18.11.16

Quilômetros de luta contra a discriminação racial e pela democracia no Brasil

Hoje juntei a fome com a vontade de comer.
Caminhei, conheci um sujeito sensacional, fiz entrevista e ainda divulguei –e continuo divulgando neste exato momento em que você lê este texto— um evento em defesa da democracia no Brasil.
Tudo ao mesmo tempo agora.
Explico.
Estou trabalhando na divulgação da sensacional Corrida e Caminhada Fora Temer, organizada pelo grupo Corredores Patriotas Contra o Golpe (CLIQUE AQUI para saber mais).
Uma das minhas atividades é fazer contato com outros grupos, coletivos, entidades e associações democráticas e esportivas (ou não), convidá-los para o evento, conquistar seu apoio, presença e companhia nessa jornada.
Na manhã de hoje, tinha uma reunião com um dos organizadores da Marcha da Consciência Negra, que já está em sua décima-terceira edição.
Ela será realizada também na Paulista, e nossa ideia era fazer um combo político-esportivo das duas manifestações, pois a Corrida e Caminhada Fora Temer também será realizada nesta manhã domingueira na Paulista.
Legal, mas isso prejudicava meus planos de caminhada. Todos os dias preciso caminhar pelo menos três quilômetros para dar fôlego ao meu projeto de chegar aos 600 quilômetros no dia de meu aniversário, 14 de fevereiro.
Se eu não fizer isso pela manhã, é difícil conseguir realizar ao longo do dia, pois as outras tarefas, responsabilidades, o lazer e o descanso se acavalam.
E o meu parceiro de hoje trabalha em Diadema, o encontra fora marcado lá no Jabaquara, que fica a mais de 15 quilômetros de meu ponto de partida para a caminhada –por enquanto não posso correr, preciso tratar de uma fratura por estresse que atingiu meu joelho esquerdo.
Resolvi então flexibilizar um pouquinho as orientações do médico. Em lugar de uma caminhadinha de três quilômetros, uma jornada de quase o dobro. Iria até a estação Paraíso e lá pegaria o metrô até o Jabaquara para encontrar Wilson Roberto Levy, uma das lideranças do movimento negro brasileiro.
Dito e feito, juntei a fome com a vontade de comer, fiz minha caminhada, e não descuidei de minhas responsabilidade cívico-esportivas.
O Wilson é uma simpatia. Paulistano, tem 64 anos. Nascido no Brás, é filho de uma empregada doméstica e de um trabalhador na área de transporte que deram o sangue para o menino estudar e ter melhores chances na vida. Hoje ele é contador, tem uma microempresa na área e dedica a vida à militância no movimento negro e pela democracia no Brasil.
Juntos fizemos uma transmissão ao vivo convocando o povo para a Corrida Fora Temer e para a Marcha da Consciência Negra. Confira aí o vídeo.


Depois, fiz ainda uma breve entrevista com ele, que reproduzo a seguir. E já adianto que ele voltará a frequentar essas páginas, vamos organizar uma caminhada juntos num futuro muito próximo.
Enquanto isso, confira aí um pouco da história desse grande sujeito a quem tive o prazer e a honra de conhecer hoje.



RODOLFO LUCENA - Como começou sua militância no movimento negro?
WILSON LEVY - Minha ex-mulher do primeiro casamento –eu já estou no quarto—costumava dizer que eu era um “homem de  movimento”, como dizia uma música do Caetano. Eu nasci nos movimentos sociais.
Na juventude, fiz parte dos centros acadêmicos, dos grêmios estudantis. Participei depois do movimento universitário, naveguei com as tendências políticas do movimento estudantil.
E aí, do movimento estudantil, participei também do movimento negro. Fui ao ato que criou, em 1978, o Movimento Negro Unificado em São Paulo, na praça Ramos.
Ao mesmo tempo, estava me aproximando do movimento sindical, fui ser diretor do Sindicato dos Marceneiros. Participei do processo de construção da CUT (Central Única dos Trabalhadores), estive no congresso da CUT e estive na Praia Grande, na grande Conferência Nacional das Classes Trabalhadoras, a Conclat, estava lá também.
No movimento negro, pude perceber toda uma mudança de intervenção, produzindo conquistas, como a criação da Secretaria de Promoção da Igualdade Racial, que foi criada por força desse movimento.
O Lula assinou em 2003 a lei 10.639, que obriga o ensino de história da África na escola. Foi nesse processo de pressão do movimento.
Estive nesse movimento, continuo nesse movimento e vejo que, neste momento, está havendo um retrocesso, estamos voltando lá para 1940, quando não havia nenhuma dessas conquistas e era tido como se não houvesse racismo no Brasil, que no Brasil todos eram totalmente iguais e que havia liberdade...

RODOLFO LUCENA - E há racismo no Brasil?
WILSON LEVY - O Brasil é o país mais racista do mundo. É extremamente racista.
É preciso entender o conceito de racismo, que é um mecanismo de dominação e exploração de uma raça sobre a outra, uma raça tomando privilégios sobre a outra. O conceito do racismo no Brasil é mais complicado ainda, porque ele não é de origem, mas sim da pele, da cor, do tom da pele.
Ao mesmo tempo, existe uma ideologia de branqueamento, criada por Silvio Romero e Nina Rodrigues, que são antropólogos, sociólogos do período do escravagismo, que acabam contando a ideia que no Brasil não tem racismo porque, na miscigenação, todo mundo embranquece, e a cultura eurocêntrica se sobrepõe.

RODOLFO LUCENA - O Brasil é o país em que o escravagismo durou mais...
WILSON LEVY - Algumas dessas questões remontam ao Brasil Colônia. O tráfico de escravos não foi buscar negros para trabalhar aqui porque eles eram ignorantes, não tinham conhecimento. Havia, nos anos 1400 e 1500, uma relação entre Europa e África que era de troca de conhecimentos, de culturas diferentes.
A partir de um dado momento, os europeus resolveram que o tráfico de escravos e o mercantilismo iriam fazer com que nada navio, passando pelo continente africano, vindo para a América e voltando para a Europa, ele acumulasse muito dinheiro, e a acumulação primitiva do capital.
O navio sai da Europa, deixa quinquilharias na África, traz escravos para a América, pega cana de açúcar (isso no primeiro ciclo) e leva açúcar para a Europa. Só ganha dinheiro o tempo todo. Isso vai gerar o Banco Mundial, isso vai gerar o FMI (Fundo Monetário Internacional).
O tráfico traz para cá reis, rainhas, gente com uma cultura maravilhosa, e aproveita e troca isso com as sesmarias, com os europeus que vieram para cá “colonizar” nosso país. O regime escravocrata vai enriquecendo exclusivamente o europeu. Eles não trabalkam e fazem esse processo de circulação...
Agora, por que durou até 1888 oficial? No período pós-Brasil Colônia, quando a corte vai embora para Portugal, não tinha legislação de posse da terra. Quem estivesse na terra tinha poder sobre ela.
Em 1850 é que vai ser criada a primeira lei da terra, que dizia o seguinte: só tem terra quem pode pagar por ela. E o escravizado não podia comprar, porque ele trabalhava e não ganhava nada pelo seu trabalho.
A luta de Zumbi dos Palmares e de seus companheiros foi os quilombos, e hoje existem quilombos no Brasil inteiro. Pela nossa luta, nós conseguimos o reconhecimento de que as terras dos quilombos são de propriedade doss negros que hoje lá estão, os quilombolas.
A dificuldade hoje é brigar com os especuladores de terra em todo o Brasil, que estão caçando gente, matando gente. É a mesma relação que eles têm com o MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra).

RODOLFO LUCENA - O regime escravocrata deixou uma herança perversa...
WILSON LEVY - André Rebouças (este, homenageado na avenida Rebouças), tinha uma tese de que era preciso indenizar os escravos. Os senhores de terra diziam que não, que eles é que precisam ser indenizados, porque estavam perdendo capital. A Lei Áurea não fez nem uma coisa nem outra.
E o que deu para a negrada, logo depois da proclamação da República? Mano, é o seguinte: capoeira proibida, preto é fedido, toda uma coisa querendo dizer que tudo que era negro era negativo. E aí, como é que esse negro ia trabalhar, se ele não tinha terra, não tinha coisa nenhuma?
Os europeus, que migraram naquele momento, para trabalhar, ganhavam salário, começaram a construir o movimento sindical, uma história que a gente conhece. Mas nós, negros, ficamos de fora desse movimento sindical, ficamos de fora das fábricas, ficamos de fora das próprias fazendas.
Em algumas fazendas –no Maranhão aconteceu muito disso--, o fazendeiro decidiu que não queria mais a terra. Dava a terra para os trabalhadores, desde que, durante cem anos, eles entregassem ao dono 80%  da produção. Maravilhoso, não é?
Estão aí algumas das origens dos problemas que vivemos hoje.

RODOLFO LUCENA - E quais são esses problemas?
WILSON LEVY - Nós vamos falar na Marcha da Consciência Negra, denunciar neste domingo: a violência contra a juventude negra, que está sendo assassinada no Brasil inteiro, é uma política de extermínio, nós temos os dados estatísticos.
Além disso, as mulheres negras, apesar da Lei Maria da Penha, são as principais vítimas da violência domésticas. Sofrem mais do que as mulheres brancas.
Nossas conquistas estão sendo eliminadas.

RODOLFO LUCENA - Eliminadas pelo governo golpista, não é?
WILSON LEVY - Pelo governo golpista.
Nos governos de Lula e Dilma, e desde o governo Montoro, aqui em São Paulo, tivemos conquistas, graças ao enfrentamento que tivemos com elles.
Agora, para a negrada, o pior que acontece é o desemprego, que nos ataca mais ainda. A relação no mercado de trabalho é diferente. Eu sou contador, um contador negro ganha menos do que um branco...

RODOLFO LUCENA - E o que o movimento negro pretende fazer para enfrentar esses problemas, essas ameaças do governo golpista?
WILSON LEVY - Nossa luta por nenhum direito a menos significa nenhuma tolerância com esse governo; estaremos em todas as manifestações, participando de todas as atividades. Estamos junto com as centrais sindicais, discutindo a greve geral.
Neste domingo, a Marcha da Consciência Negra será “Fora Temer”, e não vai ser apenas na Paulista. Estamos colocando no Brasil inteiro, em todas as capitais, nossa marcha exigindo que permaneçam os direitos conquistados.
As formas de luta serão discutidas paulatinamente. O Movimento Negro é muito grande, tem muitas entidades, e estamos também próximos da Frente Brasil Popular, da Frente do Povo Sem Medo, temos uma ligação com os movimentos sindicais e com os partidos de esquerda que também estão nesta luta.

RODOLFO LUCENA - Quem quiser se aproximar do movimento negro, participar dele, o que deve fazer?
WILSON LEVY - A primeira coisa é vir para a Paulista neste domingo. Depois, há várias entidades do movimento negro em São Paulo, como o Movimento Negro Unificado e Coordenação Nacional de Entidades Negras, a Unegro (União de Negros pela Igualdade). Procure as entidades negras organizadas para continuar na luta.

RODOLFO LUCENA - Quem não tem a pele negra também pode participar?
WILSON LEVY - Nunca a luta do negro foi de exclusão da presença do branco. O branco, para estar nessa luta, tem de ter uma consciência do que é isso, não é para querer dominar, comandar apenas por ser branco. Nossa realidade é outra; toda a vez que um branco entra na cultura negra e tem uma relação de troca, ele é muito bem acolhido, seja em um baile black, seja em uma escola de samba, seja nas entidades negras.
A maioria das pessoas no Brasil é afrodescendente. Ao olhar para você, Lucena, ao ver seu nariz e o meu nariz aqui, ele é banto. Você tem, na sua árvore genealógica, a presença do negro. No Brasil, essa luta é de todos.



600 aos 60 – etapa 5 – 2016 nov 18
5,02 km caminhados em 56min01
Quilometragem acumulada: 19,32km

Tempo acumulado: 3h42min40

17.11.16

Algumas reflexões sobre o sono e a origem da árvore de Natal

Hoje acordei tarde. Bem tarde, para meus parâmetros: quase nove e meia da manhã, um inesperado sol já alto no céu paulistano, que nos últimos dias tem sido dominado por nuvens cinzentas e negras, por chuva e vendavais.
Não é que eu tenha dormido demais. Ao contrário, acho que dormi pouco e mal. Uma tosse maldita, intratável e alucinante, tomou conta de mim exato na hora de deitar; nem pastilhas supostamente curativas e carregadas de anestésico para as irritações gargantuais deram conta do recado.
Acabei dormindo, acho eu, por pura inércia, cansaço geral tomando conta apesar das tossidas e das dores. São muitas, as dores, especialmente nos ombros e no alto dos braços, coisas de artrite, artrose e outras bexigueiras infernais que atacam quem já passou do cabo da Boa Esperança  na distância vivida.
Vai daí que dormir até mais tarde não necessariamente significa ter dormido bem. Eu quero é mais, confesso, e bem que me dei a preguiçar antes de botar as pernas para fora da cama.
Afinal, na rua estava mais quente do que gostaria se fosse correr. “Mas você não vai correr!”, me disse para mim mesmo, puxando as orelhas. “Vai caminhar, e bem pouquinho!!” Bom, pouquinho para alguns, muito para outros, a receita do meu ortopedista é de ficar por volta dos três quilômetros por dia para não atazanar ainda mais o joelho fraturado pelo estresse da distância e das horas corridas.
Caminhando no plano, deixei o pensamento sair por aí. As ideias deram voltas e aportaram de novo na questão do sono; fiquei cheio de caraminholas, lembrando ter ouvido dizer, ao longo da vida, que velho precisa de menos horas de sono.
Será verdade?
Pesquisei um pouco sobre o assunto e lamento informar que os resultados são inconclusivos. A internet está cheia de referências a um estudo realizado em 2010 na Clinical Research Center da Universidade de Surrey, no Reino Unido, envolvendo 110 adultos com boa saúde e sem problemas de sono ou outras doenças específicas.
Eu sempre fico de pé atrás com esse tipo de pesquisa, com tão poucos indivíduos examinados. Mas os especialistas parecem aceitá-las como válidas, tanto que o trabalho foi publicado na revista “Sleep”, que é o órgão oficial  da Academia Americana de Medicina do Sono.
O resultado: adultos com idades de 66 a 83 anos dormem cerca de 20 minutos a menos que adultos entre 40 e 55 anos, que por sua vez dormem 23 minutos a menos que adultos jovens (entre 20 e 30 anos). Não vi exatamente quantas horas de sono foram consideradas adequadas para cada faixa etária.
Tem um porém: no mesmo ano de 2010, saiu o resultado de outra pesquisa, esta realizada por um cientista norte-americano, indicando que idosos que dormem pouco podem ter a memória e outras funções negativamente afetadas.
Sean Drummond, psicólogo da Universidade da Califórnia, testou os efeitos do sono em 62 voluntários, divididos em dois grupos: um com idade média de 27 anos e, o outro, de 68. Todos passaram duas noites em um laboratório.
Ele constatou o seguinte, segundo disse ao jornal Daily Mail:  "Quanto mais (o grupo mais velho) dormir durante a noite, mais eficiente é a função cerebral no dia seguinte. Eles ficam mais capazes para aprender e lembrar o material novo. Considerando adultos jovens, a quantidade de sono não é tão importante".
Bueno, a rigor as duas pesquisas não são contraditórias; esta última reafirma a importância de dormir bem. Talvez, porém, dormir bem também tenha a ver com dormir bastante; em geral, a maioria das pessoas precisa de sete a nove horas de sono.
Foi o que consegui descobrir nesse breve intervalo entre o final da caminhada e o sentar em meu escritório para contar essas histórias para você.
No meu percurso, de novo pela superplana avenida Doutor Arnaldo, percebi que os pinheirinhos de Natal já começam a tomar conta das bancas no tradicional mercado de flores e plantas que embeleza aquela avenida.

Por enquanto, pelo que vi, há apenas árvores pequenas e médias, nada daquelas gigantescas para colocar em jardins ou dominar  a sala toda. Também não são muito caras, considerando a escalada que os preços podem ter quando chega mais próximo da data festiva: um vendedor que consultei me disse que oferecia arvorezinhas de R$ 60 a R$ 220. 
Vai vendo...
Meu viés perguntador não ficou satisfeito com as informações mercadológicas dadas pelo vendedor de flores; fiquei questionando qual seria a origem dessa tradição. Por quê, afinal, usamos árvore enfeitadas no período natalino. E outra: por que o pinheiro?
De novo me vali da internet para encontrar respostas. Tenho bem claro que não necessariamente os resultados são confiáveis, ainda mais considerando que minha pesquisa foi rapidíssima (se desse muito tempo a ela, ficaria sem tempo para escrever este texto para você; de novo o tempo, ora o tempo...).
Consultei meia dúzia de fontes, verifiquei que todas elas diziam mais ou menos a mesma coisa e resolvi oferecer para você a que mais me pareceu, se não verdadeira ou legítima, pelo menos curiosa e razoavelmente bem apresentada.
Tem ainda um mérito a mais: foi escrita por uma moça (senhora? menina?) que leva Lucena no nome. Não tenho a mínima ideia de quem seja a escriba, Márcia de Lucena Saraceni. O blog em que ela escreve, Sabedoria Universal, diz apenas que é uma “autora eventual” –não faz parte, portanto, dos “donos” do site.
O texto da moça (senhora? menina?) não traz fontes nem referências. Mas é curioso e, pelo menos a meu gosto, vale a leitura.
Publico a seguir um trecho; para ler o conjunto dessa obra de Márcia de Lucena, clique aqui.
O pinheiro enfeitado tornou-se tão familiar na época do Natal que nem sabemos sua origem, mas esta tradição tem raízes muito mais longínquas do que o próprio Natal. Este costume nada tem a ver com o mundo cristão. Ele derivou de uma celebração pagã.
“Há muitos, muitos séculos, os povos costumavam celebrar o solstício de inverno – que é um fenômeno astronômico usado para marcar o inicio do inverno no Hemisfério Norte e ocorre por volta do dia 21 de dezembro, quando o sol atinge a maior distância angular em relação ao plano que passa pela linha do equador. É considerado o dia mais curto do ano. Esta data tinha grande importância para diversas culturas antigas que associavam, simbolicamente, a aspectos como o nascimento ou renascimento e realizavam celebrações e festivais ligados às suas religiões.
“Nesta época, os romanos enfeitavam árvores em honra de Saturno, deus da agricultura.
“Os egípcios traziam galhos verdes de palmeiras para dentro de suas casas, como símbolo de triunfo da vida sobre a morte.
“Nas culturas célticas, os druidas tinham o costume de decorar velhos carvalhos com maças douradas para festividades também celebradas na mesma época do ano.
“Os povos germânicos costumavam usar um pinheiro para celebrar esta data, e a árvore, sempre verde, simbolizava a energia vital e lembrava aos homens que, mesmo em pleno inverno, a natureza não está morta e se prepara para iniciar um novo ciclo de vida.
Com o que ficamos bem informados acerca das origens da árvore de Natal e podemos seguir para nossos afazeres outros.
Vamo que vamo!





600 aos 60 – etapa 4 – 2016 nov 17
3,35 km caminhados em 39min43
Quilometragem acumulada: 14,30 km
Tempo acumulado: 2h46min39



16.11.16

Um canto contra o câncer no rumo das 60 maratonas

Estou chegando aos 60 anos e não posso mais correr –pelo menos, pelos próximos 45 dias, mais ou menos. Minha última corrida, um treino gostoso com amigos percorrendo a região central de São Paulo—terminou antes de completarmos dez quilômetros. Dor, dor, dor, pontada terrível no joelho esquerdo me deixou a mancar o dia todo.
Era uma fratura por estresse, me disse dias depois o laudo da ressonância magnética que, orientado por médico que me atendeu no pronto-socorro. Achei que estava terminado meu projeto-sonho de percorrer, no ano em que completarei 60 anos, distância equivalente à de 60 maratonas.
Meu médico ortopedista-maratonista me proibiu de correr;  o corpo em ação ao longo do tempo colam o que foi rasgado no osso pelo estresse da distância, do peso e do tempo. Mas posso caminhar. Pouco, mas posso.
Então caminho. E, só de raiva (e de esperança, muita esperança), inicio já, agora, imediatamente um novo projeto, filhote daquele outro: a partir de dia 14 de novembro passado e até o dia do meu aniversário em 2017, 14 de fevereiro, pretendo completar seiscentos quilômetros de fio a pavio.
Hoje é o terceiro dia da jornada que, por enquanto, terá apenas caminhadas; haverei de voltar a correr, mas agora é o que temos. Trago, junto com minhas passadas, histórias de quem chega à velhice, de quem já está nela, de nossas lutas e desafios, de nossas conquistas, perrengues, dores e prazeres.
Meu percurso de hoje, seguindo sempre atrás de meu nariz, me levou a passar em frente ao portentoso prédio do Instituto do Câncer, um monumento de 112 metros de altura, 28 andares com um total de mais de 84 mil metros quadrados, que atende por mês cerca de seis mil pacientes.
O câncer está presente na vida de todos nós, velhos e jovens, doentes e são, não há quem não tenha tido amigo ou parente atingindo pela doença, quando não a gente mesmo...
Ao longo desses tantos dias de caminhada e corrida pelo mundo da Terceira Idade, vou falar de câncer várias vezes –pelo menos, é o que imagino.


Hoje falo apenas do hospital e das vezes que lá estive. Foram apenas duas, e não estava lá para visitar ninguém em particular nem para buscar ajuda, tratamento ou orientação qualquer que fosse: fui lá para cantar.
Na época, eu fazia parte do então chamado Coral da Fundap –Fundação do Desenvolvimento Administrativo, um dos tantos órgãos extintos pelo governo Alckmin. A entidade acabou, e o coral, que era mantido pela associação de funcionários da instituição e pela colaboração dos próprios coralistas, foi pro saco.
Nananina. Coralista também é bom de briga, e o grupo se reinventou, agora se chama Coral da Vila e está firme e forte cantando pelas esquinas do mundo, becos e bares e onde o povo quiser ouvir (encontre mais informações sobre os cantos da turma CLICANDO AQUI).
Na época, porém, era Coral da Fundap. Quando chegava o final do ano, éramos convidados a cantar em um monte de lugares, fazer aquele espetáculo de músicas natalinas, anunciar o Ano Novo, a paz na terra e a boa vontade entre os homens.
Cantávamos em estações do metrô, shoppings, lares de cuidado de velhinhos, clubes, onde nos quisessem. O maior impacto, porém, em mim e acredito que em todos os companheiros do coral, foi quando cantamos no Instituto do Câncer.
Na primeira vez, foi num fim de tarde de chuva forte, aquelas enxurradas de verão. Tínhamos cantado na estação Clínicas do metrô, recebendo muita energia, aplausos carinhosos (até entusiasmados, quero crer) do povo que passava. Seguimos direto, correndo pela avenida Doutor Arnaldo – a mesma que hoje foi palco de minha caminhada fraturada—até o prédio do hospital.
Lá chegando havia um aspecto meio secretivo para nossa entrada. Não de proibição ou rebeldia –ao contrário, fomos muito bem recebidos pelo pessoal do IC--, mas de respeito ao mundo em que entrávamos. Quanto poderíamos cantar, em que volume, com qual energia e com quê de alegria em um ambiente em que imperava a dor?
Poderíamos nos apresentar apenas nas enfermarias; nelas, em andares do alto, os pacientes já vinham recebendo tratamento, muitos apresentavam melhoras, eram alas de esperança e recuperação.


Aos primeiros acordes dos vocalizes –aqueles cantarolares que fazemos para dar uma acertada na voz--, já sentimos uma espécie de comunhão com o público que ali chegava, aos poucos, alguns em cadeiras de rodas, outras caminhando por suas próprias pernas, outros ainda carregando consigo instalações para que continuassem a receber sempre medicação intravenosa.
Os aplausos que recebemos transformei, em mim, por dentro, em lágrimas de alegria e de solidariedade com aquele pessoal. Mas não dava tempo para me entregar –nos entregarmos—a ter sentimentos ou a permitir que sentimentos embaçassem, embaralhassem o que estávamos fazendo, cantando contra o câncer.
As emoções eram de todos nós, como demonstra um texto que, mais tarde, uma companheira coralista escreveu. Coordenadora do coral, Eloisa Pires apontou essa memória daquele dia:
“O mais legal de cantar é quando você sente o efeito que a música tem sobre as pessoas. Um ato tão simples provoca uma cadeia de emoções das mais variadas. É uma troca de energia muito boa! Ontem foi um dia especial pra mim e acredito também pros meus amigos do coro. Foi uma maratona musical. Primeiro na Fundap, depois no metrô Clínicas e à noite no Instituto do Câncer de São Paulo (um lugar muito especial). Cinco horas de cantoria! Antes de dormir, deitada em minha cama, corpo destruído de cansaço, lembrei vários rostos sorridentes, abraços, acenos, olhos marejados, agradecimentos sinceros... E, na memória, o que disse um dos pacientes do Icesp: ‘Obrigado, vocês trouxeram a vida pra cá’. Que bom que a música tem esse poder!”
Talvez pelo poder da música, fomos convidados, de surpresa, a descer ao setor de quimioterapia, a ala mais dolorida do hospital, segundo nos disseram. Seria a primeira vez que um coral se apresentaria para aqueles pacientes, muitos deles entrevados já não pela doença, mas pelo tratamento, dolorido e quase destruidor, em muitos casos.
Ali cantamos para muitas portas fechadas ou apenas entreabertas, protegendo e respeitando a privacidade de cada um. De vez em quando, dava para perceber alguém que metia a cabeça por fresta da porta; havia mesmo quem chegasse ao corredor. Gente magra, esmaecida, lutadores pela vida que de repente víamos cantarolando nossos cantares, estalando dedos, treinando palmas, dizendo sem palavras: “Estamos juntos!”.
O cara que nos convidou, Guilherme Bena Vieira, assistente de diretoria do Centro Integrado de Humanização do Icesp, ainda hoje lembra de nossa apresentações e comenta:
“O ato de cantar é uma das formas mais singelas e acolhedoras que pode existir em qualquer setor da sociedade. Mas um coral cantar para os pacientes do Icesp (Instituto do Câncer de São Paulo) é um ato único de amor, onde a ressonância está estampada nos momentos de paz, esperança acolhimento e gratidão ao receber tal ação humanizador. Cada olhar recebido, cada lágrima de felicidade de um paciente, realmente, não tem preço, nos tornando mais humanos a cada dia. E o Coral Fundap, hoje Coro da Vila, sempre nos trouxe, com seu canto, essa mensagem de esperança e amor. Somos gratos por isso."
A gente é que saía agradecido de cada apresentação –eu participei de duas, maravilhosas. Nos faz acreditar na voz do povo, que diz “quem canta seus males espanta”.
Quem corre também. Ou quem caminha, quando não dá para correr.

Vamos que vamo!



600 aos 60 – etapa 3 – 2016 nov 16
3,5 km caminhados em 40min36
Quilometragem acumulada: 10,95 km

Tempo acumulado: 2h06min56

15.11.16

Segundo dia do resto de nossas vidas tem chuva e sol e dúvidas

Tem muita gente que diz –e a própria razão cartesiana apoia—que numa jornada o mais importante é o primeiro passo. Há que começar, tomar a iniciativa, sair da zona de conforto, tirar a bunda do sofá, se mexer, enfim.
Tudo bem, mas o que acontece depois do primeiro passo? Ou depois do primeiro dia de uma jornada que vai ter sei lá quantas manhãs? Ou depois do primeiro tiro de canhão? Ou da tomada revolucionária do poder?
Não basta começar, há que prosseguir. A palavra de ordem, espécie de lema de meus amigos do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra), é muito educativa e esclarecedora sobre a ordem dos fatores e a imperiosa necessidade de que se sigam e combinem: “Ocupar, resistir, produzir”.
Nem é preciso chegar a tempo. Nos meus tempos de coral –sim, fui um esforçado, mas nem sempre afinado, cantor no naipe dos baixos--, a gente, os coralistas, estava sempre nervoso às vésperas de alguma estreia.
Era quando estudávamos mais, preparávamos com mais intensidade, fazíamos sessões extras de ensaio, testávamos voz e organizávamos o corpo para a sessão que viria. Havia que debutar, dar o primeiro passo, mostrar o mundo nosso filhote musical.


O maestro, no entanto, experiente e calejado por centenas de momentos como aquele, não relaxava ao final do espetáculo. Cobrava presença no ensaio seguinte, que se seguia mais exigente até que os anteriores.
Isso porque se sabe: no segundo dia é que dá merda, o povo desafina, o solista esquece o texto, a prima dona vai de vestido rasgado, os baixos parecem ter engolido giz, contraltos brigam com tenores, sopranos desembestam de vez do jeito delas...
Hoje foi o segundo dia de meu projeto de percorrer, na chegada de meus 60 anos, distância equivalente à de sessenta maratonas. Plano esse que tem um filhote, a intenção pouco recomendável de rodar, caminhando e correndo, 600 quilômetros até a data exata de meu aniversário, 14 de fevereiro.
A ideia inicial era começar tudo no dia primeiro de janeiro de 2017, marco do ano novo. Uma fratura por estresse no joelho esquerdo, porém, jogou minha vida e meus planos de pernas para o ar. Se esperasse até a data marcada, haveria grandes chances de não atingir o objetivo.

Então eu, que não sou obrigado, resolvi começar já, porque depois é mais tarde. Ontem abri os trabalhos com uma caminhada de três quilômetros –que é o tanto que o meu prezado amigo ortopedista considera adequado para o presente estado do meu bendito joelho.
E hoje, será que prosseguiria? Pretendia caminhar pelo menos três quilômetros a cada dia, todos os dias, até o final do ano. Isso já me daria uma boa quilometragem acumulada para tornar menos pesados os 45 dias de 2017 que me levariam até meu aniversário.
Acordei de má vontade, cansado da noite mal dormida –dores nos ombros me fazem acordar várias vezes ao longo da noite. Para completar, cá em São Paulo chovia uma aguinha fina, penetrante, pentelha, cenário ideal para preguiçar e deixar as coisas para depois.
A questão é que os velhos não têm muito tempo (eu ainda não sou velho, faltam para isso três meses menos um dia). Há que aproveitar cada minuto do dia, descansar e agir. Por isso,  me fui.
Desta vez, saí com a companhia de minha mulher e de minha filha mais velha –espero, ao longo dessa jornada, ter a participação e o apoio de muita gente, com quem possa conversar e de quem possa tirar ideias e compartilhar conceitos sobre o que nos espera nesse momento.
Descemos os três a avenida Sumaré, que está no feriado –assim como aos domingo—parcialmente fechada ao trânsito de veículos.
Aproveitamos. E vimos muitos velhos e muitos jovens, muitos adultos e muitas crianças aproveitando as nesgas de sol que chegavam ao planeta em meio à nebulosidade e á instabilidade do dia.
É o que precisamos fazer. Curtir o que temos. E seguir em frente.
Vamo que vamo!


600 aos 60 – etapa 2 – 2016 nov 15
4 km caminhados em 49min42
Quilometragem acumulada: 7,45 km
Tempo acumulado: 1h26min20



14.11.16

Chegando aos 60 anos, jornalista aposentado encara 60 maratonas

Desempregado, com dor de cabeça, nariz encatarrado, ouvidos entupidos, garganta irritada, tosse seca, lombar gritando e joelho com fratura por estresse, acordei hoje para o primeiro dia do resto de minha vida.
Daqui a exatos três meses completo 60 anos. Tenho medo do que vem depois e quero muito mais. Chegar até aqui foi uma vitória: quando nasci, a expectativa de vida dos homens brasileiros não chegava a 50 anos. Hoje, as estatísticas me dizem que posso viver talvez mais 20 anos, quem sabe 30, quiçá 40. Ou não.
Há que celebrar. Maratonista que sou por decisão, jornalista que sou por profissão, me jeito de festejar é correr. E contar histórias. Das corridas, dos corredores, da vida que é corrida.
Assim, inventei para meus 60 anos um projeto que tem tudo isso. E, se der sorte, ainda pode ser que traga uns trocos pro novo veinho. Chama-se “60 maratonas aos 60 anos”.
Fiz até apresentação de PowerPoint sobre a empreitada, para ver se conseguia adesão de alguma empresa disposta a bancar meus sonhos. O texto de apresentação começa assim:
 “60 maratonas aos 60 anos é um projeto cultural-esportivo-jornalístico realizado pelo jornalista, escritor e ultramaratonista Rodolfo Lucena, que chega aos 60 anos e tenta desafiar a idade e a distância ao mesmo tempo em que conta histórias do mundo da Terceira Idade, seus desafios e suas conquistas. Ao ingressar oficialmente na Velhice, o jornalista iniciará uma jornada que, ao longo do ano, vai cobrir distância equivalente à de 60 maratonas – 2.532 quilômetros.”
Lá vou eu!!!!  - Foto Ayrton Vignola

Não se trata de bater recorde. Para alguns, essa distância é café pequeno; para outros, é impossível. Para mim, é um desafio importante, mais do que fiz em qualquer um dos anos de minha vida corrida. Não é inédito, mas é uma forma de mostrar que pessoas comuns, mesmo velhas e com físico apenas regular, acima do peso, com mais gordura que o recomendado, mal e mal em forma, conseguem realizar –ou, pelo menos, podem tentar realizar—coisas surpreendentes.
Para acrescentar sal e pimenta ao meu projeto, já fiz logo um filhote para ele, subproduto, um sonho dentro do sonho: o 60 maratonas aos 60 anos é um projeto embarrigado.
Assim: sem desrespeitar o plano geral dos tais 2.532 quilômetros ao longo de 2017, queria dar uma arrancada geral para chegar ao dia do meu aniversário, 14 de fevereiro, com uma distância marcante, significativa, desafiadora.
Meti na cabeça que, a contar de primeiro de janeiro de 2017 e até o dia dos tais 60 anos completos, correria distâncias tais que me permitissem chegar, na hora de apagar as velinhas, aos 600 quilômetros acumulados.
Sonho de pobre, porém, está fadado ao fracasso. Quando a gente pensa que as coisas estão se ajeitando, vem lá a marvada sorte e entorta tudo.
Na manhã do dia sete de novembro, domingo da semana passada, saí para correr com uns amigos, gente do sensacional grupo Corredores Patriotas Contra o Golpe. Estamos organizando a segunda edição da Corrida e Caminhada Fora Temer!, que será no próximo dia 20 –COMPAREÇA!!! (saiba mais CLICANDO AQUI)--, e fazemos reuniões assim, correndo.
Pois estávamos na saída do Minhocão, hoje elevado Presidente João Goulart, quando uma dor aguda no joelho me fez parar, pedir aos companheiros para reduzir, caminhar um pouco. 
Percurso de minha última corrida deste ano; a dor no joelho anunciou: fratura por estresse vem aí!

Não tínhamos sequer completado dez quilômetros, e o sofrimento impediu que eu prosseguisse.
Esperei que, com aplicação de gelo no joelho, melhorasse.
Nada.
Fui ao pronto-socorro, raio-x saiu limpo, o médico deu um anti-inflamatório e falou para avaliar. Na dúvida, como a dor estava forte –eu não conseguia andar sem mancar--,pediu uma ressonância magnética e me orientou para buscar atendimento especializado.
Resultado: fratura por estresse no joelho esquerdo, a minha quarta nesses 18 anos de corrida. Mais precisamente:
“Aparecimento  de  traço  de  fratura  subcondral  com  microfratura  do  trabeculado  ósseo  na  periferia  posterossuperior  do  côndilo  femoral lateral,  com  edema  da medular óssea, sem desvios. Esta fratura não era observada no exame anterior.”
O exame anterior, outra RM, havia sido feito em junho por causa de uma dor aguda exatamente ou quase exatamente no mesmo ponto, do lado de fora do joelho esquerdo, um pouquinho abaixo da rótula, que hoje chamam de patela.
A fratura por estresse é o seguinte: o osso está lanhado, machucado, ferido, trincado, mas não está quebrado.
Pela minha experiência, a fratura por estresse é algo caótico. Acontece por acúmulo de esforço, somatório de pressões até que uma coisinha qualquer seja a gota d`água, o grão de areia que provoca a avalanche. Também surge a partir de um único evento, uma queda, uma torção, um esforço extra num ponto fraco sabe-se-lá-por-quê.
O tratamento básico é tirar o estresse, dar tempo ao tempo para que o corpo possa recuperar as estruturas defeituosas, fortalecer o que está fraco, colar o que está trincado. No caso de um corredor, suspender as corridas.
Um mês e meio de gancho, mais provavelmente dois meses, me disse o ortopedista que viu meu exame e deu as orientações para o tratamento. “Caminhar pode”, concedeu ele, que também é maratonista e conhece o grau de fissura que o corredor tem pelas corridas.
A frase acendeu uma luzinha na minha mente, que já estava perdida, enveredando pela depressão, calculando que o projeto dos 60 anos estava perdido, que nunca mais conseguiria correr daquele jeito, que quando voltasse aos treinos estaria tão gordo que era melhor já ir subindo num carrinho de lomba...
Caminhar pouco, disse o médico, e ir só até o limite da dor. Melhor: descobrir quando e por que começa a doer e parar antes disso.
Bom, melhor do que nada.
Nos meandros do turbilhão de  pensamentos negativos, positivos e muito pelo contrário que me dominavam, aos poucos vai surgindo a ideia: “Não vamo nos entregrar pros homi”, velha frase brizolista que pregava a resistência política e até militar mesmo nas condições mais adversas e que bem servi de resposta para a maldita fratura, a gordura, a dor nas costas, a cabeça inchada, os ombros doloridos, a garganta inflamada, os ouvidos entupidos.
Decidi tocar o projeto para a frente.
Ao longo do ano, dá para fazer os 2.532 quilômetros; afinal, sou brasileiro, e não desisto nunca, sou gremista e vou à luta para o que der e vier.
Talvez seja impossível completar os 600 quilômetros até o dia do meu aniversário, se eu começar a contar desde primeiro de janeiro de 2017. Então, por que não começar agora, já, neste momento?
Uma professora de canto e impostação de voz, muito querida, costuma dizer: “Primeiro, a gente vai lá e faz com o que tem; depois, melhora”.
O que temos é esse corpo alquebrado, mas decidido. Então, vamo que vamo. Se não dá para correr, vou caminhar. Se não dá para ser depois, há de ser agora.
Começo aqui minha jornada.
Hoje caminhei três quilômetros e quatrocentos e cincoenta metros em um terreno plano, nas calçadas da avenida Doutor Arnaldo, pedaço do espigão da Paulista, uma das regiões mais alta de São Paulo. Não tive dor na jornada, mas, depois, o joelho reclamou e lhe dei uma dose de gelo.
Volto amanhã e depois e depois e ainda no outro dia. Pelo menos, é meu plano. Enquanto der, como der.
Primeiro vou completar 600 quilômetros até meu aniversário; depois sigo para os outros 1.932 quilômetros. Se não der, não deu, mas não vou desistir antes de começar.
Minha histórias não serão só das corridas ou caminhadas. Vou falar da velhice, de amor, de esperança, de dinheiro e falta de grana, da aposentadoria e da desaposentadoria, de comilanças e dietas, de exercícios e de política, do que vier na cabeça ao longo do caminho –não são apenas as melancias que se ajeitam no andar da carroça, os pensamentos tomam tento na vereda do percurso.

Tenho o apoio da Eleonora, minha companheira de vida, paixão, trabalho e luta, e das minhas filhas. E com elas e por elas que ando e saio todo dia a dar mais um passo, sempre mais um passo.
Não conto com patrocinadores (por enquanto, espero), mas tenho a parceria amiga e incentivadora do pessoal da Força Dinâmica. Alexandre Blass é meu treinador, Marcelo Semiatzh o guru do movimento –os dois me ajudaram a combater minhas dores e a voltar a correr e a enfrentar maratonas.
Não tenho agora (ainda?), como em outras empreitadas, suporte institucional de centros médicos, de fisioterapia e nutrição. Mas ouço a  orientação abalizada do ortopedista Henrique Cabrita, médico maratonista que também virou amigo ao longo dos anos.
Seria sensacional ter mecenas –empresas, associações, instituições—a bancarem viagens maravilhosas em que eu possa contar para você aventuras incríveis de um velhinho no mundo das maratonas.
Espero que isso venha a acontecer. Mas, se não vier, não há problema, combateremos à sombra.
O mais importante é seguir sempre com a sua companhia amiga, sua leitura simpática, seus comentários de crítica e incentivo. Diariamente, temos aqui um encontro marcado para jogar conversa fora e aprender mais um pouquinho sobre cada um, desafinar o coro dos contentes e desfrutar a vida como ela vem, tentando sempre que ela fique do jeitinho que a gente gosta.

Vamo que vamo!

600 aos 60 – etapa 1 – 2016 nov 14

3,45 km caminhados em 36min28
Quilometragem acumulada: 3,45 km

Tempo acumulado: 36min38

7.11.16

Homenagem tardia a Carlos Alberto Torres, o capitão do Tri

Perdão, leitores, mas hoje este seu blogueiro vai mudar de assunto.
Deixo por instantes nossas queridas corridas e maratonas para entrar nos campos sagrados do futebol e mandar minha saudação para Carlos Alberto Torres, o capitão do Tri, que foi jogar em outras paragens.
Homenagem atrasada, por certo, devido a circunstâncias da vida; mas não por isso feita com menor carinho.
Carlos Alberto, o gol de Carlos Alberto na final da Copa de 70, para ser mais exato, é uma das mais gloriosas memórias do início de minha adolescência.
Mais tarde, com mais capacidade para compreender os meandros da bola e as diabruras do esporte, entendi por que aquele momento foi tão lindo, tão brilhante. Aquele gol guardava em si a essência do futebol, de tudo o que há de bom no futebol: o engenho e a arte, a violência, a concatenação, o espírito de grupo, as parcerias, a surpresa, o disparo final.
Carlos Alberto também achava isso, como ele me contou em uma conversa que tivemos por telefone há mais de dez anos, quando ele estava meio que encostado do esporte, desempregado depois de ter, como técnico, contribuído para livrar o Flamengo do rebaixamento no Brasileirão.
A entrevista com o capitão foi parte de um especial que fiz sobre os 40 anos da primeira edição dos Jogos Pan-Americanos realizada no Brasil (São Paulo-1963). Tive a honra de conversar com quase todos os brasileiros que conquistaram medalha de ouro naquele Pan –um dia isso acaba virando livro.
Bom, enquanto esse dia não chega, deixo com você, como homenagem ao grande Carlos Alberto Torres, a íntegra da entrevista que fiz com ele.
Trata-se de um raro momento em que o capitão revisita a juventude dele mesmo. O texto foi originalmente publicado na então Folha Online, o braço internético da Folha.


RODOLFO LUCENA: Carlos Alberto, como foi sua participação no Pan de 1963?
CARLOS ALBERTO TORRES: Eu era jogador do Fluminense, já era titular do time profissional. Tinha 18 anos. Em 1963 teve um fato que para mim marcou, eu não esqueço, porque já naquela época eu era apontado como futuro titular da seleção brasileira. E a seleção brasileira, na mesma época do Pan, teve uma excursão para a Europa. Foi até uma excursão meio..., que não foi bem, não é? O time sofreu, perdeu da Bélgica, parece que de 5 a 1 [exatamente], quer dizer, não foi bem a seleção, mas eu estava cotadíssimo para jogar naquela seleção que foi para a Europa. Foi o próprio João Havelange, que era presidente da CBD, na época, que não permitiu que eu fosse. Ele falou que eu teria que jogar o Pan-Americano. Quer dizer, foi bom para a minha carreira, primeiro porque eu não fui naquela excursão em que os resultados foram péssimos, e segundo porque pude jogar o Pan-Americano e ganhar o título, não é?

RODOLFO LUCENA: Como foi sua carreira até chegar ao Pan? Como você começou?
CARLOS ALBERTO TORRES: Ah, eu morava na Vila da Penha, que é o berço de vários jogadores: Romário, Wanderley Luxemburgo, meu próprio filho Alexandre Torres também começou lá, enfim, e outros jogadores, na época, porque era onde havia campos de pelada. Dali eu fui para o Fluminense, com 15 anos, 15 para 16, jogar no juvenil. E, com apenas dois anos, você veja, que isso aí foi no ano de 60, eu tinha 15 para 16 anos, início de 60, antes de três anos, eu já era titular do time do Fluminense, do juvenil até o time principal.

RODOLFO LUCENA: E daí você já estava ganhando? Ou seja, estava vivendo do futebol?
CARLOS ALBERTO TORRES: Já dava um pouquinho, não é? Comprar um carrinho usado, um Volkswagen, não um carrinho importado como é hoje. Em 63, eu comprei um Volkswagen 60.

RODOLFO LUCENA: Foi a sua primeira compra com o que ganhava no futebol?
CARLOS ALBERTO TORRES: É, foi a primeira coisa mesmo, porque eu tinha dificuldade, porque eu morava na Vila da Penha e para chegar nas Laranjeiras, onde eu treinava, ou ia de ônibus ou pegava carona, não é? Com quem morasse na Vila da Penha e morasse na cidade. Eu levava mais de uma hora, uma hora e meia pelo menos, para ir da minha casa até as Laranjeiras. Então, a compra do carro foi mais uma questão de me facilitar a ida para as Laranjeiras, diariamente, não é.

RODOLFO LUCENA: E como foi no Fluminense?
CARLOS ALBERTO TORRES: Então, eu comecei no juvenil em 60. Em 62, eu comecei a ter as primeiras oportunidades com Zezé Moreira, que era o técnico do time principal. Ele me colocava sempre em alguns jogos do time principal. Depois, a minha oportunidade real de me tornar titular do Fluminense foi num Torneio Rio-São Paulo em 63. Aí o Jair Marinho era o titular, eu era do time juvenil e aspirante. Naquela época, eles aproveitavam o time juvenil para jogar no aspirante, porque naquela época não tinha categoria de juniores, então, até 18 anos mesmo era juvenil. Aí, o Jair Marinho, infelizmente, teve um lance no jogo contra o Botafogo pelo Torneio Rio-São Paulo, fraturou a perna, num lance com o Amarildo, e eles me pegaram no juvenil e me colocaram no titular e eu fiquei. Isso foi no início de 63, fevereiro, março, alguma coisa assim, quer dizer, ainda tinha 18 anos, ainda ia completar 19 naquele ano em julho e aí fiquei como titular.
E ainda teve outro fato, que era o Torneio Rio-São Paulo acontecendo enquanto tinha também o Pan, não é. Nós ficamos concentrados no Morumbi. Naquela época, não tinha nada ali, tinha só o campo do São Paulo e meia dúzia de casas, daquelas casas bonitas que tem hoje, não é? Então, nós treinávamos lá e ficamos concentrados um mês, mais ou menos, nos preparando para o Pan-Americano.
Eu me lembro que, naquela época, quando nós estávamos concentrados, o Fluminense foi jogar no Pacaembu contra o Santos. Foi um puta dum jogo. Aí eu fui convocado pelo Fluminense e fui liberado pela CBD, na época, e eles me permitiram que eu jogasse esse jogo contra o Santos. Foi um sábado à noite no Pacaembu, eu me lembro que nós ganhamos de 4 a 2 do Santos. O grande Santos, e eu garoto... Rapaz, foi, eu lembro, uma emoção filha da mãe para mim, eu joguei muito bem e o Fluminense ganhou de 4 a 2. Um detalhe interessante que eu não consigo esquecer no decorrer do jogo, porque eu ia muito para a frente e voltava, porque naquela época tinha o ponta para marcar. Hoje, não, hoje o cara só vai, não é? Naquela época, a gente tinha que ir e voltar para marcar o ponta. O ponta do Santos era o Pepe. O Pepe era um grande jogador. E eu lembro que o Pelé falava para o Pepe: "Pepe, não volta, não, que o garoto aí vai muito para a frente, vou meter a bola nas costas dele". Mas só que eu era muito rápido, eu chegava muito junto no Pepe, não é? Eu ia, eles metiam a bola lá, eu chegava e tomava a bola do Pepe. Foi um jogo assim. Tive muitos jogos na carreira, mas esse em especial tem detalhes que a gente não esquece. E, aí voltei depois do jogo para a concentração do Morumbi.

RODOLFO LUCENA: E como era a concentração?
CARLOS ALBERTO TORRES: Veja bem, o técnico nosso era o Antoninho, não é? O Antoninho, que depois viria a ser olheiro da seleção. Antoninho foi quem, praticamente, descobriu os grandes jogadores aí hoje no futebol. Ele faleceu há uns dois ou três anos, infelizmente. Bom, e o Antoninho era o técnico do Fluminense também, mas ele estava se dedicando naquele momento a preparar a seleção. O Antoninho era um cara bacana. Nós ficamos muito tempo lá concentrados, aproximadamente um mês, eu não sei te dizer exatamente o tempo, mas foi mais ou menos um mês porque existia um interesse muito grande da CBD em preparar um time para ser campeão. A competição sendo disputada aqui no Brasil, então, eles queriam que a gente, realmente, conseguisse alcançar o título, e o Antoninho era um cara muito legal e pelo fato de a gente ficar lá no Morumbi que, naquela época, não tinha nada. Tinha o campo do Morumbi e não tinha mais nada. O Palácio do Governo naquela época já existia e não tinha absolutamente mais nada.
A gente ficava ali. A concentração do São Paulo, no estádio, eu acho que ainda existe, os quartos. Então, era grande, sabe? Tinha umas salas para assistir televisão e jogos e a garotada, todos nós éramos bastante jovens, então, todo mundo animado com a perspectiva de ganhar a medalha de ouro nos Jogos Pan-Americanos. Então, era um ambiente gostoso que a gente tinha.

RODOLFO LUCENA: De quem você lembra mais? Quem se destacou no futebol?
CARLOS ALBERTO TORRES: A gente não pode esquecer, por exemplo, o Nenê, que era do Santos e foi para a Itália, não é? Jogou, acho que até hoje ele vive lá na Itália. O outro, o Luís Henrique, que hoje é supervisor aí, não é? Aliás, por sinal, o melhor supervisor que existe aí no futebol brasileiro. O Arlindo, que foi para o México e continua morando no México até hoje.

RODOLFO LUCENA: Você lembra de um Airton Baptista Santos, que marcou oito gols contra os Estados Unidos?
CARLOS ALBERTO TORRES: Ele foi centro-avante do Flamengo, jogou na seleção. Em 64, no ano seguinte, teve a Copa das Nações, foi a seleção principal e aí eu já fui como titular, o Airton foi como reserva. O Jairzinho foi nessa seleção também, em 64.

RODOLFO LUCENA: Você lembra dos adversários do Pan?
CARLOS ALBERTO TORRES: O único adversário que eu lembro, sinceramente, é os Estados Unidos, que nós metemos uma goleada neles.

RODOLFO LUCENA: Bem, o Pan foi sua primeira conquista com a seleção. Conte como seguiu sua carreira?
CARLOS ALBERTO TORRES: Você veja, aí eu já era titular do Fluminense. No ano seguinte, com 19 anos, titular da seleção brasileira, pô, barrei o Djalma Santos. Na Copa das Nações, fomos convocado eu e o Djalma e eu fui o titular. Mas o Brasil não ganhou o título não, quem ganhou o título foi a Argentina. Nós ganhamos da Inglaterra, no Maracanã, perdemos da Argentina em São Paulo e ganhamos de Portugal no Maracanã. Nós ficamos com o segundo lugar na Copa das Nações. Mas aí já como titular.
Aí no ano seguinte, me transferi para o Santos, no início do ano de 65 e continuei sendo convocado para a seleção. Várias vezes, apesar de não ter ido à Copa do Mundo de 66, que até hoje eu não sei por quê. E o pessoal daquela época também não sabe o porquê de eu não ter ido, porque já na época eu era cotado como o melhor lateral do Brasil, não é? Era titular da seleção em todos os jogos de preparação aqui no Brasil, jogos amistosos, e uma semana antes anunciaram que eu não iria para a Copa do Mundo.
Foi assim uma decepção grande. A própria imprensa, o torcedor ninguém entendendo por que eu não fui. Por outro lado, foi até bom, porque o Brasil fracassou na Copa de 66.
Depois, em 67, eu já voltei a ser convocado para a seleção e aí até já como capitão da seleção. Apesar da pouca idade, eu tinha 23 anos de idade, mas o fato de já em 67 eu ser capitão do Santos. Depois que o Zito abandonou o futebol, eu fui guindado à função de capitão do time do Santos, do timaço do Santos, não é? E, com certeza, o fato de eu ser, na época, capitão do time do Santos, que era o melhor time do Brasil e do mundo, ajudou a que eu fosse escolhido capitão da seleção. E eu fiquei capitão da seleção até quando eu parei de jogar na seleção brasileira.

RODOLFO LUCENA: Apesar de ser lateral, você marcou uma quantidade razoável de gols em sua carreira?
CARLOS ALBERTO TORRES: É, eu fiz bastante gols. Olha, segundo uma vez me foi dado, eu fiz acho que cerca de 85 gols, porque eu fiz muitos gols também no Fluminense, na seleção brasileira, não é? Acho que foi 85 gols. Isso que me foi dado, não é? Eu nunca me interessei muito. Naquela época, também a gente tinha poucos recursos de estatísticas, de ter dados, filmes.
Eu não tenho nada. Da época em que eu joguei aqui no Brasil eu não tenho nada de coisas minhas. Tenho algumas coisinhas da Copa de 70, tenho alguns jogos. Jogos, não é? Mas não tenho assim de mim fazendo gols. Eu não tenho da época, mesmo na época de Santos e do próprio Fluminense de 76, antes de eu ir para os Estados Unidos, eu não tenho quase nada aqui comigo guardado.
Em alguma época aí deste ano e do ano que vem, vou pegar uns seis meses assim para fazer um levantamento de coisas minhas nas televisões, em arquivos de jornais. Eu estou pensando em escrever um livro daqui a uns dois ou três anos, então eu vou precisar de muita coisa que tem guardada aí nos arquivos.

RODOLFO LUCENA: Falando nisso, qual foi o momento mais emocionante da sua carreira, foi o gol lá contra a Itália?
CARLOS ALBERTO TORRES: Ah, foi. O gol é o grande momento do futebol. E aquele gol no fim do jogo liquidou definitivamente com qualquer dúvida ou esperança que a seleção italiana ou a própria torcida pudesse ter, não é? Os 3 a 1 contra um puta de um time contra os italianos, de repente os caras podem até empatar, e aí a gente está devendo futebol, não é? Mas o quarto gol eliminou qualquer chance que a seleção da Itália pudesse ter ainda no jogo. E a jogada do gol não é? Porque não é só o gol. O gol que eu fiz, tudo bem, eu que dei o chute final, mas a jogada que antecedeu o gol é que foi uma coisa.

RODOLFO LUCENA: O passe do Pelé?
CARLOS ALBERTO TORRES: Não, começou lá atrás, com o Clodoaldo, não é? Ele driblou quatro italianos só com o corpo, aí dali para o Rivelino, do Rivelino para o Jairzinho, do Jairzinho para o Pelé e o Pelé dando aquele passe para mim. Quer dizer, a jogada do gol foi muito bonita, não é? Porque, às vezes, a gente vê aí em jogos jogadas maravilhosas, mas que não resultam em gol. Agora, foi uma jogada sensacional, que resultou num gol.

RODOLFO LUCENA: E envolveu o time?
CARLOS ALBERTO TORRES: A metade do time. Porque eu não lembro, não sei se foi o Piazza ou o Gerson, alguém tirou a bola do jogador italiano e deu para o Clodoaldo. Quer dizer: já é um jogador, ou Piazza ou Gerson, Clodoaldo, Rivelino, três, Jairzinho, quarto, Pelé, cinco e eu seis, metade do time, sem que os caras tocassem na bola.

RODOLFO LUCENA: Foi mais legal do que erguer a taça?
CARLOS ALBERTO TORRES: Ali liquidou, não é? Então, a emoção maior, porque aí você junta a feitura do gol com a certeza da conquista do título. Quer dizer, duas emoções numa só e que, po, eu lembro que todo o time correu, na hora que eu fiz o gol. Todo o time correu para cima de mim e todos nós nos congratulando, nos abraçando e alguns chorando, entendeu?... Eu chorando.
Foi um negócio, logo após a feitura do gol, a marcação do gol foi um momento que eu não esqueço, a gente não consegue esquecer e, principalmente, porque até hoje você veja, em todo mundo, esse gol que eu fiz é considerado até hoje o terceiro gol mais bonito de todas as Copas. Então, quando tem Copa do Mundo lá vem o gol. Então, a gente não consegue esquecer. Você veja, muita gente você pergunta, quem fez o primeiro gol do Brasil? Muita gente não lembra. Quem fez o segundo? Agora, quem fez o último gol da Copa de 70? A maioria das pessoas lembra, porque marcou muito, não é?
Não é pelo gol, porque eu cheguei ali e dei uma porrada, bom um passe daquele Pelé. Não foi um passe que eu chutei, driblei, não. A feitura da jogada, na minha opinião é que marcou aquele gol que eu fiz.

RODOLFO LUCENA: E depois você jogou até que ano?
CARLOS ALBERTO TORRES: Joguei até 82, depois eu terminei jogando lá fora. Foi no ano de 81, mas num campeonato em que eu fui emprestado pelo Cosmos, fui lá, depois retornei já com a intenção de terminar minha carreira. Já estava com 37 anos para 38, mas aí o Cosmos pediu que eu jogasse mais um ano, que eles queriam me homenagear e fizeram um jogo de despedida contra o Flamengo lá em New York, uma festa muito bonita, por sinal.

RODOLFO LUCENA: O futebol te enriqueceu?
CARLOS ALBERTO TORRES: É, olha, enriqueceu pelos conhecimentos, experiência, entendeu? Agora, não, que na época, quando você diz, na época em que eu jogava, não é? Eu apenas adquiri experiência, conhecimento, enfim, mas financeiramente aquela não se ganhava. Eu? Eu tenho certeza que se eu jogasse futebol hoje ficaria bilionário, não era milionário, não, ficaria bilionário. Ia ganhar muito dinheiro. Comparando com aquilo que alguns jogadores ganham hoje. Alguns jogadores que eu digo, alguns jogadores top, não é? Tem jogador aí que ganha US$ 100 mil, US$ 200 mil, eu ia ganhar igual ao Ronaldinho. Isso sem falta modéstia. Agora, eu sigo trabalhando no futebol como treinador, então não posso deixar de reconhecer que toda vez que eu trabalho, eu ganho dinheiro.
Eu consegui me colocar pelo trabalho que eu fiz como campeão brasileiro pelo Flamengo. Já fui campeão pelo Fluminense, pelo Botafogo, já trabalhei no Corinthians duas vezes, Atlético-MG, enfim. No Flamengo... Isso aí o que fez? Me colocou num nível não inferior à maioria dos treinadores. Eu não posso dizer a você: não, estou no mesmo top do Wanderley Luxemburgo ou do Zagalo ou do Carlos Alberto Parreira, não estou, porque, infelizmente, encontro problema para fazer um prosseguimento da minha carreira, não sei por quê.
Você veja, eu estou sem trabalhar. Eu trabalhei no Flamengo o ano passado, tirei o time do rebaixamento, levei o time para a final da Copa Mercosul, mas, infelizmente, é um negócio, que eu não sei explicar, eu não tenho reconhecido o meu trabalho. Senão, estaria preparando um time aí para o campeonato brasileiro.
Mas, infelizmente, eu não consigo ter uma seqüência, por exemplo, de pegar um time hoje e ficar até o final do ano que vem como alguns treinadores ficam, conseguem ficar, infelizmente. Mas, eu consegui chegar num patamar que, quando eu trabalho, eu ganho dinheiro. Não é contratinho de meia dúzia de reais, é contrato bom. Então, aí eu consegui fazer minha vida, graças a Deus, mas não como jogador. Como jogador, realmente, não.

RODOLFO LUCENA: E como técnico qual foi sua maior conquista?
CARLOS ALBERTO TORRES: Olha, eu já conquistei alguns títulos, um Campeonato Brasileiro é um título importante. Poucos treinadores ganharam Campeonatos Nacionais. O Minelli foi campeão três vezes, O Wanderlei Luxemburgo também. O Telê Santana ganhou dois, mas eu ganhei um com o Flamengo. Mesmo assim, eu faço questão de falar, a grande conquista que eu tive no futebol brasileiro, como técnico, foi no ano retrasado ter tirado o Flamengo do rebaixamento. Para mim, foi uma conquista. Imagine um clube da importância e da grandeza do Flamengo indo para a segunda divisão.

RODOLFO LUCENA: É, e ele já estava quase lá?
CARLOS ALBERTO TORRES: Aí, quando me chamaram, eu consegui tirar o time do rebaixamento, quer dizer, eu junto com todo mundo. Não fui eu sozinho, claro, mas eu no comando do time. Fui lá e tirei o time do rebaixamento.

RODOLFO LUCENA: E a que você atribui o fato de você não conseguir dar continuidade aos trabalhos?
CARLOS ALBERTO TORRES: Juro por Deus que eu não sei. Eu gostaria muito de hoje estar preparando o time. Por exemplo, eu estava agora recentemente fazendo, ainda estou, não vou dizer que não estou, estou ligado ainda a um clube no Haiti.

RODOLFO LUCENA: No Haiti?
CARLOS ALBERTO TORRES: No Haiti, é. Eu fui lá em outubro de 2002, fui convidado para participar de um evento, não é? Aí fui lá, me convidaram, cheguei lá, conversando com o dono do time, Violetti. Fiquei hospedados na casa dele. É um cara muito rico lá, sabe? Aí conversando com ele, trocando idéia, ele me convidou para trabalhar com ele, mas não aquele convite de ficar lá o tempo todo, mas sim para dar idéias. Aí ele me pagou uma quantia lá, pagou adiantado: "Olha, você assume um compromisso comigo até o final de janeiro". Eu falei: "Está legal. Depois, a gente conversa se você quiser continuar".
Fui lá, montei o Departamento de Futebol para o cara, montei o Departamento Médico. Comprei o material aqui no Brasil, ultra-som, ondas curtas, infravermelho, remédios, mandei dois baús de medicamentos para o time. Hoje, temos tudo montado, mesa de massagem, porque não existia isso lá. Ao mesmo tempo, ele pediu, em janeiro, para eu preparar o time para o campeonato que está sendo disputado agora. Então, eu tenho orgulho de dizer que o trabalho que eu, junto com algumas pessoas que eu levei, preparador físico, preparador de goleiro, massagista, fisioterapeuta.
Hoje o nosso time é considerado o melhor do Haiti, por toda a imprensa. Eles falam que é o único time que tem padrão de jogo e não sei o quê. Ô, isso é legal, eu tive a chance de em outubro o cara falar comigo, me convidar. Aí fui a um torneio na Jamaica. A repercussão da participação num torneio da Jamaica, e nós ficamos em segundo lugar, perdendo no saldo de gols para o Anet Garden, que é o melhor time da Jamaica, base da seleção da Jamaica, que foi à Copa do Mundo de 1998, entendeu? E nós empatamos de 0 a 0 na decisão contra esse time e dominando o jogo. Então, no Haiti, a repercussão, que foi mostrado na televisão, eu hoje, graças a Deus, tenho um puta dum nome lá no Haiti, entendeu?

RODOLFO LUCENA: Hoje você mora onde??
CARLOS ALBERTO TORRES: Eu estou morando na Barra da Tijuca. Meus filhos já estão grandes, não é? Tenho uma filha, também, tenho quatro netos, apesar da pouca idade, eu casei cedo, tive meus filhos cedo também. Nós temos uma família feliz.

E agradeça todo dia a Deus que você está vivo, que você pode olhar, pode andar, pode comer. Seja agradecido a Deus. Não peça nada. Agradeça. Essa é a minha mensagem.