Elisa Maria, no início da rua Virgílio Gomes da Silva, a cerca de 27 quilômetros do cemitério de Vila Formosa.

Chamados por Gregório, filho caçula do Comandante Jonas, lá estavam seu irmão e sobrinhos, além de alguns integrantes do grupo Corredores Patriotas Contra o Golpe. Parentes e amigos que não enfrentariam o percurso também se reuniram no local para incentivar os corredores e apoiar nossa jornada cruzando São Paulo.

Todos celebrávamos a memória de um nordestino, sindicalista, líder democrata e guerrilheiro –representando a Ação Libertadora Nacional, organização liderada por Carlos Marighella, Virgílio foi um dos comandantes do sequestro do embaixador norte-americano no Brasil, em 1969, a mais espetacular ação da resistência armada à ditadura militar.  

A região, um distrito da Brasilândia, tem outras tantas ruas que homenageiam combatentes do povo e da democracia, no Brasil e no mundo –quem sai da Virgílio Gomes da Silva logo desemboca na rua Carlos Lamarca, que desemboca na rua Patrice Lumumba, chegando depois à Carlos Marighella, passando pela rua Olga Benário.


A saída, depois de leve descida, logo oferece aos corredores desafiadoras subidas até encontrarmos a artéria principal da região, a avenida Deputado Cantídio Sampaio –por ironia, um apoiador do golpe militar de 1964.

De lá tivemos belíssimas imagens do portento que é São Paulo, entronizada como Selva de Pedra pelas artes noveleiras. Uma imensidão de prédios que se estende até onde a vista alcança. 

Víamos os baixios da área central, pedaços da zona oeste, os altos da Paulista, as antenas de redes de TV, prédios que se tornaram marcos no perfil da cidade.


Cruzando a marginal do Tietê
Nem sentindo o cansaço, em oito quilômetros chegamos à ponte da Casa Verde, cruzamos sobre o rio Tietê, atingindo enfim uma zona mais plana, na área mais central da cidade.

Entramos pela Rudge, fazendo pedaços do percurso da tradicional corrida São Silvestre, passamos pela praça princesa Isabel, enveredamos pela Duque. Na esquina com a São João, o grupo de apoio nos esperava com bebidas e aplausos; havia também reforços na homenagem a Virgílio Gomes da Silva.

Naquela esquina, na Duque de Caxias com a avenida São João, aconteceu a prisão de Virgílio Gomes da Silva, cuja figura estava entalada na garganta da ditadura como um espinho malevo a cutucar a dor e a humilhar os poderosos –ele era o Comandante Jonas.

Nos tempos pós-ditadura, quando ficou moderninho ironizar o enfrentamento com a brutalidade instalada no país, Virgílio foi pintado como um nordestino grosso, rude, também ele quase grotescamente brutal. A caricatura saiu em filme inspirado em livro produzido por um ex-companheiro de jornada.

Coube a outro ex-companheiro de lutas, o jornalista Franklin Martins –que, representando o MR-8 (Movimento Revolucionário 8 de Outubro), foi outro líder do sequestro do embaixador—fazer o desagravado do Comandante Jonas.

Era um homem valente e determinado, tranqüilo e atento, entusiasmado mas com os pés no chão. Nasceu no interior do Rio Grande do Norte e, como tantos nordestinos, migrou para São Paulo, onde tornou-se operário têxtil, ativista sindical e militante do Partido Comunista Brasileiro. Em 1962, durante um comício pelo 13°salário, foi ferido a bala. Em 1967, deixou o PCB junto com Carlos Marighella, fundando a Ação Libertadora Nacional. Fez treinamento de guerrilha em Cuba e, ao voltar, tornou-se um dos mais destacados chefes militares da ALN, tendo comandado dezenas de ações armadas.

“Ninguém é obrigado a considerar Jonas um herói pelo fato de ele ter pago por suas idéias e por sua militância um preço que poucos aceitariam pagar. Talvez ele fosse um homem mais rico interiormente do que admitem os preconceitos elitistas dos inventores do Jonas do filme. Ou talvez ele desse maior valor à liberdade e à dignidade que outras pessoas, e não fosse de regatear ou barganhar quando elas estavam em jogo. Nos tempos da luta armada, essa qualidade era chamada de “firmeza ideológica”. Hoje, com mais simplicidade, eu a chamaria de caráter. Jonas tinha caráter
.” (leia o texto de Franklin Martins CLICANDO AQUI).

O testemunho de Franklin foi repetido, com emoção transformada às vezes em choro incontido, pelo jornalista Antonio Carlos Fon, ex-militante da ALN, detido no mesmo dia 29 de setembro de 1969, ali no exato local em que fizemos nossa parada na Primeira Corrida Pela Memória Virgílio Gomes da Silva, em frente ao número 312 da avenida Duque de Caxias.



Antonio Carlos, o “Fonzinho”, um dos que nos receberam no local, nos fez um brevíssimo relato daqueles momentos terríveis:
Em 1969 nós morávamos aqui quando, no dia 29 de setembro, o apartamento nº 32 foi invadido pelos militares e policiais da Operação Bandeirantes e eu, meu pai e minha irmã Celeste fomos presos. 

"Algumas horas depois, o camarada Virgilio Gomes da Silva, o comandante Jonas, da Ação Libertadora Nacional, foi pego ao chegar a nossa casa. 

“Talvez eu só esteja vivo porque ele foi preso, já que foi para dar espaço para que fosse torturado que eu fui tirado do pau-de-arara. Ouvi seus gritos de “Vocês estão matando um brasileiro”, enquanto era massacrado até à morte. 

“Os militares nunca entregaram seu corpo, que se encontra desaparecido até hoje. Agora que os herdeiros do ódio e da exploração de classes, nacionais e estrangeiros, tentam de novo impor uma ditadura em nosso País, minha esperança é a de que Virgílio também tenha deixado herdeiros para enfrenta-los. 

Glória eterna ao Comandante Jonas!

Irmão de Fon, o advogado Aton também foi companheiro de militância de Virgílio. Para nós todos, leu um depoimento que lembra a vida do Comandante Jonas e a luta pela democracia, hoje cada vez mais necessária.



Eis o texto lido por Aton na primeira parada de nossa corrida, já então com cerca de 12 quilômetros percorridos:

Há quarenta e sete anos, nesta mesma calçada, desta mesma esquina que confronta as avenidas São João e Duque de Caxias, mãos enlameadas na traição à pátria e aos trabalhadores capturaram um brasileiro para a morte.

“Aqueles que, de nós, estamos hoje aqui, relembramos Virgílio Gomes da Silva – o Jonas – e sua jornada de vida e de lutas nos passos de seus filhos e nos passos de nosso Povo.

“Os mesmos passos que trouxeram Virgílio de Lagoa de Velhos, no Rio Grande do Norte, para unir seu destino ao do operariado paulista, do proletariado brasileiro. Nas fábricas do extremo da Zona Leste, na Nitroquímica; no Sindicato de seus trabalhadores e nas lutas dos comunistas, Virgílio conheceu que as necessidades de Lagoa de Velhos não diferiam das de Suzano ou de São Miguel, não diferiam das de todos os brasileiros.

“Os mesmos passos que o levaram ao comunismo, levaram Virgílio, quando chegou o tempo da Ditadura, quando chegou o tempo do terror, quando chegou o tempo do temor, ao Sul do Brasil e ao Uruguai, onde os caminhos potiguares se ligaram às veredas latino-americanas. Os passos de Virgílio se fizeram mais rápidos e se fizeram mais longos para cruzarem com os de Fidel e do Che. E, no latino-americanismo, se reconheceram internacionalistas e, por isso mesmo, ainda mais brasileiros.

“Nas armas de Marighella, Virgílio se fez Jonas e foi feito Comandante. Nos passos de Jonas, muitos de nós encontramos nossas rotas; nos passos de Jonas, muitos de nós – como Fleurizinho, Benetazzo, Mortati e Fogaça Balboni, entre eles – apostamos nossas vidas.

“E no dia 29 de setembro de 1969, as forças da ditadura, as forças do terror, as força do temor capturaram Jonas. E mataram um brasileiro.

“Estamos aqui hoje para recordar um brasileiro e reverenciar todos os que, como ele, souberam sê-lo. Numa homenagem que nasce nos passos dos filhos de Virgílio para encontrar os nossos, muitos já trôpegos, mas ainda embalados nos sonhos de Jonas.

“Os passos dos filhos de Virgílio nesta jornada de hoje nos recordam que os de Jonas marcaram nossas ruas, nosso futuro e nossas almas. 

“Agora, tantos brasileiros estão sendo chamados, uma vez mais, a enfrentar o tempo de lutar, o tempo de não temer. Mas, como há quarenta e sete anos, como os filhos de Virgílio, tantos mais filhos de Jonas estão brotando, brasileiros.

“Esses passos e essa homenagem recordam que ainda se pode lutar e morrer pelo Brasil, quando necessário. Porque aprendemos nos exemplos de combatentes como Jonas, que a alternativa da Pátria é a Vitória: Pátria Livre, Venceremos!.”

Acompanhando tudo em silêncio, também estava na celebração Celso Horta, o último a ver Virgílio com vida. Hoje jornalista, foi militante da ALN –com o Comandante Jonas e os irmãos Fon formava o GTA - Grupo Tático Armado.

Segundo me disse Gregório, Celso lembra que, na prisão, a polícia o colocou numa sala com Virgílio. “Ele conta que, numa sessão besta de pancadaria, perguntavam ao meu pai se o reconhecia. Claro não saiu uma palavra da boca dele. Celso ainda conta que, num determinado momento, os torturadores se ausentam da sala, e eles aproveitam pra manter um diálogo silente com o olhar.”

De coração apertado e mente aberta, os pensamentos voando pela situação que o país vive, de rompimento do estado de direito, de entreguismo e ameaça às liberdades democráticas e às mais elementares garantias constitucionais, seguimos em frente cruzando as ruas de São Paulo.



Beliscamos a São João com a Ipiranga, atravessamos o viaduto Santa Ifigênia, bordejamos o largo São bento, mergulhamos lomba abaixo na ladeira Porto Geral e irrompemos pela zona leste até encontrarmos a rua da Mooca, portal para a imensa região onde se localiza o imenso cemitério de Vila Formosa, maior de América Latina.

Na rua da Mooca, cruzamos sobre os trilhos que abraçam a região central e servem como espécie de muralha separando o centro da periferia leste; ao nosso lado, as ruínas da fábrica da Antártida, a primeira em que Virgílio trabalhou quando chegou a São Paulo, retirante.




Tinha então pouco mais de 20 anos –nasceu em Sítio Novo, RN, em 15 de agosto de 1933. Aos 24, entrou para a Nitroquímica, onde começou sua militância sindical e logo se tornou membro do Partido Comunista; foi também lá, durante uma greve da categoria, que ele conheceu a mulher de sua vida, Ilda, sindicalista.
Eles se casaram em 21 de maio de 1960. 

A noiva começou o casório fazendo uma concessão ao parceiro –como era mais alta que Virgilio, tirou os sapatos na hora da foto oficial da cerimônia. (Fiquei sabendo disso em conversas durante uma outra corrida, realizada no início deste ano e parte de meu projeto CORRIDA POR MANOEL; saiba mais CLICANDO AQUI).

Os dois tiveram quatro filhos. Três deles –Vladimir, então com oito anos,  Virgílio, 7, e a neneca Maria Isabel, com quatro meses—foram presos com a mãe, dias depois da prisão e assassinato do Comandante Jonas. Gregório, que organizou nossa jornada do último domingo, estava na época em outra cidade e escapou da violência naquele momento.

Ao site “Torre das Donzelas”, Ilda contou ter ficado presa por nove meses, dos quais quatro, incomunicável, sem saber o que tinham feito com seus filhos.

Diz o texto: “Primeiro, ficou detida na Operação Bandeirantes, depois no Dops paulista e, por último, no presídio Tiradentes, na ala conhecida como Torre das Donzelas. Depois de sair da prisão, Ilda fugiu do país com as crianças. Não havia notícias de Virgílio. Eles foram até Foz do Iguaçu, atravessaram a ponte a pé, tomaram o ônibus para Assunção, de lá para Córdoba, na Argentina, e de Córdoba para Santiago. O Chile de Salvador Allende foi a casa da família até 1972, quando Ilda e as crianças foram para Cuba. Lá, ela trabalhou como operária e Wladimir, Virgílio, Gregório e Maria Isabel se formaram em engenharia. Voltaram ao Brasil em 91.”

Os restos mortais de Virgílio nunca foram identificados. Pesquisas da Comissão da Verdade conseguiram, porém, determinar que ele e outro preso político desaparecido, Sérgio Roberto Correa, foram enterrados em vala comum no cemitério de Vila Formosa.

Por isso, no início deste ano, inauguraram o jardim memorial em que dona Ilda, agora com 85, esperava os corredores participantes da jornada em memória ao Comandante Jonas.



Chegamos em número maior ao que saímos. Por volta do quilômetro 20 de nosso trajeto, filhas de alguns corredores, netas do Comandante Jopnas, se somaram ao grupo.

Todos juntos cruzamos o portal do cemitério e fomos até o jardim Para Não Dizer Que Não falei das Flores.



Vestida com uma calça esportiva, a camiseta criada especialmente para a corrida, um cardigan rosa e um xale bem quentinho, dona Ilda estava sentada em uma cadeira dobrável, dessas de usar na praia.

Na hora das homenagens, porém, ergue-se sobranceira e soberana, caminhando com sua bengala até a roda que formamos, corredores, parentes e amigos, mais o pessoal do Serviço Funerário que tinha trabalhado na pesquisa e produção para a construção do jardim , que foi inaugurado no início deste ano.

Gregório, atuando como anfitrião do projeto, agradeceu as homenagens ao pai. Falaram ainda um ex-líder sindical dos Químicos, categoria a que Virgílio pertenceu, o vereador que propôs conceder ao Comandante Jonas o título de Cidadão Honorário de São Paulo (saiba mais CLICANDO AQUI). Até eu tive a honra de falar ali, representando os corredores e os projetos de corridas pela memória.

Quando tudo parecia terminado e já íamos nos encaminhar para o plantio da árvore de carambola, dona Ilda pediu a palavra. 

Com esforço, mas voz firme, fez um agradecimento àquela celebração da memória do marido perdido, nos emocionou e aqueceu o coração com sua bravura.

Como se isso fosse pouco, voltou a surpreender a todos instantes depois, quando sua foz rouca voltou a ser ouvida, quase imperial, pedindo a pá para também contribuir na plantação do sonho e da esperança.

Encerrado o plantio, a atriz Danielle Barros – também integrante dos Corredores Patriotas Contra o Golpe – fez a leitura de uma canção de Victor Heredia, que diz “ainda cantamos, ainda temos esperança” (ouça a música CLICANDO AQUI).


Foto Rodolfo Lucena

Ao final, enquanto nos dispersávamos, Ilda descansou um pouco, sentada ereta, firme e forte, num banco de cimento.


Sua imagem é um hino à vida.