21.11.16

Algumas considerações acerca da dor do corredor enquanto corre

Não é segredo, mas costuma ficar à boca pequena, nunca é muito falado, pois ela é tratada como algo simples, que sai por si mesmo, que se autocura: a fratura por estresse dói. A dor é aguda, pontual, pontuda, que pode limitar movimentos e prejudicar o bom desempenho de atividades corriqueiras do cotidiano.
Estou sentindo isso da pior maneira possível, ao longo desta empreitada para debater questões de saúde, qualidade de vida e inserção social dos maiores de sessenta anos ao mesmo tempo em que percorro, no ano em que faço sessenta anos, distância equivalente à de sessenta maratonas, 2.532 quilômetros.
Tem mais: pretendia fazer os primeiros seiscentos quilômetros numa talagada só, desde o dia primeiro de janeiro de 2017 até o dia de meu aniversário, 14 de fevereiro, uma empreitada que exigiria perto de 15 quilômetros por dia, todos –ou quase todos --os dias.
A recente descoberta de uma fratura por estresse na região do joelho esquerdo jogaria meus planos por terra, inviabilizando esse sonho de meados de verão. Mas não desisti: meu médico disse que eu poderia fazer breves caminhadas. Tomei então a decisão de começar já o projeto, iniciando então a jornada no dia 14 de novembro, três meses antes do aniversário.
Vamos ver o que dá.
Os primeiros dias foram bons, em terreno plano e com as tarefas realizadas de forma consciente e produtiva. Tirar o estresse é a melhor forma de combater a fratura por estresse, dando tempo ao corpo para regenerar os tecidos fraturados.
Para alguns, a fratura por estresse pode ser mimimi do paciente, porque o osso não está quebrado. Ele está exatamente fratura, cindido, machucado internamente.
Um estudo publicado no início deste ano na “Revista Brasileira de Ortopedia” explica:  “A fratura por estresse foi descrita inicialmente em soldados prussianos por Breithaupt em 1855 e ocorre como o resultado de um número repetitivo de movimentos em determinada região que pode levar a fadiga e desbalanço da atuação dos osteoblastos e osteoclastos e favorecer a ruptura óssea. Além disso, quando usamos uma determinada região do corpo de maneira errônea, a fratura por estresse pode ocorrer mesmo sem que ocorra um número excessivo de ciclos funcionais”. 
Ou seja: a fratura ocorre por causa de movimentos repetitivos em excesso ou sem o devido descanso entre as cargas, mas não apenas e não necessariamente por isso; pode ocorrer por causa de uma única ação em que o corpo foi mal empregado.
Isso eu já sabia pela minha própria experiência, veterano que sou de fraturas por estresse: esta é minha quarta –a primeira, eu conto como duas, pois uma perna foi atingida por fratura por estresse e a outra por síndrome de estresse, que é um pentesilhésimo a menos, mas exige cuidados assemelhados.
A primeira foi típica de corredor iniciante, mal orientado ou com orientação insuficiente.
Eu comecei a correr aos 41 anos, depois de mais de 25 anos de quase completo sedentarismo. Um ano depois fiz minha primeira maratona, no ano seguinte corri para baixar o tempo na maratona e fiz meu recorde –3h53min22.
Cerca de vinte dias depois da segunda prova já estava fazendo longões de mais de 25 quilômetros; em um deles, senti uma dor forte no pé, que me deixou mancando.
Na época, no início deste milênio, era muito mais difícil encontrar médicos especializados em esporte e conhecedores do mundo dos corredores. Levei mais de um mês sendo empurrado de médico a médico até encontrar um que me olhasse como gente, examinasse meus pés, desconfiasse que o problema não tinha origem ali e pedisse uma ressonância magnética das pernas –que também era muito mais cara e menos utilizada do que hoje.
A fratura era no meio da tíbia, ponto clássico de lesão por esforço repetitivo e mal administrado.
Essa lesão marcou o início de uma jornada de busca de informação e de conhecimento sobre o funcionamento do corpo em movimento. Conheci médicos e fisioterapeutas sensacionais, treinadores dedicados a proteger a saúde e o lazer de seus alunos, pesquisei, fiz entrevistas, sofri outras lesões, caí e me levantei.
Festejando, em 2001, minha primeira maratona depois de minha primeira (e segunda) fratura por estresse - Foto Eleonora de Lucena

Alguma coisa aprendi, pois a minha seguinte lesão por estresse –a segunda que é terceira por aquela já explicada contabilidade corporal—só foi ocorrer mais de dez anos mais tarde depois da primeira. E foi do outro tipo, aquele de um esforço único, mal aplicado, que detonou a cabeça da tíbia direita.
Agora, mais velho, com o corpo tendo menos defesas e menor capacidade de recomposição, a fratura que me atinge provavelmente foi provocada por uma combinação das duas grandes razões: volume e esforço concentrado.
De todos, esta surge num local mais complicado, que sofre tensões o tempo todo durante a caminhada. E, que eu me lembra, é a que me provoca mais dores.
Aliás, que eu faço provocar mais dores. Pois aqui há outra característica perversa da fratura por estresse: a gente é responsável pelo mal e também pela cura. É necessário se policiar e cuidar o tempo todo.
Entusiasmo e autoconfiança exagerados contribuem para que a gente erre, como eu errei na última sexta-feira. Estava caminhando bem por volta de três quilômetros a cada dia, dei naquele dia uma estilingada de cinco quilômetros. Parece pouco para quem já correu cem quilômetros de uma talagada só, mas é um incremento de volume superiro a 50% de um dia para o outro.
Isso não se faz. O resultado é a dor.
Trata-se de uma “experiência sensitiva e emocional desagradável associada ou relacionada a lesão real ou potencial dos tecidos. Cada indivíduo aprende a utilizar esse termo através das suas experiências anteriores”, segundo define a IASP, sigla em inglês para Associação Internacional para o Estudo da Dor.
O neurocirurgião Manoel Jacobsen Teixeira, professor da USP, dá o cenário: “A dor continua sendo uma das grandes preocupações da Humanidade. Desde os primórdios do ser humano,  sempre procuramos esclarecer as razões que justificassem a ocorrência de dor e os procedimentos destinados a seu controle. A expressão da dor varia não somente de um indivíduo para outro, mas também de acordo com as diferentes culturas”.
Diz ele que a ocorrência de dor na humanidade é crescente. Algumas razões que o médico cita são: novos hábitos de vida; maior longevidade do indivíduo; prolongamento de sobrevida dos doentes com afecções clínicas naturalmente fatais; modificações do ambiente em que vivemos; e, provavelmente, do reconhecimento de novos quadros dolorosos e da aplicação de novos conceitos que traduzam seu significado.
O que eu posso dizer é que a dor é uma merda. Por causa daqueles quilômetros extras que eu saudei inicialmente com tanta alegria, e de mais uma subidas e descidas de escada, voltei a mancar.
“Você não pode caminhar com dor”, me xinga o fisioterapeuta Marcelo Semiatzh, explicando que a dor significa eventual aumento de lesão. Posso caminhar, mas não devo açular o ferimento, que precisa de paz, e não de bagunça, para se regenerar.
Devo subir escadas apoiado, colocando o esforço inicial na perna boa; descer fazendo o contrário, indo primeiro com a podre. E devo caminhar nos limites da responsabilidade.
Hoje fiz um pouquinho mais de três quilômetros num circuito quase plano, com alguma dorzinha, mas nenhuma pontada limitante. O circuito é muito especial, voltarei a circular por ele e trarei histórias do trajeto.
Por enquanto, encerro aqui essas reflexões sobre a dor: é ruim, não é bom, mas dá para encarar. Não podemos ceder a ela, nos prostrarmos frente ao sofrimento. O objetivo é controlar a dor, minorar a dor, acabar com a dor e mandar ver na vida com saúde e alegria.
Vamo que vamo!



600 aos 60 – etapa 7 – 2016 nov 21

3,41 km caminhados em 41min29

Quilometragem acumulada: 25,59 km

Tempo acumulado: 5h07min58


20.11.16

Corredores Patriotas Contra o Golpe tomam a avenida Paulista e gritam: Fora, Temer!


Hoje foi um dia de muita ação e movimento. Vinte de Novembro, Dia de Zumbi, dia da Marcha da Consciência Negra, dia de reflexão, de ação e de luta. Dia de Gritar: Fora, Temer!

Eu faço parte de um grupo chamado Corredores Patriotas contra o Golpe. Nós organizamos eventos cívico-esportivos em defesa da democracia, em memória dos heróis de nosso povo, protestando contra o esbulho da Nação e afirmando nossa vontade de estar nas ruas em defesa de um Brasil justo, fraterno, livre e soberano.
Uma de nossas produções foi o evento de hoje, a segunda edição da Corrida e Caminhada Fora Temer, da qual você teve uma palhinha no vídeo ali de cima, captado pela Eleonora de Lucena.
A manifestação de hoje foi em parceria com o pessoal que organiza a Marcha da Consciência Negra, como você já deve ter visto no texto que coloquei ontem aqui no blog. Tivemos o apoio de sindicatos, de lideranças locais da cidade, dirigentes comunitários, professores, jornalistas e parlamentares, alguns ajudando na divulgação, outros presentes ao evento.
Os companheiros da Democracia Corintiana  disseram presente, assim como o pessoal dos ciclistas deu uma força na divulgação.
Enfim, foi uma manifestação bem bacana, reunindo gente disposta a lutar pela democracia e pelo futuro da nação.
Como eu disse, muitos parlamentares e dirigentes de movimentos populares deram seu apoio na divulgação. Coloco a seguir alguns vídeos que gravei com eles.



Tudo isso foi antes. Hoje o dia nasceu feliz, com sol aberto depois de vários dias nublados, de frio e até algumas pancadas de chuva fina.
Desde cedo, os Corredores Patriotas Contra o Golpe nos reunimos para preparar os últimos detalhes, como encher os balões Fora Temer e deixar à disposição os números de peito para o para os participantes da jornada. Até que chegou a hora de concentrar para a largada, como mostra este vídeo também gravado pela Eleonora, que ainda fez as fotos que engalanam essa página.

Dada a largada, a turma foi se manifestando como bem entendia.






Com o vereador Simão Pedro, que esteve presente na Paulista para as manifestações populares de hoje

Desta vez, tivemos um grupo de corredores mesmo, que suou a camisa na Paulista enquanto a gente caminhava –eu segui com os caminhantes, para defender o que resta de meu joelho atingido por uma fratura por estresse. 
Afinal, tenho que garantir a continuidade de minha empreitada, quero completar 600 quilômetros até o dia de meu aniversário, 14 de fevereiro próximo.
Bom, há quem diga que uma imagem vale por mil palavras (“diga isso em uma imagem”, provoca o folgado). Há divergências, mas, de fato, imagens contam muito. Seguem algumas cenas captadas pela Eleonora, sempre presente nas lutas de nosso povo.



Bom, depois de terminada a brincadeira, os Corredores Patriotas Contra o Golpe se reuniram para uma festinha doméstica, homenageando os integrantes do grupo que fizeram aniversário ao longo deste mês de novembro. Desta vez, a foto fui eu quem fez, pois a Eleonora era uma das homenageadas, junto com a Danielle, a Edileusa, o Virgílio e a Lena (com o Bowie).

Vamo que vamo!!!



600 aos 60 – etapa 6 – 2016 nov 20

2,68 km caminhados em 56min01

Quilometragem acumulada: 22,18 km

Tempo acumulado: 4h26min39


18.11.16

Quilômetros de luta contra a discriminação racial e pela democracia no Brasil

Hoje juntei a fome com a vontade de comer.
Caminhei, conheci um sujeito sensacional, fiz entrevista e ainda divulguei –e continuo divulgando neste exato momento em que você lê este texto— um evento em defesa da democracia no Brasil.
Tudo ao mesmo tempo agora.
Explico.
Estou trabalhando na divulgação da sensacional Corrida e Caminhada Fora Temer, organizada pelo grupo Corredores Patriotas Contra o Golpe (CLIQUE AQUI para saber mais).
Uma das minhas atividades é fazer contato com outros grupos, coletivos, entidades e associações democráticas e esportivas (ou não), convidá-los para o evento, conquistar seu apoio, presença e companhia nessa jornada.
Na manhã de hoje, tinha uma reunião com um dos organizadores da Marcha da Consciência Negra, que já está em sua décima-terceira edição.
Ela será realizada também na Paulista, e nossa ideia era fazer um combo político-esportivo das duas manifestações, pois a Corrida e Caminhada Fora Temer também será realizada nesta manhã domingueira na Paulista.
Legal, mas isso prejudicava meus planos de caminhada. Todos os dias preciso caminhar pelo menos três quilômetros para dar fôlego ao meu projeto de chegar aos 600 quilômetros no dia de meu aniversário, 14 de fevereiro.
Se eu não fizer isso pela manhã, é difícil conseguir realizar ao longo do dia, pois as outras tarefas, responsabilidades, o lazer e o descanso se acavalam.
E o meu parceiro de hoje trabalha em Diadema, o encontra fora marcado lá no Jabaquara, que fica a mais de 15 quilômetros de meu ponto de partida para a caminhada –por enquanto não posso correr, preciso tratar de uma fratura por estresse que atingiu meu joelho esquerdo.
Resolvi então flexibilizar um pouquinho as orientações do médico. Em lugar de uma caminhadinha de três quilômetros, uma jornada de quase o dobro. Iria até a estação Paraíso e lá pegaria o metrô até o Jabaquara para encontrar Wilson Roberto Levy, uma das lideranças do movimento negro brasileiro.
Dito e feito, juntei a fome com a vontade de comer, fiz minha caminhada, e não descuidei de minhas responsabilidade cívico-esportivas.
O Wilson é uma simpatia. Paulistano, tem 64 anos. Nascido no Brás, é filho de uma empregada doméstica e de um trabalhador na área de transporte que deram o sangue para o menino estudar e ter melhores chances na vida. Hoje ele é contador, tem uma microempresa na área e dedica a vida à militância no movimento negro e pela democracia no Brasil.
Juntos fizemos uma transmissão ao vivo convocando o povo para a Corrida Fora Temer e para a Marcha da Consciência Negra. Confira aí o vídeo.


Depois, fiz ainda uma breve entrevista com ele, que reproduzo a seguir. E já adianto que ele voltará a frequentar essas páginas, vamos organizar uma caminhada juntos num futuro muito próximo.
Enquanto isso, confira aí um pouco da história desse grande sujeito a quem tive o prazer e a honra de conhecer hoje.



RODOLFO LUCENA - Como começou sua militância no movimento negro?
WILSON LEVY - Minha ex-mulher do primeiro casamento –eu já estou no quarto—costumava dizer que eu era um “homem de  movimento”, como dizia uma música do Caetano. Eu nasci nos movimentos sociais.
Na juventude, fiz parte dos centros acadêmicos, dos grêmios estudantis. Participei depois do movimento universitário, naveguei com as tendências políticas do movimento estudantil.
E aí, do movimento estudantil, participei também do movimento negro. Fui ao ato que criou, em 1978, o Movimento Negro Unificado em São Paulo, na praça Ramos.
Ao mesmo tempo, estava me aproximando do movimento sindical, fui ser diretor do Sindicato dos Marceneiros. Participei do processo de construção da CUT (Central Única dos Trabalhadores), estive no congresso da CUT e estive na Praia Grande, na grande Conferência Nacional das Classes Trabalhadoras, a Conclat, estava lá também.
No movimento negro, pude perceber toda uma mudança de intervenção, produzindo conquistas, como a criação da Secretaria de Promoção da Igualdade Racial, que foi criada por força desse movimento.
O Lula assinou em 2003 a lei 10.639, que obriga o ensino de história da África na escola. Foi nesse processo de pressão do movimento.
Estive nesse movimento, continuo nesse movimento e vejo que, neste momento, está havendo um retrocesso, estamos voltando lá para 1940, quando não havia nenhuma dessas conquistas e era tido como se não houvesse racismo no Brasil, que no Brasil todos eram totalmente iguais e que havia liberdade...

RODOLFO LUCENA - E há racismo no Brasil?
WILSON LEVY - O Brasil é o país mais racista do mundo. É extremamente racista.
É preciso entender o conceito de racismo, que é um mecanismo de dominação e exploração de uma raça sobre a outra, uma raça tomando privilégios sobre a outra. O conceito do racismo no Brasil é mais complicado ainda, porque ele não é de origem, mas sim da pele, da cor, do tom da pele.
Ao mesmo tempo, existe uma ideologia de branqueamento, criada por Silvio Romero e Nina Rodrigues, que são antropólogos, sociólogos do período do escravagismo, que acabam contando a ideia que no Brasil não tem racismo porque, na miscigenação, todo mundo embranquece, e a cultura eurocêntrica se sobrepõe.

RODOLFO LUCENA - O Brasil é o país em que o escravagismo durou mais...
WILSON LEVY - Algumas dessas questões remontam ao Brasil Colônia. O tráfico de escravos não foi buscar negros para trabalhar aqui porque eles eram ignorantes, não tinham conhecimento. Havia, nos anos 1400 e 1500, uma relação entre Europa e África que era de troca de conhecimentos, de culturas diferentes.
A partir de um dado momento, os europeus resolveram que o tráfico de escravos e o mercantilismo iriam fazer com que nada navio, passando pelo continente africano, vindo para a América e voltando para a Europa, ele acumulasse muito dinheiro, e a acumulação primitiva do capital.
O navio sai da Europa, deixa quinquilharias na África, traz escravos para a América, pega cana de açúcar (isso no primeiro ciclo) e leva açúcar para a Europa. Só ganha dinheiro o tempo todo. Isso vai gerar o Banco Mundial, isso vai gerar o FMI (Fundo Monetário Internacional).
O tráfico traz para cá reis, rainhas, gente com uma cultura maravilhosa, e aproveita e troca isso com as sesmarias, com os europeus que vieram para cá “colonizar” nosso país. O regime escravocrata vai enriquecendo exclusivamente o europeu. Eles não trabalkam e fazem esse processo de circulação...
Agora, por que durou até 1888 oficial? No período pós-Brasil Colônia, quando a corte vai embora para Portugal, não tinha legislação de posse da terra. Quem estivesse na terra tinha poder sobre ela.
Em 1850 é que vai ser criada a primeira lei da terra, que dizia o seguinte: só tem terra quem pode pagar por ela. E o escravizado não podia comprar, porque ele trabalhava e não ganhava nada pelo seu trabalho.
A luta de Zumbi dos Palmares e de seus companheiros foi os quilombos, e hoje existem quilombos no Brasil inteiro. Pela nossa luta, nós conseguimos o reconhecimento de que as terras dos quilombos são de propriedade doss negros que hoje lá estão, os quilombolas.
A dificuldade hoje é brigar com os especuladores de terra em todo o Brasil, que estão caçando gente, matando gente. É a mesma relação que eles têm com o MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra).

RODOLFO LUCENA - O regime escravocrata deixou uma herança perversa...
WILSON LEVY - André Rebouças (este, homenageado na avenida Rebouças), tinha uma tese de que era preciso indenizar os escravos. Os senhores de terra diziam que não, que eles é que precisam ser indenizados, porque estavam perdendo capital. A Lei Áurea não fez nem uma coisa nem outra.
E o que deu para a negrada, logo depois da proclamação da República? Mano, é o seguinte: capoeira proibida, preto é fedido, toda uma coisa querendo dizer que tudo que era negro era negativo. E aí, como é que esse negro ia trabalhar, se ele não tinha terra, não tinha coisa nenhuma?
Os europeus, que migraram naquele momento, para trabalhar, ganhavam salário, começaram a construir o movimento sindical, uma história que a gente conhece. Mas nós, negros, ficamos de fora desse movimento sindical, ficamos de fora das fábricas, ficamos de fora das próprias fazendas.
Em algumas fazendas –no Maranhão aconteceu muito disso--, o fazendeiro decidiu que não queria mais a terra. Dava a terra para os trabalhadores, desde que, durante cem anos, eles entregassem ao dono 80%  da produção. Maravilhoso, não é?
Estão aí algumas das origens dos problemas que vivemos hoje.

RODOLFO LUCENA - E quais são esses problemas?
WILSON LEVY - Nós vamos falar na Marcha da Consciência Negra, denunciar neste domingo: a violência contra a juventude negra, que está sendo assassinada no Brasil inteiro, é uma política de extermínio, nós temos os dados estatísticos.
Além disso, as mulheres negras, apesar da Lei Maria da Penha, são as principais vítimas da violência domésticas. Sofrem mais do que as mulheres brancas.
Nossas conquistas estão sendo eliminadas.

RODOLFO LUCENA - Eliminadas pelo governo golpista, não é?
WILSON LEVY - Pelo governo golpista.
Nos governos de Lula e Dilma, e desde o governo Montoro, aqui em São Paulo, tivemos conquistas, graças ao enfrentamento que tivemos com elles.
Agora, para a negrada, o pior que acontece é o desemprego, que nos ataca mais ainda. A relação no mercado de trabalho é diferente. Eu sou contador, um contador negro ganha menos do que um branco...

RODOLFO LUCENA - E o que o movimento negro pretende fazer para enfrentar esses problemas, essas ameaças do governo golpista?
WILSON LEVY - Nossa luta por nenhum direito a menos significa nenhuma tolerância com esse governo; estaremos em todas as manifestações, participando de todas as atividades. Estamos junto com as centrais sindicais, discutindo a greve geral.
Neste domingo, a Marcha da Consciência Negra será “Fora Temer”, e não vai ser apenas na Paulista. Estamos colocando no Brasil inteiro, em todas as capitais, nossa marcha exigindo que permaneçam os direitos conquistados.
As formas de luta serão discutidas paulatinamente. O Movimento Negro é muito grande, tem muitas entidades, e estamos também próximos da Frente Brasil Popular, da Frente do Povo Sem Medo, temos uma ligação com os movimentos sindicais e com os partidos de esquerda que também estão nesta luta.

RODOLFO LUCENA - Quem quiser se aproximar do movimento negro, participar dele, o que deve fazer?
WILSON LEVY - A primeira coisa é vir para a Paulista neste domingo. Depois, há várias entidades do movimento negro em São Paulo, como o Movimento Negro Unificado e Coordenação Nacional de Entidades Negras, a Unegro (União de Negros pela Igualdade). Procure as entidades negras organizadas para continuar na luta.

RODOLFO LUCENA - Quem não tem a pele negra também pode participar?
WILSON LEVY - Nunca a luta do negro foi de exclusão da presença do branco. O branco, para estar nessa luta, tem de ter uma consciência do que é isso, não é para querer dominar, comandar apenas por ser branco. Nossa realidade é outra; toda a vez que um branco entra na cultura negra e tem uma relação de troca, ele é muito bem acolhido, seja em um baile black, seja em uma escola de samba, seja nas entidades negras.
A maioria das pessoas no Brasil é afrodescendente. Ao olhar para você, Lucena, ao ver seu nariz e o meu nariz aqui, ele é banto. Você tem, na sua árvore genealógica, a presença do negro. No Brasil, essa luta é de todos.



600 aos 60 – etapa 5 – 2016 nov 18
5,02 km caminhados em 56min01
Quilometragem acumulada: 19,32km

Tempo acumulado: 3h42min40

17.11.16

Algumas reflexões sobre o sono e a origem da árvore de Natal

Hoje acordei tarde. Bem tarde, para meus parâmetros: quase nove e meia da manhã, um inesperado sol já alto no céu paulistano, que nos últimos dias tem sido dominado por nuvens cinzentas e negras, por chuva e vendavais.
Não é que eu tenha dormido demais. Ao contrário, acho que dormi pouco e mal. Uma tosse maldita, intratável e alucinante, tomou conta de mim exato na hora de deitar; nem pastilhas supostamente curativas e carregadas de anestésico para as irritações gargantuais deram conta do recado.
Acabei dormindo, acho eu, por pura inércia, cansaço geral tomando conta apesar das tossidas e das dores. São muitas, as dores, especialmente nos ombros e no alto dos braços, coisas de artrite, artrose e outras bexigueiras infernais que atacam quem já passou do cabo da Boa Esperança  na distância vivida.
Vai daí que dormir até mais tarde não necessariamente significa ter dormido bem. Eu quero é mais, confesso, e bem que me dei a preguiçar antes de botar as pernas para fora da cama.
Afinal, na rua estava mais quente do que gostaria se fosse correr. “Mas você não vai correr!”, me disse para mim mesmo, puxando as orelhas. “Vai caminhar, e bem pouquinho!!” Bom, pouquinho para alguns, muito para outros, a receita do meu ortopedista é de ficar por volta dos três quilômetros por dia para não atazanar ainda mais o joelho fraturado pelo estresse da distância e das horas corridas.
Caminhando no plano, deixei o pensamento sair por aí. As ideias deram voltas e aportaram de novo na questão do sono; fiquei cheio de caraminholas, lembrando ter ouvido dizer, ao longo da vida, que velho precisa de menos horas de sono.
Será verdade?
Pesquisei um pouco sobre o assunto e lamento informar que os resultados são inconclusivos. A internet está cheia de referências a um estudo realizado em 2010 na Clinical Research Center da Universidade de Surrey, no Reino Unido, envolvendo 110 adultos com boa saúde e sem problemas de sono ou outras doenças específicas.
Eu sempre fico de pé atrás com esse tipo de pesquisa, com tão poucos indivíduos examinados. Mas os especialistas parecem aceitá-las como válidas, tanto que o trabalho foi publicado na revista “Sleep”, que é o órgão oficial  da Academia Americana de Medicina do Sono.
O resultado: adultos com idades de 66 a 83 anos dormem cerca de 20 minutos a menos que adultos entre 40 e 55 anos, que por sua vez dormem 23 minutos a menos que adultos jovens (entre 20 e 30 anos). Não vi exatamente quantas horas de sono foram consideradas adequadas para cada faixa etária.
Tem um porém: no mesmo ano de 2010, saiu o resultado de outra pesquisa, esta realizada por um cientista norte-americano, indicando que idosos que dormem pouco podem ter a memória e outras funções negativamente afetadas.
Sean Drummond, psicólogo da Universidade da Califórnia, testou os efeitos do sono em 62 voluntários, divididos em dois grupos: um com idade média de 27 anos e, o outro, de 68. Todos passaram duas noites em um laboratório.
Ele constatou o seguinte, segundo disse ao jornal Daily Mail:  "Quanto mais (o grupo mais velho) dormir durante a noite, mais eficiente é a função cerebral no dia seguinte. Eles ficam mais capazes para aprender e lembrar o material novo. Considerando adultos jovens, a quantidade de sono não é tão importante".
Bueno, a rigor as duas pesquisas não são contraditórias; esta última reafirma a importância de dormir bem. Talvez, porém, dormir bem também tenha a ver com dormir bastante; em geral, a maioria das pessoas precisa de sete a nove horas de sono.
Foi o que consegui descobrir nesse breve intervalo entre o final da caminhada e o sentar em meu escritório para contar essas histórias para você.
No meu percurso, de novo pela superplana avenida Doutor Arnaldo, percebi que os pinheirinhos de Natal já começam a tomar conta das bancas no tradicional mercado de flores e plantas que embeleza aquela avenida.

Por enquanto, pelo que vi, há apenas árvores pequenas e médias, nada daquelas gigantescas para colocar em jardins ou dominar  a sala toda. Também não são muito caras, considerando a escalada que os preços podem ter quando chega mais próximo da data festiva: um vendedor que consultei me disse que oferecia arvorezinhas de R$ 60 a R$ 220. 
Vai vendo...
Meu viés perguntador não ficou satisfeito com as informações mercadológicas dadas pelo vendedor de flores; fiquei questionando qual seria a origem dessa tradição. Por quê, afinal, usamos árvore enfeitadas no período natalino. E outra: por que o pinheiro?
De novo me vali da internet para encontrar respostas. Tenho bem claro que não necessariamente os resultados são confiáveis, ainda mais considerando que minha pesquisa foi rapidíssima (se desse muito tempo a ela, ficaria sem tempo para escrever este texto para você; de novo o tempo, ora o tempo...).
Consultei meia dúzia de fontes, verifiquei que todas elas diziam mais ou menos a mesma coisa e resolvi oferecer para você a que mais me pareceu, se não verdadeira ou legítima, pelo menos curiosa e razoavelmente bem apresentada.
Tem ainda um mérito a mais: foi escrita por uma moça (senhora? menina?) que leva Lucena no nome. Não tenho a mínima ideia de quem seja a escriba, Márcia de Lucena Saraceni. O blog em que ela escreve, Sabedoria Universal, diz apenas que é uma “autora eventual” –não faz parte, portanto, dos “donos” do site.
O texto da moça (senhora? menina?) não traz fontes nem referências. Mas é curioso e, pelo menos a meu gosto, vale a leitura.
Publico a seguir um trecho; para ler o conjunto dessa obra de Márcia de Lucena, clique aqui.
O pinheiro enfeitado tornou-se tão familiar na época do Natal que nem sabemos sua origem, mas esta tradição tem raízes muito mais longínquas do que o próprio Natal. Este costume nada tem a ver com o mundo cristão. Ele derivou de uma celebração pagã.
“Há muitos, muitos séculos, os povos costumavam celebrar o solstício de inverno – que é um fenômeno astronômico usado para marcar o inicio do inverno no Hemisfério Norte e ocorre por volta do dia 21 de dezembro, quando o sol atinge a maior distância angular em relação ao plano que passa pela linha do equador. É considerado o dia mais curto do ano. Esta data tinha grande importância para diversas culturas antigas que associavam, simbolicamente, a aspectos como o nascimento ou renascimento e realizavam celebrações e festivais ligados às suas religiões.
“Nesta época, os romanos enfeitavam árvores em honra de Saturno, deus da agricultura.
“Os egípcios traziam galhos verdes de palmeiras para dentro de suas casas, como símbolo de triunfo da vida sobre a morte.
“Nas culturas célticas, os druidas tinham o costume de decorar velhos carvalhos com maças douradas para festividades também celebradas na mesma época do ano.
“Os povos germânicos costumavam usar um pinheiro para celebrar esta data, e a árvore, sempre verde, simbolizava a energia vital e lembrava aos homens que, mesmo em pleno inverno, a natureza não está morta e se prepara para iniciar um novo ciclo de vida.
Com o que ficamos bem informados acerca das origens da árvore de Natal e podemos seguir para nossos afazeres outros.
Vamo que vamo!





600 aos 60 – etapa 4 – 2016 nov 17
3,35 km caminhados em 39min43
Quilometragem acumulada: 14,30 km
Tempo acumulado: 2h46min39



16.11.16

Um canto contra o câncer no rumo das 60 maratonas

Estou chegando aos 60 anos e não posso mais correr –pelo menos, pelos próximos 45 dias, mais ou menos. Minha última corrida, um treino gostoso com amigos percorrendo a região central de São Paulo—terminou antes de completarmos dez quilômetros. Dor, dor, dor, pontada terrível no joelho esquerdo me deixou a mancar o dia todo.
Era uma fratura por estresse, me disse dias depois o laudo da ressonância magnética que, orientado por médico que me atendeu no pronto-socorro. Achei que estava terminado meu projeto-sonho de percorrer, no ano em que completarei 60 anos, distância equivalente à de 60 maratonas.
Meu médico ortopedista-maratonista me proibiu de correr;  o corpo em ação ao longo do tempo colam o que foi rasgado no osso pelo estresse da distância, do peso e do tempo. Mas posso caminhar. Pouco, mas posso.
Então caminho. E, só de raiva (e de esperança, muita esperança), inicio já, agora, imediatamente um novo projeto, filhote daquele outro: a partir de dia 14 de novembro passado e até o dia do meu aniversário em 2017, 14 de fevereiro, pretendo completar seiscentos quilômetros de fio a pavio.
Hoje é o terceiro dia da jornada que, por enquanto, terá apenas caminhadas; haverei de voltar a correr, mas agora é o que temos. Trago, junto com minhas passadas, histórias de quem chega à velhice, de quem já está nela, de nossas lutas e desafios, de nossas conquistas, perrengues, dores e prazeres.
Meu percurso de hoje, seguindo sempre atrás de meu nariz, me levou a passar em frente ao portentoso prédio do Instituto do Câncer, um monumento de 112 metros de altura, 28 andares com um total de mais de 84 mil metros quadrados, que atende por mês cerca de seis mil pacientes.
O câncer está presente na vida de todos nós, velhos e jovens, doentes e são, não há quem não tenha tido amigo ou parente atingindo pela doença, quando não a gente mesmo...
Ao longo desses tantos dias de caminhada e corrida pelo mundo da Terceira Idade, vou falar de câncer várias vezes –pelo menos, é o que imagino.


Hoje falo apenas do hospital e das vezes que lá estive. Foram apenas duas, e não estava lá para visitar ninguém em particular nem para buscar ajuda, tratamento ou orientação qualquer que fosse: fui lá para cantar.
Na época, eu fazia parte do então chamado Coral da Fundap –Fundação do Desenvolvimento Administrativo, um dos tantos órgãos extintos pelo governo Alckmin. A entidade acabou, e o coral, que era mantido pela associação de funcionários da instituição e pela colaboração dos próprios coralistas, foi pro saco.
Nananina. Coralista também é bom de briga, e o grupo se reinventou, agora se chama Coral da Vila e está firme e forte cantando pelas esquinas do mundo, becos e bares e onde o povo quiser ouvir (encontre mais informações sobre os cantos da turma CLICANDO AQUI).
Na época, porém, era Coral da Fundap. Quando chegava o final do ano, éramos convidados a cantar em um monte de lugares, fazer aquele espetáculo de músicas natalinas, anunciar o Ano Novo, a paz na terra e a boa vontade entre os homens.
Cantávamos em estações do metrô, shoppings, lares de cuidado de velhinhos, clubes, onde nos quisessem. O maior impacto, porém, em mim e acredito que em todos os companheiros do coral, foi quando cantamos no Instituto do Câncer.
Na primeira vez, foi num fim de tarde de chuva forte, aquelas enxurradas de verão. Tínhamos cantado na estação Clínicas do metrô, recebendo muita energia, aplausos carinhosos (até entusiasmados, quero crer) do povo que passava. Seguimos direto, correndo pela avenida Doutor Arnaldo – a mesma que hoje foi palco de minha caminhada fraturada—até o prédio do hospital.
Lá chegando havia um aspecto meio secretivo para nossa entrada. Não de proibição ou rebeldia –ao contrário, fomos muito bem recebidos pelo pessoal do IC--, mas de respeito ao mundo em que entrávamos. Quanto poderíamos cantar, em que volume, com qual energia e com quê de alegria em um ambiente em que imperava a dor?
Poderíamos nos apresentar apenas nas enfermarias; nelas, em andares do alto, os pacientes já vinham recebendo tratamento, muitos apresentavam melhoras, eram alas de esperança e recuperação.


Aos primeiros acordes dos vocalizes –aqueles cantarolares que fazemos para dar uma acertada na voz--, já sentimos uma espécie de comunhão com o público que ali chegava, aos poucos, alguns em cadeiras de rodas, outras caminhando por suas próprias pernas, outros ainda carregando consigo instalações para que continuassem a receber sempre medicação intravenosa.
Os aplausos que recebemos transformei, em mim, por dentro, em lágrimas de alegria e de solidariedade com aquele pessoal. Mas não dava tempo para me entregar –nos entregarmos—a ter sentimentos ou a permitir que sentimentos embaçassem, embaralhassem o que estávamos fazendo, cantando contra o câncer.
As emoções eram de todos nós, como demonstra um texto que, mais tarde, uma companheira coralista escreveu. Coordenadora do coral, Eloisa Pires apontou essa memória daquele dia:
“O mais legal de cantar é quando você sente o efeito que a música tem sobre as pessoas. Um ato tão simples provoca uma cadeia de emoções das mais variadas. É uma troca de energia muito boa! Ontem foi um dia especial pra mim e acredito também pros meus amigos do coro. Foi uma maratona musical. Primeiro na Fundap, depois no metrô Clínicas e à noite no Instituto do Câncer de São Paulo (um lugar muito especial). Cinco horas de cantoria! Antes de dormir, deitada em minha cama, corpo destruído de cansaço, lembrei vários rostos sorridentes, abraços, acenos, olhos marejados, agradecimentos sinceros... E, na memória, o que disse um dos pacientes do Icesp: ‘Obrigado, vocês trouxeram a vida pra cá’. Que bom que a música tem esse poder!”
Talvez pelo poder da música, fomos convidados, de surpresa, a descer ao setor de quimioterapia, a ala mais dolorida do hospital, segundo nos disseram. Seria a primeira vez que um coral se apresentaria para aqueles pacientes, muitos deles entrevados já não pela doença, mas pelo tratamento, dolorido e quase destruidor, em muitos casos.
Ali cantamos para muitas portas fechadas ou apenas entreabertas, protegendo e respeitando a privacidade de cada um. De vez em quando, dava para perceber alguém que metia a cabeça por fresta da porta; havia mesmo quem chegasse ao corredor. Gente magra, esmaecida, lutadores pela vida que de repente víamos cantarolando nossos cantares, estalando dedos, treinando palmas, dizendo sem palavras: “Estamos juntos!”.
O cara que nos convidou, Guilherme Bena Vieira, assistente de diretoria do Centro Integrado de Humanização do Icesp, ainda hoje lembra de nossa apresentações e comenta:
“O ato de cantar é uma das formas mais singelas e acolhedoras que pode existir em qualquer setor da sociedade. Mas um coral cantar para os pacientes do Icesp (Instituto do Câncer de São Paulo) é um ato único de amor, onde a ressonância está estampada nos momentos de paz, esperança acolhimento e gratidão ao receber tal ação humanizador. Cada olhar recebido, cada lágrima de felicidade de um paciente, realmente, não tem preço, nos tornando mais humanos a cada dia. E o Coral Fundap, hoje Coro da Vila, sempre nos trouxe, com seu canto, essa mensagem de esperança e amor. Somos gratos por isso."
A gente é que saía agradecido de cada apresentação –eu participei de duas, maravilhosas. Nos faz acreditar na voz do povo, que diz “quem canta seus males espanta”.
Quem corre também. Ou quem caminha, quando não dá para correr.

Vamos que vamo!



600 aos 60 – etapa 3 – 2016 nov 16
3,5 km caminhados em 40min36
Quilometragem acumulada: 10,95 km

Tempo acumulado: 2h06min56

15.11.16

Segundo dia do resto de nossas vidas tem chuva e sol e dúvidas

Tem muita gente que diz –e a própria razão cartesiana apoia—que numa jornada o mais importante é o primeiro passo. Há que começar, tomar a iniciativa, sair da zona de conforto, tirar a bunda do sofá, se mexer, enfim.
Tudo bem, mas o que acontece depois do primeiro passo? Ou depois do primeiro dia de uma jornada que vai ter sei lá quantas manhãs? Ou depois do primeiro tiro de canhão? Ou da tomada revolucionária do poder?
Não basta começar, há que prosseguir. A palavra de ordem, espécie de lema de meus amigos do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra), é muito educativa e esclarecedora sobre a ordem dos fatores e a imperiosa necessidade de que se sigam e combinem: “Ocupar, resistir, produzir”.
Nem é preciso chegar a tempo. Nos meus tempos de coral –sim, fui um esforçado, mas nem sempre afinado, cantor no naipe dos baixos--, a gente, os coralistas, estava sempre nervoso às vésperas de alguma estreia.
Era quando estudávamos mais, preparávamos com mais intensidade, fazíamos sessões extras de ensaio, testávamos voz e organizávamos o corpo para a sessão que viria. Havia que debutar, dar o primeiro passo, mostrar o mundo nosso filhote musical.


O maestro, no entanto, experiente e calejado por centenas de momentos como aquele, não relaxava ao final do espetáculo. Cobrava presença no ensaio seguinte, que se seguia mais exigente até que os anteriores.
Isso porque se sabe: no segundo dia é que dá merda, o povo desafina, o solista esquece o texto, a prima dona vai de vestido rasgado, os baixos parecem ter engolido giz, contraltos brigam com tenores, sopranos desembestam de vez do jeito delas...
Hoje foi o segundo dia de meu projeto de percorrer, na chegada de meus 60 anos, distância equivalente à de sessenta maratonas. Plano esse que tem um filhote, a intenção pouco recomendável de rodar, caminhando e correndo, 600 quilômetros até a data exata de meu aniversário, 14 de fevereiro.
A ideia inicial era começar tudo no dia primeiro de janeiro de 2017, marco do ano novo. Uma fratura por estresse no joelho esquerdo, porém, jogou minha vida e meus planos de pernas para o ar. Se esperasse até a data marcada, haveria grandes chances de não atingir o objetivo.

Então eu, que não sou obrigado, resolvi começar já, porque depois é mais tarde. Ontem abri os trabalhos com uma caminhada de três quilômetros –que é o tanto que o meu prezado amigo ortopedista considera adequado para o presente estado do meu bendito joelho.
E hoje, será que prosseguiria? Pretendia caminhar pelo menos três quilômetros a cada dia, todos os dias, até o final do ano. Isso já me daria uma boa quilometragem acumulada para tornar menos pesados os 45 dias de 2017 que me levariam até meu aniversário.
Acordei de má vontade, cansado da noite mal dormida –dores nos ombros me fazem acordar várias vezes ao longo da noite. Para completar, cá em São Paulo chovia uma aguinha fina, penetrante, pentelha, cenário ideal para preguiçar e deixar as coisas para depois.
A questão é que os velhos não têm muito tempo (eu ainda não sou velho, faltam para isso três meses menos um dia). Há que aproveitar cada minuto do dia, descansar e agir. Por isso,  me fui.
Desta vez, saí com a companhia de minha mulher e de minha filha mais velha –espero, ao longo dessa jornada, ter a participação e o apoio de muita gente, com quem possa conversar e de quem possa tirar ideias e compartilhar conceitos sobre o que nos espera nesse momento.
Descemos os três a avenida Sumaré, que está no feriado –assim como aos domingo—parcialmente fechada ao trânsito de veículos.
Aproveitamos. E vimos muitos velhos e muitos jovens, muitos adultos e muitas crianças aproveitando as nesgas de sol que chegavam ao planeta em meio à nebulosidade e á instabilidade do dia.
É o que precisamos fazer. Curtir o que temos. E seguir em frente.
Vamo que vamo!


600 aos 60 – etapa 2 – 2016 nov 15
4 km caminhados em 49min42
Quilometragem acumulada: 7,45 km
Tempo acumulado: 1h26min20