17.1.17

MANOEL FIEL FILHO, presente! Agora! E sempre!

Se vivo fosse, o operário metalúrgico Manoel Fiel Filho andaria hoje ainda sob o banho de alegria dos festejos de seus noventa anos, que teria completado no último dia sete, comemorando com a mulher, as filhas, os netos e bisnetos, provavelmente em uma casa modesta na zona leste de São Paulo, onde morou grande parte de sua vida.
Manoel está morto. Foi assassinado, depois de mais de doze horas de tortura, na manhã do dia 17 de janeiro de 1976, em uma cela do famigerado DOI-Codi, um dos centros das barbaridades cometidas pela ditadura militar contra homens e mulheres patriotas, combatentes da pátria, da democracia e da vida.
No ano passado, quando se completaram quarenta anos do crime, realizei o projeto CORRIDA POR MANOEL, fazendo quarenta dias de corrida por percursos que lembravam a vida e a morte do operário assim como outros momentos marcantes da luta contra a ditadura militar.
Hoje voltei a fazer parte daquele percurso, rememorando a trajetória desse homem que, talvez pela vida simples que levava, talvez por uma suposta desimportância de operário, é pouco lembrado.
O que eu tenho a dizer é que cada uma das vítimas da ditadura, cada um dos presos, mortos e desaparecidos é um mártir do povo brasileiro, é um herói da luta pela democracia. Cada um ajudou, com seu sangue, a pavimentar o caminho dos brasileiros para a construção de uma país mais livre e menos desigual –conquistas hoje ameaçadas pelos golpistas que tomaram de assalto o poder e tentam destruir a nação e fazer dos brasileiros escravos.
Tendo esses homens e mulheres como exemplo e inspiração, fiz da minha caminhada de hoje um mergulho na memória, uma homenagem a Manoel.
Segui, primeiro, até o cenário de seu martírio e assassinato. Fui até o prédio na rua Tutoia onde funcionava, em 1976, o DOI-Codi (Destacamento de Operações de Informação - Centro de Operações de Defesa Interna), órgão ligado ao Exército, sucedâneo da tenebrosa Operação Bandeirantes.
Hoje ali funciona uma delegacia de polícia, que mostrei em transmissão ao vivo que realizei no início da manhã e reproduzo a seguir.


O vídeo não ficou muito bom, tanto por limitações técnicas do próprio sistema e do aparelho usado para a transmissão, quanto por problemas de Bios (bichinho ignorante operando o sistema).
Em vários pontos o som foge ou fica muito baixo. Isso aconteceu marcadamente em um momento em que lembro outro mártir aniversariante de janeiro, o herói do povo brasileiro Stuart Edgard Angel Jones, nascido em Salvador em onze de janeiro de 1945.


Dirigente do MR-8, Stuart foi assassinado em público, no pátio do quartel da Aeronáutica em que estava detido, no Rio de Janeiro. A ferocidade dos torturadores, que tentavam arrancar dele o paradeiro do capitão Carlos Lamarca, foi em vão.
O martírio de Angel foi relatado em carta do ex-preso político Alex Polari de Alverga à mãe de Stuart, a estilista Zuzu Angel:
Em um momento retiraram o capuz e pude vê-lo sendo espancado depois de descido do pau-de-arara. Antes, à tarde, ouvi durante muito tempo um alvoroço no pátio do CISA. Havia barulho de carros sendo ligados, acelerações, gritos, e uma tosse constante de engasgo e que pude notar que se sucedia sempre às acelerações. Consegui com muito esforço olhar pela janela que ficava a uns dois metros do chão e me deparei com algo difícil de esquecer: junto a um sem número de torturadores, oficiais e soldados, Stuart, já com a pele semi-esfolada, era arrastado de um lado para outro do pátio, amarrado a uma viatura e, de quando em quando, obrigado, com a boca quase colada a uma descarga aberta, a aspirar gases tóxicos que eram expelidos”.
No vídeo, eu me refiro a algumas dessas informações e cometi erros de datas –há discrepância entre diversas fontes. Neste texto, usei os dados registrados pela Comissão Nacional da Verdade.
A lembranças desses casos terríveis pesava na minha caminhada. Decidi, então, seguir para o caminho da vida, da luta, sempre pensando na trajetória de Manoel Fiel Filho.
Fui até a sede do Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo, onde Manoel militou no início dos anos 1970. Chegou a ser delegado sindical, representante da companheirada que trabalhava com ele na metalúrgica Metal Arte, na zona leste de São Paulo, como lembram os dirigentes sindicais que entrevistei neste vídeo:


De novo, aconteceram alguns problemas técnicos na transmissão, mas me parece que agora o vídeo ficou melhor.
Lembro que, em homenagem a Manoel Fiel Filho, o dia 17 de janeiro, data de sua morte, ficou registrado como o Dia do Delegado Sindical.
VAMO QUE VAMO!!!

PS.: Na manhã de hoje, enquanto rememorava em meu percurso as barbaridades cometidas durante a ditadura militar, um atentado à democracia, à liberdade de expressão e aos direitos humanos mais elementares era cometido em São Paulo. 
A Polícia Militar atacou famílias de sem teto que ocupavam um terreno na zona leste da cidade.


Guilherme Boulos (foto Martha Raque, para os Jornalistas Livres), dirigente do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto, foi preso por “desobediência”.
Sobre o caso, reproduzo a seguir texto publicado na página dos Jornalistas Livres:
Boulos acompanhava a ação da Polícia Militar, que chegou com a tropa de choque, na desocupação de uma área que abriga cerca de 700 famílias na Zona Leste de São Paulo.
“Diante da força policial mobilizada, Boulos estava lá para evitar mais um dos constantes massacres às ocupações orquestradas pelo governo de Geraldo Alckmin. Foi detido por  incitação à violência e obstrução da justiça quando, num diálogo pacífico, tentava negociar a transferência das famílias para outro local. Ele também pedia aos oficiais da Justiça prazo – de uma hora e meia – para a desocupação. Há um pedido do Ministério Público para reconsideração do caso, mas os oficiais da Justiça e os policiais não quiseram saber.
“O mandado de despejo foi entregue à comunidade que já ocupa a área há dois anos. Em vez de enfrentar a situação, o poder público entregou o caso para a polícia.
“E, em vez de fazer cadastro das famílias em programas de moradia, o governo foi ao local para destruir as casas de quem não tem onde morar.
Essa é mais ação do Estado para criminalizar os movimentos sociais.”


Percurso do dia 17 de janeiro de 2107
11,21 km percorridos em 2h24min48
Acumulado no projeto 600 aos 60
363,78 km percorridos em 74h10min25
Acumulado no projeto 60 M 60 A

140,57 km percorridos em 27h11min32

14.1.17

Para mim, faltam quilômetros; para os velhos, faltam empregos

Falta um mês para o dia de meu aniversário, o dia em que completarei sessenta anos e entrarei oficialmente, de papel passado, registro no Estatuto Nacional do Idoso e avalizado pela Organização Mundial da Saúde, no maravilhoso terreno da velhice, na segunda metade de minha vida.
Encaro a chegada com bonomia, certo temor e também um tanto de desalento: vejo, aos poucos, meu projeto de corrida se esboroar pelo chão, se esfarinhar na falta de quilometragem...
Não treinei hoje: fui fazer uma endoscopia para examinar uma velha úlcera e sinais de uma irritante, dolorida e gigantesca gastrite. O treino de ontem foi abortado pouco depois da metade, devido a dores intensas no estômago, uma queimação brutal que me fazia dobrar o tronco e provocava até dores lombares, sem falar de uma terrível frustração e um enorme desalento.
Pensei em continuar de qualquer jeito, mas a experiência e o bom senso de Eleonora, minha parceira de vida, falaram mais alto. É melhor parar enquanto ainda resiste, pois assim o corpo estará mais forte para se recuperar; se deixar o corpo se esmilinguir, a recuperação também fica mais demorada.
São coisas que os corpos mais velhos, como o meu, sentem: ainda que sejamos jovens de espírito, a carne já viveu o tempo todo que estamos cá na terra, e todos os processos vitais estão mais lentos. Há que aprender a conviver com isso, respeitar esse movimento e, se possível, fazer com que nossas reações melhorem um pouco. É o que estou tentando.
Correr, caminhar, fazer exercícios, buscar um tempo para si mesmo e para encontrar amizades –tudo isso é algo que nos ajuda a enfrentar esse momento. E precisamos de toda a ajuda que nós possamos dar a nós mesmos, pois a sociedade não está preparada para os velhos, ainda mais na quantidade que existe hoje no Brasil e no mundo.
É fácil entender isso quando analisados a evolução da expectativa média de vida dos homens no mundo.
No início da nossa era, que alguns chamam de Depois de Cristo, a duração da vida média estava entre meros 25 e 28 anos. Foi preciso nada menos que 19 séculos para que a longevidade humana aumentasse em média 50%, aproximadamente: nos início dos anos 1900 a expectativa de vida ficava entre 46 e 48 anos.
Pois bem, aquilo que levou quase dois mil anos para acontecer se repetiu em apenas um século. Com o progresso da ciência no século passado e a melhoria das condições gerais de vida, a longevidade humana voltou a crescer em cerca de 50% (em cálculos grosseiros, aproximados). Hoje, no mundo, a expectativa média de vida está entre 60 e 65 anos –no Brasil é cerca de dez anos mais do que isso.
É algo fabuloso, sensacional, revolucionário para o mundo. O melhor é que muitos de nós chegamos aos 60 anos e mesmo idades mais avançadas com saúde plena, ampla capacidade movimentação, intelecto saudável e disposição para continuar contribuindo com a sociedade e com o próprio desenvolvimento humano.
Este meu projeto é uma pálida tentativa de demonstrar as nossas possibilidades físicas. Mesmo não sendo nenhum atleta nem tendo um corpo formado no esporte, venho me desafiando a percorrer caminhos que, há alguns anos, seriam exclusividade de jovens fogosos. Hoje, somos velhos fogosos a desbravar horizontes.
Isso deixa a sociedade como um todo perplexa. Nós devíamos estar enterrados, hospitalizados ou quietos –só que não.
Merecemos e necessitamos de proventos da aposentadoria, que muitos governos –a começar pelo golpista brasileiro—tentam nos furtar. No mundo da perversidade neoliberal, em que desponta Temer, o Usurpador, dizem que precisamos trabalhar até morrer, querem mais e mais anos de produção desses homens e mulheres que estão vivendo mais.
Dizem isso, mas não criam as condições para que o emprego apareça. No Brasil, há 16 milhões de pessoas com 65 anos ou mais, segundo dados do IBGE de 2015. Menos de um por cento desse grupo tem trabalho com carteira assinada ou algum tipo de registro oficial –como funcionário público, por exemplo.
Em números absolutos, 137.600 vagas de trabalho formais são ocupadas por homens e mulheres de 65 anos ou mais. Isso representa zero vírgula três por cento dos 48 milhões de trabalhadores na economia oficial.
Esses dados são de 2015. Desde lá, o desemprego arrasou a economia brasileira, destruiu vagas, arrebentou lares, jogou milhões na sarjeta. Os velhos e as mulheres são os primeiros, berram as estatísticas.
É contra agressões como essas que eu corro e chamo meus companheiros de geração a correr, a caminhar, a bradar que estamos vivos, queremos, desejamos, exigimos e merecemos um lugar ao sol, nos postos de trabalho, na produção e na apreciação da cultura, no esporte e no lazer.
Nem sempre conseguimos fazer tudo o que se espera de nós. Nem sempre conseguimos fazer o que nós mesmos esperamos de nós.
Gráfico mostra os quilômetros que percorri (em verde) e quual era a perspectiva de quilometragem acumulada para cada data (em azul)

De novo, o meu exemplo grita. No caminho para completar seiscentos quilômetros até o próximo dia 14 de fevereiro, deveria ter completado hoje a distância redonda acumulada de 400 quilômetros. Os sofrimentos do corpo e as intempéries da vida me deixam para trás em pouco mais de setenta quilômetros, é a minha dívida para os dias que vêm: além da quilometragem do dia, vou ter de recuperar aos poucos as distâncias não realizadas.
Não é impossível, como também não é impossível para a sociedade absorver o trabalho e as dores dos mais velhos. Para mim, basta meu esforço e um pouco de apoio da família, incentivo de treinadores e a sensacional torcida que recebo pelas redes sociais; para a sociedade é preciso muito mais. Há que revolucionar as políticas e promover a inclusão social, mão apenas dos velhos, mas de toda a população marginalizada, que pode, quer e deve vir a ser produtiva e feliz.
O problema é que isso se faz com democracia e projeto de desenvolvimento sustentado, que precisamos conquistar. O golpismo usurpador apenas estiola o tecido social, como vampiro a sugar o sangue que faz da sociedade um organismo vivo.
Ele precisa ser derrotado e eliminado.
VAMO QUE VAMO!!!



Percurso de 13 de janeiro de 2017
6,73 km percorridos em 1h24min11

Acumulado no projeto 600 aos 60
328,56 km em 67h22min15

Acumulado no projeto 600 aos 60

105,36 km em 20h23min22

10.1.17

Treinador Flavio Freire corre e festeja a passagem do tempo

Hoje exagerei de novo. A planilha pedia doze quilômetros, mandei quase um quilômetro e meio a mais. Isso não é coisa que se faça quando se está em processo de recuperação, quando se está tentando deixar ossos e músculos em boas condições de retomar as corridas da vida.
O fato é que me perdi na conversa. Convidei o treinador Flávio Freire, um dos mais experientes da cidade, para me acompanhar no treino de hoje. Eu sabia que o cara era bom de corrida, mas não imaginava que conversasse tanto –é que ele tem a maior cara de bravo, está sempre sério, concentrado.
Que nada, o sujeito fala pelos cotovelos, contando ótimas histórias. E ele tem muita história para contar, basta dizer que contabiliza mais anos de corrida do que a maioria da população brasileira tem de vida: começou a correr por volta dos 15 anos, neste ano completa 52 anos, faça as contas.
Mas não foi só por isso que convidei o Flávio para a etapa de hoje do projeto 60 Maratonas aos 60 Anos. O convite foi porque ele é um sujeito que respeita e festeja a passagem do tempo. Há dois anos, quando chegou aos 50 anos, tratou de comemorar como é do feitio dos corredores: correndo.
Juro que a gente não combinou a roupa de corrida
Inventou um desafio: participar de 50 provas ao longo do ano. “Isso á fácil”, você pode dizer. De fato, pode ter alguns complicômetros logísticos e financeiros, mas, para corredores experientes, enfrentar esse volume de corridas em distâncias médias, de 5 km a meia maratona, não é exatamente a coisa mais difícil do mundo.
Bueno, Flávio também sabia disso e inventou um desafio dentro do desafio. Competitivo que é, se propôs a ficar entre os cinco primeiros de sua faixa etária no maior número de provas. Tem de ser veloz e resistente: em média, para pegar pódio na categoria 50-54, é preciso correr os cinco quilômetros em 19 minutos e fazer os 10 km em no máximo 40 minutos.
Para ele, conforme me contou hoje enquanto corríamos pelas alamedas do parque Ibirapuera, não se tratava apenas de cumprir um desafio, mas sim de fazer uma espécie de manifesto de vida, de dizer a si mesmo que estava se preparando bem para a sua segunda metade de vida, que poderia fazer a nova etapa ainda melhor do que a primeira.
Os resultados comprovaram a excelente forma do treinador: em 88% das provas, chegou entre os cinco primeiros da sua faixa etária, sendo campeão da categoria em 27 corridas.
Que beleza, hein!
É bom saber, ainda, que Flávio não está sempre e apenas focado na obtenção de resultados na corrida. Busca orientar seus alunos para a conquista de melhor qualidade de vida e faz trabalho voluntário em um asilo de idosos.
Esses foram alguns dos temas da entrevista que, na manhã de hoje, transmiti ao vivo pela internet. Agora, especial para você, reproduzo o vídeo. 


Clique nele para acompanhar a conversa sobre esporte e saúde para os mais velhos e sobre um pouco da história das corridas de rua no Brasil.
Sobre isso, por sinal, Flávio tem muito a contar. Ainda vamos voltar a conversar bastante sobre os primórdios da corrida no Brasil. Enquanto isso, aproveite para conhecer a história dos primeiros passos desse importante treinador e atleta dedicado, que um dia conseguiu dar um “perdido” nas suas missões como Office-boy em um escritório na avenida Faria Lima para correr até o clube Pinheiros e se apresentar para um teste.
Os detalhes desse início Flávio me contou em um texto que mandou dias antes de nossa corrida de hoje –toda ela com intervalos, 300 metros correndo, 700 metros caminha.  É o que reproduzo a seguir (a foto é do arquivo pessoal de Flávio Freire).

A DESCOBERTA DA CORRIDA
“Quando eu era pequeno, tinha receio de participar de qualquer coisa que dependesse da velocidade da corrida: "pega-pega" e "esconde-esconde" eram algumas brincadeiras em que normalmente eu não era bem sucedido.
Na minha adolescência, meu pai aos finais de semana sempre gostava  ir correndo de uma casa para outra, comigo e o meu irmão mais velho. Percorríamos de três a cinco quilômetros, imagino, pelo menos era a sensação que eu tinha, pois quando somos pequenos tudo parece muito grande e muito distante. Também nessas "corridinhas" eu era sempre o último a chegar.
Quando eu tinha onze anos e estava na quinta série do ginásio, houve uma prova seletiva para definir quem ia representar a escola no evento de atletismo entre as escolas regionais. Fui o segundo colocado e fui um dos selecionados.
Estudava em uma escola que fica ao lado da USP, e esse teste foi realizado no quarteirão da antiga garagem de ônibus da Veterinária. Portanto desde pequeno  frequentei a Cidade Universitária, ora para fazer atletismo ou jogando futebol nas aulas de educação física da  escola, ora jogando futebol com os amigos da rua e do bairro.
Quando íamos com um grupo de amigos jogar futebol na USP, passávamos nas casas dos amigos para acordá-los e assim íamos fazendo até completar o grupo que ia a pé em um trajeto de dois quilômetros, mais ou menos. No caminho, sempre passávamos em frente do bosque da USP, víamos as pessoas dando voltas num lugar cercado, ficávamos curiosos sobre as razões delas e qual seria a distância da volta.
Na hora de escolher o time, não precisa dizer que eu sempre era um dos últimos, pois eu corria bastante durante o jogo inteiro, mas não tinha habilidade para ajudar o time.
Um belo dia, após o futebol, eu resolvi entrar naquele bosque que tanto me deixava curioso. Entrei e perguntei para uma das poucas pessoas que lá estavam, qual era a distância de cada volta e a resposta foi que tinha um quilômetro. Então eu pensei, vou tentar fazer uma volta, ou seja, mil metros, pois falando assim fica a impressão de muita coisa, "mil metros". Fiquei até com receio de me perder, mas estava mais preocupado em conseguir completar uma volta.
Consegui! Cheguei em casa eufórico, orgulhoso de mim mesmo, pois achava que toda aquela sensação de impotência quando dependia da corrida tinha acabado. Agora eu era um corredor de " mil metros". A partir de então, sempre após o futebol de final de semana eu passava no bosque para correr os meus infinitos "mil metros".
 Vale a pena lembrar que eu sempre fui motivado a praticar esporte, pelo exemplo do meu pai, que fazia musculação, boxe e judô, e pelo belo exemplo do meu avô paterno, que costumava acordar por volta das cinco horas da manhã e fazia uma serie de exercícios de calistenia na área  da minha avô, ele não falhava um dia. Ele também caminhava muito rápido para fazer a suas coisas e eu sempre tinha muita dificuldade para acompanhá-lo.
 Todos os dias eu fazia barras e alguns exercícios; quando completei 13 anos fiquei sócio da Associação Cristã de Moços (ACM) do centro da cidade. Lá eu fazia uma rotina de exercícios denominada “ condicionamento físico”. Tive vários professores, que sempre foram muito atenciosos comigo, mas vale a pena ressaltar um deles, ainda o vejo correndo pelas ruas da USP e em competições.
É o senhor  Araya, que adorava corrida e jogava xadrez na ACM. Jogávamos algumas partidas, mas eu ainda não gostava da corrida como ele. Ele era responsável por um departamento que levava os sócios para as competições e um dia me convidou para representar a ACM-Centro em um evento em Sorocaba. No dia da prova, como não tinha nenhuma experiência e nem orientação, comecei errado na minha rotina alimentar pré-prova, que era às 17h. Foi horrível,  mas ainda consegui ficar bem colocado na geral e fazer bons pontos para a minha unidade em SP.  
No começo de 1980, ano em que eu iria completar quinze anos de idade, resolvi fazer o famoso teste para tentar ser atleta do Clube Pinheiros. Foi um dia muito marcante na minha vida!
Conversei com o professor Valdir Barbanti, que era o técnico do clube, e ele me disse para falar com a Miriam Inês Braga Castelo Branco, professora de iniciação. Ela fez algumas perguntas e logo me orientou para fazer o aquecimento e pediu para chama-lá quando estivesse pronto. 
 O teste consistia em fazer em doze minutos a maior distância possível. No soar do apito dela terminava assim o teste, e  eu tinha que permanecer no local para ela aferir a distância total percorrida. Foi muito emocionante e até hoje fico arrepiado quando conto essa historia.
Na pista tinha muita gente treinando, atletas de várias modalidades, e eu um moleque franzino, fazendo um teste que poderia ser o início da minha carreira como atleta do maior clube do Brasil --um sonho de qualquer pessoa da minha idade na época.
Na medida em que fui dando as voltas, percebia e ouvia vozes de pessoas que estavam treinando e que pararam de treinar só para gritar, torcendo por mim, mesmo não me conhecendo. Não entendi nada, só pensava que tinha que continuar correndo e cada vez mais rápido.
Só hoje sou capaz de entender o motivo, pois eles talvez estivessem impressionados, como aquele menino tão magrinho estava tão compenetrado e correndo em um ritmo próximo de três minutos e três segundos por quilometro. Para um menino de quinze anos eu acho que justificava a torcida.
Quando terminou o teste, a professora Miriam logo me disse que eu tinha sido aprovado. Imagine a minha felicidade que pode compartilhar  com várias pessoas que vieram falar comigo. Foi fantástico!!! Foi um momento muito especial na minha vida.” 

VAMO QUE VAMO!!!


Percurso de 10 de janeiro de 2017
13,46 km realizados em 2h27min18

Acumulado no projeto 600 aos 60
299,38 km realizados em 61h41min41

Acumulado no projeto 60 M 60 A
76,17 km realizados em 14h42min48



9.1.17

Primeira maratona já era; agora faltam apenas outras 59

Não teve pompa nem circunstância, fanfarra nem banda de música: a primeira maratona de meu projeto de percorrer, ao longo deste ano, a distância de sessenta maratonas, passou quase em branco.
Não havia, no ponto exato da imaginária linha de chegada, nenhum marco importante. Desde o início de minha caminhada de sábado, sete de janeiro de 2017, fiquei imaginando onde se daria a passagem dos primeiros 41.195 metros acumulados desde o dia primeiro de janeiro.
O percurso era pela avenida Doutor Arnaldo, que homenageia o médico Arnaldo Vieira de Carvalho, fundador da faculdade de Medica de São Paulo e um entusiasta da eugenia, que é o movimento que prega a limpeza da raça humana de fatores que a empobreceriam –a suposta existência desses fatores é uma justificativa para o racismo.
No primeiro quilômetro, passaria pelo famoso mercado de flores, que fica em frente ao cemitério do Araçá. Estava torcendo para que a marca dos 910 metros (quando totalizaria a distância da primeira maratona) caísse em frente a uma banca bonita, colorida; ou, pelo menos, em frente a um dos grandes portões de ferro do cemitério.


Nananina. Foi num lugar insosso, em frente ao muro do Araçá, onde nem sequer havia uma pichação qualquer que servisse para identificação do ponto exato de minha queridíssima primeira maratona. Recentemente caiada, a parede escondia uma inscrição. Com algum esforço do passante ainda era possível ler, sob a tinta branca, o grito de protesto amplo, geral e irrestrito, quase desesperado: “Fora Todos”.
A maioria dos transeuntes, porém, não chegaria a notar o palavreado. A própria fotografia mal registra as letras perdidas em uma das camadas do palimpsesto que virou o muro do Araçá.
Uns trinta metros além, em direção à avenida Paulista, sim, a parede se somava de peito aberto às manifestações de parte da população brasileira, afirmando: “Temer Golpe”.
E, logo à frente, o muro do Araçá virava tela para a arte urbana, um desenho que sempre me intriga. É um copo meio cheio de água? Ou é uma boca de fogão montada em surpreendente plataforma? Alguma coisa há de ser.
Passei pelos muros que me olhavam, segui pensando nas dores que rondavam meu joelho. Não pode doer, preciso prosseguir.
E fui, fazendo desta segunda corrida – de novo, apenas trechinhos de 300 metros intercalados por caminhadas mais longas—uma incursão à avenida Paulista, desde seu final até nascimento, no Paraíso.


É muito bom correr, mesmo que pouquinho. Ainda corro cheio de dúvidas, tateando o movimento, tentando reaprender a colocar uma perna à frente da outra, organizando meu corpo, examinando o que faço de errado, sentindo os músculos acordarem e as engrenagens se mexerem, ainda um tanto enferrujadas.
Queria fazer do domingo mais um treino, mas obedeci às ordens conservadores de meu fisioterapeuta, que defende intercalar um dia com corridas com outro de apenas caminhada.
Resolvemos, então, caminhar jutos, Marcelo Semiatzh e eu. Aproveitamos para discutir todos os problemas do mundo, sem resolver nenhum; e conversamos também sobre o próprio ato do caminhar, a importância do andar para o correr.
Ao longo do caminho, depois de mais de dez quilômetros percorridos, fizemos uma transmissão ao vivo pela internet apresentando essas discussões. Veja só como foi.


Com o que, em dois dias, percorri pouco mais de uma meia maratona.
Falta muito, mais é menos do que faltava no dia primeiro de janeiro.

Vamo que vamo!



Percurso de domingo, 8 de janeiro de 
2107
11,42 km percorridos em 2h17min13
Acumulado no projeto 600 aos 60
285,92 km em 59h14 min23
Acumulado do projeto 60 M 60 A

62,71 km em 12h15min30

6.1.17

Nunca é tarde para começar (reflexões sobre a velhice)

Hoje eu gostaria de contar para você como foi meu segundo dia de retorno às corridas, a emoção do trote, a sensação de vida nos músculos, o gosto de liberdade nos cabelos, o suor queimando os olhos, a velocidade limpando a alma.
Não vai ser possível.
Não corri hoje. Não foi por dor nem sofrimento, mas por orientação de meu fisioterapeuta, o guru do movimento Marcelo Semiatzh. Ele se mostrou mais conservador do que o ortopedista, recomendou um pouquinho mais de cautela na volta às corridas.
Corpos mais velhos apresentam mais lentidão na recuperação de tecidos e estruturas do corpo; as exigências devem ser mais comedidas. Assim, ainda que, do ponto de vista médico, eu esteja em condições de correr em dias seguidos, Marcelo propôs uma alternância, com dias de apenas caminhadas.
Neste momento, estou perdendo a corrida contra o tempo e a distância. Se repetir quarenta dias o que fiz nos últimos quarenta dias, não vou atingir seiscentos quilômetros percorridos até o dia de meu aniversário. Logo, as caminhadas também precisam ser mais longas.
Hoje foram onze quilômetros em pouco mais de duas horas, tempo sufiente para permitir à mente voos diversos. Deu para sonhar acordado e também para refletir sobre este período da vida, o da velhice –ou da chegada à Terceira Idade.
Lembrei recente entrevista que fiz com um dos maiores especialista em velhice em São Paulo, talvez no Brasil. O geriatra Wilson Jacob Filho não só tem mais títulos acadêmicos que a gente pode imaginar como também é um ativo militante da luta por maior qualidade de vida para os mais velhos. Professor da USP, coordena o programa Gera Saúde no Hospital de Clínicas, de promoção de saúde dos maiores de sessenta anos.
“Eu não quero um idoso alvo das benesses. Eu não quero um idoso passivo. Eu não quero um idoso para o qual eu desenvolvo estratégias. Eu quero um idoso arqueiro, participando do desenvolvimento de estratégias que beneficiam o idoso. Eu não quero dar o tom para o idoso. Eu quero que ele venha fazer o tom”, diz Jacob Filho.
Aos 63 anos completos, o geriatra é exemplo vivo de sua tese em defesa da atividade física. Corre, caminha, faz musculação e, nos finais de semana ou quando lhe é possível, faz atividades ligadas à vida rural: “Eu monto a cavalo, eu planto, eu capino, eu faço coisas numa chácara que me dão um bem-estar incomensurável. No final do dia estou cansadíssimo, muito mais do que se eu tivesse corrido 20 quilômetros. Ou andado 60 quilômetros de bicicleta. Eu estou exausto. Agora, a sensação de bem-estar, de fazer isto ao sol, é incomparável”, diz ele.
A conversa com Jacob Filho foi longa, um bate-papo entre ex-colegas –ele foi colunista na caderno Equilíbrio, da “Folha de S. Paulo”, na mesma época em que eu mantinha lá minha coluna “+Corrida”. Reproduzo a seguir alguns dos principais trechos, começando com os efeitos do envelhicemento no corpo humano.



RODOLFO LUCENA – Aos sessenta anos, a pessoa entre na Terceira Idade, segundo critérios da Organização Mundial de Saúde. O que acontece quando a gente envelhece?

WILSON JACOB FILHO – Existem divisões que são evidentemente mais didáticas do que propriamente biológicas, que demarcam o ciclo da vida em diferentes fases. O que acontece no exato momento em que um homem faz 60 anos? Nada, absolutamente nada. O que difere um homem de 59 de um homem de 60, de um homem de 61?
Nada. Do ponto de vista biológico, salvo por uma doença, ele é exatamente igual. Porém, no processo que o leva dos 30 aos 60 e dos 60 aos 90, usando 60 como divisor de águas, certamente muita coisa acontece. Se eu tivesse que usar uma definição muito restrita, eu diria: ele perde a sua reserva funcional. Ele perde o excedente de função que ele tinha e não usava, a não ser em situações muito especiais. E vai ficando cada vez mais próximo da capacidade que ele tem de usar aquilo que ele possui como limite da função do órgão.
Dirá você: “Ah, mas eu conheço um monte de caras que carregam 40 quilos aos 80 anos”. São absolutamente exceções. Tiveram que trabalhar muito durante uma vida inteira para chegar numa capacidade muscular capaz de carregar 40 quilos aos 80 anos. Tiveram que trabalhar uma vida inteira para ter a capacidade de correr 10, ou 20, ou 30, ou 40 quilômetros aos 80 anos. Existem, mas são fruto de toda uma preparação de décadas.
Ninguém começa a correr aos 79 anos e aos 80 anos buscando grandes distâncias, sem correr riscos. Ninguém pega uma massa, um peso de 40 quilos, e faz exercícios com eles sem ter uma preparação correta. Essa é fundamentalmente a grande diferença de um organismo jovem e de um organismo idoso.
Isto cria a condição, o conceito de suscetibilidade, que é diferente de fragilidade. Suscetibilidade significa: o indivíduo fica mais suscetível a uma repercussão negativa ou deletéria.
Ambos, jovem e idoso, podem contrair gripe. O vírus é o mesmo. A gripe é a mesma. Só que a suscetibilidade do idoso faz da gripe uma doença grave. Enquanto que a suscetibilidade do jovem faz da gripe uma doença banal. Por isso que faz sentido eu vacinar o idoso, para o idoso não ter gripe. Não que ele é mais propenso a ter gripe. Mas ele é mais propenso a ter uma complicação da gripe.

RODOLFO LUCENA – O que é possível fazer para minorar a suscetibilidade? Manter as reservas do organismo ou diminuir a velocidade da perda?

WILSON JACOB FILHO - É possível diminuir a velocidade da perda. Seja da perda muscular, seja da perda cardiorrespiratória, sejam perdas metabólicas e todas mais.
Você pode aumentar a reserva quando jovem, para que, mesmo perdendo, você ainda tenha uma reserva quando idoso. Seria o equivalente a uma poupança. Você cria um bom patrimônio fisiológico, para que mesmo perdendo no transcorrer da vida, você chegue com o capital bastante bom aos 70, 80, 90 anos.
Isso é facilmente demonstrável com o osso. Só fica osteoporótico aos 70 anos de idade quem não teve um bom pico de massa óssea aos 30. Idem para a função cardiorrespiratória: quem não teve nenhum desenvolvimento cardiocirculatório por conta dos exercícios na fase inicial da vida, vai perde-lo rapidamente. Massa muscular. Idem. Desenvolvimento mental. Idem.
Há agravantes, que muito frequentemente decorrem de maus hábitos. Um indivíduo que compromete a sua função pulmonar por conta do tabagismo, ele vai chegar aos 80 anos de idade com dois componentes, a idade e os 65 anos de tabagismo. É lógico que ele terá um enfisema. É esperado que ele tenha um enfisema. Porque ele tem 80 anos de idade? Não. Porque ele agravou a condição de perda funcional com uma doença adicional que é a doença pulmonar obstrutiva crônica.

RODOLFO LUCENA – Em contrapartida, é possível ter ganhos, mudando hábitos, incluindo o exercício na vida, mesmo depois dos sessenta anos? Digamos que o cara acordou aos sessenta anos...

WILSON JACOB FILHO - É totalmente possível. No site da Organização Mundial de Saúde tem uma frase clássica: Never is too late”, “Nunca é tarde para começar”.
Você deve interromper o tabagismo aos 90 anos de idade? Sim. Deve iniciar uma prática de atividade física aos 85? Sim. Deve procurar atividades culturais e vida social aos 90? Deve.
Tudo isto melhora a qualidade de vida. Em geral, os bons resultados já aparecem com curto intervalo de mudança de hábitos, porém nunca será tão bom como se fizesse isto a vida toda.
Aos 90, 80 anos de idade, a interrupção do tabagismo mostra efeitos positivos dois a três meses depois da interrupção. Mas nunca iguais àquele que o indivíduo que interrompeu aos 60, interrompeu aos 40, ou nunca fumou.
O início de uma atividade física controlada e organizada aos 80 anos de idade mostra benefícios em 12 semanas. Mas nunca tão bom quanto um indivíduo que veio ativo a vida toda. A chance de lesão é maior. Mas é sem dúvida nenhuma muito melhor despertar aos 60, ou aos 70, ou aos 80, do que não despertar.

RODOLFO LUCENA – Por quê? O que esse despertar muda na vida da pessoa?

WILSON JACOB FILHO - Em geral muda a perspectiva, a expectativa que ele tem perante a vida. O indivíduo descobre que ele não está numa espiral descendente. Ele percebe que existem coisas que nunca foram feitas durante a sua vida, ele nunca experimentou aquilo, ou se se experimentou, experimentou muito no passado, e que lhe confere uma nova perspectiva perante a vida.
Temos um grupo de formação de saúde e promoção de saúde dentro do serviço de geriatria no Hospital de Clínicas na qual ouvimos constantemente depoimentos do tipo: “Eu nunca me senti tão útil quanto eu me sinto agora. Eu nunca fui capaz de me imaginar fazendo algo parecido com isto. Eu nunca tive tanta motivação para fazer algo como eu tenho agora”.
São pessoas que saíram de um grilhão, onde eles eram fundamentalmente peças de uma engrenagem, seja engrenagem família, seja engrenagem empresa, e passaram a ser elementos responsáveis, donos da sua própria vontade. Este protagonismo que nós gostaríamos muito que o idoso, o indivíduo que envelhece, continuasse a ter, é a nossa bandeira. É aquilo que nós mais defendemos.
Eu não quero o idoso alvo. Eu quero um idoso arqueiro. Eu uso muito essa figura. Fazer para o idoso tem sentido, naquilo que ele não consegue fazer por si. Mas eu não quero um idoso alvo das benesses. Eu não quero um idoso passivo. Eu não quero um idoso para o qual eu desenvolvo estratégias. Eu quero um idoso participando do desenvolvimento das estratégias que beneficiam o idoso. Eu não quero dar o tom para o idoso. Eu quero que ele venha fazer o tom. A história do ensinar a pescar ou dar o peixe. Tem sentido. Dar o peixe mantém a sobrevivência, ensinar a pescar tem um interesse pela vida. Dá ao indivíduo a condição de ele ser responsável por si mesmo.

VAMO QUE VAMO!!!

Percurso do dia 6 de janeiro de 2017




11,10 km percorridos em 2h13min18

Acumulado no projeto 600 aos 60

264,50 km em 55h12min16

Acumulado no projeto 60 M 60 A

41,29 km em 8h13min23


5.1.17

Com 300 metros de trote, faço primeira corrida do ano

Trezentos metros. Essa foi a conta exata de minha primeira corrida do ano, minha primeira corrida em dois meses, minha primeira corrida desde a dor lancinante que, em seis de novembro de 2016, anunciou que eu estava com uma fratura por estresse no fêmur esquerdo.
Esse tipo de fratura quem cura é o corpo: há que dar tempo para que o osso se regenere. Em média, corpos jovens estão cem por cento depois de dois meses; velhinhos como eu precisam de mais tempo.
Mesmo assim, depois de um exame na tarde de ontem, meu médico acho que eu já estava em condições de experimentar uma corridinha.
Tudo muito conservador, com muita calma, mas de olho na tentativa de completar seiscentos quilômetros até o dia 14 de fevereiro próximo.
Estou atrasado, porque até agora vinha caminhando percurso curtos a cada dia –foram várias etapas de três quilômetros, depois passando para quatro, cinco e seis quilômetros.
Hoje fiz dez quilômetros mais 250 metros (estes apenas para chegar até o ponto do ônibus), mas tudo calibrado , em pequenos blocos, com muita caminhada –mais de 80% do trajeto foi feito caminhando.
Fiz um bloco de dois quilômetros caminhando, depois a primeira corrida do resto de minha vida, o primeiro de seis blocos de 300 metros correndo por 700 metros caminhando. Para completar, mais dois quilômetros caminhando.
Não tive dores, mas a sensação era a de um corpo que começa a acordar. Pensei que não saberia mais como correr, mas a memória do movimento estava lá, viva. E me fui.
Primeiro trecho de 300 metros percorrido a trote no treino de hoje; no total, foram seis blocos de 300 metros corridos

A largada se deu na avenida Brasil, assim que atravessei a Rebouças. Parti um tanto desengonçado, tentando entender o balançar das pernas, o equilíbrio das costas, o mover dos braços.
A parte mais sentida me parece o posterior da coxa. Estava duro, movimentando-se como um pistão enferrujado, segurando meus movimentos.
Eu nunca fui um sujeito flexível, mas aquele músculo estava exagerando. Melhorou no segundo bloco, piorou no terceiro e voltou a melhorar. Vou ter de voltar a fazer alongamento.
E vou ter de voltar a tentar emagrecer. Acho que, tirando lesões de qualquer tipo, o peso é o maior inimigo do corredor. E eu estou com peso demais, assim como faço esforço de menos para emagrecer ou pelo menos controlar.
Já fiz várias tentativas em que tive apoio de nutricionistas. Algumas deram certo ou parcialmente certo –houve redução de peso, mas o objetivo final não foi atingido--, outras foram pura perda de tempo (Tem até uma piada macabra sobre isso, em que o cara diz: “Fiz 15 dias de dieta e perdi... 15 dias”).
Com menos peso, se corre melhor e há menos pressão sobre os músculos e ossos, o esforço geral para correr é menor, o gasto de energia é menor, enfim...
Mas o que fazer em relação àquela torta de brigadeiro ou àquele sorvete cremoso?
“Comer de tudo, mas pouco”, receitam alguns. O que é pouco, cara-pálida?
Neste momento, o que me importa é que, apesar do peso extra, corri 1.800 metros (seis blocos de 300 metros cada um) e não tive nenhuma dor no joelho.
Amanhã vou caminhar os mesmos dez quilômetros, no sábado e no domingo repetirei o treino de hoje. Vamos ver.
É devagar, é demorado. Se funcionar, a gente chega lá.
Vamo que vamo!!!

Percurso do dia 5 de janeiro de 2017
10,25 km percorridos em 1h52min43
Acumulado no projeto 600 aos 60
253,40 km em 52h58min58
Acumulado no projeto 60M60A
30,19 km em 6h00min05

  

4.1.17

Será que vou poder voltar a correr agora?

Todos os dias, desde a alegre e ensolarada manhã de seis de novembro passado, ou faço a pergunta, indagando a nada e a ninguém em particular, apenas pensando: será que um dia vou voltar a correr?
No dia nove de novembro de 2016, o ortopedista/maratonista que examinou o laudo de minha ressonância magnética afirmou que a recuperação levaria cerca de dois meses. É o tempo médio para que o corpo possa consertar fratura por estresse como a que acometeu aponta esquerda de meu fêmur esquerdo.
Doía muito, mais ainda porque tinha de parar de correr e talvez abandonar meu projeto de correrias aos sessenta anos.
Deu para caminhar. Minha jornada começou no dia 14 de novembro, tentando fechar 600 quilômetros no dia 14 de fevereiro próximo, quando completo 60 anos.
Já caminhei 243,15 quilômetros. E hoje volto ao médico para novo exame. Em tese, ele deve me liberar para começar a dar alguns trotes e, aos poucos, aumentar o volume de corrida. Tenho medo deste “em tese”: ao longo dos últimos meses, tive dores de vez em quando, ainda que diferentes daquela maldita pontada que me levou a mancar pelas ruas de São Paulo. O que faço se a proibição continuar?
As caminhadas são bons momentos de reflexão; algumas, até de alegria. Ao longo dos últimos 15 dias, estive afastado do mundo internético, deixei de atualizar meus números e mapas, mas não deixei de caminhar nem de construir mapas e processos e projetos com minhas passadas.
Com minha filha, desenhei no espaço urbano virtual um barco fenício –ou foi assim que imaginamos aquela figura. 

Eu inverti a figura original para que o desenho do barco ficasse mais claro, se é que ficou...

São apenas traços pelo chão, uma base, um mastro lá, outro aqui, uma baixadinha para a área dos remos, outra para o setor de armazenamento de víveres –eis a embarcação construída em pensamentos e desenhada com passos...
Em Porto Alegre, me embrenhei por ruelas cobertas de sombra de árvores centenárias, em ambiente que nunca tinha desbravado. Foi como reviver minha cidade, revê-la, redescobri-la de forma lenta, com passadas suadas.
Cá em São Paulo, para onde finalmente volto, faço da caminhada meio de transporte, vou a reuniões, ao cinema, à pizzaria e ao mercado com minhas próprias pernas.
Sei que somos poucos, eu e outros sessentões ou quase sessentões que praticamos algum tipo de atividade física. Para nosso bem-estar, para nossa saúde, é preciso que a ideia se espalhe pelas ruas, praças, avenidas, trilhas, academias e albergues: o velho –e a velha—também pode fazer exercício.
Eu, neste momento, não posso correr. Mas posso caminhar, e caminho.
Será que um dia vou voltar a correr?
Vamos ver.

ESCLARECIMENTO::: Era o que eu tinha para dizer neste momento. Mas devo ainda outras explicações a quem acompanha minha trajetória, já que deixei de fazer, nos últimos 15 dias e pouco, as atualizações diárias que publicava aqui neste espaço.
E agora as coisas se complicaram, pois há dois projetos em andamento.
O 600 quilômetros aos 60 anos começou em 14 de novembro e vai até 14 de fevereiro; o desafio, como se sabe , é percorrer 600 quilômetros nesse período, coisa que está cada vez mais difícil, especialmente se eu não puder correr logo, imediatamente, já.
No dia 1º de janeiro de 2017, na entrada do Ano Novo, começou o outro projeto, 60 MARATONAS AOS 60 ANOS (60M60A). O objetivo é percorrer, ao longo do ano, até 31 de dezembro, distância equivalente à de sessenta maratonas: 2.532 quilômetros.
Por conta disso, passo a fazer uma nova apresentação da quilometragem do dia e dos acumulados. Acompanhe a seguir, confira se está claro e, por favor, mande seus comentários e sugestões.
Vamo que vamo!!!


Percurso do dia 4 de janeiro de 2017
6,74 km em 1h16  
Acumulado no projeto 600 aos 60
243,15 km em 51h06min14
Acumulado no projeto 60 M 60 A

19,94 km em 4h07min21