17.3.16

Assassinato de Alexandre Vannucchi Leme é faísca para retomada do movimento estudantil

“Foi suicídio”, disse o delegado do Dops de São Paulo Edsel Magnotti ao pai do estudante de geologia Alexandre Vannucchi Leme. O menino de 22 anos teria se matado usando uma lâmina de barbear, conseguida sabe-se lá como, em algum breve intervalo das sessões de tortura.

“Foi acidente”, disse ao professor José de Oliveira Leme o macabro delegado Sérgio Paranhos Fleury, de carreira entranhada com  Esquadrão da Morte e tristemente famoso pela dedicação prazerosa com que se dedicava a provocar sofrimento nos presos sob sua tutela.

Na versão de Fleury, “Minhoca” teria tentado escapar da polícia e, na fuga, foi atropelado por um caminhão. Como se fizesse um favor, chegou a oferecer ao pai de Alexandre a placa do veículo  --macabro suvenir.

Nada.

Àquela altura, por volta do dia 20 de março de 1973, o corpo de Alexandre já tinha sido enterrado como indigente em uma cova rasa no cemitério de Perus. O cadáver fora coberto com cal, para que mais rapidamente entrasse em decomposição, impedindo que eventual exumação descobrisse as marcas de tortura.

Pois, tal como acontecera antes com Virgílio Gomes da Silva e outros presos políticos, tal como aconteceria depois com Vladimir Herzog e Manoel Fiel Filho, Vannucchi Leme havia sido morto sob tortura.

Militante da ALN, a agremiação de Carlos Marighella, Minhoca –apelido que ganhara por causa do corpo magro-- movimentava a estudantada na USP.

“Partilhava de todas as lutas comuns aos estudantes da época: contra o ensino pago, contra a falta de verbas, contra o fechamento do CRUSP. Por outro lado, como estudante de Geologia, foi extremamente preocupado com a questão dos recursos naturais do país devastados pelo capital estrangeiro. Sobre o ciclo da exploração do ferro, editou um boletim especial do Centro Acadêmico da Escola, no qual enumerava as principais jazidas e empresas exploradoras. Tomou posição contra a Transamazônica, do modo como estava sendo feita. E passou a fazer, junto com outros colegas, exposições e palestras em outras faculdades e escolas do 2° grau”, conforme diz sua biografia no site www.desaparecidospoliticos.org.br, criado pelo  Centro de Documentação Eremias Delizoicov e pela Comissão de Familiares dos Mortos e Desaparecidos Político.

Foi visto pela última vez no campus da USP no dia 15 de março de 1973. Sua prisão aconteceu no dia seguinte, por volta das 11 da manhã. No dia 17 de março, estava morto.

Em depoimento publicado na “Folha de S.Paulo” em 27 de abril de 1978, a ex-presa política Neide Richopo disse que, além de ser torturada e obrigada a assistir torturas, presenciou o assassinato de um rapazinho no DOI, chamado Alexandre. Segundo ela, “se ouviam os gritos de tortura de Alexandre durante dois dias; no segundo dia, ele foi arrastado, já morto, da cela onde ele se encontrava”.

Das câmaras de tortura, Alexandre foi carregado em frangalhos até a cela que compartilhava com outros presos. Ainda pode falar aos companheiros: “Meu nome é Alexandre Vannucchi Leme, sou estudante de Geologia, me acusam de ser da ALN… eu só disse meu nome”.

Não resistiu à violência e à brutalidade, conforme a biografia citada: “Por volta das 17 horas, o carcereiro conhecido pelo nome de "Peninha" foi retirá-lo da cela para levá-lo para mais uma sessão de tortura. Alexandre não respondia aos gritos do carcereiro que, intrigado, entrou na escura cela-forte e constatou que estava morto, saindo da cela aos gritos de "o homem morreu". Os torturadores correram todos para ver o corpo de Alexandre e o retiraram da cela-forte, arrastando-o pelas pernas. Tal cena, assistida por todos os demais presos recolhidos às dependências do DOI-CODI naquele dia era brutal: Alexandre sangrava abundantemente na região do abdômen.”

O assassinato de Alexandre não ficou impune. Os responsáveis diretos pelo crime não foram levados à Justiça, mas a ditadura militar, que propiciou, incentivou e disseminou a violência contra a oposição, acabou encontrando ainda mais oposição, mais forte e decidida.

A morte de Alexandre foi um rastilho, uma faísca que incendiou os ânimos dos estudantes paulistas e brasileiros.

A história é contada com brevidade pelo Diretório Central de Estudantes da USP, que homenageia Vannucchi Leme no nome:

“Outros estudantes também haviam sido presos e era preciso tomar alguma atitude. O Conselho de Centros Acadêmicos declara luto na USP e os alunos pressionam por uma intervenção do então reitor Miguel Reale que, num ofício à Secretaria de Segurança Pública do Estado, solicita informações sobre a morte de Alexandre “aos órgãos competentes”. A resposta, porém, contem as mesmas informações já divulgadas pelos jornais: atropelamento.

“Surge a idéia de convidar dom Paulo Evaristo Arns, arcebispo de São Paulo, para realizar uma missa em memória do colega assassinado. Entidades da sociedade civil, que até então preferiam fechar os olhos, começam a se levantar contra a tortura. Reunindo milhares de pessoas, o ato após a missa transforma-se na primeira grande manifestação pública de oposição à ditadura desde as manifestações de 1968.



“A revolta contra o assassinato do colega e outras 44 prisões de alunos da USP faz ressurgir o movimento estudantil. Em um dos momentos mais críticos da ditadura, em condições totalmente hostis, Gilberto Gil é chamado para denunciar as prisões em curso. Num claro gesto de desobediência civil, durante o show na Escola Politécnica, o cantor levanta assuntos delicados: política, movimento estudantil, arte engajada versus arte pura, o imperialismo americano. O show que deveria ser de 30 minutos dura três horas.

“No campus da USP, nas salas de aula, nos centros acadêmicos, os estudantes se mobilizam. Depois do silêncio imposto pelo AI-5, em 1968, os estudantes voltam a se reagrupar e, no dia 26 de março de 1976, criam, em assembléia, o DCE-Livre da USP, agora reconstituído e batizado com o nome de Alexandre Vannucchi Leme.”

Foi para Alexandre o dia de hoje da CORRIDA POR MANOEL. No 43º aniversário da morte do estudante, corri 17 km até a praça nomeada em homenagem a ele.


Fica no Jardim Catanduva, sob as ordens da subprefeitura de Campo Limpo, um dos mais populosos distritos de São Paulo, no extremo sudoeste da cidade, quase na fronteira com Taboão da Serra.



Aliás, para chegar até a praça, há que passar ao largo do pórtico que marca a entrada da cidade vizinha. Em quilometragem, não é muito longe: são pouco mais de 15 quilômetros do espigão da Paulista.

Há, porém, um mundo inteiro de distância desde os conglomerados financeiros que se erguem como contas de rosário ao longo dos dois quilômetros da rica avenida central e as favelas que pipocam nas laterais e encostas da estrada do Campo Limpo.



Para chegar até lá, desci praticamente toda a avenida Francisco Morato, até avistar o tal pórtico de Taboão. Era hora de entrar á esquerda, seguindo pela Estrada de Campo Limpo.

Vai-se enquanto se puder, depois há que dobrar numas quebradas, curva para cá e lá, seguir mais um pouco e, enfim, entrar à direita.

É claro e evidente o descuido com a praça. Há lixo em vários locais, grama alta, equipamentos de parquinho quebrados, equipamentos de ginástica abandonados, as quadras de basquete e futebol de salão estão em petição de miséria.



Caminhei e corri por lá para tentar criar no mapa o desenho do perímetro da praça, que é uma espécie de triângulo com degraus. Na parte mais próxima à rua principal da área, é apenas uma nesguinha, uma faixa, uma tripa, que vai engordando e ganhando corpo à medida que a gente avança para o bairro.

Fica mais larga: cabem duas quadras de esporte, que parecem largadas à própria sorte. Mais para a frente, há uma área de lazer, um pátio de cimento onde ainda sobrevive um aparelho de ginástica –um outro está jogado no meio da grama alta.



No extremo desse plano, ficam os restos de um parquinho para crianças, que um dia deve ter sido muito bacana. É daqueles em que os brinquedos são criados com grossas toras de árvores; do conjunto de balanços, porém, só restou a estrutura.

Uma escadaria dá acesso aos platôs mais altos da praça. Lá em cima, quase escondido no meio da grama, há uma mesa e bancos que seriam ótimos para reunião da comunidade, piqueniques, encontros de amigos, mas estão largados.

Ou estavam. Apesar do abandono evidente, a praça não está totalmente esquecida. Quando estive lá, na manhã de hoje, 43º aniversário da morte do Minhoca, equipes de limpeza e jardinagem trabalhavam a mil.



O som dos cortadores de grama enlouquecia quem porventura buscasse
paz e silêncio, e pelo menos meia dúzia de trabalhadores cuidava de varrer e deixar tudo em condições mais apresentáveis.

Falta muito para ficar boa, mas é melhor que nada.


CORRIDA POR MANOEL – 26º dia

Destino – praça Alexandre Vannucchi Leme, percurso de 17,55 km


Distância percorrida até agora: 281,29 km 

16.3.16

O dia em que me encontrei com Luiz Carlos Prestes

Conheci Luiz Carlos Prestes. Não que eu tenha sido amigo do Cavaleiro da Esperança nem que eu tenha participado da heroica peregrinação patriótica da coluna por ele comandada. Mas o conheci, assim, de carne e osso, ao vivo e em cores.

Era baixinho e atarracado, menor do que eu o imaginava. Também, faltavam poucos dias para seu aniversário de 82 anos, muitas décadas de luta e de padecimento –jornadas em terreno adverso, tortura, prisão, exílio.

Depois de anos abrigado e protegido na então União Soviética, Prestes voltara ao Brasil em outubro de 1979, dois meses depois de promulgada a anistia.

E voltara fazendo barulho, desafinando o coro dos contentes, chamando o povo para a briga, criando marola e fazendo onda, chacoalhando as estruturas de seu Partido Comunista Brasileiro.

Galvanizou a atenção da militância mais jovem e de muitos que, dentro do PCB, queriam mais ação para avançar nas lutas democráticos. Esse povo era chamado de “prestistas”, seguidores de Prestes, apoiadores do “prestismo”.

Diversas outras agremiações clandestinas viram ali uma oportunidade de se aproximar da legendária figura, fazer acordos, buscar trabalhos e ações conjuntas. Afinal, ele estava defendendo uma frente ampla oposicionista.

Vai daí que o extinto MR-8 (Movimento Revolucionário 8 de Outubro) achou por bem divulgar as ideias do Cavaleiro da Esperança. A melhor maneira seria publicar no “Hora do Povo”, o jornal do partido, uma grande reportagem com Prestes.

Depois das emoções de seu retorno ao Brasil, o líder comunista passou a fazer uma peregrinação pelo país para conversar com o pessoal de seu partido que estava descontente com as lideranças de então e para abrir diálogo com outros grupos e instituições.

Em dezembro de 1979, ele estava em Porto Alegre e abriu um espaço na sua agenda para conversar com o “Hora do Povo”. E quem era o responsável pela sucursal gaúcha do HP? Este que vos fala.



As tratativas foram feitas pelos capa-preta dos dois grupos, sei lá como. O certo é que marcaram dia e hora, e lá nos fomos nós, eu e mais dois colegas.

Não sei a data exata. Era o final do ano, um calor de rachar em Porto Alegre, sol para mais de metro.

A casa onde ele estava hospedado ficava na zona sul, perto do Guaíba. Povavelmente era de algum dos advogados do PC –na época, em Porto Alegre, havia vários advogados importantes entre os prestistas.

A memória engana, talvez haja mais criação do que fato nas minhas lembranças, mas a imagem que me vem a mente é de uma casa de alvenaria baixa, em cores claras, branco ou gelo, azul claro.

Quem nos abriu a porta foi a mulher de Prestes, Maria. Forte, maior que ele –pelo menos, foi a minha impressão--, cabelão superpreto, recebeu as flores que levamos. Eram rosas vermelhas, creio eu --de vez em quando, pensando e repensando, acho que era um buquezão de flores do campo.

Ela nos levou os três para uma sala, sentamos a uma mesa oval, de madeira escura. Prestes entrou e sentou em um cabeceira, depois dos cumprimentos de praxe.



Havia uma certa liturgia para a entrevista, algo meio teatral em todo o encontro. Os horários eram rígidos, ele nos concederia um tempo exato –meia hora, talvez--, havia que aproveitar cada minuto.

Fizemos toda a cerimônia, mas, conversa vai, conversa vem, acho que ele acabou gostando da gente, ficamos muito mais que o combinado. Só de entrevista gravada, segundo publicamos no jornal, foram 45 minutos.

Ele falava com voz rouca, cavernosa, pausada. Não sei ou não lembro se fumava, mas a impressão que me ficou é de uma voz machucada. O que dizia, porém, era aço puro para machucar profundamente o governo e para mexer com os brios das forças internas.

“As multinacionais é que mandam no Brasil” foi a manchete da entrevista que fizemos com ele. 

Antes do texto, um preâmbulo (que a gente chama de “olho” e que não fui eu quem escreveu) coloca as coisas em contexto: “O líder do Partido Comunista Brasileiro, Luiz Carlos Prestes, esteve no Rio Grande do Sul fazendo contato com suas bases políticas, participando de comícios e concedendo entrevistas à imprensa. Ao Hora do Povo, Prestes dedicou 45 minutos de declarações exclusivas sobre a sua visão de conjuntura, a tática do PCB, o Eurocomunismo, e propõe a União dos Comunistas para fortalecer a Frente de Oposição à Ditadura”.



O texto da entrevista está dividido por tópicos e ocupa quase meia página do jornal, no tempo em que as páginas eram grades mesmo, e as letras pequeninas.

Destaco alguns dos pontos da entrevista realizada em dezembro de 1979 e publicada na edição do HP de 4 a 11 de janeiro de 1980 (Prestes fez 82 anos no dia 3 de janeiro). Ajuda a ver as coisas em perspectiva.

Conjuntura: “Vivemos sob uma ditadura militar, um governo ilegítimo (...) A primeira vitória do povo foi a conquista da anistia. (...) Os estudantes em 77 anularam na prática o decreto 477, passaram a fazer política na Universidade. (...) Em maio de 78 era a classe operária que passava por cima da lei de greve.”

Contra o Eurocomunismo: “Nós combatemos o eurocomunismo. É uma expressão inadequada, que a burguesia criou para separar os comunistas: os comunistas do ocidentes dos comunistas dos países socialistas. Hoje alguns dirigentes adotam essa expressão como sendo a luta por um socialismo democrático. Todo o socialismo é democrático, porque a democracia é inerente ao socialismo.”

Frente: “Nós convocamos a todos os patriotas, a todos os democratas, que são contra a ditadura, que queiram dar um passo conosco na luta contra a ditadura, a nos unirmos em uma ampla frente de oposição”.

Inimigo: “O imperialismo já não é hoje apenas um inimigo externo, é um inimigo que está dentro da estrutura econômico-social brasileira. (...) As empresas multinacionais são quem manda aqui no Brasil”.

E por aí segue a entrevista. Para mim, foi um momento profissional e político marcante, emocionante, que agora revivo nesta CORRIDA POR MANOEL.

Na jornada de hoje, fui visitar o parque Luiz Carlos Prestes, um recanto de paz e verde no Butantã, zona oeste de São Paulo. Com mais precisão, digo que se trata de uma revisita.



Descobri o parque há uns quatro anos, em um treino pelas ruas da cidade, sem rumo, sem direção. Eu estava lutando comigo mesmo, tentando colocar ideias e emoções em ordem, temperando raiva com medo (ou seria o contrário?), imaginando o futuro, criando cenários, vivendo um turbilhão de vidas ao mesmo tempo.

Foi a primeira corrida que consegui fazer em vários dias. Saí atrás de meu nariz, tentando não tropeçar nas próprias pernas, desviando das armadilhas que a cidade monta para o corredor. A gente tem de olhar para frente, mas não pode nunca descuidar do chão. De vez em quando, dá para olhar para o alto e para cima.

Numa dessas olhadas, notei a placa que anunciava a proximidade do parque Luiz Carlos Prestes. Embiquei na direção, me fui.

Escrevi um texto sobre o encontro, publicado no blog que eu tinha no site da “Folha de S. Paulo”. O título dizia “Luiz Carlos Prestes está vivo e mora no Butantã”.

A certo trecho, comento: “O Luiz Carlos Prestes de hoje, o parque, lembra muito o Prestes homem. Tal como ele, é pequeno. (...) Mas a aparência miúda se agiganta quando o parque mostra sua alma.

“Escondida pelos verdes, há uma escadaria de madeira, degraus feitos de troncos, madeira de demolição encravados na terra para uma escaladas rústica a um outro platô; depois, mais outra ainda. O parque é feito em pequenos andares de mata, pequeno e atarracada como o ser que homenageia.

“Tem de um tudo: parquinho para a gurizada, área para descanso, para fazer um piquenique, uma estufa para plantas em que são preparadas mudas de árvoras, duas quadras de futebol de salão.”


Hoje notei ainda mais: no primeiro “andar” do parque –que se divide em três platôs aproveitando o movimento da colina em que está instalado--, há tabuleiros em meses de pedra, para jogos de dama ou xadrez.




Num canto, equipamentos rústicos para musculação, uma barra de ferro com pesos de cimento nas pontas (nem tentei mexer naquilo).


Atrás do parquinho infantil, no platô principal, o do segundo andar, há uma área com uma bela churrasqueira. Bela e concorrida: as reservas para uso são feitas no dia primeiro de cada mês, para o mês seguinte; desde as quatro da matina já tem gente na fila, segundo me disse hoje um funcionário do parque.


Com a chuvarada da noite passada, o parque estava ainda úmido; havia poças em alguns lugares. Na manhã cinzenta, havia poucos visitantes, apenas duas ou três pessoas levando seus cachorros. E eu, lembrando Manoel Fiel Filho e saudando Luiz Carlos Prestes, que ainda viveu o bastante para ver o fim da ditadura -morreu em 1990, aos 92 anos.



CORRIDA POR MANOEL – 25ª etapa

Destino – Parque Luiz Carlos Prestes, percurso de 10,01 km, realizado em 1h39min27

Distância total já percorrida: 263,74 km

15.3.16

General de Quitaúna defendeu legalidade e tentou resistir ao golpe

O quartel de Quitaúna, em Osasco, foi o meu destino de hoje na 24ª etapa da CORRIDA POR MANOEL.

É um local que está no imaginário de todos os que estudam as lutas pela democracia no país: foi lá que serviu o capitão Carlos Lamarca, de lá ele saiu com 63 fuzis para comandar a resistência armada contra a ditadura militar.

Imaginava o quartel localizado em uma colina, distante de tudo, de tudo protegido. Mas não: está numa baixada, perto da movimentada avenida dos Autonomistas, atrás da linha de trem.

É relativamente próximo ao centro da cidade. Fica a cerca de dois quilômetros do local onde funcionava a metalúrgica Cobrasma, epicentro de um dos maiores movimentos operários que o país já viu, a Grande Greve de Osasco, em 1968.



Cheguei ali, aliás, ciceroneado por um ativista do Sindicato dos Metalúrgicos de Osasco. Assessor da diretoria, Wilson Costa, 39, correu comigo desde que atravessei o viaduto Único Gallafrio para atingir a região dominada pela estação de trem Presidente Altino.

Com a ajuda dele, foi fácil enfrentar as quebradas até chegar à avenida dos Autonomistas, que leva direto à frente do quartel, num percurso de cerca de cinco quilômetros –para mim, que vinha do alto da zona oeste paulistana, totalizou 18 quilômetros e mais uns troquinhos.

Enfim chegamos à frente do quartel, que foi comandando pelo general Euryale de Jesus Zerbini, um dos poucos oficiais de tão alta patente que se colocaram contra o golpe militar de 1964, em defesa da Constituição e da legalidade.

Quando veio a sublevação, Zerbini –irmão do cirurgião Euryclides, pioneiro do transplante cardíaco— já não estava mais no controle da unidade de Quitaúna. 

Comandava tropas no interior do Estado, e chegou a fazer uma movimentação para levar seus homens em direção ao Rio de Janeiro.

À medida que seguia, porém, recebiam notícias de que mais e mais comandantes aderiam ao movimento golpista. Zerbini (1908-1982) foi preso e levado ao Forte de Copacabana.

Foi um dos poucos generais que tentaram esboçar uma reação ao golpe, como ele mesmo disse em entrevista publicada no livro “Zerbini – Um General Muito Amado”, de sua mulher, a advogada Therezinha de Godoy Zerbini, ela também um símbolo da luta democrática no pais.

“O que restou na hora do confronto?”, pergunta ele. E responde a si mesmo: “Cunha Mello, que tentou resistir em Minas, o general Ladário Telles, no III Exército, e eu”.

E ensina: “O que deveria ter prevalecido era um juramento, uma legalidade e, sobretudo, uma Constituição intocável. Numa situação dessas, cada comandante sabe que tem de ser leal ao seu comandante. Não a homens, mas à Presidência da República”.

Que assim seja, penso eu, enquanto começo a retornar de Quitaúna, o quartel de Zerbini. E o quartel de Lamarca. Mas isso é outra história.



CORRIDA POR MANOEL – 24ª etapa

Destino – Quartel de Quitaúna, Osasco, percurso de 18,16 km realizado em 2h20min17

Distância percorrida até agora: 253,73 km

13.3.16

Polícia da ditadura persegue Manoel Fiel Filho até depois da morte

Miúda e morena, a menina de apenas 16 anos se revoltou conta os policiais, homens soturnos, que não se apresentavam e ficavam rondando entre os amigos e familiares de Manoel Fiel Filho durante o enterro do operário, em 18 de janeiro de 1976.

Os agentes chegaram ao cúmulo de subir na campa na hora de o caixão ser colocado na terra. Foi demais para a menina: “O que vocês estão fazendo aqui? Já viram o que tinham de ver!”, ela gritou.

Foi o único protesto naquele momento, em meio ao silêncio imposto à família pelos agentes da ditadura militar.

Manoel morreu por volta do meio dia em uma sala de tortura no prédio do DOI-Codi, na rua Tutóia. Uma hora depois a encenação estava pronta, o corpo estirado em um catre com as meias atadas em torno do pescoço.

Foi quando os carcereiros chamaram os outros presos, levaram os prisioneiros até a cela de Manoel, como se fosse preciso tê-los de testemunhas para o suicídio que não houve.

Só no início da noite do dia 17 de janeiro de 1976 a família ficou sabendo da morte. Dois sobrinhos e um irmão de Manoel foram ao IML para liberar o corpo.

No começo, só ouviram negativas, enganações, enrolações. Finalmente, o pessoal do Instituto Médico Legal reconheceu que o corpo estava lá. Mas Manoel só seria devolvido à família em troca do silêncio sobre o crime.

“Falaram que, se fosse para fazer bagunça, o corpo não ia sair, ia direto para o cemitério da Vila Formosa, enterrado como indigente”, lembra Márcia, a filha caçula de Manoel, 56, durante conversa que tivemos em Bragança Paulista, onde a família mora hoje.

“E não iam permitir fazer o velório”, diz a filha mais velha, Aparecida, 60, que também estava na nossa entrevista, assim como sua mãe, dona Thereza de Lourdes, 83.

O velório foi realizado, ainda que às pressas. A igreja Nossa Senhora de Lourdes, onde aconteceu a cerimônia, foi minha primeira parada na corrida de hoje, que teve como destino o cemitério onde Manoel foi enterrado.



É uma igreja imponente, ainda que não muito grande. Chega-se a ela por escadarias disposta em semicírculo; bem em frente à porta principal, alguns degraus abaixo, há uma fonte toda branca. Do lado direito de quem olha o prédio principal se ergue a torre do sino.

Quando cheguei, a missa das 8h estava em andamento. Esperei e logo depois fui recebido pelo padre Dervili. Novo na paróquia, ainda que religioso experiente, ele disse não saber de registros do velório de Manoel Fiel Filho.

Pudera. Foi tudo feito na surdina, direto do IML para a igreja.

É impossível hoje saber qual o caminho feito pelo carro que levou o corpo. Imagino que pode ter passado por parte do trajeto que fiz hoje. Cruzei da zona oeste, passando a um quarteirão do IML, até o início da zona leste, onde ficam a igreja e o cemitério.

Como sempre, o caminho principal foi a rua da Moóca. Quando ele cruza a Paes de Barros, uma das principais avenidas do bairro, dá para ver um dos prédios que a historiografia da cidade segue sem dar a devida importância.

Pudera! O edifício em tijolos vermelhos, que lembra um castelo ou um palácio presidencial, é uma das testemunhas da Revolução Esquecida, a Revolução de 1924. São os restos de uma fábrica construída no final do século 19, hoje aproveitados por uma rede de supermercados.


Inaugurado em 1897, o Cotonifício Rodolfo Crespi era uma potência. No prédio de três andares, com cerca de 50 mil metros quadrados, funcionavam 500 teares, 14 mil fusos; havia fiação, tecelagem, tinturaria e malharia.


Foi um dos principais pontos da grave greve dos tecelões em 1917. Bem depois que a poeira abaixou, em abril de 1924, os funcionários da fábrica fundam o glorioso Juventus. Três meses depois o edifício é atingido por bombardeio do governo federal, que tenta debelar a revolta que brota em São Paulo.


“Os bairros da Mooca, Braz e Belenzinho foram atingidos por um canhoneiro tão pesado que as ruas ficaram repletas de cadáveres. Os coveiros não davam conta de cavar sepulturas para enterrar todos os mortos, o que levou muitas famílias a enterrar os mortos nos quintais de suas casas”, segundo o site Portal da Mooca.

Foi o mais sangrento conflito vivido por São Paulo. A revolta demorou 23 dias e deixou como saldo, segundo os números oficiais, 503 mortos e 4.846 feridos, a maioria deles civis.  Historiados contestam os dados. O livro “Bombas Sobre São Paulo” contabiliza 720 mortos.

É uma demonstração de que muito antes da ditadura os poderosos procuravam maquiar dados e manipular informações para que a história não registrasse as barbaridades praticadas.

Para mim, ficou a reflexão enquanto seguia pela rua da Mooca, que iniciava então um sobe e desce. Em um de seus pontos mais altos, preciso seguir para a esquerda, começa a descer em direção à Água Rasa, onde fica a igreja.

Passo por uma silenciosa rua chamada Porto Feliz, parte de um conjunto de vias dispostas em semicírculos concêntricos, se é que existe essa definição. Espero que tenha dado para entender: são ruas curvas, que lembra o desenho de um C deitado, cada uma um pouco maior do que a outra.

De um lado da Porto Feliz há casas; do outro, uma série de edifícios baixos. Tudo ali me fez lembrar o querido bairro do IAPI, em Porto Alegre –na minha adolescência, pronunciávamos cada letra da sigla que identifica o Instituto de Aposentadorias e Pensões dos Industriários; hoje, é mudérno dizer iápi, como se fosse uma palavra.

Os prédios em Porto Alegre são mais simples, e a população que lá vive provavelmente tem renda menor do que os moradores da rua Porto Feliz; mas há uma parecença. Entre um bloco de prédios e outro, encontrei uma estátua com a figura de um rosto maltratado, pichado e sem identificação do homenageado.


Segui caminho na minha homenagem particular a Manoel Fiel Filho. Não é surpresa descobrir que não há memória dele na igreja onde foi realizado o velório. Na época mesmo tudo foi feito às pressas, de maneira secretiva, no silêncio imposto pelos agentes da ditadura, conforme registra o repórter Ricardo Kotscho em texto publicado em “O Estado de S. Paulo”.


“Aquela hora, seis da manhã, como fazem todos os domingos, chegavam para a missa das seis os muitos amigos que Manoel deixou na rua Imbó, na Agua Rasa, ali pertinho da igreja, onde conheceu sua mulher Teresinha e morou muitos anos na casa dos sogros.

“Só nesse momento, ao ver a movimentação do velório, eles ficaram sabendo que Manoel estava morto. Uma antiga vizinha, de 73 anos, forte sotaque lusitano, queria saber do que ele tinha morrido --logo ele que sempre foi tão forte e nunca se queixou de doença. A explicação que lhe deram e aos outros amigos: "Manoel sentiu-se mal no serviço, foi levado para o Hospital das Clínicas e morreu".


“Três elementos estranhos à família controlavam todos os movimentos no velório e conversavam entre si em voz baixa. Os parentes só puderam ver um corte, "que ia da garganta até o peito", certamente consequência da autópsia.”

O velório durou duas horas, tal como imposto pelas forças repressivas. Depois o enterro seguiu para o cemitério da Quarta Parada, a poucos quarteirões da igreja. Apenas 30 pessoas –sem contar os policiais-- acompanharam o caixão, que foi levado para a quadra 101 do cemitério.


Hoje, na casa de Márcia, a filha caçula de Manoel, ainda se faz um silêncio dolorido quando pergunto sobre aqueles momentos. As frases vêm de cada uma delas, Márcia, Aparecida e Thereza, como se uma puxasse a memória da outra, montando um desenho daquela manhã de 18 de janeiro de 1976.
Dona Therea com as filhas Márcia (de vermelho) e Aparecida - Foto Eleonora de Lucena

Márcia reafirma: “Foram duas horas de velório”.

Dona Thereza, a mãe, a viúva, traz memória de outro dia, como se fosse uma segunda morte de seu marido: “Me chamaram na polícia, perguntaram: “O que a senhora acha dessas mortes?” Eu falei: “Não sei, um morreu enforcado, o outro com as meias, porque isso”. Ele falou desse jeito: “O Herzog era covarde, e o seu marido é um homem envergonhado, decente, ficou com vergonha da família então ele se matou, ficou com vergonha que está preso.” Eu falei: “Jamais ele ia ter vergonha da família.”


As ofensas a Manoel e a humilhação de dona Thereza aconteceram durante fase de instrução do IPM, Inquérito Policial Militar. A viúva ainda hoje se revolta com a farsa que tentaram lhe impingir quando esteve no prédio do DOI-Codi: “Mataram lá em cima, trouxeram ele para baixo, com as meias no pescoço”.


Trago a conversa de volta para o dia do velório, pergunto se alguém chegou a ver o corpo. “Meus primos e meu tio, no IML”, diz Aparecida. “Abriram uma porta, deixaram eles olharem de longe, mas perto do corpo ninguém chegou”.

No velório, o caixão pode ser aberto. “A gente viu o nariz quebrado”, diz Aparecida. “O nariz estava torto”, completa Márcia. E sua irmã acrescenta: “Tinha marcas, uns roxos...”.

As duas lembram que havia muita gente estranha no velório, “uns homens”. Dona Thereza fala: “Ninguém podia abrir a boca. Tinha sempre um para escutar as conversas”.



No cemitério, a perseguição se repetiu, conforme elas contam, em frases que se completam.

Aparecida: Até na hora de enterrar, do caixão descer, eles subiram todos assim para olhar.

Márcia: Em volta. Por trás, tudo.

Thereza (apontando para a filha caçula): Essa daqui brigou com eles. Ela falou: “O que vocês estão fazendo aqui? Já viram o que tem que ver!”

Márcia: O corpo já estava descendo lá dentro, o que os caras estavam olhando?! Em cima lá no buraco. Queriam o quê?! Certeza que ele estava sendo colocado lá dentro?! Não dava! Sabe quando começa a descer o corpo?  Porque o nosso túmulo da família é daqueles que têm as gavetas em volta, estão estava descendo, os caras tudo em cima do buraco!

Os gritos da menina Márcia, no dia do enterro, talvez tenham sido o estopim para iniciar a reação da família. Na farsa do IPM, o crime ficou mascarado. Dona Thereza prosseguiu buscando Justiça, porém, até provar: “Meu marido foi assassinado!”



CORRIDA POR MANOEL – 23ª etapa

Destino: Cemitério da Quarta Parada, passando por igreja Nossa Senhora de Lourdes, percursos de 18,55 km realizado em 2h33min55


Distância total percorrida: 235,57  km