9.12.16

Em duas etapas, dia tem maior quilometragem nesta jornada

Hoje foi um dia de recordes. Melhor dizendo, recorde: fiz a maior quilometragem desde o início desta jornada, em 14 de novembro último.
Foram oito quilômetros, quando o médico recomendou que, a essa altura do meu processo de recuperação, fizesse apenas algo em torno de quatro quilômetros de cada vez, no máximo quatro quilômetros e meio.
Não se pode brincar com uma fratura por estresse, e eu creio firmemente que não etsou brincando.
Minha jornada passou um pouquinho de oito quilômetros, mas foi em duas etapas.
Hoje, mais uma vez, usei a caminhada como meio de transporte.
Segui até o centro a pé, num trajeto de cinco quilômetros bem medidos, parta participar de uma reunião da Comissão Técnica de Mobilidade a Pé e Acessibilidade da Associação nacional de Transportes Públicos.
Meu objetivo é conhecer, aos poucos, essa plêiade de entidades que atuam no território de caminhantes e corredores. Elas congregam gente muito bacana, especialistas em áreas que não imaginava existir, gente interessada em democratizar a cidade e em facilitar a vida dos cidadãos.
Os objetivos do grupo, ainda que expressos em linguagem formal e com laivos de burocracia, já demonstram sua abrangência e seu espírito de buscar a equidade na urbe. Ou seja: tentar garantir que os desiguais sejam tratados desigualmente, e que os mais desprotegidos recebam mais proteção do que os menos protegidos.
Conversamos bastante. Ao longo dos próximos milhares de quilômetros que vamos percorrer juntos neste blog trarei para você histórias e ações desses grupos e de algumas da pessoas que neles atuam.
Hoje não vai dar. Mesmo porque, ao sair da reunião, não tive tempo de conversar mais demoradamente com a turma, pois logo enveredei para a segunda etapa de minha jornada, esta mais deliciosa.
Com um baita solaço, caminhei mais três quilômetros para chegar até a Feira Russa de Natal, realizada na Catedral ortodoxa de São Nicolau.
O objetivo eram as comilanças disponíveis no evento, coisa muito séria. Havia doces sólidos, cremosos, folhados, açucarados, com geleias e frutas, com nozes e pão de ló, com o que sua imaginação conseguir concatenar. Os salgados também eram de grande substância, com sanduíches de salmão defumado, arenque, bolinhos de peixe, assim como tortas de batata e carne, pastéis vários e peixes defumados.
Foi bom para recuperar as forças do dia e me preparar para as novas etapas que vêm por aí.
Vamo que vamo!!!

Caminhada até o local da reunião da Comissão de Mobilidade a Pé

Caminhada sob o sol, no centrão, até a Feira Russa de Natal

600 aos 60 – etapa 25 – 2016 dez 09


8,11 km caminhados em 1h43min09

Quilometragem acumulada: 100,94 km

Tempo acumulado: 21h49min33




8.12.16

Gremistas festejam penta e gritam “FORA, TEMER!”

Eu ia deixar quieto. A caminhada de hoje foi muito cansativa. Ainda que de meros quatro quilômetros, ocorreu sob sol forte ---até parece que está chegando o verão. Voltei fazendo previsões terríveis sobre a hora em que poderei voltar a correr, imaginando que não conseguirei manter o ritmo e a distância necessários para enfrentar meu desafio.
É ocioso, porém, tentar prever o futuro. Melhor ficar no presente, festejando o que se tem, quando se tem.
Pois os gremistas temos muito a festejar. Na noite desta quarta-feira, sete de dezembro, o Imortal Tricolor voltou a ser campeão. As condições foram muito especiais.
O jogo entre Grêmio e Atlético Mineiro foi a primeira partida oficial de futebol realizada no Brasil desde o terrível acidente com o avião que levava o time do Chapecoense para a Colômbia, onde disputaria o título da Copa  Sul-Americana.
Foi a primeira grande final do Grêmio no seu novo estádio, a Arena Tricolor.
Deu tudo certo, e o time virou pentacampeão da Copa do Brasil, o primeiro e o único a ostentar tantos galardões.


Tomo emprestado do grande jornalista Juca Kfouri o resumo da ópera: “O gremista jamais esquecerá a noite de 7 de dezembro de 2016. Em seu novo estádio, que hoje comemora quatro anos, o Tricolor gaúcho empatou 1 a 1 com o Atlético Mineiro, tornou-se o primeiro pentacampeão da Copa do Brasil, comemorou o primeiro título na Arena Grêmio e pôs fim a 15 anos sem uma conquista importante”.
Kfouri, que comandava a revista esportiva “Placar” quando o Grêmio foi campeão do mundo, em 1983, foi o responsável, naquela oportunidade, pela mais bela manchete da história da crônica futebolística: “A terra é azul!”
Na crônica de hoje, ele continua, falando sobre as condições em que a partida foi disputada: “[O Grêmio] Jogou o tempo todo com a vantagem que havia conquistado no Mineirão, fez 1 a 0 no fim com Bolaños e até o gol que sofreu, também de um equatoriano, Cazares, foi histórico, porque de antes do meio de campo”.
Juca conclui lembrando o civismo e o espírito solidário dos jogadores: “A Copa era a do Brasil, mas a jornada foi também da Colômbia e do Equador. Uma noite de futebol que começou com tocantes homenagens às vítimas da tragédia com a Chapecoense, em Porto Alegre e em Curitiba, onde a Chape deveria ter enfrentado o Atletico Nacional, terminou com uma festa gigantesca de mais de 55 mil gremistas no estádio tomado de azul.”
Bastaria isso, mas não.


Há que lembrar que a torcida gremista também é militante das lutas pela democracia no Brasil. Antes do jogo, torcedores tricolores ligados ao grupo Levante Gremista se somaram a apoiadores do Atlético para, solidariamente, gritaram: “Fora, Temer!”
Levaram painéis que tinham escudos dos dois times e, no verso, letras formando as palavras de ordem.


Além do grito contra o golpista usurpador da cadeira da presidenta Dilma, a torcida declarava: “Não à PEC 55”, que é a chamada proposta de emenda constitucional “da morte”, que congela os gastos em saúde e educação e limita os investimentos do Brasil em ciência e tecnologia.
E eu digo: salve a torcida do Grêmio!
Vamo que vamo!!!



600 aos 60 – etapa 24 – 2016 dez 08

4,51 km caminhados em 1h02min02

Quilometragem acumulada: 92,83 km

Tempo acumulado: 20h06min24


7.12.16

Reforma da Previdência é crime contra a juventude brasileira

As ruas contorcidas e encabritadas que margeiam a região do Pacaembu, ainda um pouco acima do território de Higienópolis, eram hoje uma perfeita imagem das caraminholas que rodavam pela minha cabeça enquanto caminhava por ali.
Além do sol e do peso da idade –como se sabe, estou rapidamente chegando ao terreno oficialmente considerado velhice--, meus pensamentos eram bombardeados por reflexões sobre a bagunça institucional e política instaurada neste país desde o golpe jurídico-parlamentar que derrubou a presidenta Dilma.
Valho-me das palavras do sociólogo Aldo Fornazieri, que assim comentou as mais recentes manobras intragolpista e extragolpistas:
“Crise Institucional se agrava: Tem um ditado que diz que "depois que passa um boi, passa a boiada". O impeachment representou a quebra da ordem constitucional. Agora há um conflito aberto entre os poderes da República. Os partidos e a política estão falidos poque apodreceram. O Partido do Estado, que é também o Partido da Moralidade (procuradores, judiciário, Receita e Polícia Federal) agem para dar um rumo ao pais, usando expedientes legais e extralegais. Não existe uma força estabilizadora. A crise vai se agravar. Pela lei, o Renan deveria ser preso. Se não for preso, acaba o pouco de autoridade moral que ainda resta ao STF.”
Que eu saiba, o ditado é “onde passa um boi, passa uma boiada”, mas o espírito é o mesmo.
Para piorar as coisas, o presidente usurpador finalmente enviou ao Congresso seu plano de reforma da Previdência. É uma desgraça, acredito mesmo que algum advogado criativo poderia processar o Provisório (é assim que o grande jornalista Fernando Morais trata o golpista Temer) por tentativa de homicídio: o projeto assume o risco de a pessoa morrer antes de ter chances de se aposentar.
Sindicatos, centrais sindicais em geral e entidades de aposentados em particular já apresentaram toda sorte de críticas ao projeto, desmontaram sua lógica, apontaram sua ineficiência e por aí vai.
Nenhum dos textos que li, porém, foi tão dramático e tão contundente quanto o sofrido depoimento da jovem jornalista Renata D`Elia, que é paulistana da zona norte. 
Ela mostra como a juventude trabalhadora está sendo afetada e será vítima da tala reforma da morte. Pedi licença para reproduzir o artigo neste espaço, e Renata, que é pesquisadora e consultora de comunicação, autora do livro-reportagem “Os dentes da memória — Piva, Willer, Franceschi, Bicelli e uma trajetória paulista de poesia”, gentilmente concordou.
O título quem escolheu fui eu –o original foi colocado direto nas redes sociais, sem a introdução; a foto, selecionei do material publicado por Renata nas redes sociais.
Com o que, vamos ao texto sem mais delongas.


MEUS TRINTA E TRÊS ANOS

Bom dia. Sou brasileira, urbana, branca, de classe média; frequentei ótimas instituições de ensino privado; falo três línguas; sou uma privilegiada em muitos aspectos. 
Vou completar 33 anos. Somando todo o tempo em que fui contratada por CLT no mundo moderno do “empreendedorismo” e da pejotização, não dá dois anos de contribuição com o FGTS e a Previdência.
A carga tributária é alta. O plano de saúde que eu pago já me custa, hoje, o olho da cara. Os cursos que pretendo cursar custam o olho da cara e estão sendo adiados por conta de uma crise político-institucional-econômica que parece infinita. Entre os que se encheram de cursos caros, há também os que amargam a fila de espera na vala comum.
Não dá pra comprar imóvel porque os preços continuam altos e se arriscar em dívidas de 30 anos não parece uma boa ideia nem para quem se acha são e salvo no emprego formal registrado, participando de eventos corporativos com guaraná e empadinha de graça. Imagine pra quem não tem FGTS pra sacar e dar de entrada.
Já faz tempo que é melhor não contar com a educação e com a saúde pública, sob risco de colapso total do sistema, que vai sendo sucateado. A população aumenta, a inflação e o custo de vida aumentam e a expectativa de vida cresce enquanto isso.
O brasileiro tem cada vez menos sobra financeira para aplicar, investir, pagar seguro de vida e acidentes, botar na previdência privada. Com a aprovação da PEC 55, os danos a longo prazo serão obviamente penosos para saúde e educação públicas, exceto para aqueles que vivem de gráficos.
A educação e a saúde privadas, tirando as da elite, costumam ser péssimas: basta ver os índices de compreensão matemática e analfabetismo funcional da população - isso inclui os bacharéis produzidos por fábricas de diploma de quinta categoria. Nossa produtividade profissional, que não tem necessariamente a ver com horas trabalhadas, é baixa de acordo com esses índices gringos que o povo da empadinha com guaraná adora.
Com a aprovação da reforma da previdência, proposta ontem pelo governo federal, teremos todos que trabalhar por 49 anos dentro da CLT para recebermos o teto da aposentadoria. Isso se os infartos, depressões e AVCs em massa não nos dizimarem antes --não é difícil.
Minha mãe está para se aposentar pelo teto nas regras velhas e, mesmo assim, teria uma importante queda de qualidade de vida se dependesse só disso. Já é e será cada vez mais difícil viver e envelhecer para quem não está no topo do topo da pirâmide.
Agora imagine o efeito das novas regras em massa para o trabalhador braçal e para quem não tem praticamente chance alguma de mobilidade social nesse momento e nos anos vindouros. Essas pessoas são a maioria. E nós estamos mais perto dessa turma do que da turma que toma as decisões e bebe whisky com deputados enquanto nos alimenta à base de salário mediano, guaraná e empadinha.
Aí eu entro no site do jornal de manhã e dou de cara com depoimento de presidente de empresa privada, hoje menos bilionária do que ontem, enrolada até o pescoço em esquemas de corrupção e outros crimes, e o cara tá lá dissertando, do alto de sua torre de marfim na Marginal Pinheiros, sobre como o país precisa urgentemente aprovar as reformas exatamente como elas estão para voltar a crescer. Do lado de fora, o rio morto fede, a poluição assusta, o trânsito irrita, os céus fazem chover canivetes, os reféns são zumbis portadores de vale-refeição.
E tem ainda um bando de hienas comendo estrume e dando risada em velório. Ô, se tem!


VAMO QUE VAMO!!!

600 aos 60 – etapa 23 – 2016 dez 07

4,52 km caminhados em 59min16

Quilometragem acumulada: 88,32 km

Tempo acumulado: 19h04min22


6.12.16

Caminhada como meio de transporte precisa ser protegida

Cada vez mais tenho usado as caminhadas deste projeto não apenas como uma forma de fazer exercício e tentar impedir o assombroso crescimento de minha barriga, mas também como meio de transporte, como forma de ir a lugares, encontrar pessoas, chegar a pontos de reunião.
Foi o que fiz hoje, diz em que tomou posse o novo conselho executivo do Conselho Municipal de Transportes e Trânsito, de cuja existência eu nunca tinha ouvido falar até poucas semanas atrás.
Não é totalmente verdade, claro. Eu provavelmente já lera a respeito em algum momento, mas nunca me dei efetivamente conta; não tinha noção das atividades desse órgão nem de sua importância na vida da cidade.
Criado pelo prefeito Fernando Haddad em 2013, o “Conselho Municipal de Transporte e Transito-CMTT é a instância que propicia a participação e o controle social da ação da mobilidade na cidade de São Paulo”.
Mural muito lindo que vi durante minha caminhada de hoje, perto do viaduto 9 de Julho
Ele é integrado por representantes do poder público e da sociedade civil –aqui, com membros eleitos ou indicados por associações. Tem três câmaras temáticas: bicicleta, serviço de taxi e mobilidade a pé.
O Conselho foi muito atuante, ao longo da gestão Haddad, na discussão e implantação de projetos como os das ciclovias e ciclofaixas, assim como dos corredores de ônibus e da redução da velocidade nas marginais e outras vias da cidade.
Na reunião de hoje, que foi realizada no auditório do Sindicato dos Engenheiros, no centro da cidade, conversei com os dois representantes da sociedade civil na Executiva do Conselho e também com uma dirigente de entidade que atua em defesa dos pedestres.
Coloco os vídeos em seguida, mas preciso antes destacar uma informação que a caminhante Mity Hori me passou: um terço das viagens feitas em são Paulo é realizada a pé, a maioria por mulheres. Veja o que mais ela nos conta.

Rafael Calábria, do grupo CIDADE A PÉ, faz um breve balanço do trabalho realizado e aponta a bandeira de luta dos coletivos de ciclistas e pedestres: “Nem 1 cm a menos, nem 1 km/h a mais”.

Ana Carolina, por sua vez, destaca outros problemas que envolvem a vida do cidadão que anda a pé na cidade; um deles é a privatização das calçadas.

VAMO QUE VAMO!!!

600 aos 60 – etapa 22 – 2016 dez 06

5,22 km caminhados em 1h00min46

Quilometragem acumulada: 83,75 km


Tempo acumulado: 18h05min06

5.12.16

Dia de descanso da escrevinhada sem perder ritmo da caminhada

Exigências da vida determinam que hoje não poderei dedicar algumas horinhas a contar a história do dia.
Fica, de qualquer forma, o registro de mais uma caminhada, que acrescenta novo trecho ao meu percurso, rumo a totalizar seiscentos quilômetros até o dia 14 de fevereiro próximo.
VAMO QUE VAMO!!!


600 aos 60 – etapa 21 – 2016 dez 05

4,01 km caminhados em 52min28

Quilometragem acumulada: 78,53 km


Tempo acumulado: 17h04min20

4.12.16

Saudades de meu avô, que trabalhou com os mineiros da pioneira Arroio dos Ratos

O pai de meu pai era alfaiate. No início da carreira, trabalhou como empregado no armazém nos mineiros, em Arroio dos Ratos, onde nasceu a mineração de carvão no Brasil.
Minha avó era dona de casa. Nos primeiros anos do casamento, fazia potezinhos de creme de laranja para vender. Tinha horror à mina, sofria a cada vez que o apito de alarme soava anunciando mais um acidente nas profundezas da terra.
Meu tio Ariovaldo diz que se lembra de histórias contadas pela irmã mais velha, minha querida tia Alicinha, que já se foi: “Quando tocava o apito, a família já sabia, os irmãos esperavam passar o trem, que corria perto dos fundos da casa, e levava mortos e feridos como carga em direção ao hospital”.

Cenas horríveis no cotidiano. Tinha razão então, minha vó, em  sonhar em ir morar em Porto Alegre. Ela não queria que os filhos virassem mineiros.
Tive a felicidade de conhecer os dois, comer as delícias que minha avó fazia, escutar as histórias que o meu avô contava, torcer com ele pelo Grêmio.
Histórias da vida deles e de seus antepassados povoaram meus pensamentos na caminhada de hoje, Dia dos Trabalhadores em Minas do Carvão.
Conta-me a sabedoria internética que a data é festejada no mundo inteiro –pelo menos, na parte do mundo em que domina a religião católica. Isso porque os mineiros adotaram como seu o dia dedicado a Santa Bárbara, tida como padroeira da categoria.
De fato, porém, não é tão universal assim. Nos Estados Unidos, por exemplo, desde 2009 o Dia dos Mineiros é seis de dezembro. Trata-se de uma homenagem à memória dos 362 homens e meninos que perderam a vida num acidente em seis de dezembro de 1907 em Monongah, West Virginia.
A história do trabalho em minas de carvão é a história de uma sequência brutal de acidentes e desastres –muitos deles evitáveis, se a prioridade em algum momento fosse a segurança dos trabalhadores, e não a produtividade do trabalho.
O carvão é o combustível da história recente da humanidade, está nas fundações da revolução industrial, no coração do sistema capitalista. E está nas origens da minha vida: eu não existiria se não existissem as minas de carvão do Rio Grande do Sul.
O avô de minha avó paterna veio para o Brasil para trabalhar nas minas de Arroio dos Ratos, uma cidadezinha no interior do Rio Grande do Sul, a pouco mais de sessenta quilômetros de Porto Alegre (olhaí o número 60 aparecendo de novo: vou fazer 60 anos, quero completar no ano a distância de 60 maratonas, aquele coisa toda).
Desde meados do século 19 sabe-se que a região é rica em minério, conforme contam os registros do Museu Estadual do Carvão do Rio Grande do Sul (Clique AQUI para saber mais sobre o museu).
“Já em 1853 o capital privado, aliado ao capital estatal (por intermédio do então presidente da província, Conselheiro Luiz Vieira Cansação de Sinimbu), iniciava suas pesquisas. James Johnson e mais doze mineiros de origem inglesa foram os primeiros a se aventurarem, mas só em 1866 o governo Imperial concedeu permissão ao inglês para extração comercial do carvão em uma mina localizada na região da atual cidade de Arroio dos Ratos.”
Esse James Johnson criou então a The Imperial Brazilian Collieries C. Limited e tratou de  buscar especialistas britânicos para ajudar na empreitada, servindo como gerentes ou chefes e chefetes dos trabalhadores brasileiros. 
Um deles foi John Webster, técnico especializado em equipamentos a vapor, que em 1872 saiu de Liverpool para se aventurar nas minas brasileiras.  Aportou no Rio de Janeiro e, de lá, tomou um cargueiro com destino ao porto de Rio Grande.
A última etapa da viagem, como diz documento que consegui com José Carlos Webster, meu primo em segundo grau e pesquisador da genealogia da família, foi feita no vapor “Guaíba”, que fazia a linha da lagoa dos Patos.
Em algum momento ao longo dos dias sem fim (e das noites solitárias) pelo oceano Atlântico, John conheceu a gentil e intrépida Sarah  Plant Bond, que veio ao Brasil para trabalhar como preceptora de James Johnson, o patrão e fundador da Imperial Brazil Colleries.

Imagem gentilmente cedida por José Carlos Webster
Apaixonaram-se e se casaram em dez de maio de 1873 na igreja matriz de São Jerônimo, cidade da qual Arroio dos Ratos era na época mero distrito (a emancipação só aconteceu em 1964).
Tiveram sete filhos, mas o que interessa para a minha vida é um rapaz chamado Eduardo. De acordo com pesquisa feita por meu tio-avô Hugo Webster, “Eduardo nasceu em quatro de fevereiro de 1886 e morreu em oito de setembro de 1939, de asma brônquica e insuficiência cardíaca.  Casou com Alice Leite de Araújo, filha de Antonio Rodrigues de Araújo e Joaquina Leite de Araújo”.
Alice, mulher de Eduardo, gerou onze filhos. Um dele foi Alda, minha avó paterna, aquela que vendia creme de laranja em potinhos, tinha pavor do apito da mina de carvão e não queria que seus filhos virassem mineiros.
Com o que pretendia encerrar a história de hoje, não fosse o fato de ter lido, no ano passado, um maravilhoso estudo sobre a vida e as lutas dos mineiros nos Estados Unidos, nas primeiras décadas do século passado.
O trabalho e o sofrimento eram semelhantes ao que enfrentavam os mineiros do Rio Grande do Sul, a julgar pela dissertação de mestrado “Sob o Fardo do Ouro Negro”, de Felipe Klovan (leia o documento clicando AQUI).
Sobre o tal livro norte-americano, produzi uma resenha, que foi publicada na “Folha de S. Paulo” e que reproduzo a seguir.

HISTORIADOR DESCREVE LUTAS POR 

DIREITOS DE MINEIROS NOS EUA

"Meu Deus! Eles estão nos bombardeando", gritou um mineiro ao ouvir o som das explosões nas montanhas da Virgínia Ocidental. Por ordem do governo, pequenos biplanos voavam baixo, circulando sobre os esconderijos de grevistas. Lançavam bombas de gás e outras feitas de tubos de ferro recheados de porcas e parafusos, que podiam ferir, aleijar e até matar.
Era o Dia do Trabalho, em setembro de 1921. Pela primeira e única vez na história, norte-americanos foram vítimas de bombardeio em seu próprio solo. E os atacantes eram outros norte-americanos, a serviço do Estado, sob ordens do xerife de Logan, Don Chafin, ferrenho opositor do direito dos trabalhadores à sindicalização.
A cena foi um dos momentos decisivos na chamada "segunda guerra mineira", em que mercenários pagos pelos donos de minas de carvão, ao lado de forças policiais locais e estaduais, enfrentaram grevistas armados, que perseguiam não apenas os mais elementares direitos trabalhistas mas principalmente o direito à livre associação.
O governo estadual já tinha imposto a Lei Marcial, mas parecia não ter forças para subjugar os grevistas. Forças de apoio aos donos das minas disparavam rajadas de metralhadora contra os trabalhadores; em uma das batalhas, 30 mineiros teriam sido assassinados.
Então, mais uma vez, o governo dos Estados Unidos mandou forças do Exército para controlar conflitos trabalhistas na região. No dia 2 de setembro, o secretário da Defesa ordenou o despacho de tropas para a região montanhosa, rica em minério, onde nas últimas décadas do século 19 se desenrolou a "Corrida do Carvão".
A partir de 1880 e até a primeira década do século passado, companhias mineradoras se atiraram vorazmente sobre a região até então inexplorada. Cada uma tentava alugar ou comprar o máximo possível de terreno; outras, endinheiradas, compravam empresas menores -com esses métodos, a Consolidation Coal Company chegou a ter 50 mil acres de terra nos territórios mineiros da Virgínia.
Elas ocupavam uma terra quase sem lei, esquecida, longe dos poderes centrais do país. Ali, em pouco tempo, as operadoras das minas se transformaram em versões "modernas" de senhores feudais, fazendo dos trabalhadores livres pouco mais que escravos, servos que moravam em barracos alugados pelos patrões, compravam em lojas pertencentes aos patrões, rezavam em igrejas erguidas pelos patrões, recebiam pagamento definido pelos patrões e eram presos e julgados em instituições a serviço das mineradoras.

LUTAS CAPITALISTAS

A história da exploração do carvão nas montanhas da Virgínia Ocidental é, de certa forma, a história da implantação do capitalismo no mundo e das lutas que o devoram e, não poucas vezes, fazem com que cresça. Ela é contada com rigor acadêmico e profusão de dados em "The Devil is Here in These Hills" [O demônio está nestas colinas], lançado no início deste mês nos Estados Unidos.
James Green é um dos mais renomados historiadores do movimento sindical norte-americano. Professor emérito da Universidade de Massachusetts, doutor em história, Green vem há anos escrevendo sobre conflitos violentos entre capital e trabalho. Seu primeiro livro, "Morte no Mercado", de 2006, retrata o surgimento do movimento sindical em Chicago.
Apesar de o trabalho ser amplamente referenciado, a leitura é escorreita. Green combina dados, números e descrições com depoimentos dos próprios atores -líderes sindicais, proprietários de minas, policiais, xerifes, governadores, presidentes, comandantes militares- para criar um quadro vivo dos movimentos.
O próprio título é emprestado do texto de um comandante militar que avaliou a situação local depois de um conflito sufocado por intervenção da milícia estadual. "Deus não circula nessas montanhas", escreveu em seu relatório o general Charles Elliot, comandante da Guarda Nacional. E continuou: "O Demônio está aqui nestas montanhas, e o Demônio é a cobiça".
Do calor das batalhas emergem figuras como a viúva agitadora Mother Jones, que os mineiros consideravam uma espécie de anjo da guarda, e os donos de minas classificavam como "a mulher mais perigosa da América". Também aparecem as ações da imprensa, da Justiça e do Estado, que assumem diferentes papéis de acordo com o momento nas três primeiras décadas do século 20.
E assim, com vigor e emoção, Green consegue contar, como diz no prólogo, "a história da luta do povo pela liberdade de pensamento e pela liberdade de associação em locais onde os direitos dos proprietários reinavam de forma suprema até então".

VAMO QUE VAMO!!!



600 aos 60 – etapa 20 – 2016 dez 04

4,75 km caminhados em 54min47

Quilometragem acumulada: 74,52 km

Tempo acumulado: 16h11min52


 


3.12.16

Com uma perna só, atleta amputado enfrenta 89 km

Neste Dia Internacional das Pessoas com Deficiência, estabelecido pelas Nações Unidas no final do século passado, faço aqui uma homenagem aos atletas com necessidades especiais.
Conto a história de Paulo Almeida, que teve uma perna destruída em um acidente de trabalho e acabou se tornando maratonista de altíssima qualidade, chegando mesmo a disputar provas mais longas: foi o primeiro atleta amputado a enfrentar a temida Comrades. Realizada na África do Sul, é a mais importante ultramaratona do mundo, reunindo mais de dez mil pessoas em cada edição, num trajeto encabritado de 89 quilômetros (ou 87 quilômetros, conforme o sentido em que é percorrida e que se alterna ano a ano).
Conheço Paulo de vista há muitos anos, em encontros passageiros em corridas ou treinos pelas alamedas do Ibirapuera ou pelas ruas da cidade. Tem passada firme e rápida, mal fazendo barulho ao bater no chão com sua prótese especial para corrida.
Tive uma oportunidade de fazer uma longa e proveitosa caminhada ao lado dele no final de 2013, quando eu realizava um projeto jornalístico-esportivo-cultural em homenagem a São Paulo, que em janeiro de 2014 faria 460 anos. Paulo me acompanhou em uma das etapas do projeto (CLIQUEAQUI PARA VER A HISTÓRIA), que era de percorrer 460 quilômetros pela cidade, mergulhando em suas entranhas, descobrindo lugares e personagens.
Aquele projeto, por sinal, foi uma das inspirações para minha empreitada de agora, em que uso a corrida e as caminhadas para discutir questões envolvendo a vida do povo da terceira idade, que chega aos sessenta anos, de acordo com definição da Organização Mundial da Saúde e do Estatuto nacional do Idoso.
Sigo fazendo minhas caminhadas diárias. Neste Dia Internacional das Pessoas com Deficiência, meus pensamentos e minha escrita ficam com Paulo de Almeida.
Ele é quase uma lenda entre os corredores com necessidades especiais; a bem da verdade, é admirado por todos nós. Foi cinco vezes campeão da maratona de Nova York na categoria de amputados, duas vezes ouro em uma maratona no Brooklin, bicampeão em Chicago, tricampeão na maratona de São Paulo.
Em 2001, tornou-se o primeiro atleta amputado a participar da mais importante ultramaratona do mundo, a Comrades, na África do Sul. Naquele ano, não conseguiu completar a prova no tempo limite –sua prótese quebrou no km 81.
Mas estou me adiantando. Reproduzo a seguir reportagem que escrevi sobre ele e foi originalmente publicada na revista “O2” em 2014.



A COMRADES NUM PÉ SÓ

O plantão estava tranquilo, uma beleza. Claro que ninguém gosta de trabalhar na virada do ano, ficar preso no escritório enquanto o mundo todo festeja. Ainda mais longe de casa, sem os amigos, a família. Tirando isso, porém, o dia seguia sem maiores problemas. Não havia novas compras nem equipamentos a serem entregues, não estava prevista a chegada de ninguém. Tudo ia seguir em brancas nuvens, 1998 chegaria cheio de promessas de um futuro ainda melhor.
Até que se deu o desastre.
Os comandos da empilhadeira elétrica entraram em curto, e a máquina desembestou na plataforma, fazendo tudo tremer, acelerando como se estivesse roncando motores numa largada de Fórmula Um. E se foi embora.
“Eu não consegui frear a empilhadeira. Ela caiu da plataforma, eu caí junto. Saltei, mas ela me pegou. Caiu em cima do meu pé, deu esmagamento na hora.  Para tirar, tiveram de chamar os bombeiros, porque ninguém  conseguia mexer  a empilhadeira. Quando tentavam movimentar a minha perna debaixo da empilhadeira, o asfalto afundava. Era mais ou menos 16 mil quilos. A amputação foi traumática, foi na hora.”
Acabou o plantão para Paulo de Almeida. A virada do ano de 1997 para 1998 ele passou em um hospital em Itapecerica da Serra, onde aconteceu o acidente. “Fizeram os primeiros socorros lá e depois me trouxeram para o Hospital Metropolitano, em São Paulo. Eu peguei uma infecção hospitalar, precisei ficar em isolamento, passei mais ou menos 30 dias nisso. Tiver de fazer quatro amputações. Ia dando gangrena e amputação ia subindo. Hoje eu tenho mais ou menos 20 cm de perna abaixo do joelho”, relembra ele.
Com esse pedaço de perna, mais uma prótese especial, Paulo corre pelo mundo inteiro dando exemplo de força de vontade e espírito esportivo. Ele que nunca correra provas longas antes do acidente, hoje, aos 47 anos, já tem no currículo de atleta amputado cerca de 60 maratonas e outras provas longas, inclusive duas Comrades, a mais famosa ultramaratona do mundo, realizada sempre sob forte calor em uma estrada cheia de longas subidas e descidas, na África do Sul.
Mora em um belo apartamento na zona sul de São Paulo, é casado, tem um filho. Corre todos os dias, de madrugada, rodando pelas ruas de São Paulo. Passa bastante tempo com a família, que adora. Escolhe a dedo as provas em que vai participar, faz palestras motivacionais. “Sou um cara feliz”, me diz ele em uma conversa no bosque do parque da Independência, depois de uma caminhada de mais de dez quilômetros pela cidade, no final do ano passado.
Mas não foi sempre assim. “Quando adolescente, não estava satisfeito com a vida em Caruaru, eu era meio que ovelha negra da família, eu era um moleque meio virado”, lembra ele.
Paulo nasceu em 1965, em uma cidadezinha do interior pernambucano que tem sertão até no nome: Sertânia. Terra boa, em região escolhida pelos antigos donos do Brasil: por ali viveram os índios cariris –piripães, caraíbas, rodelas, jeritacés, todos da nação tapuia, que acabaram escravizados quando do início da povoação pelos brancos, no século 18.
Para a família Almeida, porém, depois da metade do século 20, a cidade não trazia esperança. Com o menino Paulo ainda bebê, mudaram-se todos para Caruaru, onde ele cresceu e virou aquele moleque “meio virado”. Tão insatisfeito e rebelde que um dia disse, sem falar: “Deu, acabou”. E se mandou da terrinha.
“Eu vim dentro de uma carga de um caminhão. O cara estacionou o caminhão próximo da minha casa, eu sabia que ele estava vindo para São Paulo, então peguei uma sacolinha de supermercado, coloquei algumas roupas, um short, umas camisetas e entrei na carga do caminhão do cara. Juntei uns cocos verdes e fiquei lá. Quando chegou à Bahia, a fome apertou, só então o cara descobriu que estava me trazendo de clandestino”, conta Paulo.
O caminhoneiro não sabia o que fazer, primeiro ficou furioso, queria mandar o garoto de volta, avisar a família, fazer alguma coisa, temendo ser acusado de qualquer coisa. Já maior de idade, Paulo argumentou que não ia adiantar, que não voltaria, que precisavam dar um jeito...
Acabaram chegando  a um acordo, e o menino de 19 anos seguiu viagem como uma espécie de clandestino conhecido... Sem dinheiro, dava jeito de fazer uma boquinha nem sempre dentro dos cânones sagrados da legalidade. “Eu entrava nos restaurantes, comia, depois saía de fininho. Entrava na carga do caminhão de novo. Vim do Nordeste para cá fazendo isso. Foram três dias e meio de viagem.”
Boa praça, o motorista largou sua carga indesejada na estrada, antes de chegar ao destino. Paulo ficou na Castelo Branco, pertinho de Osasco, e tratou de descobrir um teto. Passou dias na estação de trem da cidade, dormindo onde dava, comendo o que encontrava, vivendo como lhe fosse possível. Precisava mesmo era de um emprego.
Conseguiu uma vaga numa empresa, ajudante, pau para toda a obra. Não ganhava quase nada, mas a firma tinha alojamento. Melhor do que dormir na rua.
Por pouco que fosse, o salário lhe permitia pensar em melhorar de vida. Do alojamento, saiu para morar em uma pensão.  Mais um tempo, o grande salto, alugou um barraco para viver sozinho, no bairro operário Veloso, em Osasco. “Eu olhava para o barraco, pensava, é aqui mesmo que eu vou morar, aqui vou ser feliz.”
Comprou móveis, uma cama, um aparelho de som. “Um belo dia, depois que eu comprei tudo para minha casinha, deu uma chuva lá e encheu o meu barraco, eu perdi tudo... Eu achava que estava indo para um lugar melhor e fiquei sem nada.”
Hoje ele filosofa a respeito: “Acho que aprendi muito com essa de saber perder. O ser humano, acho, está treinado só para ganhar. Então aprender a perder, a vida me ensinou muito, com essa de saber perder e levantar...”
Tratou de se levantar. Foi faxineiro, balconista de padaria, funcionário de lanchonete, segurança. Nas horas vagas, jogava futebol com a turma, fazia boa figura no campo e no salão.  “Isso me ajudou nos relacionamentos, em me relacionar com outras pessoas. Você numa cidade dessas, sem ter nenhum parente. A solidão é uma coisa muito ferrada, você ficar numa cidade do tamanho de São Paulo sem ter um primo, uma parente,  é duro.  O esporte me trouxe isso também, essa parte de relacionamento, de interagir com outras pessoas.”
Assim, conseguiu empregos melhores. No final de 1997, já trabalhava no setor de emissão de nota fiscal, estava na área administrativa, progredia na empresa. Então a empilhadeira endoidou, perdeu o pé direito, depois parte da perna. Mas até que deu sorte.
“No hospital, eu tive todas as informações sobre o cara que eu poderia ser no futuro, dali para a frente. É uma mudança de identidade. Quando você perde um membro, não é só o membro que você perde, você perde sua identidade também. Você passa a ser um cara com deficiência, a sociedade vai te olhar de outra maneira.”
Isso não significa que a pessoa com deficiência precise ou deva aceitar esse outro olhar, condescendente. “Os médicos me disseram que eu poderia ter uma vida normal, que eu poderia trabalhar, que eu poderia correr, que eu poderia fazer tudo. Poderia tomar banho de mar, poderia nadar , poderia pedalar.. Hoje, quando alguém sabe que eu corri 90 km, não pode me olhar com se eu fosse um coitadinho”, diz Paulo.
Apesar do apoio, porém, houve momentos em que ele se sentiu mesmo abandonado, sem rumo. “Eu passei por depressão.  Bebi. Bebia junto com o tratamento. Você tem os altos e baixos, porque não foi só maravilha, e não é para ninguém. Acho que todos têm seus altos e baixos, só que eu tive o privilégio de ter os profissionais ali para poder passar a mão na minha cabeça e dar continuidade ao tratamento.”
Assim, aos trancos e barrancos, conversando com médicos especializados –o próprio cirurgião que lhe amputou a perna era também um amputado--, decidiu experimentar fazer esporte. Com uma prótese convencional, de caminhada mesmo, partiu para algumas corridas.
“No início, tinha vergonha da prótese. Morava no km 17 da Raposo Tavares, pegava um ônibus com a calça de agasalho e ia fazer caminhada em Vargem Grande Paulista. Fazia tudo de calça, porque tinha vergonha de mostrar a prótese. Até que eu belo dia eu falei: meu, hoje vou fazer caminhada de shorts para ver o que vai acontecer. E aí, no primeiro dia que eu fiz essa caminhada, eu via aqueles caras de carro buzinarem, dando parabéns, isso aí foi levantando a autoestima, eu achava superlegal aquelas pessoas me parabenizando porque eu estava fazendo meu esforço ali, de ir de uma cidadezinha para outra.”
Isso fortaleceu seu espírito, ajudou que viesse a decisão: “Aqui foi elevando minha autoestima e aí um belo dia eu fui lá e falei para o meu médico: meu, já sei o que eu quero. Vou partir para o atletismo, vou fazer corridas”.
Dito e feito. Participou de algumas provas realizadas em São Paulo, foi ganhando confiança, partiu logo para correr a maratona de São Paulo. “A prótese não absorvia nada do impacto, machucava muito. Pensei em desistir várias vezes ao longo do percurso, mas segui. Estourei o tempo, terminei em mais de seis horas, mas cheguei. No final da prova, o coto estava em carne viva.”
Apesar das dores, ficou fascinado pela maratona, pela conquista. Com os apoios que conseguiu, foi correr a maratona de Nova York, ainda com a prótese comum. Percebeu que tinha de mudar: precisava de uma prótese para corrida, aquelas lâminas de liga especial, que absorvem o impacto e ainda ajudam no movimento.
“Eu fui sempre um cara de brigar por meus objetivos. Fui falar com a assistente social da empresa, dizer que queria a tal prótese. De cara, a empresa falou que não ia dar essa prótese, porque não fazia parte do processo de recuperação. Aí eu falei que estava fazendo atividade física e que eu queria uma prótese para fazer atividade física, porque quando eu tinha as duas pernas eu jogava bola, fazia tudo.”
Nova negativa, mas Paulo não desistiu. “Falei que a partir de amanhã iria ficar num banquinho na Anhanguera, no local em que o presidente da empresa entrava, fazer uma faixa e esperar o presidente...”. Não precisou: a empresa acabou cedendo, ele ganhou sua primeira prótese de corrida.
Mudou tudo. Correu novamente a maratona de Nova York, foi saudado pelo público, começou a ter mais apoios, as primeiras conversas sobre patrocínio. No Brasil, experimentou correr provas de velocidade, de 100 m e 200 m, de olho na Paraolimpíada de Sydney, no ano 2000.
“Fiz os Jogos regionais paraolímpicos, o campeonato brasileiro, fui campeão brasileiro. Nos 200 m, cheguei a ter o quarto melhor tempo do mundo. Fui convocado para a Paraolimpíada.”  Chegou mesmo a fazer o passaporte, mas a festa não durou muito: uma semana antes da viagem, foi cortado, o Comitê precisava economizar, a delegação brasileira era limitada.
“Dá dor, mas a vida tem de continuar. Eu não sou muito aquele cara de ficar martelando em uma coisa que não depende de você. Eu martelo em coisas que dependem de mim. O que depende de outra pessoa não me pertence, cada um pensa diferente, cada um age diferente, não sou eu quem vai mudar.”
Seguiu nos treinos, voltou para as provas longas, arriscou tudo na Comrades, tentando mostrar ao mundo que um amputado podia fazer uma prova de quase 90 km. Por mais que sua vontade fosse grande, porém, parecia que os deuses da corrida não concordavam com tal esforço.
 “No quilômetro 81, a prótese quebrou.  Terminei andando. Encontrei um amigo, o médico Milton Mizumoto, que correu comigo. Eu tinha de ficar parando, passando fitas na prótese, amarrando, mas não dava para correr, mal dava para apoiar. Eu parava algumas vezes, arrumava. E o final, aqueles últimos quilômetros, é a parte mais difícil para mim, porque tem muita descida. Como eu não tenho o calcanhar na prótese de corrida, a descida fica mais complicada. Mas terminei. Estourei o tempo, fiz em 12 horas. Fui o único amputado.”
Foi uma vitória, mas ficou a dor de não ter conquistado a medalha. Seis anos depois, em 2007, Paulo teve sua “vingança” contra a Comrades. Estava bem treinado, conhecia o percurso e foi com apoio, levando uma prótese sobressalente. Trocava as lâminas a cada dez quilômetros. O resultado: sopa no mel. “Terminei sobrando. Terminei com um pé só mesmo: tirei a prótese quando faltava uns dez metros e terminei a Comrades pulando. Fiz  em 10h56.”
A conquista se somou a um longo currículo de vitórias em provas longas. Fez até uma corrida de 24 horas e tem vários títulos nas maratonas de Nova York, Chicago e São Paulo, para citar só algumas. Precisou montar uma empresa para administrar sua carreira.
Não passa por cima de sua perda. “Você pode ser amputado há 50 anos, essa falta sempre vai ser cobrada. É uma coisa que seu cérebro vai mandar. Hoje já faz 16 anos do acidente e eu ainda vou calçar meia num pé que eu não tenho. Esse negócio de falar que você não sente a falta, não é verdade: isso aí é para o resto da vida. Nada substitui um membro.”
Mesmo assim, talvez ele esteja hoje melhor do que se tivesse continuado a vida que levava no século passado, antes do desastre.  “Não imagino como seria se não tivesse ocorrido o acidente. Acho que eu não estaria mais aqui não. Acho que estaria morto. Tive uma infância meio ferrada. Eu era muito bagunceiro, andava com más companhias. Até uns 23 anos, eu era virado mesmo...”
O que importa, porém, não é o que poderia ter sido, mas o que aconteceu e o que Paulo Almeida é hoje. “A corrida me devolveu tudo o que o ser humano precisa.  Autoestima. A corrida me mostra um mundo diferente, que eu não via antes. Acho que sou um cara mais humano hoje do que antes; antes eu pensava só em mim, hoje eu penso no próximo, em ajudar as pessoas, acho que sou um cara que gosto mais de mim, cuido da minha saúde. A corrida me devolveu tudo isso.”
VAMO QUE VAMO!!!


600 aos 60 – etapa 19 – 2016 dez 03
4,61 km caminhados em 1h05min10
Quilometragem acumulada: 69,77 km
Tempo acumulado: 15h17min05