18.3.15

Aos 77, Jane Fonda diz fumar maconha de vez em quando

Pronto, bastou você ver o título e já saiu me xingando, dizendo que estou abusando, fazendo jornalismo marrom, investindo no sensacionalismo. Ou talvez não: você é um apreciador da Maria Joana, como se apelidava a maconha nos anos 1970, ou você é fã de carteirinha da Jane Fonda.

Bueno, eu sou fã de carteirinha da Jane Fonda (foto Reuters), mas não me incluo entre os apreciadores da cannabis. De qualquer forma, achei interessante a declaração da oscarizada atriz. Não porque joga água no moinho da turma do “Legalize Já!” mas porque mostra que uma pessoa que ruma celeremente para os 80 anos pode ter hábitos e atitudes costumeiramente atribuídos a gente com um quarto ou um terço de sua idade.

Para ser fiel aos fatos, em entrevista à revista de luxo “DuJour”, Fonda efetivamente disse que queima um baseado de vez em quando, mas deixou claro que não é muito a sua praia. Não gosta, por exemplo, de fumar um e ir ao cinema, porque perde seu poder de avaliação mais crítica: “Fico achando que é o melhor filme do mundo e, mais tarde, quando me dou conta, me pergunto: o que eu estava pensando?”, disse ela.

Nessa entrevista para a DJ e em outras conversas tidas recentemente com a imprensa, Jane também deixa claro que não abandonou seu lado militante e sua disposição de luta por um mundo melhor.

Ela assistiu, por exemplo, a um documentário sobre ações deletérias de companhias petrolíferas na África e logo entrou em contato com o diretor, Leonardo DiCapprio: “O que nós podemos fazer agora?”

Uma das coisas que Jane faz é lançar o verbo contra a discriminação sexual na própria área onde trabalha: “Precisamos deixar os estúdios envergonhados por causa de seu machismo”, ela conclamou os colegas durante entrevista para promover “Grace and Frankie”, uma série cômica que estreia em maio no Netflix e tem Fonda e Lily Tomlin nos papéis principais.

Ela não se furta a abordar assuntos pessoais, como o envelhecimento. Conta que fez plástica, sim, e que passou por cirurgias  no quadril e no joelho, por problemas ligados a osteoporose.

“A gente tem de se adaptar. Seria fácil para mim parar de fazer exercícios depois das cirurgias e por causa das dores que sinto de vez em quando. Mas quando, muito por vaidade pessoal, eu voltei a me exercitar, percebi que caminhadas, natação, musculação e alongamentos faziam meus músculos e articulações se sentirem muito melhor. Quando eu estava sedentária, a artrite piorava –e meu humor também”.

O humor da ex-líder pacifista hoje está tão bom que, para homenagear os 40 anos de uma amiga, mandou para ela um vídeo em que aparece pelada, de quatro, em uma performance de seis segundos.

Sexo, por sinal, também não é tabu para a jovem quase-octagenária. Depois de se separar do multimilionário Ted Turner (o criador da CNN), ficou celibatária por sete anos. Aí, aos 74 anos (três anos atrás, portanto), abriu o verbo para contar ao mundo que estava tendo na época a melhor vida sexual de toda a sua vida.

Com o quê, vos digo, “Ave, Jane!


Vamo que vamo!

13.3.15

Rumo à maratona, aposentado faz em Jerusalém prova de 10 km

E aí, tchurma, não é que eu conseguir terminar sem dores minha primeira corrida de verdade dentro do projeto "Primeira Maratona como Aposentado"?

Pois corri a prova de 10 km, um das integrantes no superevento Maratona de Jerusalém, que reuniu cerca de 25 mil pessoas nesta sexta-feira. Na maratona mesmo teve pouca gente, cerca de 1.500 pessoas; a prova mais recheada foi exatamente a de 10 km.


O evento é muito bem organizado, pena que o trajeto inclua muito pouco na Cidade Velha, que é a área mais bacana da cidade --também é cheia de ruelas e pontos históricos.

Bueno, aí vão algumas cenas da corrida, que teve a participação de muitos grupos religiosos --havia até quem fizesse suas orações no gramado pouco antes da largada geral.



Na largada, por sinal, havia muita animação e animadores, como esse gigante da pernas de pau vestidos com as bandeiras do Brasil e dos Estados Unidos.



O precurso foi bem sinalizado e superbem policiado, havia centenas de soldados, todos eles bem armados, como mostra a imagem abaixo, em que os líderes da maratona aparecem em primeiro plano.


A cidade se envolve com o evento, ainda mais que o prefeito é corredor; aliás, hoje Nir Barkat participou da meia maratona e foi de medalha no peito entregar o troféu ao vencedor da maratona, o etíope Tadesse Yae Dabi.


Todo mundo queria fazer uma foto com o senhor Dabi, como o registro a seguir.



Bom, o cara já devia ter ido para a cama quando eu comecei a chegar na prova de 10 km, que começou três horas depois da maratona.




Bueno, meu amigo, minha prezada leitora, é isso por enquanto. Deixei aqui apenas uma provinha, pois a cobertura compelta da maratona e também do avanço de meus treinos no projeto Primeira Maratona Como Aposentado você poderá ler na próxima edição (abril) da revista "O2", que foi convidada pela organização do evento.

Nesta página, todas as fotos são de Eleonora de Lucena, com exceção do carinha de perna de pau e roupa colorida, que fui eu quem registrou.

Beijos, abraços, Vamos que vamo!

10.3.15

Primeiras impressões de um aposentado em Jerusalém

Bueno, depois de quase vinte horas de viagem, finalmente chegamos a Jerusalém na madrugada de hoje.

Aqui, este seu aposentado corredor (mas espero que, por muito tempo ainda, não um corredor aposentado) vai fazer sua primeira corrida neste projeto rumo a uma maratona depois de virar beneficiário do INSS.

Pois fiquei muito bem impressionado.

Jerusalém é uma bela cidade, cheia de colinas --o povo que vai encarar os 42.195 metros na sexta-feira vai sofrer. Trata-se, como já tantos disseram, de um museu a céu aberto.

Não vou ficar falando muito aqui, pois estamos na correria e o legal é mostrar algumas imagens.

Depois de um breve descanso, saímos para o primeiro passeio pela cidade, subindo ao monte das Oliveiras, de onde se tem uma visão panorâmica da Terra Santa.

Pois lá nos esperava este simpático camelo, conduzido por um mercador de breves passeios com o dito cujo --não testamos, mas as moças fotografadas pela Eleonora deram o maior berro quando o bicho se ergueu para iniciar a caminhada.

As casas de oração das grandes religiões monoteístas estão ao longe; cá pertinho, bem sob nossas vistas, há um grande cemitério. E a Eleonora capturou a bela cena que você vê abaixo (aliás, todas as fotos desta mensagem foram feitas por ela).


Saindo do monte das Oliveiras, fomos ao mercado, que deve ser um dos lugares mais divertidos da cidade (e saborosos, com certeza). Lá havia grupos de soldadas bem animadas, dispostas até a participar de fotos com a turistada.

Mais legal são as bancas, como a deste peixeiro (aqui, a foto é de minha lavra).



As cores e cheiros dos temperos cativam (de novo, foto da Eleonora).



Já a cena de rua, abaixo, fui eu quem capturou.



E a Eleonora me pegou fazendo uma cantoria com essa ensemble de bronze instalada numa área de lojas caríssimas --não gravei o nome, mas me disseram que é a Oscar Freire de Jerusalém.


Para encerrar o dia, uma visita ao museu da Torre de David (foto minha). Foi sensacional.

6.3.15

Aposentado vai à Terra Santa em busca da alegria da corrida


Na próxima sexta-feira, este seu velho blogueiro de barbas brancas estará participando da Maratona de Jerusalém, em plena Terra Santa, buscando reencontrar a alegria que a corrida sempre proporcionou a seus praticantes.

Ih, não me entenda mal. Meus planos e projetos estão mantidos, e também não virei crente ou fiel de repente.

A maratona de Jerusalém é um desses simpáticos e hospitaleiros evento-ônibus: além da desafiadora corrida de 42.195 metros, tem ainda meia maratona, corrida de dez quilômetros e ainda outros provas menores, incluindo uma provinha para toda a família participar junta.



E é realizada na cidade que três religiões consideram sagrada.

Texto do historiador Voltaire Schilling nos conta as razões de cada uma:

"Para os judeus, provavelmente os seus mais antigos habitantes, ela é a Eretz Israel, a terra dada por Jeová ao Povo Eleito, tendo Jerusalém, cujo terreno original foi tomado dos filisteus pelo rei Davi, como sua eterna capital (circa do ano 1.000 a.C.). Ela é a Terra da Promissão, o local que Deus apontou a Moisés como o lar definitivo dos judeus logo que eles conseguiram escapar do Egito, onde eram mantidos como escravos pelo faraó."

"Para os cristãos, Jesus Cristo, o messias, aquele que além de anunciar a chegada do Reino dos Céus sacrificou-se pelo bem da humanidade inteira, nasceu e morreu nela. O filho de Deus veio ao mundo em Belém, cresceu em Nazaré, pregou na Galiléia e foi crucificado em Jerusalém ( circa do ano 33). Local de onde logo ressuscitou para vir animar seus discípulos a que seguissem na difusão do Evangelho."

"Ela é também o Nobre Lugar dos muçulmanos, visto que foi do alto do Haram as-Sharif, o Domo da Rocha - situado na parte elevada de Jerusalém, que depois chamou-se de a Esplanada da Mesquita -, que o profeta Maomé, em espírito, foi encontrar-se com Alá nos céus, no episódio conhecido como a Jornada Noturna do Profeta."

Bueno, independentemente da fé –ou falta de fé—de cada um, o certo é que a região é prenha de vibrações, inclusive bélicas, pois lá continuam a se desenrolar os conflitos entre judeus e palestinos. Espero que fique em paz, e que este corredor possa usufruir das boas mensagens que atletas do mundo inteiro estarão mandando por lá.

Não vou correr a maratona, é claro –por enquanto, estou apenas começando meu treinamento , renascendo como corredor... Cheguei a pensar em participar da meia maratona, mas meu treinador e meu médico desaconselharam, depois de dores terem me deixado fora de combate por toda a semana passada.

Modestamente,  tentarei correr a prova de dez quilômetros. Será minha primeira corrida em quatro meses –todos eles muito atribulados--, a minha primeira corrida no ano.  Espero que ela me ajude a reencontrar a alegria de correr, pois participar de uma prova é sempre a culminância de um processo, é onde a gente testa os resultados do treinamento.

Vou me examinar a cada quilômetro, vou economizar, vou prestar atenção no terreno, vou sorrir para os companheiros de jornada, vou filmar tudo que estiver à minha frente. Em algum momento, espero, vou largar tudo de mão e mandar ver, me entregar à corrida e fazer das pernas coração.

Ao longo da próxima semana, trarei fotos, talvez pequenos filmes, impressões sobre a visita a Jerusalém. A história completa da corrida, porém, você poderá acompanhar na edição de abril da revista "O2", que foi convidada a participar da prova pelo Ministério do Turismo de Israel.

Espero que você goste.

Vamo que vamo!!! (Devagar, mas vamo!)


PS.: A foto que ilustra esta mensagem é apenas isso, ilustração, trata-se de um momento da maratona de Jerusalém no ano passado, e está disponível no site oficial da corrida. 

5.3.15

Quando a questão é grana, depois dos 40 anos a vida é só lomba abaixo

E ainda tem gente que se impressiona, exclamando: "Mas tu te aposentaste a inda estás trabalhando???!!", numa pergunta cheia de acusação.

Não sou eu, meu caro, é o mundo que é assim.

Ao longo da vida, dificilmente o trabalhador consegue poupar o suficiente para ter uma aposentadoria totalmente livre de emprego ou bicos eventuais.

E não somos apenas eu e você, o Brasil tá cheio. E o mundo é assim mesmo, como demonstra um estudo realizado pela Receita federal dos Estados Unidos.

Claro que os dados são de lá, mas acho que eles dão uma boa ideia do que vive o trabalhador no mundo desenvolvido --aqui deve ser até pior.

Resumo da ópera é o seguinte: considerando uma vida de trabalho dos 25 aos 60 anos, até os 40 anos o sujeito está em franca ascensão. É quando casa, tem filhos, compra isso ou aquilo, acredita que tem um futuro promissor, faz dívidas...

Mas o futuro é muito diferente, mostra a dura realidade dos números, que você pode conferir neste quadrinho simples. Ele mostra os ganhos médios por idade; ainda que ele não use valores absolutos do rendimento, o desenho é absolutamente claro, você não concorda?

Ou seja: há crescimento expressivo até os 40 anos. Depois, o caminho é a estagnação. Durante algum tempo, o trabalhador ainda vê seu salário aumentar um bocadinho, mas não se trata exatamente de crescimento, segundo os responsáveis pelo estudo, mas apenas recuperação frente à inflação.

Nos cálculo dos norte-americanos, o aumento real nos ganhos dos 40 aos 50 anos fica em torno de US$ 1.000 sobre o máximo recebido até então.

Depois, meu amigo, minha amiga, é só lomba abaixo.

Então fica claro como é complicado fazer uma poupança substancial. Enquanto a gente está crescendo na vida, dificilmente vamos nos preocupar com os anos menos polpudos; queremos mesmo --com toda a razão-- aproveitar, investir no prazer, dar o melhor possível para os filhos pequenos, para que eles possam se encaminhar na vida.

Quando começamos a perceber que somos dispensáveis, que poderemos vir a perder o emprego, que a idade está chegando e que precisamos construir um colchão de segurança para o futuro, os ganhos já são praticamente da mão para a boca, como se diz: sobre mais mês no fim do salário do que salário no fim do mês.  


Se você gosta do assunto e quer saber mais detalhes sobre a situação dos ganhos dos norte-americanos ao longo da vida, o estudo completo, em inglês, está AQUI.

3.3.15

Corredor revive em treino “maratona” para conseguir a tão sonhada aposentadoria

Desde que eu fiz 50 anos que penso no que iria fazer quando me aposentasse.

Como muita gente, imaginava um período livre das trocentas horas de trabalho
que a militância na redação envolve, uma vida sem patrões e sem chefiados, tempo para dedicar ao ócio e ao prazer. Pensava também, e ficava louco de raiva só de pensar, na burocracia envolvida em todo o processo da aposentadoria.

Pois quando chegou a hora, de fato não foi o melhor dos mundos. Mas o INSS funcionou muito melhor do que eu esperava, ainda que minha aposentadoria demorasse para sair quase cinco vezes mais do que o tempo médio divulgado pelo Instituto. Amarguei filas e conversei com funcionários –todos eles educados, cordiais, alguns até simpáticos—em três postos na cidade de São Paulo, que visitei cinco vezes ao longo de seis meses.

No fim, pensei, bem mais duro do que a burocracia para obter a aposentadoria foi o trabalho todo que tive, ao longo de quase quarenta anos, e que me deu o direito de enfim buscar esse prêmio –pago por mim e por todos os trabalhadores brasileiros.

Comecei a trabalhar com 17 anos, e a primeira entrada na minha Carteira do Trabalho é de três de fevereiro de 1975, menos de quinze dias antes de eu completar a maioridade. 

Meu primeiro emprego registrado –antes, já ganhara dinheiro fazendo algumas traduções como free-lancer—foi numa instituição que já nem existe mais. Na época, porém, meu empregador era um jovenzinho, digamos assim.

O banco Sul Brasileiro fora criado em 1972, da fusão de três outras instituições financeira dos Rio Grande do Sul, o  Banco Nacional do Comércio (Banmercio), o Banco da Província e o Banco Industrial e Comercial do Sul. Desses aí, lembro com carinho de uma agência do banco da Província que ficava em uma esquina da rua Uruguai, bem no centro de Porto Alegre.

Meu pai, funcionário do estado, recebia pagamento lá. E eu, gurizão ainda, adorava ir com ele até o banco, especialmente no verão. Aquela agência tinha um ar condicionado superpoderoso, coisa desconhecida nos lugares que eu então frequentava –escola, minha casa e casas de parentes.

Mas o melhor, mesmo, eram as escadas rolantes –posso estar errado, mas, para meu conhecimento de menino, estiveram entre as primeiras na cidade, em meados dos anos 1960. Enquanto meu pai curtia uma fila, eu, moleque, ia para cima e para baixo naquelas fabulosas escadas automáticas, espécie de tapete mágico elétrico na imaginação do garoto.

Mesmo com os aportes dos três bancos, o Sul Brasileiro não vingou. Dias depois de terem se completado dez anos de minha entrada, o banco sofreu intervenção no dia sete de fevereiro de 1985, por falta de grana, e seguiu ladeira abaixo até ser incorporado a outro banco.

Que fique registrado: eu não tive culpa nenhuma nisso. Para ser totalmente fiel aos fatos, não durei uma semana na nobre função de auxiliar de escritório. Por alguma razão que foge à minha sabedoria e imaginação, não fique de mandalete ou office-boy, que era a função normal do tal auxiliar de escritório.

Fui alocado na área de crédito rural e incumbido de conferir as contas diárias de empréstimos e recebimentos. No final, era obrigatório dar soma zero.

No primeiro dia, fiz e refiz mais de dez vezes todas as contas, usando uma enorme máquina de calcular daquelas de manivela, que eu mal tinha aprendido a dominar; na dúvida, voltava a conferir na mão, sempre usando um lápis de ponta muito fina.

Sempre dava errado. No fim do expediente, o expediente não terminava para mim. Quando, afinal, conseguia fechar as contas, tinha pela frente outro suplício: escrever à máquina um relatório padrão com o resumo das operações e sem erros.

Eu datilografava com dois dedos (como faço até hoje) e era  muito rápido –passei com vantagem no teste que exigia mínimo de 160 caracteres por minuto--, mas não garantia a precisão e limpeza do documento final. Vai daí que também era um tal de tirar e botar papel até conseguir o zero erro.

No segundo dia de trabalho, já estava quase louco. No terceiro, aproveitei o intervalo do cafezinho para ir até o emprego do meu pai, que tinha ficado superfeliz com a minha contratação, para dizer a ele que iria pedir as contas. Se ficou chateado, não sei; o certo é que me apoiou, disse para eu fazer como achasse melhor.

Vai daí que minha experiência como bancário se resume a três momentosos dias. Mas aprendi muita coisa, sendo a mais importante o respeito aos bancários e a admiração pela sua capacidade de concentração e abstração.

Claro que a gente odeia ir a banco e, não poucas vezes, acaba estourando com o funcionário que nem de longe é o responsável pelas filas e pelo desrespeito que sofremos. Mas, mesmo nesses momentos de raiva, tento lembrar a dureza que é a vida daquele cara que está atrás do balcão.  

Mas me deixei levar pela memória e voltei 40 anos no tempo, mais de mil quilômetros no espaço. É bom retornar à história que estava contando antes que meu leitorado durma.

Para resumir a história, acabei me aposentando em agosto do ano passado –a primeira grana só fui receber em outubro e, apesar de toda a minha preparação, não fiz nada de especial com o dinheiro, apenas ajudou a pagar as contas e continuar levando a vida.

Aposentado, fui, como muitos, pensar no que fazer. Claro que, também como muitos, continuo trabalhando, pois a aposentadoria não dá camisa a ninguém. Mas alguma sensação de liberdade e de esperança acompanha a nova condição. Até uma certa coragem inesperada, uma capacidade de fazer bravata e de enfrentar desafios...

Foi por isso, talvez, que inventei este projeto. Depois de dois anos só cuidando de lesões, tentando diminuir dores e participando de algumas poucas e curtas corridas, resolvi desafiar o corpo e o tempo, colocando de novo a maratona como meta. É uma forma de, digamos assim, reviver, remoçar, reencontrar o próprio ser e reencontrar essa distância, essa corrida pela qual sou tão apaixonado.

Nasceu assim o projeto Primeira Maratona como Aposentado. E o primeiro treino foi no dia primeiro de fevereiro, vinte semanas antes da maratona do Alasca, que é meu objetivo neste programa. Quis que a jornada fosse especial e, assim, usei aquela corrida para reler, relembrar, reviver a “maratona” que fiz entre diversos postos do INSS para enfim conseguir a alforria.

Às sete horas daquele domingo, estava postado em frente à APS SP Pinheiros (APS quer dizer Agência de Previdência Social), no número 68 da rua Butantã. Sem mais aquelas, me fui –veja o filminho dos primeiros passos.


Foi naquela agência que protocolei o início do processo burocrático. Não sabia que era uma das dez mais movimentadas da cidade, com 647 atendimentos diários e média de 13.418 atendimentos por mês. Talvez se tivesse escolhido outra as coisas andassem mais rápidas –ou não, sei lá.

Os caras disseram que precisavam verificar os dados de minhas carteiras do trabalho (tenho duas, cheias), e que eu receberia uma carta avisando de quando poderia ver o resultado. A carta chegaria em um mês, acho eu, mas o novo atendimento ainda levaria uns 90 dias...

Ainda bem que não preciso esperar documentos para queimar o asfalto.

Parti direto pela rua Butantã em direção à marginal Pinheiros, pois o meu segundo encontro com o INSS seria do outro lado do rio, na agência da avenida Vital Brasil. Foi a primeira vez que, como aposentado, cruzava o Pinheiros correndo e registrei o fato num filminho que produzi com a minha câmera esportiva. Taí ele, ó.


Pois cheguei até o tal posto, mas não cheguei. Corria pelo lado par da avenida, lembrando que o posto ficava do outro lado da avenida, pouco depois da estação do metrô. Perdido em meus pensamentos, passei da estação, passei do posto e, quando vi, já estava quase pegando o rumo da saída de São Paulo.

Voltei atrás, perdi tempo, ganhei mais de um quilômetro no meu percurso, que havia calculado inicialmente em cerca de dez quilômetros. Era uma temeridade enfrentar tal distância, considerando as dores do corpo e o estágio do meu treinamento, que até então envolvia sessões de quatro e seis quilômetros, combinado corrida e caminhada. Fui assim mesmo, considerando o momento especial.

O erro que me obrigou a passar duas vezes pelo posto do INSS na Vital Brasil foi emblemático. Afinal, durante as tratativas para minha aposentadoria, também tive de ir lá duas vezes, uma para saber o resultado daquele primeiro exame de minha carteira e outra para levar um catatau de documentos que me exigiram (cópia de todas as páginas das duas carteiras e declarações de ex-empregadores).


Tudo bem. O dia estava lindo e eu não me sentia cansado. Voltei para o que chamo de “lado de cá” do rio, preparando espírito para a parte mais longa daquele treino. Também tive o pior trecho, subindo a Teodoro Sampaio na mão do trânsito. É horrível, porque a gente tem de confiar na habilidade e controle dos motoristas, a quem não vemos –por isso, sempre que corro na rua prefiro seguir na contramão, pelo menos eu sei onde estão os adversários.

Em compensação, tive uma grande alegria no final do trecho. Eleonora vinha acompanhando, de carro, meu percurso, e parara quase na esquina da Teodoro com a Henrique Schaumann. Ele tinha água gelada e todos os equipamentos para eu renovar meu curativo –estava correndo de tala, com curativos para proteger os ferimentos de uma cirurgia recente (mas essa história você já conhece; se não conhece, por favor, clique na aba Acidente!, no alto da página, que vai ter toda a história, tintim por tintim).



Depois daquele refresco, quase na metade do meu percurso (veja acima o mapa completo), saí renovado. Desci a Sumaré, que é meu playground, e pretendi seguir reto. O suporte para minha câmera de cabeça estava incomodando um pouco, e eu também já sentia a musculatura mais cansada.

Resolvi fazer uma segunda parada no final da avenida. Tomei uma água de coco e, com um monte de guardanapos dobrados, improvisei num protetor para a minha testa. Daí segui lépido e fagueiro para o final (foto abaixo).

O ponto culminante de minha jornada, tal como na maratona burocrática pelo INSS, seria no posto da Francisco Matarazzo, pouco depois do parque da Água Branca. Lá também tive de ir duas vezes. Por culpa de erro do pessoal que fez o atendimento no posto da Vital Brasil, segundo me disse uma simpática atendente.

Era uma senhora um pouco mais nova que eu, que tinha sido jornalista no início de sua vida de trabalho. Conhecia, assim, um pouco dos perrengues da profissão. Disse que eu precisaria voltar ao outro posto e pedir a devolução dos documentos que eu havia entregue, porque os caras não tinham completado todas as lacunas.

Abusando um pouco da simpatia dela, abri meu coração com reclamações. Expliquei que trabalhava havia 40 anos (39 anos e meio, para ser exato) e que não tinha culpa de falhas de empregadores ou mesmo falência de empresas (além do Sul Brasileiro, outras firmas por onde passei desapareceram –mas a culpa não é minha, volto a dizer).


Enfim, ela acabou dizendo que talvez fosse melhor eu buscar novamente os documentos solicitados, em vez de solicitar uma abertura de processo na outra agência. Afinal, minha “maratona” já durava meio ano, muito mais do que a média oficialmente informada pelo INSS.
Em reportagem publicada no “Agora” em 2013, é dito o seguinte: “O segurado do INSS que pede a aposentadoria na capital de São Paulo leva, em média, 33 dias para conseguir o benefício, de acordo com dados obtidos pelo Agora por meio da Lei de Acesso à Informação. Os números da Previdência mostram ainda que, a agência do Anhangabaú, na região central, é a mais rápida, com tempo de concessão do benefício em 17 dias. O resultado negativo ficou a cargo da agência Aricanduva, na zona leste. Nesse posto, a liberação da aposentadoria leva 48 dias, 15 dias a mais do que a média na capital paulista.”
Para mim, foram cerca de sete meses, pois só na visita seguinte ao posto da Francisco Matarazzo é que deram a aprovação final. Fui atendido por uma funcionária mais sisuda que a ex-jornalista –ríspida, até, mas eficiente. Ela olhou a carta que eu levei com os pedidos do INSS, os documentos que incluí, escreveu algo num papel e mandou que eu assinasse.
“Pronto”, falou ela, me dispensando: a partir de então só precisava esperar a carta de confirmação e as informações sobre onde buscar os minguados caraminguás que o governo me reservou.
Com minha corrida, encerrada depois de quase duas horas e pouco mais de onze quilômetros percorridos, festejei tudo isso e mais um pouco, comemorei estar vivo e disposto a sonhar. Que o venha o Alasca e que essa seja a primeira maratona do resto de minha vida.
Ganhei até beijim de prêmio. Quer coisa melhor?

Vamo que vamo!


2.3.15

Nem todo funcionário público pode receber aposentadoria integral

Muitos de nós levamos um susto quando vemos o valor da aposentadoria. Gente que contribuiu a vida toda pelo teto máximo acaba recebendo apenas um percentual daquela grana. Se for comparar com o último salário, então, dá vontade de chorar.
Por isso, os celetistas não poucas vezes ficam com raiva dos funcionários públicos, que sempre tiveram direito à aposentadoria integral –valor igual ao do último salário.
Eu acho que não é o caso, trabalhador não tem de ter raiva de trabalhador. O que é preciso é que todos tenhamos os mesmos direitos, e que a gente reivindique uma aposentadoria digna, coerente e consistente com os nossos anos de trabalho e com nossa contribuição ao sistema.
É bom lembrar, porém, que, hoje em dia, já mudou essa história de aposentadoria integral para os funcionários públicos –lá no Rio Grande do Sul, nos anos 1960, eram chamados de “barnabés” (não sei a origem do apelido; se você souber, conte para nós). A Emenda Constitucional nº41/03 mudou algumas regras para a aposentadoria, alterando as condições dos benefícios para os funcionários públicos –a principal mudança foi exatamente em relação á tal integralidade.
Ficou assim, conforme explica o advogado Willi Fernandes, do Centro Paulista de Apoio aos Aposentados e Servidores Públicos: “Se o servidor público ingressou antes de 2003, o valor mensal do benefício é igual ao do último salário recebido e sobre o qual foi recolhida contribuição. Quanto ao cálculo do benefício sobre a média de 80% dos maiores salários, será aplicado somente para aqueles que não se enquadrarem nas regras de transição, ou melhor, que ingressaram no serviço público a partir de 2004.”
Outra coisa: quem entrou para o serviço público antes da mudança, mas se aposentou depois, tem direito ao salário integral. Mas é preciso que, nos caso dos homens, aposentadoria aconteça com 35 anos de contribuição e 53 de idade; no caso das mulheres, 55 anos de idade e 30 de contribuição. Tem mais. A regra pede também, que o servidor tenha 20 anos de efetivo exercício no serviço público, dez anos de carreira, e cinco de efetivo exercício no cargo em que se der a aposentadoria.