17.2.16

CORRIDA POR MANOEL começa por caminhada cívica até o DOI-CODI

Concentração na chegada em frente ao prédio do DOI-CODI --fotos Eleonora de Lucena

Uma caminhada cívica marcou na manhã desta quarta-feira o início do projeto CORRIDA POR MANOEL, homenagem jornalístico-esportiva a Manoel Fiel Filho, operário metalúrgico torturado e morto pela ditadura militar há 40 anos.

Dezenas de pessoas se concentraram na sede do Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo eMogi das Cruzes, na Liberdade (região central de São Paulo), onde foi realizado o ato de abertura da CORRIDA POR MANOEL.

Além de integrantes da diretoria do sindicato, como o secretário-geral, Jorge Carlos de Moraes –o Arakém--, e a tesoureira-geral, Elza de Fátima Costa, participaram dirigentes de entidades como Núcleo Memória, Centro de Memória Sindical, aCoordenação de Direito à Memória e à Verdade da Secretaria Municipal deDireitos Humanos e Cidadania, Memorial da Resistência. Aquiles Reis, do MPB4, também disse presente.

Concentração no Sindicato dos Metalúrgicos, estou entre Campos e Arakém; no centro, Elza 


José Francisco Campos, diretor e coordenador do Departamento de Memória Sindical, lembrou a mobilização da diretoria do sindicato em 1976, logo que correu pela “rádio-peão” a notícia da prisão e, depois, da morte de Fiel Filho.

“Nós fomos à casa dele, levar solidariedade a dona Thereza”, disse Campos. Era o fim da tarde de sábado, e um saco de lixo tinha sido atirado em frente à casa dela: era o macacão azul que Manoel vestia quando fora preso.

A informação oficial era de que Manoel havia se enforcado com as meias. “Ele foi preso de chinelos”, afirmou Joaquim dos Santos Andrade, o Joaquinzão, presidente do Sindicato dos Metalúrgicos quando Manoel foi assassinado.


Preparação da caminhada; ao fundo, de camiseta cinza e com cartaz referente à mobilização para marcar os 50 anos do golpe militar, Carla Borges, da Secretaria Municipal dos Direitos Humanos,  


Apesar da mordaça da ditadura, a entidade denunciou a farsa montada no DOI-CODI. Chegou a mandar telegrama ao general Ernesto Geisel, então presidente da República, exigindo investigações e a demissão do comandante do Segundo Exército, que era o responsável pelo DOI-CODI.

Nas bases do movimento sindical, a denúncia e as vozes de protesto também se ouviam. Em poucos dias, panfletos relatando o crime da ditadura e chamando o povo brasileiro à luta por democracia circulavam nos principais centros.

Últimos momentos antes do início da caminhada

O site Documentos Revelados conseguiu recuperar um desses panfletos, feito ainda em máquina de escrever e reproduzido artesanalmente. Foi encontrado pendurado em um gancho em uma passarela na Avenida Brasil (Rio de Janeiro).

Pelo resumo que faz dos fatos envolvendo a morte de Manoel e das lutas populares naquele ano de 1976, eu li o documento no ato do Sindicato dos Metalúrgicos. Eis o texto:

“Um operário foi assassinado.
Seu nome: Manoel Fiel Filho.
Era metalúrgico. Trabalhava na fábrica Metal Arte em São Paulo.
No dia 16 de janeiro dois agentes da polícia política prenderam Manoel no trabalho e entregaram aos militares gorilas do II Exército.
Na noite do dia seguinte, um desses agentes jogou no quintal de sua casa um saco de lixo. Dentro do saco estavam as roupas e documentos de Manoel. Manoel estava morto.
O que fez esse companheiro para merecer a morte depois de ser torturado nas mãos dos gorilas assassinos do II Exército?
Que “crime” cometeu esse trabalhador?
Havia contra ele vagas acusações de “atividades subversivas”.
A ditadura o acusava do “crime” de combater o arrocho salarial.
Acusava-o do “crime” de lutar contra a carestia: contra o aumento do pão de leite e de todos os alimentos. Contra o aumento dos aluguéis, da condução, de tudo. Contra a roubalheira do BNH e por uma vida mais decente para os trabalhadores.
Acusava-o de “crime” de reivindicar as liberdades democráticas e lutar por uma sociedade sem exploradores, onde os trabalhadores que tudo produzem sejam também o poder.
Esses “crimes” a ditadura dos patrões não tolera e quando pode pune com a morte.
Mas esses gorilas selvagens que assassinam para defender os lucros dos patrões também são os reis da covardia. Matam mas não reconhecem o crime. E inventam histórias pensando que o povo é idiota e que engole qualquer mentira.
Mandaram dizer pelos jornais que Manoel se suicidou enforcando-se com uma meia.
Onde já se viu alguém se enforcar com uma meia?
Não é a primeira vez que essas desculpas cínicas e covardes são usadas para encobrir os crimes mais monstruosos contra presos acusados de “atividades subversivas”.
Assim foi com o metalúrgico Olavo Hansen, preso e assassinado em maio de 1970 pelo DEOPS paulista. Também disseram que ele se suicidou envenenando-se na prisão.
Assim foi com Mário Alves, Joaquim Câmara Toledo, João Lucas Alves, Paulo Wright, Alexandre Vannucci Leme, Stuart Jones, Lincon Bicalho Roque, Luiz Hirata, Rubens Paiva e muitos outros.
Assim foi com os 17 “desaparecidos”.
Assim foi com o jornalista Vladimir Herzog, assassinado há 3 meses nas mesmas dependências do II Exército. Pelos mesmos torturadores do DOI-CODI. Também disseram que ele se suicidou enforcando-se com um cinto.
Com medo de que esse assassinato provoque uma revolta muito grande, o presidente da república tirou o general Ednardo D’Ávila Mello (responsável direto pelas torturas e assassinatos em São Paulo) do comando do II Exército e isso bastou para que a maioria dos políticos do MDB passasse a elogiar a atitude de Geisel.
Mas porque Geisel não bota esse assassino na cadeia? Por que não manda prender seus cúmplices?  Por que não dissolve o DOI, o CODI, o DOPS, o SNI e todos esses órgãos de repressão através dos quais os militares gorilas perseguem, torturam e matam?
A resposta é simples: É porque Geisel não passa de um cúmplice desses torturadores.
Os políticos do MDB, apesar da censura e das cassações, ainda podem fazer declarações nos jornais. E se não protestam contra esse crime, se não exigem sua apuração, se não exigem que Ednardo e seus gorilas sejam trancafiados atrás das grades, estarão sendo cúmplices também.
Cúmplices dos torturadores: cúmplices de Geisel. Cúmplices da ditadura!
Esse crime não pode ficar em branco, ele tem que ser investigado. Os culpados por esse assassinato têm que aparecer. Têm que ser desmascarados e punidos.
O sangue dos trabalhadores não pode continuar servindo de alimento para saciar a fome e a sede desses gorilas fardados que resolveram, as custas no nosso suor, fazer desse país um paraíso para os grandes patrões e um inferno para os trabalhadores.
Pau neles!
Pela punição do general Ednardo e de todos os assassinos e torturadores de presos políticos – Pelo desmantelamento dos órgãos de repressão e pelo fim das perseguições políticas – Pela anistia completa a todos os presos políticos do país - Lutemos pelas liberdades democráticas e pela derrubada da ditadura – Lutemos pelo fim da exploração e por um governo dos trabalhadores”

Com brados de “Manoel Fiel Filho – Presente!” e “Para que não se esqueça – para que nunca mais aconteça”, fechamos o ato ali e começamos a nos preparar para a caminhada.

Caminhada sobe pela rua São Joaquim, no bairro da Liberdade


Além do material organizado pelo Sindicato dos Metalúrgicos, vários grupos trouxeram cartazes e faixas lembrando a importância de preservar a memória das lutas sindicais e populares e dos homens e mulheres que deram suas vidas pela democracia no Brasil.

Foi esse o espírito de nossa caminhada cívica, no início da CORRIDA POR MANOEL: uma homenagem reverente a quem fez por merecer e um alerta para que estejamos todos vigilantes para que crimes como aquele não se repitam.

Manifestação segue pela rua Vergueiro em direção à Paulista


Com animação garantida pelo gogó de experientes agitadores de porta de fábrica, saímos enfim pela Galvão Bueno.

Ocupando parte da rua, descemos a Galvão e subimos a rua São Joaquim, bem no coração da Liberdade, bairro da região central que se tornou famoso por abrigar a comunidade japonesa – hoje, há muitos representantes de outros países asiáticos.

Deu até para a Eleonora fazer uma composição com as nuvens e o céu querendo ficar azul

A faixa que abria nossa passeata já informava a razão e o por que da caminhada, de nossos gritos e de nossa luta: “Salve Manoel Fiel Filho – OP Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo e Mogi das Cruzes reverencia sua memória”.

Para deixar tudo mais claro, porém, os colegas que caminhavam com o megafone faziam breves discursos contando a história de Manoel, afirmando que estávamos na rua para dizer: “Ditadura Nunca Mais”

E foi assim, caminhando e bradando slogans –-que é uma forma de cantar--, que chegamos à rua do Paraíso, avançamos pela Abílio Soares e tomamos a Paulista.
Companheirada cruza a avenida Paulista


Nunca foi tão emocionante caminhar naquele platô, nem mesmo na minha mais rápida e fulgurante chegada em São Silvestre. 

Os corredores sabemos o quanto empolga 
ver a Paulista lá no alto, enquanto resfolegamos pela Brigadeiro; e o quanto acalma e turbilhona a alma quando enfim fazemos a curva derradeira da São Silvestre.

É nóis! Passeata inaugural da CORRIDA POR MANOEL ocupa faixas na avenida Paulista


Pois para mim hoje foi muito mais. Corredores e caminhantes, sindicalistas e músicos, estudantes e trabalhadores estávamos todos revivendo e revigorando a memória com nossas passadas. E parando a cidade e fazendo a cidade parar para ver a passeata passar, parar para ouvir a chamada “Para que não se esqueça – para que nunca mais aconteça”.

A Paulista não era nosso destino na manhã de hoje, mas, para mim, aqueles dois quarteirões tiveram um significado todo especial, de conquista, de alegria, de fraternidade e parceria com todos os que ali estavam.

Descendo a Tomás Carvalhal, luz do sol afogueia bandeira carregada por militante


Descemos enfim a Tomás Carvalhal, no bairro do Paraíso --triste ironia, pois ali funcionou a Sucursal do Inferno.

A essa altura, tínhamos apoio e proteção de carros da Polícia Militar; duas viaturas abriam o caminho, liberando o trânsito para a primeira jornada da CORRIDA POR MANOEL, e uma terceira acompanhava o final da passeata, também protegendo nossos caminhantes.

No final da descida, já encontrávamos muros que cercam o complexo onde funcionou o DOI-CODI. Apontando um portão fechado, não mais utilizado hoje em dia, o ex-preso político Maurice Politi lembrou: “Era por ali que saíam os carros”.

Do lado direito, segurando a faixa, de óculos escuros, o ex-preso político Maurice Politi


Lembrou também que naquelas vizinhanças os moradores conseguiam ouvir os gritos dos torturados nas celas de interrogatório da “Casa da Vovó”, outro apelido irônico, maldoso, para o mais brutal centro de torturas montado no Brasil durante a Ditadura Militar.

O prédio do DOI-CODI foi tombado e deverá virar um centro de memória. No edifício da frente funciona o 36º Distrito Policial.

Foi na entrada desse conjunto, em uma área usada para estacionamento, que nos concentramos para fazer o encerramento da Caminhada pela Vida.

Politi, diretor do Núcleo de Memória, emocionou a todos lembrando sua experiência de sobrevivente (clique AQUI para acompanhar afala de Politi). Ativo militante contra a ditadura, aos 21 anos foi sequestrado e levado para os porões do DOI-CODI, onde foi submetido ao tratamento selvagem que era padrão na época.

“Quando a gente descia do carro já era recebido a porrada com pedaços de pau”, contou ele. A ditadura escondia seus crimes: “Quando minha mãe e meu pai vinham aqui me procurar, diziam para eles que aqui não havia nenhum preso, não havia ninguém”.

E assim torturavam, humilhavam, matavam. 

Já na época, porém, o movimento popular se levantou contra todas essas indignidades, contra esses crimes contra a humanidade.

Concentração  em frente ao complexo de prédios onde funcionou o DOI-CODI - foto Laura Lucena

E, agora, a gente busca relembrar a luta dos que enfrentaram esses regime de terror. A CORRIDA POR MANOEL, como bem diz a coordenadora do Memorial da Resistência, Kátia Neves, “é uma forma original de resistência política contra o esquecimento e, portanto, pela preservação da memória".

Continue com a gente. Amanhã teremos a primeira corrida, o primeiro grande mergulho na história de Manoel Fiel Filho. Concentração às 6h45 e largada às 7h na rua Oscar Freire, em frente à estação Sumaré do metrô.

Venha comigo!

Para que não se esqueça, para que nunca mais aconteça!

Vamo que vamo!

CORRIDA POR MANOEL  - Dia 1
3,58 km feitos em pouco mais de 45min



  


11.2.16

Uma homenagem jornalístico-esportiva a Manoel Fiel Filho

Operário metalúrgico de Alagoas foi assassinado há 40 anos em sessão de tortura nos porões do DOI-CODI de Sâo Paulo

O jornalista, escritor e maratonista Rodolfo Lucena realiza uma homenagem jornalístico-esportiva a MANOEL FIEL FILHO, operário metalúrgico assassinado nos porões da ditadura militar há 40 anos. Manoel foi morto sob tortura no dia 17 de janeiro de 1976 no Doi-Codi de São Paulo.

Para marcar a data, Rodolfo faz a CORRIDA POR MANOEL, 40 dias de corridas por percursos significativos para a vida e a morte do operário assassinado três meses depois da execução de Vladimir Herzog.

Em muitos desses trajetos, que relembrarão a luta contra a ditadura, pela democracia, pela liberdade e pela justiça, o maratonista será acompanhado por convidados.

Além de familiares de Manoel, estão convidados os advogados Samuel Mac Dowell e Marco Antonio Rodrigues Barbosa, que representaram a família de Manoel em processo contra a União, o ex-preso político e diretor do Núcleo Memória Maurice Politi e a coordenadora do Memorial da Resistência, Katia Regina Neves.

"Consideramos que o grande valor da Corrida por Manoel Fiel Filho é justamente por ser uma forma original de resistência política contra o esquecimento e, portanto, pela preservação da memória", afirma Katia.

E Maurice acrescenta: “Homenagear Manoel Fiel Filho, 40 anos após seu brutal assassinato, com essa corrida simbólica, significa resgatar a luta dele como operário metalúrgico, trabalhador consciente de seu papel, e de todos aqueles que deram a vida em favor do fim de um dos regimes mais violentos que tivemos no Brasil republicano”. 

A largada da CORRIDA POR MANOEL será em ato no Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo (rua Galvão Bueno, 782), às 8h da próxima quarta-feira, 17 de fevereiro. A partir dali sairemos na primeira jornada, uma caminhada em memória da vida e da morte do operário.

“Importante esse resgate da luta e da vida de Manoel Fiel Filho”, diz Miguel Torres, presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo. “Oportuno num momento em que as novas gerações não têm acesso ou conhecimento de nossa história.”

Cada trajeto será registrado em foto e vídeo; reportagem sobre o percurso de cada dia, com entrevistas e documentação histórica, será publicada neste blog, que foi especialmente desenhado para o projeto CORRIDA POR MANOEL.

././././././././.

Rodolfo Lucena, 59, é gaúcho de Porto Alegre e estava fazendo o vestibular para jornalismo quando Manoel foi assassinado. Ultramaratonista, fez mais de 30 provas de longa distância, da maratona a corridas de cem quilômetros. É autor de “Maratonando” (Record, 2006) e “+Corrida” (Publifolha, 2009). Repórter da “Folha de S. Paulo”, é colunista da revista de corrida “O2” e blogueiro; desenvolve o projeto Maratonando com o MST, de corridas em assentamentos e acampamentos dos sem terra (http://mstmaratonando.wordpress.com).

Fale com ele pelo e-mail lucena.rodolfo@gmail.com

2.2.16

Sem dó nem piedade, Haile destrói sonhos de velhinho corredor


Pois Haile veio ao Brasil. Os corredores falamos dele assim, com essa intimidade: Haile. A maioria de nós pronuncia Hai-lê, com a tônica na sílaba final; no idioma etíope, porém, a palavra ganha uma delicadeza extra, com a tônica na primeira sílaba, levemente acentuada: Hái-le, sendo a primeira sílaba um ditongo decreste.


O cara, porém, não tem nada de delicado, como mostra sua folha corrida. Nascido pobre na miserável Etiópia, que hoje ocupa a 174ª colocação no ranking Índice de Desenvolvimento Humano –o Brasil está em 75° lugar e a Noruega, em primeiro-, Haile Gebrasellassie dominou o mundo das corridas de longa distãncias por cerca de duas décadas.

Nesse período, estabeleceu 27 recordes mundiais nas mais variadas distâncias –ficou famoso, porém, pelas marcas fabulosas nos 5.000 metros, nos 10.000 m e na maratona. Hoje aposentado do atletismo, aos 42, é um próspero homens de negócios –um ricaço mesmo, dono de vários empreendimentos, de venda de automóveis a um sensacional resort.

Apesar de toda a fama e fortuna –basta dizer que seu apelido é Imperador-, o cara continua fiel a seus patrocinadores. E foi para atender a interesses da fabricante de calçados esportivos cuja marca leva na camisa que Haile veio ao Brasil.

Sua visita foi tão rápida quanto ele mesmo. Chegou na sexta, cumpriu agenda no sábado em São Paulo, viajou para o Rio, onde repetiu a dose, voltou a Sampa e se foi do Brasil neste segunda.

“Sem Carnaval!”, disse ele, todo sorridente, enquanto era abraçado, tocado, homenageado por uma pequena turma de corredores em um recanto próximo à Cidade Universitária, em São Paulo. Eram atletas amadores de uma assessoria esportiva ligada à patrocinadora de Haile.

O programa foi curto: uma pequena corrida festiva com umas poucas dezenas de convidados, participação num evento de entrega de prêmios, sessão de autógrafos e pose para fotos e selfies com os fãs (foto). No final de tudo, teria alguns minutinhos corridíssimos para falar com a imprensa.

Beleza. “Melhor que nada”, pensei, já imaginando o texto iria produzir para minha estreia no serviço on-line da revista “O2” –esta própria coluna que você lê neste momento e que foi publicada originalmente AQUI (clique em AQUI para ver). E queria a chance de correr com mais um monstro do atletismo.

Digo “mais um”, pois já participei de uma corrida festiva, num evento semelhante, com o queniano Geoffrey Mutai, que, na época de nosso enfrentamento no asfalto do Ibirapuera, era o maratonista com a mais rápida marca da história. Não valia para recorde, mas era 2h03min02 –tá bom  prá você?

E não fiquei apenas nos maratonistas. Tive oportunidade de conhecer o jamaicano Asafa Powell –ex-recordista mundial dos 100 m. Corri com ele numa pista improvisada montada sobre a neve, quase no topo de uma montanha gelada na Suíça.

Agora, Haile. O cara era só simpatia quando chegou, fez pose para foto, abriu sorriso, cumprimentou uns e outros, assinou montes de camisetas, caderrnos e cartões (fotos de minha lavra). Daí foi para o asfalto na USP, do ladinho mesmo de onde estávamos.

A massa foi junta, umas 30 ou 40 pessoas, talvez. Alguns se colocaram ombro a ombro com o Imperador. Mais modesto –e confiando no que haviam dito, de que ele sairia na boa-, fiquei um pouco atrás, imaginando que logo poderia até acelera e ficar mais perto do super-hiperrecordista.

Não era, para mim, apenas um sonho de uma noite de verão. Digo por quê.

A marca de Mutai era quase um minuto melhor do que a melhor marca de Haile na maratona e, mesmo assim, naquela sessão no Ibirapuera deu para acompanhá-lo por quase cinco quilômetros –depois ele seguiu mais rápido,e aí só uns poucos foram capazes de se manter com ele.

Imaginando que Haile faria coisa semelhante, acalentei sonhos de correr lado a lado com o Imperador, dois veteranos em amistoso desafio –ainda que eu seja quase 20 anos mais velho do ele; aliás, acho que eu era o mais velho de todos os que estavam naquele evento.

Largamos!!


Não foi nada do que eu esperava, nada do que se tinha combinado, nada do que haviam anunciado. O cara largou correndo e quem pudesse que fosse com ele.
Em poucos segundos, começaram as exclamações, a surpresa de corredores mais lentos com o ritmo que nos era imposto.

Olhei para o meu GPS e quase tive um infarto: estava a 4min30 por quilômetro naquele instante. Saiba você que já fui capaz de manter esse ritmo em corridas por duas oportunidades, em uma prova de oito quilômetros, e em um desafio de seis quilômetros, ambos realizados no século passado.

Por incrível que pareça, aqueles instantes duraram uma eternidade, talvez 15 segundos, talvez 20 segundos, e logo o relógio já marcava 5min30 e caindo (ou subindo, conforme a ótica do leitor).

Não fui só eu o surpreendido. Quando Haile passou o primeiro quilômetro em 3min31 (ou 3min30, segundo outros), o espanto era geral, até mesmo de um dos treinadores que participara da organização da corrida comemorativa.

Bom, antes de completar o primeiro quilômetro eu já nem via mais o pelotão da frente, o que dirá Haile!. Vai daí que, metro sobre metro, suor sobre suor, vi desabar meu sonho de correr ao lado do Imperador. O devaneio deste velhinho corredor foi reduzido a pó, sem dó, pelo ritmo impiedoso do multirrecordista mundial etíope.

Pelo menos tiramos uma foto juntos, que fez muito sucesso nas redes sociais e reproduzo aqui (gentileza da grande fotógrafa Fernanda Paradizo).


E, depois de mais um chá de cadeira, finalmente consegui fazer a entrevista com Haile Gebrselassie, por muitos considerado o mais completo e melhor corredor de longa distância de história.

O tempo de espera para falar com ele foi inversamente proporcional aos escassos minutos em que pude fazer algumas perguntas para o cara. Pelo menos foi uma conversa exclusiva, cara a cara, acompanhada apenas pelos assessores encarregados de controlar o tempo a que tive acesso a Haile.

O resultado está abaixo. Espero que você goste, compartilhe, comente e volte sempre a este novo espaço de minha atuação no mundo internético.

RODOLFO LUCENA – O senhor ainda pensa em se candidatar a presidente da Etiópia?
HAILE GEBRSELASSIE – Sim, eu penso nisso, mas não sei exatamente quando isso poderia acontecer, porque eu estou fazendo muitas coisas hoje em dia. Tenho muitos compromissos, negócios, mas quem sabe? Eu acho que a vida política será meu último objetivo.

O que o senhor pretende fazer se chegar a presidente da Etiópia?
Muitas coisas. Quero compartilhar minha experiência, as coisas que aprendi no mundo. Não é fácil, são 25 anos de experiência que eu tenho [NR.: na elite mundial do atletismo]. Estive em mais de cem países, é muita coisa, acho que posso fazer muito por meu país. Eu quero fazer alguma coisa pelo meu país.

O que o seu país mais precisa?
Educação é a questão mais importante; acabar com a pobreza também. Nós precisamos erradicar a pobreza, alguma coisa precisa ser feito. No meu país há mais de 100 milhões de pessoas, e nós precisamos ter alguma coisa importante, alguma coisa boa para o futuro de todos eles.

O que o senhor pensa das denúncias de corrupção e acobertamento de doping na IAAF? 
Eu digo para você: essa coisa toda está matando o atletismo. Está matando os jovens. Quem será o modelo para eles, para esses jovens que trabalham e suam em suas vilas? Eu gostaria muito que não houvesse um problema como esse. Mas, se as coisas estão mesmo desse jeito, eu acho que eles precisam tomar providências, fazer um movimento sério para nos livrarmos de todos esses problemas. É bom para o esporte. Se deixarem passar batido, protegendo, acobertando os responsáveis, as coisas continuarão do mesmo jeito.
Você ouve todas essas coisas ruins. Escândalo de doping, escândalo de corrupção, eu não entendo porque essa gente está fazendo essas coisas. Eu fico muito triste com isso, eu digo para você: estou muito triste.

Em resposta aos escândalos de doping, surgiu a proposta de desconsiderar os recordes mundiais da última década. O que o senhor pensa disso?
A questão não é sobre os recordes, a questão é sobre os jovens. Nós precisamos pensar nos jovens [atletas]. Imagine os jovens que estão suando, treinando em suas vilas. O que nós vamos ensinar a eles? Em vez de fazer as coisas por suas próprias forças, vão dizer: “Não posso fazer isso sem doping, eu não posso fazer isso sem usar um remédio”. Eu não quero ver isso acontecer. Não quero ver os jovens desenvolvendo esse tipo de mentalidade.
Não tem sentido cancelar tudo o que já foi feito, essa não é a questão. O que está em jogo é o futuro do atletismo. É preciso pensar em algo bom.

O senhor acredita que é possível fazer a maratona em menos de duas horas?
Claro, com certeza, não há dúvida sobre isso. As pessoas falam, pensam que isso só seria possível com doping, mas não é nada disso, não, não, não. Sem pílulas, sem drogas, atletas podem conseguir, podem correr assim. A única coisa que eles precisam saber é a tática, o descanso, o treinamento; combinam tudo isso, eles poderão conseguir alguma coisa.

Quando comecei a correr maratonas, as pessoas diziam que era impossível fazer uma maratona em 2h02. Mas eu estava treinando para fazer duas horas e dois minutos. Eu não consegui, mas pelo menos fiz abaixo de 2h04 [NR.: Haile foi o primeiro homem na história a correr a maratona em menos de duas horas e quatro minutos]. Agora, alguns anos mais tarde, é possível que alguém corra em 2h02.

Mas nós estamos falando agora de maratona em menos de duas horas. Sim, é possível. Quando? Nunca se sabe quando um recorde será quebrado. Quando Abebe Bikila [NR.: etíope vencedor da maratona olímpica de Roma] quebrou o recorde, sua marca foi de 2h15 [NR.:2h15min16]. Isso foi há quase sessenta anos. Então, é possível baixar...

Qual foi o momento mais feliz de sua vida de corredor?
O momento mais feliz de minha vida de corredor foi em Sydney-2000, na Olimpíada [NR.: Haile conquistou a medalha de ouro nos 10.000 depois de uma renhidíssima disputa com o queniano Paul Tergat]. Aquele foi um momento muito especial, quando conquistei meu segundo ouro. E também o recorde mundial em Berlim [NR.: na maratona] e o recorde mundial em Zurique, em 1995 [NR.: nos 5.000 m]. Mas a Olimpíada foi algo muito especial [abre um largo sorriso].

Por que a Olimpíada é tão especial?
É a Olimpíada. Acontece apenas a cada quatro anos. Quantos corredores conseguem se manter em ótima forma por quatro anos? Muito poucos. Então venceu em uma Olimpíada é muito especial.

E qual foi o momento mais triste?

Nova York, 2010 [NR.: naquele ano, com dores, Haile abandonou a maratona e, quase em seguida, anunciou que iria se aposentar do atletismo]. Foi muito, muito duro para mim.


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OBSERVAÇÃO: Com esta texto, inicio uma nova parceria com a revista O2 e com o site ativo.com, o maior site de corridas do país, onde passo a produzir a coluna MARATONANDO COM RODOLFO LUCENA. Venha comigo. A coluna está AQUI.

24.1.16

Corrida do Bradesco Seguros tem falha de segurança lamentável


Foi um tombo monumental.

A garota corria pelo meio da rua, cerca de dezenas de outros corredores que participaram, na manhã deste domingo, da etapa paulistana do Circuito da Longevidade Bradesco Turismo.

De repente, algo acontece. Ela tropeça e, talvez pela velocidade que vinha imprimindo, talvez porque estivesse em uma descida, talvez pela combinação desses fatores e outros tantos, sua queda foi espetacular: rolou pelo asfalto e só foi parar perto na sarjeta, quase na guia da calçada.

Mal tinha parado que rolar e já estava cercada de gente, outros corredores, que a ajudaram a se levantar e trataram de ver se havia algum prejuízo de monta.

O incidente (acidente?) ocorreu a poucos metros de mim, menos de dez metros. Quando passei pela garota, ainda abraçada por uma senhora mais velha que a ajudava a caminhar, perguntei se estava tudo bem.

A resposta foi positiva. Dava para ver que a jovem –não devia ter mais de 18 anos—não tinha se machucado, não havia sangue; mas ela parecia meio tonta, talvez ainda chocada pela queda, assustada com tudo o que tinha acontecido.

Quedas acontecem em corridas. Essa, porém, não foi acidente, e sim resultado de incúria dos organizadores ou de quem desenhou o percurso da prova, que integra um circuito apreciado por muitos iniciantes no mundo das corridas.

Desenho do percurso disponível no site da prova
Digo isso porque vi outros quase-acidentes, além do desconforto de um bom número de corredores. A causa foi uma falha absurda no desenho do percurso, desrespeitando até o traçado original da prova, apresentado no site oficial.

Segundo aquele desenho (ao lado), o percurso da corrida de 6 km era uma volta só, com largada e chegada praticamente no mesmo ponto.

Largando de dentro do parque da Independência –aquele belissimamente retratado em mural colocado na estação Alto do Ipiranga (metrô linha verde)--, os corredores sairiam pela rua dos Patriotas, descendo à esquerda na rua Bom Pastor para fazer uma longa volta que acabaria por cercar o perímetro do parque, onde entrariam novamente pela rua dos Patriotas.

Dessa forma, seria uma longa procissão, na qual dificilmente os primeiros colocados jamais encontrariam retardatários em seu caminho. Por outro lado, os corredores mais lentos jamais teriam problemas com máquinas de correr bufando ao seu redor.

Não foi o que aconteceu.

Trajeto efetivamente realizado pelos corredores
Em vez da volta bonitinha e limpa apresentada no site, o circuito foi encurtado. Assim, para completar os seis quilômetros, o que enfrentamos hoje foi uma volta e meia em torno do parque, com consequências danosas para a segurança e o conforto dos corredores.

Saímos pela rua dos Patriotas, como previsto, mas a chegada foi pelo outro lado do parque, pela avenida Nazareth. Com a tal volta e meia, os corredores  mais rápidos se encontraram com os mais lentos ao longo de mais de um quilômetro e meio.

Pior: os primeiros colocados chegaram em alta velocidade exatamente em cima da massa dos mais lentos, dos retardatários.

Eu passei pelo pórtico de largada nove minutos depois do tiro de largada; saí do parque uns quatro minutos depois e, como todos os demais, desci à esquerda na rua Bom Pastor em direção ao meu primeiro quilômetro na corrida.

Não tinha rodado 50 metros pela Bom Pastor quando comecei a ouvir buzinas e gritos de “Afasta!, Afasta”, “Vão para a esquerda, para a esquerda!”.

Eram os motoqueiros que precediam os primeiros colocados. Vinham dois batedores serpenteando pela multidão que enchia a rua de lado a outro.

Montados em suas possantes motos, o único aviso que davam ao povo eram as buzinadas e os gritos, tentando abrir espaço para os monstros de velocidade que desciam a rua Bom Pastor como se fossem salvar alguma ovelha do precipício.

A bagunça foi instaurada naqueles poucos metros em que acompanhei o movi mento das motos e a passagem dos líderes. A massa foi forçada para a esquerda, teve gente que parou, outros que gritaram, houve quem aplaudiu os líderes, supercorredores para nós outros.

E foi nessa confusão que aconteceu a queda da moça.

Imagino que o problema tenha se repetido mais à frente, pouco depois do quilômetro cinco, porque ali houve um cruzamento: a massa seguia para a frente, rumo ao segundo quilômetro, e as motos e os líderes do percurso, que estavam no lado direito da rua, deveriam dobrar à esquerda para entrar na avenida Nazareth.

Corredores da turma dos mais lentos, como eu sobem a avenida Nazareth, perto do km 4
Nada disso, repito, estava apropriadamente sinalizado. Na bifurcação, havia pessoal da organização dando orientação aos gritos (a mim pareceu que foram colocados ali também de última hora, mas não posso afirmar). 

Quando, cerca de 15 minutos mais tarde, passei por ali retornando para fazer minha primeira subida da avenida Nazareth, havia sido improvisada uma linha divisória em parte dos pontos em que os da primeira e da segunda volta dividiam o mesmo espaço.

Ainda bem que, ao que eu saiba, nada de mais grave aconteceu. O que não significa que esse tipo de coisa seja aceitável, ainda mais em um circuito tão bacana como o da Longevidade.

Ele tem etapas no Brasil todo, sempre com jornadas que incluem uma caminha e uma corrida de percurso curto. Por isso, me parece um dos mais importantes do país como divulgador da corrida como forma de melhorar a qualidade de vida e como fator de atração de iniciantes para o mundo das corridas.

Tudo isso dá ainda mais responsabilidade aos patrocinadores, que deveriam ser mais rigorosos na cobrança dos realizadores da prova. Que, por sua vez, falharam em outros quesitos além da lamentável falha no item segurança.

O horário da largada, por exemplo, foi ótimo e muito bem escolhido: sete horas da manhã. No dia de hoje, propiciou um clima agradável, bom para uma corrida curta como a proposta pelo Circuito da Longevidade. 

A página da prova nas redes sociais, porém, apontava 7h30 como horário de largada, o que fez com que muita gente chegasse atrasado.

Mais. Havia água em profusão, em dois postos bem servidos e longos, com bastante gente para atender. 
Largados em gavetões, os copinhos estavam cobertos de gelo, também em grande quantidade. A água, no entanto, estava morna, indicando que os postos de hidratação forma montados em cima da hora. Só fui beber água gelada depois de terminar a provar a prova –menos mal.

Muvuca para encontrar uma fila para conseguir a medalha, frutas e isotônico depois da prova - fotos Rodolfo Lucena

Aparentemente, também houve problemas no período de inscrição. Digo isso por causa de comentários que ouvi durante a muvuca (outra falha) de espera para chegar a uma fila para pegar a medalha e as frutas pós-prova (havia ainda isotônico bem gelado, ótimo).

Estou registrando, mas não posso confirmar: como fui convidado pela assessoria de imprensa da prova, não tive de passar pelo processo de registro via site.

Enfim, é uma série de problemas. Alguns muito graves, como a questão de segurança do percurso, outros menos importantes –mas que incomodam o corredor.


Imagino que possam ser corrigidos com facilidade (aliás, de acordo com o site, o choque no percurso nunca deveria ter acontecido). Tomara que sejam, pois a prova é divertida e tem méritos.

Vamo que vamo!