26.2.16

Estouro de gráficas marca início de onda de prisões de comunistas

Por ironia da organização urbana da cidade de São Paulo, usei hoje a avenida Ordem e Progresso para chegar a um destino que foi testemunha de um período em que não havia ordem nem progresso no país.

Estou falando do tempo da ditadura militar, onde apesar do verniz de organização que a hierarquia e disciplina castrense supostamente emprestava ao governo, o que de fato havia era um turbilhão de grupos se digladiando pelo poder e por benesses.

A ação de grupos ultraviolentos dentro dos já brutais organismos de repressão é exemplo dessa desordem intestina no governo ditatorial, mais evidente durante o governo do general Ernesto Geisel, que assumiu em março de 1974.

Foi sob o Geisel da distensão que Vladimir Herzog é assassinado em 1975. Também foi sob Geisel que ocorreu, no ano seguinte, a execução de Manoel Fiel Filho. 

Sobre o operário metalúrgico pairavam vagas acusações, suspeitas nunca fundamentadas de que distribuísse entre seus colegas o “Voz Operária”, jornal clandestino do Partido Comunista Brasileiro.

O fato é que nunca houve acusação nem processo nem nenhum outro tipo de ação judicial contra Manoel Fiel Filho. Em cerca de 24 horas, ele foi preso, torturado e morto.

Os assassinatos de Manoel e de Herzog foram os pontos culminantes de mais de um ano de perseguição sem trégua a dirigentes, militantes e simpatizantes do Partido Comunista Brasileiro.

O início da onda de prisões que levou centenas de brasileiros à tortura e vários deles à morte acontece em janeiro de 1975, quando o aparato repressivo consegue desmantelar gráficas em que eram impressos e armazenados o jornal “Voz Operária”.

Em São Paulo, um dos locais atacados pela polícia política foi uma gráfica que ainda estava sendo instalada na Casa Verde, zona norte de São Paulo. Ficava na rua Gonçalves Figueira, 80, meu destino neste oitavo dia do projeto CORRIDA POR MANOEL.



Tal como há 41 anos, o prédio é simples, inconspícuo. Baixo, tem cerca de seis metros de frente. Em vez de portas, há duas folhas de aço de enrolar. A segurança de uma delas, a da esquerda, é reforçada por uma grade de ferro. 

Aparentemente, não são usadas –segundo um vizinho, ali são os fundos de um mercado (quase nada estava em funcionamento na região na hora em que estive lá).

Começando na avenida Engenheiro Caetano Álvares, pertinho do terminal de ônibus da Casa Verde, a rua Gonçalves Figueira sobe abruptamente por mais cem metros; depois, a rampa segue, mas a inclinação é menos severa.

É uma rua de casas baixas, em que nenhuma chama atenção –a mais colorida é o sobrado ao lado do número 80, onde funciona uma escola para crianças pequenas.

Em janeiro de 1975, as operações da polícia política foram cercadas de silêncio. Muito pouco, quase nada, transpirou para a imprensa até o dia 30, quando o ministro da Justiça, Armando Falcão, fez um pronunciamento na TV anunciando o desmantelamento das gráficas clandestinas.

Texto publicado na Folha de S. Paulo em 1º de fevereiro daquele ano diz que, segundo vizinhos, a casa da Gonçalves Figueira, número 80, era ocupada por um jovem casal –“ela japonesa, ele brasileiro, com um filho”—até a chegada da polícia, “há cerca de duas semanas”.

A frase indica que a operação da ditadura havia começado no início do mês. De fato, o texto “Por quem os sinos dobram”, publicado em 31 de outubro de 2015 no Blog do Azedo, afirma: “No dia 6 de janeiro de 1975, o gráfico Raimundo Alves de Souza, procura um advogado para dizer que estava sendo seguido. Raimundo era o responsável pelas gráficas clandestinas do Rio e São Paulo. A direção foi informada. Raimundo, porém,acabou preso.”

Nas pesquisas que fiz, não encontrei outras referências a Raimundo nem ao casal que, segundo os vizinhos, ocupava a casa onde estava instalada a gráfica na Casa Verde.

De fato, não era ainda uma gráfica: o PCB estava começando a levar para lá equipamentos que permitissem a impressão do “Voz Operária”, caso a gráfica principal, no Rio de Janeiro, fosse descoberta pela repressão. Ali funcionava principalmente como depósito em que ficavam armazenados os jornais que seriam distribuídos em São Paulo, panfletos e outras publicações.

Essa preocupação com a segurança das instalações e a precaução em criar opções para continuar operando mesmo após ataques da repressão não deram resultado. O estouro das operações de imprensa do PCB foi geral naquele início de 1975.

A principal vitória da ditadura naquele momento foi a descoberta da gráfica que funcionava em um sítio no Rio de Janeiro. Nota distribuída em 31 de janeiro de 1975 e assinada por Armando Falcão, relatava o seguinte:

“A oficina impressora clandestina está localizada no bairro de Campo Grande, caminho Anésia, nº 228. Nesse local, aproveitando-se de disfarce proporcionado por uma casa residencial, de aparência absolutamente normal, dispunha de dependência subterrânea, onde funcionava a oficina gráfica e existia um depósito”.
Ali, segundo a nota, a polícia encontrou grande quantidade de documentos do Partido Comunista, revistas, livros, panfletos e “material de propaganda política usados nas últimas eleições”.
A área da gráfica era “construída com paredes duplas, para evitar a propagação de ruído”. Lá estavam instaladas uma máquina de cortar, máquina sensibilizadora de stêncil, mimeógrafo e outros equipamentos.

A nota não cita nomes nem diz quantas pessoas foram presas na operação. 

Garimpando em diversos sites e nos arquivos da polícia política hoje disponíveis para consulta pública, encontrei algumas informações esparsas.

Na página Memorial da Democracia, do Instituo Lula, informa-se que “um dos presos é o gráfico Alberto Aleixo, irmão do ex-vice-presidente Pedro Aleixo. Torturado, Alberto morreria em agosto”.

Página do site Memorial da Democracia traz foto da gráfica do PCB que funcionava no Rio de Janeiro


No livro “A Ditadura Encurralada”, o jornalista Elio Gaspari afirma: "No dia 13 de janeiro o CIE estourou a capa de proteção do PCB   a gráfica clandestina onde se imprimia o jornal “Voz Operária”, no subúrbio carioca. Ela funcionava num subterrâneo, num sítio. Chegava-se à impressora por um alçapão existente no fundo de uma caixa-d´água, que era esvaziada para que os trabalhadores descessem. A Voz submergira em 1964, mas reaparecera um ano depois, circulando mensalmente. Com a gráfica, sumiu mais um pedaço da cúpula do Partidão. Um dos responsáveis pelas máquinas, Élson Costa, desapareceu no dia 14 de janeiro”.

O corpo de Elson teria sido jogado em um rio em Avaré, interior de São Paulo, segundo depoimento  do  ex-agente do DOI-CODI/SP, Marival Chaves.
Reportagem da revista Veja (18/11/1992), citada no site Documentos Revelados, trouxe o seguinte depoimento de Chaves: 
“Outro que está no rio é Elson Costa,assassinado em 1975. Ele era o encarregado da seção de agitação e propaganda do partido. Na casa de Itapevi, foi interrogado durante vinte dias e submetido a todo tipo de tortura e barbaridade. Seu corpo foi queimado. Banharam-no com álcool e tocaram fogo. Depois, Elson ainda recebeu a injeção para matar cavalo”.
Em São Paulo, além da operação clandestina desbaratada na Casa Verde, a polícia atacou também uma gráfica que funcionava legalmente, no Brás. Era a Isbra, onde foi preso o gráfico José David Dib, nascido em Ituiutaba, Minas Gerais, em 1922. Ele “deu entrada” no Dops em 20 de janeiro de 1975, “procedente do DOI”. A seguir, passou por diversas detenções e acabou sendo posto em liberdade em 30 de junho de 1975, quando foi revogado o decreto de prisão preventiva contra ele.
Há ainda menos informações a respeito do que aconteceu com quem foi preso na rua Gonçalves Figueira, 80. Lá, segundo a nota de Armando Falcão, a gráfica também estava instalada em um porão escavado sob a casa residencial.
“A entrada para o local da oficina fazia-se através de uma abertura na própria parede, encoberta por uma estante e acionada pela movimentação de um registro de água, situado em outra dependência da casa. A movimentação desse registro destrancava a porta falsa (um pedaço da própria parede) possibilitando o giro da mesma.”
No local, “juntamente com montagens e inúmeros exemplares da ”Voz Operária”, grande quantidade de livros e impressos de cunho subversivo e papéis manuscritos, foram encontrados alguns aparelhos de aquisição recente, tais como: sensibilizador eletrônico de stêncil e mimeógrafo elétrico”.





O responsável pela gráfica era Elias Moreira Borges, sobre quem consta muito pouco na ficha do Dops: sua filiação e data de nascimento (06.05.1948) e o fato de que havia mandado de prisão contra ele.
Uma curiosa “Carta mensal”, espécie de boletim informativo do Departamento Estadual de Ordem Política e Social de Minas Gerais, registra, na sua edição número 13, de julho de 1975:
“Dia 2 – “O Conselho Permanente de Justiça Militar da 2ª Auditoria resolveu condenar, por unanimidade de votos, como incursos no artigo 43 da Lei de Segurança nacional, por atividades do proscrito Partido Comunista Brasileiro e suas gráficas comunistas, os réus: MOISÉS WAISTEIN, CLÁUDIO JOSÉ RIBEIRO e ELIAS MOREIRA BORGES a cinco anos de reclusão.”
Borges e os outros dois também tiveram seus direitos políticos cassados por dez anos.
Essas condenações não passam, como diz o ditado, da “ponta do iceberg”. O número de prisões de dirigentes e militantes comunistas, ao longo de 1975, chegou ás centenas, como contabiliza o já citado texto publicado no Blog do Azedo:
“Entre novembro de 1974 e junho de 1976, houve muitas prisões nos estados: São Paulo, 316; Rio de Janeiro, 125; Paraná, 66; Santa Catarina,42; Bahia,30; Goiás,24; Sergipe, 21; Rio Grande do Sul, 18; Minas Gerais, 12; Brasília, 11; Pernambuco, 9.  Nesse processo, que se estendeu até metade de 1976, todos os comitês estaduais e municipais das capitais dos estados mencionados, bem como a maioria dos órgãos intermediários mais importantes do Comitê Central, foram liquidados.”

Não sei se Azedo tem razão quando usa a palavra “liquidado”. O fato é que, mesmo depois de as gráficas terem sido estouradas, ainda foram impressas no Brasil as edições 120 (fev. 1975), 121 (mar. 1975) e 122 (abr.-maio 1975); a partir de abril de 1976, o “Voz Operária” passa a ser publicado na Europa.
Olhando a fachada prosaica da casa do número 80 da Gonçalves Figueira, eu me pergunto por que a repressão abateu com tanta voracidade sobre o PCB naquele período.


Afinal de contas, os grupos de democratas que pegaram em armas contra a ditadura já tinham sido dizimados –um dos mais atuantes, o MR-8 de  Carlos Lamarca e do sequestro do embaixador norte-americano, àquela altura pregava a luta contra a ditadura a partir das instituições legalmente organizadas no país.
Em “Combate nas Trevas”, Jacob Gorender dá uma explicação que me parece insuficiente: “Uma vez que já não havia organizações da esquerda armada para justificar sua atuação sanguinária, os órgãos repressivos se voltaram para a `reserva de caça`que lhes oferecia o PCB”.
Eu cá comigo penso diferente. O que me parece que a ditadura atacou o PCB com tal violência para tentar melar os resultados das eleições de novembro de 1974, que tinham sido uma surpresa para todos –governo, oposição legal e mesmo a resistência clandestina.
A edição número 4207 do “Jornal do Senado” resume: “Em 15 de novembro de 1974, a ditadura militar sofreu uma inesperada derrota nas urnas, que marcou a ascensão definitiva do Movimento Democrático Brasileiro, o MDB, como partido viável de oposição. Naquela eleição foram escolhidos senadores, deputados federais e deputados estaduais. Foi na corrida ao Senado que o governo sofreu uma derrota marcante. Dos 22 estados que na época elegiam senadores, o MDB triunfou em 16. Entre os 16 eleitos, estavam lideranças até então desconhecidas no cenário nacional e que se tornariam protagonistas da política brasileira nos anos seguintes, como Itamar Franco (Minas Gerais), Orestes Quércia (São Paulo), Paulo Brossard (Rio Grande do Sul) e Marcos Freire (Pernambuco)”.

Além da vitória acachapante, a campanha eleitoral e a postura do MDB então apontavam para uma mudança de qualidade de seu estofo político.

A oposição desmascarava a propaganda do chamado “milagre brasileiro” e ia além, conforme analisa Alessandra Carvalho em texto apresentado ao 27º Simpósio Nacional de História:

“Os instrumentos autoritários, ditos fundamentais pelos ideólogos da ditadura para assegurar o desenvolvimento do país, foram responsabilizados pelo aumento da desigualdade, ao impedirem a livre manifestação de sindicatos, associações de classe e dos políticos. Paralelo a esse ‘diagnóstico’ do contexto social em 1974, o MDB ofereceu um tratamento: as liberdades democráticas e o retorno ao Estado de direito, que permitiriam a organização e participação popular e, a partir daí, a reelaboração das políticas governamentais sob um caráter redistributivo. O verdadeiro desenvolvimento econômico, acoplado à ideia de igualdade/justiça social, só seria alcançado através do estabelecimento da democracia, que deveria, então, ser defendida por todos os trabalhadores, representados pelo MDB”.

Melar as eleições, contestar seus resultados e afirmar que houve ingerência externa e de organizações clandestinas no pleito, então, foi um dos jeitos que a ditadura encontrou para responder à derrota nas urnas.

Essa tentativa fica evidente no discurso de Armando Falcão em 30 de janeiro de 1975, quando ele fala do estouro das gráficas clandestinas do PCB, e também na nota oficial distribuída no dia seguinte pelo Ministério da Justiça.

Ainda que de forma tímida, os parlamentares da oposição reagiram à fala de Falcão procurando desmascarar os objetivos escondidos sob o manto do “combate ao comunismo”.

O deputado federal Laerte Vieira, líder da Minoria na Câmara, respondeu na lata: “É profundamente desagradável ou no mínimo bastante inoportuno que, nesta hora de reabertura do Congresso, se ponha em dúvida a legitimidade das últimas eleições e dos mandatos ali conquistados.”

Como se viu, a ação da ditadura continuou sendo “desagradável” e “inoportuna” por vários anos. Mesmo assim, e apesar de sua violência e dos muitos golpes que, na década seguinte, aplicou ao país, acabou por ser derrotada.

Minha corrida de hoje, oito quilômetros até a Casa Verde, mais um “abraço” no quarteirão da rua Gonçalves Figueira, número 80, é uma homenagem a todos os que tombaram no caminho.





CORRIDA POR MANOEL - oitavo dia

Destino: Rua Gonçaves Figueira, 80, percurso de 8,08 km completado em 59min42

Distância acumulada: 87,25 km 




24.2.16

Prédio da Metal Arte, onde Manoel Fiel Filho trabalhou durante 19 anos, é hoje depósito de colchões

Em São Paulo, os trilhos são uma espécie de muro ao rés do chão, parede (quase) invisível que corta e separa a cidade.

Para dentro da linha férrea estão  o centro, a praça da Sé, as mansões dos Jardins, os modernosos prédios da avenida Paulista.

Do lado de lá, seja para o Norte, o Sul, o leste ou o Oeste, ficam as periferias, com seus eventuais bolsões de progresso e riqueza, mas de qualquer forma com carências que boa parte dos moradores do centrão urbano não conhecem.

Carros passam de um lado para o outro por viadutos e vias expressas. As gentes, porém, enfrentam mais dificuldades, como mais uma vez constatei hoje, quando parti de pertinho do Marco Zero de São Paulo em direção ao início da Zona Leste.

Por onde passam automóveis, não passam pessoas. Talvez eu não tenha encontrada a travessia correto: o fato é que tive de sair da Radial Leste –monumental complexo viário campeão de trânsito entre as rotas consideradas mais importantes pela CET (Companhia de Engenharia de Tráfego: pelos postos de controle passam  2,7 veículos por segundo, em média, nos horários de rush.

Com toda essa carralhama, não havia jeito senão fazer um atalho –que, no meu manual, sempre aumenta a distância. Azar e caverocas, como dizia minha mãe. Em compensação, conheci mais um pedacinho do passado de São Paulo.



Passei por baixo do viaduto Alcântara Machado, onde funciona uma movimentada comunidade do povo da rua.
Pelo que pude perceber, há vários grupos, associações de catadores e até uma enorme academia de ginástica, com muitas máquinas para musculação e outros exercícios.

Mini-hortas ou flores decorativas são cultivadas em garrafas de plástico penduradas em um alambrado; as paredes de alguns barracos funcionam também como mural em que colocam um alerta para a cidade que divide, discrimina e convive com a desigualdade.



Cruzando por eles, pego a rua Paulino Mônaco em busca de uma passarela de pedestres que vai me permitir cruzar para o outro lado da linha férrea. O quarteirão é feio: de um lado, a cerca protegendo os trilhos; de outro, armazéns fechados; na esquina, um bar em que bêbados discutem em altos brados na manhã que ainda vai curta.


A passarela é bela, porém abandonada. De ferro, com alambrados lindamente desenhados, que, com a falta de cuidados, viraram pedaços de ferro-velho carcomidos pelo tempo e pela ferrugem. Não vi em nenhum lugar a data de construção, mas deve ser pelo menos centenária.

Enfim do lado de lá dos trilhos, oficialmente no bairro da Mooca, dou de cara com o belo prédio onde está instalado o Museu da Imigração. 

Prédio onde funciona o Museu da Imigração - Foto Divulgação; as demais são de minha autoria


Originalmente, o edifício era a Hospedaria dos Imigrantes, abrigo inaugurado em 1887 para dar guarida aos chegantes ao Brasil de então.

Sigo em frente, sentindo os músculos ainda um pouco cansados da jornada do dia anterior. Por isso mesmo, hoje caminho, mas sem deixar a peteca cair: vou a passos rápidos, tentando manter a coluna ereta e a passada firme. Tenho de proteger o corpitcho envelhecido, senão qualquer hora voltam as dores na lombar, no quadril e alhures.

Hoje, pelo menos, não voltaram. Pude encontrar em paz, sem maiores altercações comigo mesmo, o meu destino de hoje: rua Siqueira Bueno, 668.



Ali, num prédio de dois andares de altura, frente estreita e dezenas de metros de fundos, funcionava em 1976 a Metal Arte, metalúrgica especializada em peças de iluminação –como suportes para luminárias; fazia também acessórios para automóveis.

Com 19 anos de casa, Manoel Fiel Filho estava entre os mais antigos dos cerca de 700 funcionários da empresa. Ele foi admitido na Metal Arte Indústrias Reunidas no dia primeiro de julho de 1957, com salário de CR$ 2,25 por hora de serviço.

Trabalhava das 7h às 17h30, com intervalo de uma hora para almoço, das 11h30 às 12h30, segundo registros citados por Carlos Alberto Luppi em seu livro “Manoel Fiel Filho – Quem Vai Pagar por Este Crime?”.

Então com 30 anos, Manoel tinha 1,59 m de altura e pesava 70 quilos. Toda sua documentação estava em ordem. Cumprira o serviço militar em quartel, como atestava seu certificado de número 90902. Tinha o título de eleitor número 76179 e votava na quarta Zona Eleitoral de São Paulo.

Talvez para ele, porém, o documento mais importante fosse outro, a Carteira Profissional. Os dados: número 23.044, série 82, de 27 de novembro de 1950.

Prezava a seriedade no trabalho, de onde quase nunca se ausentou ao longo de seus 19 anos de empresa. Ao que se saiba, há apenas duas faltas contabilizadas, ambas em 1971, por causa de dores na coluna.

Nada que fizesse com que perdesse a admiração e a confiança de chefes e colegas. Era “extremamente tranquilo e trabalhador”, segundo a gerência da empresa. Fazia horas extras “sempre que fosse preciso e sem se queixar de nada”, disseram os entrevistados de Luppi.

Começando como ajudante, foi galgando postos. Era encarregado do setor de prensas hidráulicas, lembra sua viúva, Thereza Fiel, em entrevista para este corredor.



O trabalho duro e o posto de chefe lhe valiam um salário de Cr$ 3.300. Com todas as trocas de moeda ao longo dos 40 anos passados desde então, não vou nem me atrever a fazer o cálculo dde quanto isso daria em valores de hoje. Era, de qualquer forma, um ganho razoável para a época; dava mais de seis salários mínimos, cujo valor, em janeiro de 1976, era de Cr$ 532,80.

Sempre chegava cedo ao trabalho, segundo o vigilante Arnaldo contou para Luppi. Seis da manhã já estava na porta da fábrica, onde ficava até o final do expediente e mais além: quando tocava o apito no fim da tarde, saía para um rápido lanche e voltava para o terceiro turno, o das horas extras.

A dedicação foi também atestada pelo gerente industrial da Metal Arte, Jorge Vito, citado no livro: “Manoel era homem de comportamento exemplar não participava de grupos e jamais foi visto distribuindo panfletos entre os operários”.
Até aí morreu o Neves, porque, se Fiel Filho efetivamente distribuísse material clandestino deveria fazê-lo clandestinamente, por suposto, fora das vistas de chefetes, subchefetes e gerentes em geral.

Alguma ação mobilizatória ele tinha. Era delegado sindical, representante de fábrica, como lembra o dirigente do Sindicato dos Metalúrgicos José Francisco Campos –o homem que abonou a ficha de filiação de Manoel em 1956.

A data da filiação de Manoel ao sindicato indica sua preocupação com as ações trabalhistas e com o trabalho de reivindicação: ele tinha apenas recentemente começado na profissão de metalúrgico, depois de atuar em ofícios diversos, incluindo trabalho em uma padaria e como cobrador de ônibus.

Ficou pouco tempo no primeiro emprego de operário, em uma metalúrgica que funcionava perto da rua dos Trilhos, segundo lembra dona Thereza. Em menos de um ano, saiu de lá para se empregar na Metal Arte.

No dia 16 de janeiro de 1976, dois homens desceram de um carro em frente à empresa, que fica em um quarteirão da Siqueira Bueno colado à Radial leste (ali a via se chama Alcântara Machado), à sombra do viaduto Guadajara, inagurado em 1970.

Era pouco depois das nove da manhã, de acordo com reportagem de Ricardo Kotscho publicada na época no jornal “O Estado de S. Paulo”.

Os dois homens, segundo o texto, procuraram o chefe de pessoal. Identificaram-se como ''elementos do DOPS", que precisavam falar com o operário Manoel Fiel Filho [outros relatos dão conta de que a polícia, na verdade, estava atrás de um certo Fiori ou Flores].
A reportagem de Kotscho segue: “O chefe de pessoal lembra que Manoel não mostrou nenhuma preocupação quando os dois homens lhe disseram que ele precisava ir ao DOPS "para fazer um reconhecimento”. Só perguntou se era preciso trocar de roupa, ao que os dois homens responderam que não: - É uma coisa muito simples, só prestar alguns esclarecimentos. Em duas horas ele está de volta.”
Manoel nunca mais voltou.
Já na época a Metal Arte estava em processo de transição –tinha sido vendida a investidores estrangeiros. A Metal Arte foi vendida a empresário estrangeiro.

Hoje, o local em que Manoel trabalhava faz parte de um depósito de uma empresa que fabrica colchões. Nesta manhã, o prédio de número 668 na Siqueira Bueno estava fechado.
Em frente ao depósito, sob o viaduto Guadalajara, funciona um serviço de atendimento a moradores de rua.

Mais para a esquerda, um murão protege um conjunto de prédios elegantes. Para diminuir sua feiúra, um grafite desfaz o azul-cinzento que cobre as paredes do restante do quarteirão.


CORRIDA POR MANOEL – sétimo dia

Destino: Rua Siqueira Bueno, 668, Mooca, onde funcionava a fábrica Metal Arte, onde Manoel Fiel Filho trabalhava; 6,62 km caminhados em 1h23min43

Quilometragem acumulada: 79,17 km



23.2.16

Correndo, juventude da zona leste faz homenagem a Rubens Paiva

Ela sorria, mas ao mesmo tempo não conseguia controlar as lágrimas que lhe tomavam os olhos. “É uma sensação esquisita sentir-se aliviada com uma certidão de óbito", disse lágrimas Eunice Paiva, viúva do deputado federal Rubens Paiva, desaparecido em 20 de janeiro de 1971.

Sua declaração à imprensa foi feita em 23 de fevereiro de 1996, no 1º Cartório de Registro Civil de São Paulo, onde recebeu a certidão de óbito do marido, após 25 anos de busca e espera.

"Durante muito tempo, como não nos entregavam esse papel, eu e meus filhos (cinco) ficamos na dúvida se Rubens estava morto ou não. Essa foi a forma de tortura mais violenta que impuseram às famílias dos desaparecidos políticos", disse Eunice conforme registro da “Folha de S. Paulo”.

Pois hoje, exatos 20 anos depois daquela dolorida conquista da família Paiva, tratei de fazer uma homenagem ao ex-deputado do Partido Trabalhista Brasil –aquele do século passado, de Getúlio e de Brizola.

Como parte do projeto CORRIDA POR MANOEL, fiz na minha sexta jornada um trajeto de pouco mais de vinte quilômetros até a Escola Municipal de Educação Fundamental e Média Rubens Paiva.

Pretendia pelo menos abraçar a escola com minhas passadas –se possível fosse, talvez conversar um pouco com alguns alunos, fazer uma corrida “in memória”.



A escola Rubens Paiva é um portento no Jardim Ângela –este fica na zona leste da cidade e não deve ser confundido com o distrito de mesmo nome, na zona sul da cidade; o da zona sul é  muito mais famoso e, em anos recentes, chegou a ser a região mais violenta de São Paulo.

O prédio da escola é gigante, se comparado com a maior parte das construções à sua volta. A escola fica numa encosta de morro: mais para cima, há casas de classe média, ainda que bastante simples; para baixo, há uma comunidade carente. É cercada por ruas estreitas e tortuosas, o que não garante que motoristas dirijam por ali em baixa velocidade: há alguns dias, uma estudante foi atropelada quando se dirigia para a escola.

Antiga, a Rubens Paiva viu crescer o bairro à sua volta. Instalada ali em 1997, quando muito da região “era mato”, como dizem alguns moradores mais antigo, serviu como polo aglutinador, imã atraindo gente para seu entorno.

Assim, não admira que fervilhe de gente. Funciona o dia inteiro, com aulas nos turnos da manhã, tarde e noite. No total, entre o pessoalzinho do fundamental e os mais taludos do ensino médio, abriga cerca de 1.100 estudantes.

No pouco tempo em que estive por lá, na manhã do dia do vigésimo aniversário da entrega do atestado de óbito de Rubens Paiva, vi corredores livres e limpos. A entrada da escola é protegida por grades. 

Depois de entrar, o visitante precisa ainda passar por um portão interno. Uma vez no prédio, é bem recebido: na sala de espera, há até um bonequinho com um pequeno cartaz dizendo “Sejam Bem Vindos”.

E bem-vindo eu fui, apesar de não ter tido oportunidade de preparar minha chegada com mais vagar. Conversei com o diretor, Rubens Batista, veteraníssimo da escola, onde atua desde 1998. 

Gentilmente, ele abriu espaço para uma conversa com os alunos mais velhos. Antes, ainda tive a oportunidade de apresentar o projeto da CORRIDA POR MANOEL para alguns professores, que acompanharam nosso bate-papo com os alunos.

Lá fomos nós para a primeira conversa, com alunos de segunda e terceira séries do segundo grau.

Eram mais de 50 adolescentes na sala, e apenas dois ou três levantaram o braço quando lhes perguntei se sabiam quem eram Rubens Paiva. 

Os que responderam, porém, foram 
certeiros nas informações.

Mesmo assim, tratei de dar um pouco mais de vida àquele conhecimento, juntando informações, falando do que tinha acontecido no Brasil em 1964.

O golpe militar, as perseguições políticas, o cerco aos sindicatos, as prisões arbitrárias e ilegais, a tortura, os assassinatos, a hipocrisia reinante.

Contei aos estudantes que Rubens Paiva era um jovem e aguerrido deputado quando o golpe fechou o parlamento: entre muitos que se calavam, ergueu a voz para denunciar o crime que se perpetrava contra as instituições e o povo brasileiro.

Viveu no exterior durante um período, mas logo tratou de voltar ao Brasil. Tratou de reerguer sua vida profissional, para garantir o sustento da família. E não deixou de lutar pelo que acreditava, apoiando, por exemplo, projetos jornalísticos que desafiavam o regime.

Era demais para a truculência ditatorial então instalada. As vozes rebeldes precisavam ser caladas. E o tacão se abateu sobre a família Rubens Paiva, como relata documento da Comissão da Verdade do Estado de São Paulo –nomeada justamente em homenagem ao líder estudantil e deputado nascido em Santos.

O relatório da Comissão, que reproduzo a seguir, traz detalhes da história:

“Na madrugada do dia 20 de janeiro de 1971, foram detidas por agentes do Centro de In­formações de Segurança da Aeronáutica (CISA) no aeroporto do Galeão, Cecília de Barros Correia Viveiros de Castro e Marilene de Lima Corona, sendo retiradas de avião da Varig procedente do Chile. Na revista de Cecília e Marilene, foram encontradas diversas cartas de exilados políticos no Chile para serem entregues no Rio de Janeiro. Um dos destinatários das cartas era Rubens Paiva.
Na manhã de 20 de janeiro, feriado de São Sebastião no Rio de Janeiro, Rubens Paiva e sua família foram surpreendidos por seis agentes do CISA armados com metralhadoras, que invadiram sua casa, no Leblon, logo após Rubens Paiva receber um telefonema de uma pessoa que queria lhe entregar uma correspondência proveniente do Chile. Então com 41 anos, Rubens Paiva foi levado de sua casa para prestar depoimento, em seu próprio carro, para o Quartel da 3ª Zona Aérea, localizado ao lado do aeroporto Santos Dumont, à época comandado pelo Tenente-Brigadeiro João Paulo Moreira Burnier, onde sofreu as primeiras torturas.
No mesmo dia 20 de janeiro, Rubens Paiva foi conduzido para o DOI – Destacamento de Operações de Informações do I Exército, situado na rua barão de Mesquita, no bairro da Tijuca, no Rio de Janeiro, juntamente com Cecília Viveiros de Castro e Marilene de Lima Corona. Em declarações prestadas no dia 11 de setembro de 1986, na Superintendência Regional do DPF no Rio de Janeiro, Cecília afirmou que:
“ao ser colocada no carro, encontrou no interior do mesmo um homem com as mãos amarradas, com a camisa em desalinho, tendo algumas manchas de sangue sobre a mesma e o que mais marcou a declarante foi a fisionomia do mesmo, o qual estava com os olhos ‘’esbugalhado”; que estava bastante vermelho naquela ocasião; que evidentemente aquele homem estava vivo até aquele momento; (...) ao entrar no carro que a levaria ao DOI-CODI reconheceu Rubens Paiva, e também foi reco­nhecida por aquele senhor; que esse reconhecimento foi apenas visual, não tendo na ocasião trocada nenhuma palavra(....)
No decorrer do dia 20 de janeiro, os agentes do CISA mantiveram os membros da famí­lia de Rubens Paiva incomunicáveis e detidos em sua própria casa. No dia seguinte, 21 de janeiro, Eunice Paiva e sua filha Eliane, então com 15 anos, foram levadas também para o DOI. Apesar da confirmação dos agentes do DOI de que Rubens Paiva lá estava detido, Eunice e a filha não estiveram com ele. Foram interrogadas várias vezes. A filha foi libertada no dia 23 e Eunice Paiva, apenas no dia 2 de fevereiro. Eliane, ao ser liberta na Praça Saens Peña, no bairro da Tijuca, foi informada pelo agente que fazia o serviço que o pai havia “fugido”.  Ao ser libertada, Eunice viu o carro do marido, um Opel Kadett, no pátio interno do quartel, carro que, posteriormente, foi devolvido à família mediante recibo de entrega do Ministério do Exército.
A família levou roupas para Rubens Paiva, entregues no segundo andar do Ministério do Exército, no Rio de Janeiro. Dias depois, nova entrega de roupas foi recusada, sob alegação de que ele não se encontrava em nenhuma organização militar sob o comando do I Exército. Para encobrir o desaparecimento forçado de Rubens Paiva, o Primeiro Exército divulgou versão na qual alegou que:
“O paciente não se encontra preso por ordem nem à disposição de qualquer OM deste Exército. Esclareço, outrossim, que segundo informações de que dispõe este Co­mando, o citado paciente quando era conduzido por Agentes de Segurança, para ser inquirido sobre fatos que denunciam atividades subversivas, teve seu veículo inter­ceptado por elementos desconhecidos, possivelmente terroristas, empreendendo fuga para local ignorado, o que está sendo objeto de apuração por parte deste Exército.”

Ainda que sem tantos detalhes, foi a história que contei aos estudantes da Rubens Paiva. 

Convidei a turminha para fazer uma rápida corrida memorial, mas já era quase hora do intervalo, falei para ouvidos moucos.

Na segunda conversa do dia, porém, o papo foi outro. Os quase setenta alunos de três turmas da primeira série do ensino médio não afinaram na hora do convite para a ação –brincadeira, movimento. 
Fizemos algumas voltinhas da quadra de esporte da escola.



Antes, conversamos sobre as histórias de Manoel Fiel Filho e de Rubens Paiva. “Encontraram o corpo?”, quis saber um dos garotos.

Não, não e não é a resposta. Torturado e assassinado em um quartel entre 20 e 22 de janeiro de 1971, seu corpo foi enterrado e desenterrado várias vezes por agentes da repressão, até ter seus restos jogados ao mar, na costa da cidade do Rio de Janeiro, em 1973, dois anos após sua morte.

Por mais de quarenta anos, porém, o Exército sustentou a versão do desaparecimento. Apesar de a família ter recebido o atestado de óbito em 1996, as circunstâncias da morte só vieram a ser oficialmente esclarecidas em fevereiro de 2013. Documentos então revelados pela Comissão Nacional da Verdade demonstram que Paiva morreu quando estava sob custódia do  Destacamento de Operações de Informações - Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-Codi) do 1º Exército, no Rio de Janeiro.

Depois da revelação, uma das filhas de Paiva disse frase semelhante à usada por sua mãe em 1996, quando recebeu o atestado de óbito de Rubens Paiva.  “O sentimento foi mais uma vez dar conta do luto interminável de 42 anos. Hoje é uma certa sensação de alívio” disse a psicóloga Vera Paiva em entrevista em Brasília.
Não basta, porém, identificar e reconhecer o crime, como disse Vera Paiva. “A gente imaginava que tinha acontecido, tinha indícios, mas não tinha prova material [do assassinato]. Com esses últimos documentos, um capitulo se encerrou, mas nós temos outros que é chegar, de fato, a quem procedeu a tortura e a morte de meu pai.”
Foi assim a história que relembrei com a turminha de estudantes da escola Rubens Paiva. 

Depois do bate-papo, fomos todos para a quadra de esporte, onde alguns se arriscaram a uma corridinha. 
Ao final, cantamos juntos: “Manoel Fiel Filho, presente! Rubens Paiva, Presente!”


CORRIDA PO MANOEL – sexto dia
Destino: EMEFM Rubens Paiva, no Jardim Angelo, 20,52 km em 2h41min38
Quilometragem acumulada: 72,55 km