26.7.16

Fora, Costa e Silva!! Fica, Jango!!




Um intrépido e trepidante grupo de corredores e caminhantes democratas e patriotas realizou na noite deste dia 25 de julho de 2016 o PRIMEIRO TREINO LIVRE NO ELVADO PRESIDENTE JOÃO GOULART.

Fazendo o que gostamos, afirmamos a luta pela legalidade em nosso país, mais uma vez ameaçada hoje em dia, como ocorreu em 1964, quando Jango foi apeado do poder por golpe militar.

Turminha reunida antes de começar a caminhada/corrida -- Fotos Eleonora de Lucena


Nosso treino noturno foi tão pioneiro quanto a iniciativa da Prefeitura de São Paulo, eliminando de ruas e obras viárias nomes vinculados à ditadura, ao golpismo e ao mais raso entreguismo da Nação.

Falo pioneiro com absoluta fidelidade aos fatos. Essa foi a primeira mudança de nome de rua em São Paulo –no caso, de um elevado—aprovada pela Câmara Municipal e sancionada pelo prefeito Fernando Haddad, do PT.

A assinatura da lei foi feita em ato público na manhã de segunda-feira, com a presença de diversos representantes de movimentos populares e associações de memória.

À noite, a comemoração foi do povo –ou, pelo menos de uma parcela do povo que gosta de correr pela liberdade. E o nosso foi o primeiro treino coletivo no elevado, ainda que o local tenha recebido muitos outros corredores avulsos.

Tudo isso se refere ao monstrengo viário e arquitetônico conhecido como Minhocão.

Foi idealizado e construído no final da década de 1960 pelo então prefeito biônico Paulo Maluf. Inaugurada em 25 de janeiro de 1975, a obra consumiu trezentos mil sacos de cimento, sessenta mil metros cúbicos de concreto e duas mil toneladas de cabos de aço. Em alguns pontos, passa a menos de cinco metros das janelas dos vizinhos.

Áulico dos ditadores, Maluf batizou o Minhocão de Elevado Presidente Costa e Silva, homenagem ao general que comandou o Brasil em um dos períodos mais sangrentos da ditadura –ele é a triuste figura que assinou o AI-5, expressão jurídica do abuso e da violência contra o cidadão.

Pois apesar de a ditadura já ter sido derrotada há mais de 30 anos, até agora persistem homenagens a figuras envolvidas nessa ação lesa-pátria.

Por isso, há que aplaudir a iniciativa paulistana de jogar fora o nome de Costa e Silva e homenagear o patriota João Goulart  -além de tudo, gaúcho de São Borja.


Foi o que fizemos, à nossa maneira.

Pouco depois das nove da noite já estávamos em um pequeno grupo, esperando a hora de o elevado recém-batizado abrisse as portas para o povo –às 21h3o o trânsito é interrompido, e o Minhocão vira um enorme parque popular.

Claudinha e Nita, que já haviam participado de etapas da nossa querida CORRIDA POR MANOEL, foram as primeiras a chegar, logo trazendo com elas um colega radialista, parceiro de treinos.

O engenheiro Jurivaldo Santos, que mora em Jarinu, estendeu seu dia em São Paulo para nos dar a satisfação de sua presença. Ele é apoiador de um grupo chamado Mães pela Inclusão, muito bacana. E o grande escritor e jornalista Luiz Claudio Duarte também disse presente! (aliás, mancheteiro de primeira, foi ele quem criou o título deste artigo).

Duarte começou a passo, ao lado de Eleonora de Lucena, autora de um formidável artigo sobre a conjuntura atual – para ler o texto, clique AQUI. Nós outros partimos em ritmo de corrida brincante.

Não sem antes tirarmos a histórica foto com a bandeira nacional –na verdade, uma canga, a mesma com que me esquentei depois de uma ultramaratona na maior praia do mundo, no Rio Grande do Sul ...

 Numa noite muito agradável, as conversas foram muitas. Fiquei impressionado e revoltado ao saber que, nos grupos de corrida, corredores democratas e patriotas vêm sendo discriminados por gente enganada pelos golpistas.

Em algumas assessorias esportivas, quem se manifesta contra o golpe é simplesmente banido dos grupos internéticos. Gente, menos!! Os golpistas não se dizem democratas? Pois que enfrentem o contraditório.



Nossa corrida teve pouco mais de cinco quilômetros, o que já me deixou esfalfado por causa do ritmo que os companheiros resolveram imprimir. Eles deveriam respeitar um velhinho quase sexagenário, mas, nada!!

Bueno, eu ia até escrever mais um pouco, mas vou parar por aqui mesmo, usando como encerramento uma fala do já citado Duarte:

Caminhar sobre o novo elevado João Goular foi uma celebração, mais um ato simbólico do paulistano no sentido de superar essa obra que exalta a engenharia bruta e um regime sanguinário, responsável pelo AI-5, mortes e perseguições. A cada ano que passa o paulistano expressa um novo modo de ver e usar o elevado. Fora, Costa e Silva! Fica, João Goulart, para sempre!

Que beleza!!!!







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Bueno, terminei o meu texto, mas ficam ainda algumas observações, avisos e outras coisas.


1. Fique atento, pois vamos prosseguir nos encontros dos corredores patriotas e democratas. Se você tiver sugestão de caminho ou evento, mande aí e a gente conversa. Pela legalidade! Contra o Golpe! Pela Pátria!


2. A mudança de nome do elevado faz parte de um projeto chamado Ruas da Memória, implementado pela Coordenação de Direito à Memória e à Verdade, da Secretaria Municipal dos Direiros Humanos e da Cidadania.

Ao saber de nosso PRIMEIRO TREINO LIVRE NO ELEVADO PRESIDENTE JOÃO GOULART, Dyego de Oliveira, assessor da coordenação, mandou uma simpática mensagem para mim. Ela vai reproduzida a seguir:
Olá, Lucena!

Genial a ideia de fazer a corrida no elevado pra marcar a data! Parabéns!

Sobre a mudança dos nomes estas são realmente as primeiras. Como a Carla disse já temos outros PLs tramitando na câmara para fazer a alteração de outros nomes e um em vias de ir para lá resultado de uma mobilização recém-realizada na zona norte. O mais interessante desta última é que lá nós fomos convidados pelos coletivos da região que já estavam se mobilizando para mudança do nome, nos parâmetros do Ruas de Memória. Quer dizer que nossos objetivos de territorializar o debate e envolver as comunidades estão acontecendo não necessariamente por nossa iniciativa, o que é incrível. É a cidade se apropriando do programa e da discussão deste tema.

Atualmente estão tramitando na câmara os PLs 410 e 411 de 2015, enviados à câmara no dia de lançamento do programa Ruas de Memória, e o PL 193 de 2016.

O PL 410/2015, de autoria do executivo, introduz alterações na lei de logradouros de 2013 vedando a denominação de logradouros públicos com nome de pessoas que tenham cometido crime de lesa-humanidade ou atuado em graves violações aos direitos humanos, bem como relacionado a fatos, eventos ou datas alusivas a essas ocorrências.   

Na esteira do PL 410/2015 enviamos também o PL 411/2015 que prevê a alteração do nome do viaduto 31 de Março, na região do Pq. Dom Pedro, para Viaduto Therezinha Zerbini, lutadora pela Anistia. A aprovação deste PL depende da aprovação do 410/2015 já que datas alusivas a estes movimentos não estavam contempladas como motivo de alteração na legislação corrente.

Já o PL 193/2016 de autoria da vereadora Juliana Cardoso, altera a denominação da Rua Doutor Alcides Cintra Bueno Filho, na Vila Amália, para Rua Zilda Arns, fruto de mobilização do Ruas de Memória com os moradores em novembro passado.

Como disse lá em cima teremos logo mais outro PL em tramitação para alterar o nome da Praça General Milton Tavares de Souza (o Caveirinha). O nome para alteração já foi até escolhido pelos freqüentadores da praça na mobilização feita lá no último dia 09 de julho.

Outro PL que está tramitando é o PL 243/2013 que altera a denominação da Rua Doutor Sérgio Fleury para Rua Frei Titto. Este PL é de autoria de vários vereadores, puxado principalmente pelo Orlando Silva, resultado de diálogos acompanhados pela Coordenação de Direito à Memória e à Verdade. Este PL não está vinculado diretamente ao Ruas de Memória, mas tem princípios muito parecidos e acompanhamos esta tramitação também.

Qualquer outra dúvida, Lucena, pode entrar em contato conosco.

Um forte abraço,

Dyego Pegorario de Oliveira

Assessor

Coordenação de Direito à Memória e à Verdade


18.7.16

Acesso rápido à câmera é destaque em telefone com caneta “mágica”



“A primeira faz tchan, a segunda faz tchun, e ... tchan-tchan-tchan-tchan!!”

Se você tem menos de 30 ou 40 anos, provavelmente não vai se lembrar desse bordão marqueteiro.

Fez sucesso no final do ano passado, tanto que atravessou décadas: a propaganda que usava a frase surgiu em na primeira metade dos anos 1980 e ganhou versões até ao longo da década seguinte (talvez alguém ainda a tenha revivido neste século).

Era a frase de efeito de um comercial televisivo que anunciava um aparelho de barbear descartável que tinha duas lâminas. Vai daí, “a primeira faz tchan, a segunda faz tchun...”, e o rostinho do vivente fica aquela belezura.

Pois o comercial me veio à mente não por causa de algum desejo súbito de fazer a barba, que essas recaídas não me atingem, mas sim por causa de um telefone muito especial que venho avaliando nos últimos 15 dias.

Ele é cheio de mequetrefes, sobre os quais vou falar com mais detalhes um pouco mais para a frente. O que importa, mesmo, para quem corre na rua e gosta de fotografar, é que sua câmera de muito boa qualidade pode ser acionada quase instantaneamente, mesmo quando o aparelho está no modo descanso.

Basta clicar duas vezes no botão Iniciar e ... voilà!, a câmera toma conta da telona de 5,7 polegadas (mais de dez por cento maior do que a tela de meu celular, que é de 5,1 polegadas). Explica-se, assim, a simetria com a propaganda do aparelho de barbear: o primeiro clique faz tchan, o segundo faz tchun e... tchan-tchan-tchan-tchan!!!

Considerando os meus padrões de trabalho, a câmera do Galaxy Note5, o aparelho que avaliei, é ótima. O zoom é de 8x –o dobro do oferecido pelo meu celular S5.

Claro que é preciso segurar o aparelho com muita firmeza, se deseja uma foto sem tremores nesse grau de aproximação. O usuário ganha grande ajuda do sistema antitrepidação do Note5; as fotos que fiz com zoom total ficaram de razoáveis para boas.

De modo geral, as imagens produzidas com zoom 8x no Note5 ficaram melhores do que as que produzo com zoom 4x no meu celular. Isso dá uma boa medida da diferença de qualidade entre um e outro.

E a apresentação também fica mais bacana, pois a tela do Note5, além de ser maior, tem muito mais resolução: há mais pontos formando as imagens, o que as deixa com maior clareza, melhor definição.

Captura e edição de vídeos é um processo rápido, facilitado pela capacidade de processamento do aparelho, que tem dois processadores de quatro núcleos (o S5 carrega apenas um).

O mais importante, porém, na minha experiência, é o tal do acesso rápido, os dois cliques para chamar a câmera.

Nas minhas corridas, já perdi muita foto porque tive de ficar toureando o celular para fazer o aplicativa da câmera aparecer, clicar nele, aquela meleca toda.

Imagem capturada durante treino no Ibirapuera
 Não sei se isso é possível, mas a Samsung bem que poderia criar uma atualização para os aparelhos mais antigos permitindo essa facilidade de acesso à câmera.

Quando a gente não está correndo, o aparelho também é muito útil, e não apenas para surfar na internet ou jogar conversa fora nas redes sociais: também é bom para trabalhar.

Ele vem com uma canetinha digital, que fica embutida no corpo do aparelho e é solta do conjunto com um simples toque.

Com a tal caneta, dá para a gente desenhar ou escrever na tela; donos de dedos desengonçados, como eu, podem usar a caneta para batucar com mais precisão nos teclados virtuais do Note5.

Claro que o uso da caneta não é um passeio, ainda mais para usuários menos hábeis. Com o tempo e a experiência, porém, a gente aprende a aproveitar bem as qualidades do acessório.

O medo é perder a bichinha, esquecer de colocá-la de volta em sua espaço telefônico. Durante os testes, duas ou três vezes acabei deixando a dita cuja na mesa. Só me lembrei dela quando fui abrir um aplicativo de escrita...

A ponta da caneta sofre desgaste e precisa ser trocada de tempos em tempos –o conjunto vem com uma pequena coleção para troca e uma pinça para realizar o processo de retirada e recolocação.

 Imagem capturada sem utilização do zoom; abaixo, mesma cena, capturada do mesmo ponto, com aproximação de 8x

Como instrumento de trabalho, o Note5 vem com um conjunto de programas de escritório instalado: Word, Excel, PowerPoint e outros, tudo zero-oitocentos.

Apesar de maior e mais pesado do que meu celular de uso diário, o Note5 não é um mangolão. Consegui operá-lo com uma mão só, mesmo na produção de selfies (aliás, a câmera dianteira dele tem mais do que o dobro de megapixels que a câmera de selfies de meu S5).

O que complica é o preço: R$ 3.799 é o sugerido pela empresa. Pesquisa rápida que fiz na internet demonstra que é possível encontrar com desconto de mais de mil reais.

Não é um absurdo para essa categoria de aparelho, considerando os preços dos concorrentes, mas o preço sugerido é maior do que o salário mensal de um advogado ou analista de sistemas iniciante em empresa média de São Paulo.

30.6.16

CONSUELO DE CASTRO, presente, agora e sempre!

A dramaturga Consuelo de Castro morreu na manhã desta quinta-feira, 30 de junho, vítima de câncer.

Seu trabalhou calou fundo na minha geração (que é também a dela): foi uma obra de resistência, denúncia da ditadura e anúncio de novos caminhos.

Nos anos 70, era quase um heroísmo produzir cultura que retratasse as lutas populares contra a ditadura. Mais ainda, montar e levar ao público aquelas denúncias –coisa que nosso grande Teatro de Arena, de Porto Alegre, fazia com audácia e desprendimento.

Foi lá, nos altos do viaduto Borges de Medeiros, que tive a satisfação de ver “À Flor da Pele”, e aprendi a acompanhar o trabalho de Consuelo (na foto, em 1969, ano em que escreveu a peça).

Há dois anos, falei pela primeira vez com ela. Não ao vivo e em cores, mas por e-mail. Fiz com ela uma breve entrevista para uma reportagem especial que estava produzindo para a “Folha de S. Paulo”.

Para marcar os 50 anos do golpe militar de 1964, entrevistei artistas, intelectuais, escritores, produtores culturais –você pode conferir a reportagem CLICANDO AQUI

Pedi a cada um que indicasse dez músicas que lhes lembrassem o período da ditadura, as canções mais emblemáticas dos anos de terror. Solicitei também que falassem um pouquinho de si mesmos.

Publico a seguir a íntegra da resposta de Consuelo de Castro. A ilustração deste texto é o convite para uma peça dela apresentada em Belo Horizonte em 2014 como parte das manifestações sobre os 50 anos do golpe de 1964.

  

"Caro Rodolfo

"Tenho 68 anos, sou escritora, dramaturga, publicitária e roteirista.

"Estreei em literatura aos 16 anos, com um livro de poesias : "A ULTIMA GREVE" - publicado pela Martins e prefaciado por Guilherme de Almeida.

"O golpe militar me pegou no primeiro dia de aula no Curso Livre de Ciências Sociais da USP. Fui militante do Movimemto Estudantil.

"A censura proibiu meu primeiro texto teatral, “PROVA DE FOGO”, em 1968.

"Passei minha juventude e grande parte de minha vida adulta sob a ditadura e a censura, mesmo não  tendo participado da luta armada fui presa três vezes, uma delas no DOI-Codi.

"Tive a maioria dos meus textos censurados integral ou parcialmente, mas consegui apesar disso escrever mais de 30 textos de teatro e TV e por em cena quase todos eles.

"Sou mãe de Pedro Paulo e Ana Carolina, ele jornalista, com 38 anos, ela fotógrafa, com 34. Tenho um netinho absolutamente lindo chamado Antônio, que é o que de mais feliz a vida me trouxe. 

"As músicas do tempo das trevas são: 

“Apesar de você” - Chico Buarque

“Prá não dizer que não falei de flores” - Vandré

“Eu quero é botar meu bloco na rua” - Sérgio Sampaio 

“Sunny”, com Johnny Rivers, e “Let`s twist again”, com Chubby Checker - não são exatamente musicas criadas NO PERÍODO, mas para mim se identificaram com ele.

"Vc pode tornar públicas estas informações. 

"Espero ter respondido ao seu pedido

Consuelo de Castro"


3.4.16

Crianças, pais e professores da escola Manoel Fiel Filho caminham pela democracia e pela paz

“Pela vida e pela paz, ditadura nunca mais!” foi o brado que ecoou na manhã de sábado pelas ruas do Parque São Rafael, distrito pobre da periferia de São Paulo, no extremo sudeste da cidade, divisa com os municípios de Santo André e Mauá.

Era o canto de vozes risonhas de meninos e meninas que ainda nem chegaram à escola primária e precisam andar na cidade de mãos dadas com seus pais e mães, professores e avós –como estavam durante a caminhada que surpreendeu quem saía para fazer a feira da semana ou já trabalhava em algum conserto doméstico, aproveitando esperada folga.

Ao coro das crianças se somava o tom agudo e cristalino das mulheres, poderosa maioria entre as dezenas de pessoas que participavam da caminhada. Por contraste, das profundezas de gargantas masculinas vinha cantochão puxando palavras de ordem: “Manoel Fiel Filho, presente!”

Fotos Eleonora de Lucena


Passa por vielas, tangencia barracos, cruza sobre água suja escorrendo pelas encostas, marcha em subidões, aumenta o ritmo na descida, para o tráfego na principal avenida do bairro: a escola municipal de educação infantil Manoel Fiel Filho se levantava e diz, ela também, presente nas jornadas democráticas que vêm tomando conta de nosso país.

A manifestação marca a última etapa do projeto CORRIDA POR MANOEL e a conclusão de várias semanas de atividades pedagógicas com crianças de três a cinco anos e com seus pais.



Com a ajuda dos professores, ao longo do último mês a comunidade do Parque São Rafael –pelo menos, a que gira em torno da escola pré-primária—fez um mergulho na história do metalúrgico Manoel Fiel Filho, “o operário que derrubou a ditadura” no dizer do documentário de Jorge Oliveira que revisita a tragédia do militante sindical e as consequências políticas do assassinato de Fiel Filho.

O motor do projeto foi a orientadora pedagógica Lilian Cangussu, uma loiríssima jovem de 37 anos, quase metade deles dedicados à educação de crianças e jovens, a pensar e a estudar o ensino.



Neste ano bissexto, conversei com ela na tarde do dia 29 de fevereiro, uma segunda-feira.

Eu preparava o projeto CORRIDA POR MANOEL, traçava planilhas, construía agenda, tentava vislumbrar uma possível ordem na série de 40 percursos de modo a que pudesse contar, com minhas passadas, não só a história de Fiel Filho mas também a das lutas pela democracia ao longo dos anos 1970 (e mais e sempre).

Minha caminhada me faria mergulhar em muita dor e sofrimento, violência, brutalidade, na desumanidade que brota e transborda quando os poderosos se veem ameaçados pelo amanhecer democrático.
Também traria à tona os atos de heroísmo, desprendimento e generosidade de que só os lutadores do povo são capazes –foi o que vi e procurei mostrar ao longo dos mais de quatrocentos quilômetros dessa jornada.

Ela não tem fim, eu sei, mas para onde o caminho aponta, para onde vamos, o que fazer? Não há respostas para isso, mas, se temos compromisso com o futuro, há que pensar nas crianças, conversar com elas sobre o presente, desde sempre.

“Mas precisa ser correndo?”, me pergunta Lilian.  “Pois é, são crianças de até seis anos”, respondo eu, deixando transparecer na voz –segundo me disse a professora—uma certa decepção. De certo, eu esperava adolescentes vibrantes, com quem pudesse trocar ideias inflamadas para sairmos todos em barulhento movimento desafinando o coro dos contentes.



A conversa entre os dois desconhecidos, apresentados apenas naquela conversa por telefone, seguiu aos solavancos, cada um tentando descobrir o que o outro estava pensando, propondo.

A professora parecia curiosa, interessada, mas desconfiada; eu queria mobilizar a escola, a única da cidade de São Paulo nomeada em homenagem a Manoel Fiel Filho.

De pedregulhosa, a conversa foi se azeitando, ganhando corpo, se transformando em projeto conjunto. A professora calcula os dias que tem para o trabalho, analisa possibilidades, promete estudar o assunto, vai conversar com a diretoria: “Dá para fazer”, me assegura Lílian.

De lá para cá, conversamos mais uma ou duas vezes; eu cheguei a ir até a escola para uma conversa preparatória com pais e professores. Fui recebido pela simpatia generosa da diretora da escola, Miriam de Cássia Valério.



A orientadora pedagógica, porém, não estava: só no dia da nossa caminhada fui conhecer a organizadora da CORRIDA POR MANOEL na EMEI Manoel Fiel Filho.

Com outra professora, ela tomou a frente do grupo. As duas seguraram a faixa que foi o abre alas das quase sessenta pessoas que participaram do encontro, da passeata pela vida e pela paz.

Havia muitas crianças, algumas buscavam o colo dos pais enquanto outras valentemente enfrentavam o asfalto.



Homens, mulheres, pais, professores, vizinhos e funcionários da escola, representantes da Delegacia Regional de Ensino de São Mateus e do CEU Parque São Rafael, todos tinham dados gargalhadas enquanto brincavam, no aquecimento para a jornada, dando pulinhos, rebolando um pouco, espreguiçando os músculos, preparando o corpo para a marcha cívica que viria a seguir.

No espírito da energia, o grupo de adolescentes Dance Stars, que se reúne no CEU São Rafael, fez uma demonstração de sua arte, dançando ritmo de rua, apresentando a todos o ragga, alegrando a manhã e mandando seu recado de luta por livre expressão.



Foi nessa batida que nos ajeitamos, arrumamos e subimos a rampa até a calçada –construída na encosta de um dos morros do bairro, a escola fica num platô vários metros abaixo do nível da rua. Olhando por sobre seus muros, dá para ver outras colinas do Parque São Rafael, cravejadas de casas simples, inacabadas, amontoadas umas sobre as outras.



Assim nos fomos todos, aos gritos de “Viva a Escola Manoel Fiel Filho!” e de “Ditadura nunca mais!”

“Muito legal participar”, me diz um pai que carrega nos ombros o filho pequeno, os dois usando na cabeça viseiras construídas na escola especialmente para a caminhada.



“É uma coisa nova para mim, nunca tinha participado de nada na escola”, afirma ele que, com a esposa, havia sido um dos primeiros a chegar na manhã de sábado..

Adolescentes e funcionários transformavam a caminhada numa grande brincadeira, algumas ensaiando passos de samba, outras jogando os braços para o alto como se estivessem na avenida, transformando em hino as palavras cantadas de forma ritmada, como se pergunta e resposta: “Pela vida e pela paz, ditadura nunca mais!”



De porta-bandeira, as professoras carregavam a faixa que apresentava à comunidade nossa jornada: “CAMINHADA POR MANOEL”, dizia em letras vermelhas, seguidas pela explicação: “Homenagem a Manoel Fiel Filho, o operário que derrubou a ditadura”.

De um dos lados da faixa, a foto de Manoel que se tornou ícone em todas as manifestações em sua memória. Tirada da carteira profissional do operário, mostra o homem de terno, engravatado, rosto imberbe.



Na outra lateral, um desenho feito por criança. De traços simples, colorido, a figura humana tem o rosto redondo como o de Manoel, e a gravata se destaca no conjunto.

A pintura é dos resultados dos trabalhos que as professoras desenvolveram com a criançada e com a comunidade ao longo das semanas que antecederam nossa caminhada.



Para os educadores, o momento foi uma oportunidade de mergulhar na história do personagem e ainda consolidar a presença da escola na comunidade, afirmar sua identidade, como a coordenadora pedagógica me contou em relatório que fez sobre as atividades:

“Inicialmente verificamos a necessidade de construir a identidade da escola, pois qualquer pai ou pessoa da comunidade a ela se referia como “o prezinho ao lado do posto de saúde”; “a escolinha do lado do Osaka”.  Assim, nos horários de formação dos professores, fizemos uma pesquisa mais acirrada acerca da história do operário Manoel Fiel Filho e discutimos a didática a ser empregada para tratar o tema com crianças de três a cinco anos de idade.”


Decidiram fazer o trabalho em duas etapas, buscando primeiro envolver a comunidade, fazendo numa abordagem histórica para apresentar aos pais dos alunos a história do patrono da escola e o contexto em que ele viveu, o período da ditadura militar.

Com as crianças, a ideia foi buscar que elas relacionassem o nome da escola à pessoa que foi Manoel. Houve desdobramentos, com discussões sobre a profissão do operário, as profissões dos pais dos alunos e o que as crianças queriam ser quando crescessem.



Os resultados foram sensacionais, como qualquer um que visite a escola pode ver: nas paredes estão montados murais com os desenhos das crianças, mostrando claramente o caminho da atividade pedagógica.

Mas me adianto. Melhor deixar que Lilian siga com seu relatório:

“Nas rodas de conversa sobre o Patrono, um dado inusitado foi a descoberta, pelas crianças, de Manoel ter sido uma pessoa. As crianças estavam acostumadas a falar o nome da escola, porém sem refletir sobre quem é Manoel, e ao se deparar com o retrato em mãos passado na roda, com a história contada pela professora de que Manoel foi um homem de verdade, um Operário, e que também já tinha sido padeiro e cobrador de ônibus, ficaram impressionadas. Surgiram relatos ricos e significativos como:
“-Professora então Manoel era um homem de verdade?”
“-Nossa, meu pai também é padeiro.”
“-Padeiro é quem faz o pão! (numa pequena conversa paralela entre dois alunos que divergiam sobre a profissão de padeiro: padeiro faz o pão ou vende, e no final da conversa concluem que padeiro faz o pão, porque vender pode ser qualquer pessoa. ”
-Quem é o cobrador de ônibus ?
Essas questões impressionaram a equipe como um todo. Uma professora relata:
“... O que me chamou a atenção nesse trabalho com o Patrono da Unidade foi o fato das crianças se admirarem por Manoel ter sido real, pra gente que é adulto é tão natural, que sabemos da história, mas como muitas vezes não resgatamos o verdadeiro sentido do tema trabalhado, por julgarmos que é sabido por todos, ou que não é necessário. Esse trabalho me fez refletir sobre isso...” 



As discussões com as crianças renderam muitas aulas sobre as profissões, pesquisas em jornais e revistas sobre profissões conhecidas, e discussões sobre algumas profissões que estão desaparecendo no contexto da pós-modernidade, como é o  caso do cargo de cobrador, muitas crianças nem conheciam que profissão era essa, pois muitos só utilizam lotações que em sua maioria só há a existência do motorista.

Outro desdobramento do trabalho das profissões foi o trabalho com o sonho, os projetos para o futuro, o que as crianças pensam sobre isso,  que profissão desejam ter em seu futuro e muitas foram as respostas: motorista de helicóptero, bailarina, professora, pedreiro, cantor, cantora, advogado, comprador.”

As famílias também ficaram profundamente envolvidas, e não só porque a escola fez reuniões com pais em que trouxe palestrantes como Marcos Ahlers, historiador da região, e encontros onde foram passados vídeos sobre o projeto CORRIDA POR MANOEL.



As próprias crianças levavam para casa as discussões tidas em classe, “aprendendo e ensinando uma nova lição”, como mostram relatos de pais citados por Lilian Cangussu:

“Eu estou orgulhosa do trabalho realizado com as crianças, pois meu filho chegou em casa contando com detalhes que sua escola chama-se Manoel Fiel Filho, um homem operário, houve realmente o envolvimento das crianças, eles agora conhecem o nome da escola, a pessoa que foi o Manoel, que nem eu mesma conhecia”, disse uma mãe.

Outra contou: “Eu estou muito feliz em ouvir a história do Patrono da Escola, é um orgulho saber que meu filho estuda numa escola que leva o nome de um homem justo e digno, uma pena ter sido injustamente morto, mas um orgulho ser o responsável pelo fim das mortes da Ditadura.”


A satisfação também tomou conta dos professores e da coordenação da escola: 

“Ele foi uma pessoa importante para nosso país”, afirma dona Miriam, diretora da escola. “Fazemos essa homenagem porque é importante valorizarmos uma pessoa que lutou pela democracia, pela liberdade, pelos direitos de todos.”

Ela não usa a frase consagrada pelo Núcleo Memória –“conhecer o passado, entender o presente, construir o futuro”--, mas sua fala traz o mesmo sentido de rememorar para prosseguir: “No momento em que a sociedade vive hoje, é importante valorizar esse pessoal”.



Por isso, ela era toda alegria ao longo da caminhada, conversando com pais e professores, incentivando crianças. No meio das dezenas de pessoas, Miriam dava orientações sobre o percurso –surpreendendo muita gente, fez com que a caminhada enveredasse pela avenidona Baronesa de Muritiba, a principal do bairro.

“Estou com o coração satisfeito”, resumiu Miriam Valério.

Era o sentimento evidenciado nos rostos de todos os participantes da última etapa da CORRIDA POR MANOEL, um mergulho na história de nosso povo, uma jornada pela vida e pela paz.

Que a última palavra, porém, não seja minha, do autor, do corredor , do jornalista, mas sim de uma de nossas caminhantes, senhora de vestidão azul e sandálias, pele crestada, longos cabelos grisalhos. É dona Elizabete Siqueira, mais conhecida na escola como “vó do Antônio”. 




Ela faz sua força virar voz, mensagem de sabedoria e movimento: “Eu gostei muito, muito, muito de participar dessa caminhada. Eu participei de algumas reuniões, gostei muito e sempre vou estar envolvida com vocês aqui. Nós precisamos lutar pelos nossos direitos, pela nossa liberdade”.



CORRIDA POR MANOEL – 40ª e última etapa

Destino: Escola Municipal de Educação Infantil Manoel Fiel Filho, no Parque São Rafael, percurso de 1,72 km realizado em 39min55

Distância total percorrida: 417,83 km