3.3.16

No DOI-Codi, ditadura militar expõe sua face mais sangrenta

Quem sai da região do Ibirapuera, na zona sul de São Paulo, e sobe a rua do Livramento chega direto na pontinha do paredão que cerca o conjunto de prédios onde funcionou o DOI-Codi, a sucursal da inferno ou a “Casa da Vovó”.

Talvez seja ilação meio doida deste corredor que roda a cidade em busca de algum sentido que venha das ruas. Quem deu o nome à rua do Livramento, imagino eu, nem pensava na ironia urbana feita no encontro dela com a rua Tutóia, número 921.

Quem estivesse nas celas traseiras de qualquer um dos prédios do conjunto talvez pudesse ver, ao longe, as árvores da rua do Livramento. Que, por outra ironia, é de mão única: nelas, os carros só vão para longe, se afastam do prédio maldito, rodam sempre na direção dos ares mais benfazejos do Ibirapuera.

Notícias de jornal, conversas de políticos e até textos acadêmicos já se acostumaram a usar sempre a sigla como identificador do mais brutal serviço de repressão que atuou durante a ditadura militar.

É bom lembrar, porém, seu nome completo e sobrenome, para que ninguém esqueça e nunca mais aconteça. O Destacamento de Operações de Informação - Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-CODI) faz parte da história de um sem número de brasileiros que lutaram pela liberdade.

Nas suas celas foi torturado até a morte o operário Manoel Fiel Filho. Vou deixar para mais tarde o relato das barbaridades que Manoel lá enfrentou; hoje, 14º dia desta jornada jornalístico-esportiva em homenagem a Manoel, apresento tão somente o prédio e o serviço de atrocidades que lá se instalou.

Na minha corrida, tratei de fazer uma amarração no conjunto de edifícios onde hoje funciona o 36º Distrito Policial. Dei duas voltas completas no bloco, que não é um quarteirão bem formado: o desenho que fica é irregular, estrambótico, parece um rim machucado.


Assim também foram as decisões envolvendo a criação do DOI-Codi. Ele é a versão legalizada de um organismo criado em São Paulo depois da decretação do Ato Institucional nº 5, o AI-5: era a Oban, Operação Bandeirantes. O relatório da Comissão Nacional da Verdade resume a encrenca:

“A partir de uma Diretriz para a Política de Segurança Interna expedida em 2 de julho de 1969, o comandante do II Exército, general José Canavarro Pereira, juntamente com a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo, chefiada por Hely Lopes Meirelles, resolveu unificar “os esforços” do Exército, da Polícia Federal e das polícias estaduais, civil e militar do estado de São Paulo para o combate aos opositores do regime, criando a Oban. O governador Abreu Sodré transformaria as dependências do 36º Distrito Policial, localizado na esquina das ruas Tomás Carvalhal e Tutóia, em um centro de torturas e assassinatos. Na Polícia Civil havia um grupo de policiais chefiados pelo delegado Sérgio Paranhos Fleury, da Delegacia de Roubos, que se notabilizou pela prática do extermínio (“Esquadrão da Morte”), transplantando seus métodos para a Oban, com o apoio do governo estadual. Por sua vez, a prefeitura de São Paulo, governada por Paulo Salim Maluf, providenciou o asfaltamento da área da Oban, reformou a rede elétrica e iluminou a região com lâmpadas de mercúrio.”

Na Oban foi torturado até a morte Virgílio Gomes da Silva, ex-líder sindical e comandante do sequestro do embaixador norte-americano no Brasil.

A mão armada e assassina da ditadura militar teve o apoio entusiasmado de grande parte do empresariado, segundo documento da Comissão Nacional da Verdade. As articulações passavam pela Fiesp, a organização que reúne os capitães de indústria do Estado –onde completei minha jornada de hoje.

Prédio da Fiesp, na avenida Paulista

Diz o texto: “Um número incerto de empresários paulistas também contribuiu, já que a arrecadação de recursos contava com o apoio ativo da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), por meio de seu presidente, Theobaldo De Nigris”.

E Paulo Egydio Martins, que viria a ser governador de São Paulo, afirmou, segundo registra o jornalista Elio Gaspari: “Àquela época, levando-se em conta o clima, pode-se afirmar que todos os grandes grupos comerciais e industriais do estado contribuíram para o início da Oban.”

O organismo se instalou direto no endereço da Tutóia, que também tem entrada pela Tomás Carvalhal, 1.030. 



Desde o início da década era usado como centro policial: em 1960 foram desapropriados três lotes, num total de 2.858,40 metros quadrados, para a instalação da Delegacia de Polícia da Vila Mariana”.

Pois no final daquela década o local se tornou um antro de criminosos  a soldo do Estado. 

Talvez por sua estrutura independente demais dos poderes executivos instituídos, a Oban não durou muito: criada em julho de 1969, deixou de existir em setembro do ano seguinte.

Não que tenha sido desarticulada. Foi transformada no DOI-Codi, que estava devidamente incluído na cadeia de comando dos órgãos repressivos. O que não significa que respeitasse a lei, como é sobejamente sabido.

Talvez nunca se venha a saber exatamente quantas pessoas sofreram nas celas do conjunto de prédio da Tutóia.



O artigo “Estatísticas do DOI-CODI”, assinado por Pedro Pomar e publicado na Revista da Adusp, lança alguma luz sobre esses números tão escondido.

O texto cita um relatório secreto do Exército dando conta da morte de  que 50 pessoas sob custódia do DOI-CODI, além da passagem de 6.700 pessoas por ali num período que vai entre 1970 e 1975 e detalhados no Relatório Periódico de Informações 6/75 (RPI 6/75), datado de junho de 1975.

Claro que esse não foi o número total de mortos. Há pelo menos mais três casos conhecidos de assassinatos depois de junho de 1975: o tenente José Ferreira de Almeida, o Piracaia, foi morto em agosto; em outubro Vladimir Herzog foi assassinado e, em janeiro de 1976, a vítima foi Manoel Fiel Filho.

O jornalista Marcelo Godoy, em seu livro “A Casa da Vovó”, em que faz uma espécie de biografia do DOI-Codi, crava 66 mortes, das quais 39 sob tortura após a prisão e outras 27 depois de gravemente baleadas durante a detenção.

Os crimes do regime militar acabaram contribuindo para sua derrocada.

A revolta contra a barbárie foi um dos combustíveis que ajudaram a retomado do movimento popular, das lutas sindicais e da oposição política à ditadura. O regime militar ainda sobreviveu por quase uma década, mas acabou enterrado.

Muitos algozes daquela época trataram de esconder documentos e provas de seus crimes. Por outros motivos, a tentativa de esquecimento da barbárie, até gente que combateu a ditadura pensou em botar abaixo a central de tortura.

Nana nina.

Há que “conhecer o passado, entender o presente, construir o futuro”, como diz o slogan do Núcleo Memória, entidade que reúne ex-presos políticos.

Em 2010, Ivan Seixas, um de seus fundadores e então integrante da Conselho de Defesa da Pessoa Humana, entrou com pedido de tombamento do conjunto de prédios onde funcionou a sucursal do inferno.

A reivindicação, apoiada por diversas entidades de direitos humanos e de vítimas da ditadura, saiu vitoriosa: em janeiro de 2014 o Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico (Condephaat), órgão estadual de preservação, aprovou o tombamento.

A instrução do processo foi feita por uma jovem historiadora, Deborah Neves, que atua na Unidade de Preservação do Patrimônio Histórico da Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo..

Eu pedi para outra jovem historiadora, Laura Lucena –que é minha filha e tem me ajudado enormemente  na pesquisa e na produção deste projeto CORRIDA POR MANOEL--, conversar com a Deborah. Trocaram várias mensagens por e-mail,e o resultado você acompanha a seguir.

LAURA LUCENA -  O que te motivou a estudar o DOI-CODI?

DEBORAH NEVES - Sou historiadora no Condephaat desde setembro de 2010, período em que estava com um projeto de mestrado pronto.

Nesse mesmo ano, havia ingressado aqui um pedido de tombamento formulado pelo Núcleo Memória, na figura de Ivan Seixas e outros coletivos de defesa de direitos humanos. Quando soube que havia esse pedido em andamento aqui, pedi à Diretora para que eu pudesse fazer a instrução do processo, já que o tema era diretamente relacionado ao tema de minha pesquisa de mestrado.

O processo foi aberto no ano de 2012, quando estava no segundo ano de meu mestrado e então a minha pesquisa e a elaboração do parecer acabaram influenciando um ao outro. Foi muito importante na minha formação profissional e acadêmica e tenho colhido muitos frutos de ambos.

Imagem incluída no texto sobre o tombamento do conjunto de prédios do DOI-Codi publicado no Diário Oficial de São Paulo


Quais os principais desafios enfrentados no processo de tombamento?
Alguns desafios foram impostos. O primeiro deles era criar uma argumentação que desse consistência à proposta de tombamento que não considerasse os aspectos estéticos e arquitetônicos dos edifícios como motivação principal para a preservação.

Por outro lado, era importante assegurar que os poucos locais identificados como próximos do "original" permanecessem preservados pelo tombamento. Era necessário convencer 26 conselheiros --muitos deles arquitetos e outros habituados à preservação por razões estéticas mais do que históricas-- de que o DOI CODI, uma edificação ordinária, merecia preservação por sua relevância para a história do país, muito além que para a história de São Paulo.

O desafio seguinte foi justamente identificar a história da construção: datar quando foi construído cada um dos edifícios e se havia muitas transformações externas e internas nele.

O primeiro passo foi coletar imagens de mapas históricos da região e fotografias aéreas. Depois a pesquisa em Diários Oficiais que levassem a  compreender como a edificação foi idealizada e depois transformada em DOI CODI, e por fim, identificar outros documentos administrativos que dessem conta da história desses prédios, pois sobre a estrutura já havia trabalhos conhecidos.

Nesse momento tive a ajuda de um investigador da Polícia Civil --que não trabalhou ali, ele é bem mais jovem- e que por curiosidade coletou algumas informações importantíssimas sobre o prédio.

A partir da colaboração dele e de alguns documentos "soltos" que ele me forneceu, encontrei processos junto à Procuradoria do Patrimônio Imobiliário que deram conta de revelar muitos pormenores importantes do uso pelo Exército. Foi determinante para datar e identificar como se deu a cessão do espaço do Governo do estado para o II Exército. A colaboração da Polícia Civil também foi importante, pois cederam algumas plantas do prédio da delegacia que foram determinantes para compreender como era a edificação, quais foram as alterações e a partir daí elaborar uma proposta de preservação.

Com isso, um terceiro desafio foi imposto: levar e ouvir as pessoas que ali ficaram detidas ou que ali trabalharam para fazer uma identificação in loco. Esse talvez tenha sido o momento mais importante do processo.

Separamos as pessoas por ano de detenção para que pudessem explicar como era o prédio no momento em que estiveram presos, pois sabia que internamente as disposições mudaram de acordo com as "necessidades" do DOI-CODI.

Esse momento foi bastante desafiador por algumas razões: a primeira era reunir o maior numero de pessoas para termos diversidade de informações; a segunda, pela sensibilidade de as pessoas ali retornarem depois de tantos anos.

Todas ficaram bastante emocionadas, mas as reações foram distintas: houve quem falasse muito, numa espécie de catarse, houve quem se resignou, houve quem chorou, houve quem se revoltou, mas todos, ao final, sentiam que aquele era um momento importante para sua própria história, por estar em uma outra posição nesse momento.

O terceiro desafio era manter o trabalho com o caráter técnico --havia o receio de que essa "incursão" com ex-presos tivesse uma conotação excessivamente política. Embora eu tenha tentado contatar ex-funcionários do DOI-Codi, nunca localizei nenhum.

Onde funcionava cada organismo, de acordo com croqui publicado no Diário Oficial de SP

Quais os benefícios desse tombamento?
Sob o meu ponto de vista, esse tombamento talvez seja o mais importante como registro da história da ditadura no Brasil.

Foi neste DOI-CODI que nasceu a estratégia militar de repressão, foi aqui que nasceu o modelo que se espalhou pelo país.

É um edifício emblemático para compreender como o estado lidou com a oposição e quais forças mobilizou em nome de um projeto.

É um espaço de morte, de dor, de censura, repressão e desaparecimento que ainda envolve as forças de segurança do país. É um modelo que, embora extinto em 1983, perpetuou uma mentalidade. Portanto, é um tombamento que nos conta sobre o passado mas nos explica ainda mais sobre o presente.
É também um reconhecimento simbólico do Estado que um dia torturou e matou pessoas por discordarem de um sistema. Uma reparação à sociedade e também aos perseguidos e suas famílias.

Pode vir a ser um compromisso com a interrupção desse modelo de segurança pública, mas aí já é uma esperança e uma construção que cabe a todos nós.

Por fim, é a preservação de um espaço em que se cometeram atrocidades e que pode permitir, através de sua visitação, que cada indivíduo tire suas conclusões a partir da percepção individual sobre o que ali aconteceu. A experiência de estar no local em que tantos crimes ocorreram é única e individual.

CORRIDA POR MANOEL – 14º dia

Destino – Prédio onde funcionou o DOI-Codi e passagem em frente à Fiesp, percurso de 11,58 km realizado em 1h36min48

Distância total: 135 km






2.3.16

Lições do comandante Jonas: todo revolucionário deve estar fisicamente preparado

Carlos Marighella, Carlos Lamarca, Olga Benário, Sandino, Joaquim Câmara Ferreira, Pedro Pomar, Steve Biko, Rubens Paiva, todos eles, juntos e misturados, se encontram em esquinas, conversam atrás de praças, batem papo lomba acima e lomba abaixo.

Revolucionários estrangeiros e brasileiros são homenageados no Jardim Elisa Maria, na zona norte de São Paulo, onde emprestam seus nomes para uma série de ruas.
Encontro das ruas Carlos Mariguella e Olga Benário; a foto foi feita a partir da rua Patrice Lumumba



Uma delas lembra Virgílio Gomes da Silva, o comandante Jonas, líder do grupo que sequestrou, em 1969, o embaixador norte-americano no Brasil, Charles Burke Elbrick, em uma das mais audaciosas e surpreendentes ações de enfrentamento à ditadura militar.

Foi o primeiro preso político assassinado na Operação Bandeirante, a Oban, precursora do DOI-Codi. Os criminosos esconderam seu corpo, que até hoje nunca foi encontrado –Virgílio é o primeiro desaparecido do regime militar.

“Preso no dia 29 de setembro de 1969, cerca de três semanas depois do sequestro, Jonas foi barbaramente torturado numa sessão de dez horas de pau-de-arara, afogamentos, choques elétricos, espancamentos, queimaduras etc. Recusou-se a ceder qualquer informação a seus torturadores, enfrentando-os a socos, pontapés e xingamentos. Como não puderam vencê-lo, os torturadores resolveram destruí-lo. Mataram-no selvagemente, batendo sua cabeça contra a parede até reduzi-la a uma pasta. No local do crime, restou uma poça de sangue, que os torturadores, eufóricos e excitados, exibiram a outros presos políticos como troféu de guerra” –o relato é do jornalista Franklin Martins, um dos participantes do sequestro do embaixador, em artigo publicado no jornal “O Globo”.

Apesar da tentativa dos agentes da ditadura de apagar a existência de Virgílio, sua memória está preservada em livros, documentos, na ação de amigos, nos seus filhos e netos e nas homenagens que o Brasil continua prestando a ele.

Cartaz com foto de Virgílio produzido para homenagem feita a ele pelo Sindicato dos Químicos, categoria em que militou com líder sindical

Nascido em Sítio Novo, no sertão do Rio Grande do Norte, em 15 de agosto de 1933, foi morto aos 36 anos em São Paulo –cidade que hoje o tem como cidadão honorário e nome de rua.

Foi para lá que partimos hoje na 13ª jornada da CORRIDA POR MANOEL. Do coração da zona oeste, saímos eu e Gregório Gomes da Silva, o filho mais novo de Virgilio –depois dele há ainda uma moça, Isabel. Nosso percurso lembraria a vida do companheiro Jonas, os ensinamentos que deixou para os filhos.

Eu e Gregório no caminho para a zona norte; até cruzar os trilhos fomes bem; depois nos perdemos um pouco


Gregório, um engenheiro civil de 49 anos, casado, pai de duas moças, tem lembranças difusas do pai. “Quando eu nasci, ele já estava na clandestinidade, estava em Cuba, fazendo treinamento”, conta.

As lembranças que têm Virgílio são difusas, indiretas, é um “imaginário construído, vários retalhos que vou emendando a partir da valoração de terceiros”.

O maior período de convivência que o menino que mal começava a caminhar teve com o pai foi de alguns meses, do final de 1968 a meados de 1969.

Viviam então em um sítio em Ribeirão Preto, para onde foram Virgílio e a esposa, Ilda, e os três filhos –Vladimir, nascido em 1962, Virgílio, de 1961, e Gregório, de 1967. A caçula, Isabel, nasceu enquanto a família estava no sítio, e foi batizada em honra da mãe de Virgílio, que também morava com a família.

O ambiente doméstico servia de fachada para as verdadeiras funções do local, que era um centro de treinamento da ALN. Ali os militantes aprendiam a manusear armamento, “montar e desmontar armas”, segundo Gregório. “A ideia da ALN na época era partir para a luta armada rural.”

Também havia exercícios casca grossa, treinos de sobrevivência na mata.

Virgílio em treinamento - foto Álbum de Família
Quando não estava atendendo a companheirada visitante, Virgílio cuidava de preparar seus filhos. Gregório era muito pequeno, claro, mas os dois maiores estavam sempre na correria.

“Praticavam corrida, treinavam flexões e pular corda”, diz ele enquanto corremos pelas ruas de São Paulo. Virgílio colocava os dois garotos, de sete e oito anos, para lutar boxe; num rio próximo,  ensinou os meninos a nadar.

“Todo revolucionário tem de estar fisicamente preparado”, era o que costumava dizer, afirma Gregório. “E levava isso bem a sério. Cultuava muito o exercício físico”, diz o filho.

Bem que fazia o jovem sertanejo, retirante do Rio Grande do Norte que aportou por São Paulo. Graças à sua grande resistência física, ganhou fama em São Paulo.

Quando a operária Ilda Martins da Silva o conheceu em carne e osso, durante a grande greve da Nitro Química em 1957, já tinha a ficha da figura: era o “Louco do Rádio”.

Ela o chamava assim porque Virgílio havia participado, tempos antes, de um concurso da rádio Record, o Resistência Carnavalesca. Vencia quem ficasse mais tempo dançando, dia e noite, sem comer nem dormir. “Virgílio não gostava muito de dançar, mas resistiu por 78 horas”, registra o livro “De Retirante a Guerrilheiro”, de Edileuza Pimenta e Edson Teixeira.

Virgílio e sua bicileta - Álbom de Família
Venceu. Sua ótima forma física de lutador de boxe dedicado lhe valeu utensílios domésticos e um terreno no litoral paulista, além de virar nome conhecido.

Na hora do sério, também ia com tudo. Líder sindical e já na época militante do Partido Comunista Brasileiro, levou à vitória o movimento grevista da Nitro Química, a mais importante empresa da São Miguel Paulista, na zona leste de São Paulo.

Casamento de Ilda e Virgílio - Reprodução
E ainda arranjou uma namorada, a já citada Ilda, com quem se casou em 21 de maio de 1960. A noiva começou o casório fazendo uma concessão ao parceiro –como era mais alta que Virgilio, tirou os sapatos na hora da foto oficial da cerimônia.

As alegrias foram cortadas pelo golpe militar. Líder sindical, Virgílio foi preso em dois de outubro de 1964. Foi solto uma semana depois, no dia 9, mas ficou mais complicado ganhar a vida.

Tratou de montar um bar na região onde vivia, em São Miguel. Para celebrar sua paixão pelo boxe, batizou a casa de “Galo de Ouro”, homenagem a Éder Jofre, na época ainda campeão mundial peso galo (título que manteve até 1965).

Durante a semana, vendia bebidas e salgadinhos. Nos fins de semana, diz Gregório enquanto corremos pela cidade, cruzamos o trilhos e atravessamos a marginal Tietê, Virgílio saía para longas caminhadas.

Ia para a Serra do Mar, se embrenhava na mata em busca de orquídeas, uma de suas paixões. Em casa, cultivava as flores com carinho. “É uma planta que parece muito delicada, mas é resistente para caramba. Talvez ele visse nelas alguma semelhança com o ser humano”, filosofa o filho do comandante Jonas.

O certo é que Virgílio tinha muito carinho por suas plantas. Quando se aproximou a hora em que teria de mergulhar na clandestinidade –tinha rompido com o PCB para acompanhar Carlos Marighella na ALN--, tratou de deixar as orquídeas com quem fizesse bons uso delas. “Levou as flores para o Viveiro Manequinho Lopes, fez doação de suas orquídeas”, me conta Gregório.

Com as plantas protegidas e a família também em segurança, Virgílio foi cumprir suas tarefas. Depois do treinamento em Cuba, participou de várias ações armadas da ALN.

Ainda que no fogo da batalha, tratava de dar uma olhadinha na família quando possível. Disfarçado, percorria as ruas de São Miguel Paulista, cumprimentava de longe a mãe.

Voltou a se reunir com a mulher e os filhos no sítio em Ribeirão Preto, de onde saiu para comandar o sequestro de Elbrick. Meses depois, a prisão, a tortura e a morte.

Foi preso na rua Duque de Caxias, na região central de São Paulo, quando ia a um encontro com um companheiro da ALN. Ferido a bala, foi levado para Oban, na rua Tutóia, onde deu entrada às 10h.

Abaixo de pancada, foi colocado no pau-de-arara, onde seguiu apanhando e levando choques elétricos.

“Retirado do pau de arara por volta das 12h30, Virgílio surpreendeu seus assassinos, tentando reagir as agressões”, segundo conta Antonio Carlos Fon, ex-militante da ALN e ex-preso político, em seu livro “Tortura: A História da Repressão Política no Brasil”.

O relato segue: “Mãos e pés amarrados, ele foi, então, derrubado em um canto da sala e, durante os vinte minutos seguintes, massacrado a pontapés. As manchas de sangue permaneceram durante meses na câmara de torturas da Operação bandeirantes –uma pequena sala, de 4 x4 metros, no fundo do corredor do segundo andar do 34º [NR.: de fato, 36º] Distrito Policial de São Paulo”.

Os responsáveis pelo crime, segundo o livro de Fon, foram os capitães Benone de Arruda Albernaz, Homero Cesar Machado e Dalmo Luiz Cirillo, o major Inocêncio Fabrício de Mattos Beltrão e o sargento PM Paulo Bordini.

Os assassinos não ficaram satisfeitos. Dias depois, a viúva de Virgílio foi presa em São Sebastião. Sem saber da prisão e morte do marido, Ilda organizava as coisas da família para sair do país.

“Na cadeia, minha mãe soube que tinham matado meu pai”, conta Gregório. “Como forma de tortura da minha mãe, colocavam gravações de sessões de tortura de meu pai.”

“Ilda foi retirada do pau de arara e amarrada a cadeira do dragão [NR.: outro equipamento de tortura]”, diz Fon em seu livro, em que também relata a barbárie a que foi submetida a dona de casa.

“Os mesmo homens que mataram seu marido levaram para a câmara de torturas uma mesa, onde foi colocada Isabel Gomes da Silva, filha de Ilda e Virgílio, de apenas quatro meses de idade. Eles faziam perguntas a Ilda e, quando ela dizia não saber as respostas, davam choques na criança.”

As crianças foram conduzidas para um Juizado de Menores, de onde uma tia, Creuza, as resgatou dias depois. Ilda foi transferida de cadeia, como conta Gregório durante nossa corrida até a zona norte de São Paulo.

“Minha mãe ficou nove meses presa no presídio Tiradentes, junto com a Dilma [NR.: a hoje presidenta Dilma Rousseff], eram companheiras de cela, também a Rose Nogueira, que também é jornalista. Boa parte desse tempo ficou incomunicável. Depois um belo dia, soltaram ela, sem julgamento, sem pedir desculpas, sem nada, foi um sequestro mesmo.”

Em liberdade, Ilda tentou seguir a vida no Brasil. Uma dureza: “Era seguida, sempre tinha alguém diferente por perto dela, não arrumava emprego, tinha quatro filhos para criar”, diz Gregório.

Para segurança de todos, a organização decidiu tirar a família Gomes da Silva do país. Em 1972, vão para o Chile, onde ficam um ano: em março de 1973, seguem para o destino final, Cuba.

São recebidos como amigos. Apesar das dores e das memórias sofridas, tratam de seguir a vida.

As crianças vão estudar –Gregório já está então em idade de começar o primário, é alfabetizado em espanhol. Ilda vai trabalhar em uma fábrica de roupas, onde também completa seus estudos: ela tinha apenas os primeiros anos do primeiro grau.

“Muitas vezes fizemos pesquisas juntos”, lembra Gregório. Mãe e filho faziam ao mesmo tempo o mesmo curso, ele na escola, ela na fábrica.

Fizeram amigos, cresceram, se apaixonaram. Vladimir, Virgílio Jr. e Maria Isabel se casaram em Cuba, onde também fizeram faculdade –geologia para o mais velho e a mais moça, dois cursos para Virgilinho, engenharia de produção e engenharia mecânica. Gregório, meu parceiro nessa corrida pela memória, formou-se em engenharia civil.

Na ilha, a prática de esportes fazia parte do cotidiano dos filhos do companheiro Jonas.

“Em Cuba todos nós praticávamos esporte. A corrida quem começou foi o Vladimir, eu achava que era coisa de doido, o Virgílio também. Ele corria lá seus dez quilômetros, foi o precursor. O Virgílio nadava muito, eu também nadava, jogava bola”, diz Gregório enquanto a gente se perde pela zona norte de São Paulo.

Familiares de Virgílio recebem na Cãmara Municipal o título de Cidadão Paulistano concedido ao líder revolucionário - Reprodução de imagem publicada em revista da Adusp

Demos um baita perdido mesmo. Em vez de cruzar a Marginal Tietê pela ponte que dá na avenida Inajar de Souza, como eu tinha planejado, rodamos vários quilômetros além. Atravessamos a ponte para subir a avenida Edgar Facó e tratamos de recalcular então nosso percurso.

Um errinho besta, que nos deu vários quilômetros a mais e ainda subidonas inesperadas pelas ruas Marilândia e Itaquara –essa aí é sangue ruim mesmo!—para chegar à avenida Itaberaba e conseguir voltar ao trajeto inicialmente planejado.

Ainda bem que Gregório nos últimos anos retomou a fidelidade aos ensinamentos do pai e tem se dedicado com afinco a manter a forma.

Bem mais do que isso, na verdade. Depois de ter superado os cem quilos, em meados da década passada, tratou de começar a correr.

Primeiro aos pouquinhos. Depois, aos bastantinhos. Hoje já contabiliza cinco maratonas no currículo e, como se não bastasse, ainda se dedica ao triatlo de longa distância --no ano passado, fez um meio Ironman.

Para quem não conhece, dizer “meio Ironman” pode parecer pouca coisa. Não é. A prova inclui 1.900 metros de natação, 90 quilômetros de ciclismo e 21,1 quilômetros (meia maratona) de corrida, um depois do outro, sem descanso.

“Eu entendo o esporte como um excelente meio de formar a disciplina e estimular o trabalho coletivo, mesmo nas modalidades individuais, além dos comprovados benefícios no bem-estar e na saúde”, diz Gregório.

Vista geral da rua Virgílio Gomes da Silva


E a corrida é também uma excelente forma de mergulhar na história, como estamos vendo nessa jornada, que se encerrou na rua Virgílio Gomes da Silva, Jardim Elisa Maria.

Circulamos os dois pelos menos de 200 metros da rua sem saída, que começa com um bar bastante simples e termina em cunha, com várias casas se acotovelando. Na porta de uma delas, uma vibrante pintura de um garboso e combativo São Jorge.



Corintiano como seu pai e todos seus irmãos, Gregório faz foto no local, posando ao lado do símbolo do time relembrado na rua que homenageia Virgílio.

Conversamos com uma moradora do bairro que não tinha a menor ideia de quem fora Virgilio Gomes da Silva e se espantou ao saber que Gregório era filho do nome da rua: “Você deve se orgulhar de ter um pai importante”.

Já estávamos saindo felizes e satisfeitos da rua, prontos para pegar um ônibus de volta, quando percebemos uma pichação nos muros da escola Jardim Santa Tereza, na confluência das ruas Virgilio Gomes da Silva e Augusto César Sandino, revolucionários do Brasil e da Nicarágua.

“Cotó # Luto Cotó mais um# ASSASSINOS DE FARDA”.

“Continua”, Gregório comentou apenas.



Quem passava por ali na hora disse não saber quem era Cotó. Pesquisando na internet, também não identifiquei o caso. 

Mas descobri que a violência policial está muito presente no Jardim Elisa Maria, uma comunidade que em 1992 resolveu homenagear em suas ruas combatentes pela liberdade (o decreto da então prefeita Luiza Erundina identifica o loteamento como Jardim Thereza).

Vista da zona norte a partir da rua Virgílio Gomes da Silva

As ruas do bairro já foram palco de terríveis chacinas. Em 2 de fevereiro de 2007, sete jovens que conversavam nas escadarias da rua Olga Benário foram fuzilados com dezenas de tiros –minutos depois, carros da Rota, a tropa de elite da PM de São Paulo, chegaram para recolher as cápsulas de bala.

A chacina foi realizada pelos Matadores do 18, grupo de extermínio cujo nome faz referência ao batalhão da PM em que os militares eram lotados. Sete policiais foram presos acusados de envolvimento na chacina do escadão.

A coisa não parou. De lá para cá aconteceram outras mortandades, sempre com suspeita de envolvimento de policiais.

Em 2014, cinco moradores do bairro foram mortos e três ficaram feridos em ações semelhantes, segundo reportagem publicada no ano passado pela edição brasileira do “El País”.

“Sabemos que isso vai continuar acontecendo. E o que choca é que todo mundo conhece alguém que morreu numa situação dessas”, disse Valmir Rodriguez, 37, diretor de videoclipes ouvido pelo repórter Gil Alessi. “A ditadura está presente no nosso dia a dia. Se depender da PM e do Governo estamos fodidos."





CORRIDA POR MANOEL – 13º dia

Destino: Rua Virgílio Gomes da Silva, 
percurso de 12,5 km realizado em 1h53

Distância total: 123,42 km

PS.: Depois de publicado esse texto, consegui as duas fotos em preto e branco do Virgílio fazendo exercício e segurando sua bicileta. Segundo me disse Gregório, um fotógrafo que analisou as imagens afirma que elas foram produzidas pelo próprio Gregório, usando câmera fotográfica com disparador programável --uma espécie de "selfie" dos anos 1960

1.3.16

Militante da imprensa clandestina, Cesar Teles leva comandante da tortura à Justiça

Esta CORRIDA POR MANOEL que venho fazendo é uma homenagem a todos os manoeis, joãos, marias e amelias que não se calaram frente a ditadura militar e dedicaram suas vidas ao combate pela liberdade, pela democracia, pela justiça, por um mundo melhor para seus filhos, netos, para todos.

É também uma celebração à imprensa combativa. Manoel foi sequestrado pela polícia política da ditadura sob nebulosas acusações de distribuir o “Voz Operária”, jornal clandestino do Partido Comunista Brasileiro.

A brutalidade insana da ditadura se abateu sobre muitos que trabalharam nesse jornal e em outras publicações de partidos e grupos que, desde a clandestinidade, buscavam levar esperança para a população brasileira. A perseguição aos boletins e panfletos, documentos, livros e jornais mostra que os opressores sabem quão forte é o poder da palavra.

Sempre que podiam, caíam sedentos sobre as gráficas clandestinas de onde saía a voz da resistência. Num desses episódios, invadiram a casa onde, em São Paulo, eram produzidos jornais e material de apoio aos militantes que organizavam a guerrilha do Araguaia.

Vídeo de entrevista de Cesar Teles, durante homenagem realizada na Câmara Municipal - foto Reprodução/Anibal Castro de Souza 

Cesar Teles e sua mulher, Amélia, dirigentes do Partido Comunista do Brasil, foram presos naquele dia 28 de dezembro de 1972. Os filhos pequenos do casal, Janaína e Edson, também foram levados.

Em depoimento à revista “Leituras da História”, citado pelo Jornal “Brasil de Fato”, Amelinha lembra o dia da prisão.

“Eram 18h, na Rua Loefgreen, Vila Clementino, quando nós paramos o carro. O Danieli [NR.: Carlos Nicolau Danieli, dirigente do PCdoB],  já havia descido alguns minutos antes para encontrar um companheiro e nós fomos cercados por quatro carros, que pararam na nossa frente – eu não sei como eles apareceram ali – [...] era aquele momento em que tudo estava escurecendo. Eles cercaram os lados, desceram com metralhadoras na mão: ‘terrorista, terrorista, terrorista!’, gritaram.”

De fato, o trabalho de Cesar Teles devia aterrorizar o regime ditatorial. “Nós publicávamos mil e quinhentos jornais todo o mês, para mandar para toda a comunidade. Com mimeógrafo a óleo ou a álcool. Mandava para o exterior – Suécia, Inglaterra, França, Itália, e outros países da Europa. E nós ouvíamos a rádio, a de Moscou, a de Pequim, nós éramos rádio-escuta também”, lembra Amelinha.

Cesar se foi no final do ano passado. Morreu aos 71 anos.

“César dedicou sua vida a tentar a ajudar os mais pobres. Torcedor do Atlético-MG, gostava de bater bola. Foi sindicalista ferroviário. Era exímio dançarino de salão. Lutou contra a ditadura. Adorava orquídeas. Foi o responsável pela logística da Guerrilha do Araguaia. Cantava óperas. Penou cinco anos na prisão, participou das campanhas da Anistia e das Diretas Já. Cobrou o paradeiro dos desaparecidos políticos, exigiu castigo legal aos violadores dos direitos humanos” –esse é um brevíssimo resumo de uma vida de combates, escrito pelo repórter Mario Magalhães, autor de “Marighella”.

No último dia 26 de fevereiro, familiares, amigos e companheiros de luta de Cesar Teles realizaram uma homenagem ao ex-líder sindical. Foi no auditório da Câmara Municipal de São Paulo.



Antes de subir para acompanhar a cerimônia, fiz por Cesar uma breve etapa da CORRIDA POR MANOEL, “abraçando” a Câmara com minhas passadas.

Lá em cima, no oitavo andar, a casa estava cheia, repleta de gente e de emoções. Muitos “cabeça branca”, antigos companheiros de César, mas também muita gente jovem e um exército de feministas –entre tantas lutas a que se dedicou, uma delas foi pela emancipação da mulher.

Amelinha falou, Janaína falou, houve vários depoimentos e celebrações.

E Cesar também falou. Foi trazido ao auditório por meio de um vídeo, uma entrevista que dera à filha anos antes, parte de um trabalho acadêmico de Janaína, que é historiadora.

Os minutos voaram enquanto ele contava histórias de sua luta, de como montou, com Amelinha e os filhos, a casa onde instalou a gráfica que tanto infernizou a ditadura militar.

A impressora ficava em um dos quartos. Cobertores eram presos à porta e às janelas para abafar o som. O rádio tocava em alto volume, e a máquina cuspia panfletos, jornais, propaganda. Quando não estava operando, ficava desmontada, dentro de um armário, e a casa ficava aberta para os vizinhos.

A vida da família Teles, aliás, era aberta aos vizinhos, era uma casa como qualquer outra da comunidade. Cesar, que dirigia um táxi para garantir a sobrevivência financeira, não poucas vezes usava o carro para levar um vizinho a um hospital ou fazer outra gentileza.

 “Por nossa ação, a casa não cairia”, afirmou ele no vídeo, certo da rede de proteção que tinha montado na comunidade.

De fato, a família acabou presa em outras circunstâncias, quando Cesar foi levar um dirigente do PCdoB a um encontro.

Janaína e Edson com os pais, Amelinha e Cesar Teles - foto Reprodução


Para piorar as coisas, a prisão encontrou um Cesar debilitado. A exposição constante aos gases da impressão –tintas e outros líquidos tóxicos—havia debilitado sua saúde; passara sete meses internado para tratamento de tuberculose e outras complicações. O que não diminuiu a violência dos torturadores.

Amelinha também sofreu barbaridades, como ela relata em depoimento realizado em 2004: “O coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra foi o primeiro a me dar um tapa na cara, me jogou no chão com aquele tapa. Me torturou pessoalmente. Foi ele quem mandou invadir a minha casa, buscar todo mundo que estava lá, meus filhos e minha irmã. Durante cerca de dez dias, minhas crianças me viram sendo torturada na cadeira de dragão, me viram cheia de hematomas, com o rosto desfigurado, dentro da cela. Nessa semana em que meus filhos estavam por ali, eles falavam que os dois estavam sendo torturados. 'Nessas alturas, sua Janaína já está dentro de um caixãozinho'. Disseram também que eu ia ser morta. Isso foi o tempo todo. O tempo todo, o terror. Ali era um inferno".

Por maior que fosse o sofrimento, quem sobreviveu tratou de se recuperar, enrijecer o espírito e continuar lutando. Na cadeia, Cesar Teles e outros companheiros presos conseguiram iludir a vigilância da ditadura e contrabandearam para fora um documento em que não só denunciavam ao mundo o tratamento a que eram submetidos como também apontavam 233 responsáveis diretos pela tortura.

A carta, que ficou conhecida como “Bagulhão”, está publicada integralmente em um livro organizado pela Comissão da Verdade de São Paulo e disponível para todos na internet (clique AQUI para acessar o texto).

Diz o livro: “O documento original, um calhamaço com as assinaturas dos 35 presos, saiu sigilosamente do presídio e chegou ao destinatário em segurança. A operação incluiu a montagem de um compartimento no interior de uma singela garrafa térmica, na qual as 28 folhas tamanho ofício foram alojadas”.

A carta ganhou o mundo. A reação da repressão foi imediata, como conta o livro “Bagulhão”:

“Passaram a intimidar familiares e amigos dos presos políticos, com cartas de ameaças de morte, via correio, assinadas com pincel atômico, em letras pretas, com a sigla A.A.B. que significava Associação Anticomunista Brasileira. Em 1978, o jornal da imprensa alternativa `Em Tempo foi o primeiro e único a publicar na íntegra a lista dos 233 torturadores. Esse jornal publicou ainda mais duas listas de agentes públicos acusados de tortura, feitas por presos políticos de outros estados. A edição do Em Tempo tinha uma tiragem de vinte mil exemplares que se esgotou tão logo o jornal foi para as bancas, o que fez com que batesse recorde de vendas. O jornal sofreu, em represália, na mesma semana que divulgou os nomes dos torturadores, dois atentados. Um na sucursal de Curitiba (PR)`, que teve sua sede invadida e pichada de spray: “233”. O outro atentado ocorreu em Belo Horizonte, quando colocaram ácido nas máquinas de escrever. Esses fatos chegaram a ser publicados pelo próprio jornal Em Tempo. Depois disso, o jornal não teve mais como existir, foi fechado. “

Depois do final da ditadura, Cesar e seus familiares continuaram sua militância e trataram também de lutar para expor a parte mais sangrenta e desumana do período da ditadura militar.

Em 2006, a família entrou na Justiça contra o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, acusado de sequestro e tortura. Era uma ação civil que pedia a declaração de ocorrência de danos morais e à integridade física.

Em reportagem publicada na época na “Folha de S. Paulo”, Mário Magalhães registrou as razões da família: “A história deve ser contada como aconteceu, para que não se repita'', diz a professora Maria Amélia de Almeida Teles. O aposentado César Teles responde à contestação do coronel Ustra sobre a demora para acionar a Justiça: “Denunciamos o que houve assim que saímos do pau-de-arara'' -os autos de um processo da década de 1970 confirmam. A historiadora Janaína Teles diz que a opção pelo processo contra o comandante do DOI-Codi -e não o Exército e a União- ocorreu porque “as pessoas que morreram na ditadura tinham nomes, sentimentos e história''. “Os que mataram, também'', afirma.”

Pois a Justiça reconheceu a razão da família. Ustra morreu no ano passado, aos 83 anos, tendo como resumo de sua biografia o carimbo oficial: foi um torturador.

Cesar, ao contrário, foi uma luz.


CORRIDA POR MANOEL – 12º dia

Percurso: “abraço caminhado” à Câmara Municipal de São Paulo, 2 km feitos em 24min39

Distância acumulada: 110,92 km