4.3.16

Sentença contra Lula estava escrita antes do julgamento na Auditoria

Às oito horas da manhã de hoje, enquanto o ex-presidente Luis Inácio Lula da Silva estava sendo ouvido pela Polícia Federal na delegacia do aeroporto de Congonhas (zona sul de São Paulo), eu me encontrei com o ex-preso político Maurice Politi para mais uma jornada da CORRIDA POR MANOEL.

Estava com minha mulher, Eleonora, e minha filha mais velha, Laura, que vêm trabalhando comigo nesse projeto.

Na entrada de um prédio da avenida Brigadeiro Luiz Antonio, quase na esquina com a Paulista, nós nos encontramos com Politi, que nasceu no Egito e é mais brasileiro do que muita gente que anda por aí enrolada em bandeira verde-amarela. 

Com ele chegou a jovem historiadora Ana Paula Brito, diretora do Núcleo Memória, organização criada por ex-presos políticos para manter viva a memória das lutas travadas durante o período da ditadura militar.

Todos nós estávamos ainda sem saber o que acontecia em São Paulo. As notícias da manhã era de que Lula havia sido levado pela Polícia Federal; até aquela hora, não havia muito ais informação.

Politi, Eleonora e Laura

Mal sabia eu que nosso mergulho na história das perseguições políticas ocorridas durante a ditadura se encontraria com a história quente, vivida hoje mesmo, de perseguições a líderes do movimento dos trabalhadores.

Nosso destino era o prédio onde, durante a ditadura, funcionou a Auditoria Militar –de fato, as auditorias militares, pois havia uma do Exército, outra da Marinha, outra da Aeronáutica. A do Exército era mais ativa.

A auditoria funcionava como juizado, era ali que aconteciam os julgamentos dos presos políticos –quando os presos não eram mortos sob tortura, como aconteceu com tantos, do operário Manoel ao jornalista Vladimir, do sindicalista Virgílio ao tenente Piracaia.

“O Casarão Amarelo em estilo eclético foi adquirido em 1938 pelo Exército para abrigar a Auditoria da Justiça Militar, órgão responsável pelos julgamentos dos inquéritos militares. Com o golpe de 1964 e a perseguição a civis considerados “inimigos do Estado”, o local passou a funcionar como elemento chave da propaganda de “justiça” na ditadura”, ensina texto produzido pelo Memorial da Resistência.

O texto coloca a palavra “justiça” entre aspas porque o que ocorria lá era mesmo uma farsa, um arremedo de processo. Vários dos juízes militares tinham sido torturadores, como declarou o ex-preso político Ismael de Souza em entrevista ao Programa Coleta Regular de Testemunhos do Memorial da Resistência.

“Naquela farsa de montar o interrogatório já em Tribunal [...] tinha cinco conselheiros que iam julgar a gente, que eram todos oficiais do Exército, major, capitão, coronel que faziam parte do conselho de Auditoria. [...] o sargento Roberto, que era escrivão na Auditória, foi torturador, me torturou me pendurou de cabeça para baixo lá [...] [referindo se ao DOI-Codi]. [...] O capitão Danilo foi fazer parte também do Conselho, lá da 2ª Auditoria Militar [...]. Veja bem, ele era um torturador, interrogador aqui no DOPS, veio fazer parte do Conselho também, pra nos julgar, lá 2ª Auditoria.”

Nestes nossos dias de hoje, o prédio das farsas jurídicas será transformado em Memorial da Luta Pela Justiça, um projeto da Ordem dos Advogados do Brasil e do Núcleo Memória –Maurice Politi é um dos participantes do trabalho.

Laura, Ana Paula, eu e Politi; ao fundo, o prédio que abrigou as auditorias militares - Foto Eleonora de Lucena

Foi lá que terminou nossa jornada de hoje. E Maurice contou um pouco das experiências que viveu no prédio.

“Quando fui julgado aqui eu tinha 23 anos e já estava preso havia dois anos. Quer dizer: você só era julgado depois de dois anos de prisão. Para mostrar o ridículo da coisa.

“Eu estava incluído em um artigo de Lei de Segurança Nacional que daria de dois a quatro anos de prisão.

“Meu advogado garantiu para minha família, que na época estava todo o dia aí, garantiu que, se eu fosse condenado à pena mínima, sairia da auditoria para a rua, livre. Se fosse condenado a uma pena maior que dois anos, voltaria para o presídio, entraríamos com pedido de livramento condicional e eu sairia depois de uns 15 dias.

“Então imagine a euforia da família, que veio ver o julgamento  pensando que eu sairia.

“Eu fazia parte de um processo em que havia mais de cem pessoas sendo julgadas, era o chamado Processão da ALN (Ação Libertadora Nacional), porque tinha muita gente. Nós chegamos aqui de manhã, e o julgamento só terminou à meia-noite. Ficamos o dia inteiro.


“E meu pai, minha mãe aqui –minha mãe já morreu. Ela estava aí, firme, todas essas horas, esperando.

“Nós fomos julgados por um Conselho de Guerra, como eles chamavam, e o Conselho de Guerra era formado por um juiz togado, um juiz-juiz, um civil, que estudou para advogado, foi juiz, fez concurso, e quatro militares, tenentes, capitães, que não tinham nada de advogado, mas eles faziam parte do Conselho, eles que nos julgavam.

“Então eles decidiram mudar o artigo da lei no qual eu estava incurso e puseram mais artigos. Com isso, minha sentença foi de dez anos de prisão.

“Eu estava na frente, os réus ficavam na frente, e atrás ficava a família, em bancos de madeira.

“Eu só lembro que, quando o cara falou dez anos de prisão, anunciou minha sentença, eu virei para trás e eu vi minha mãe desfalecer.

“Quando eu entrei aqui pela primeira vez depois do julgamento, em 2013, vim com o Marcos da Costa, presidente da OAB de São Paulo, com o pessoal da Superintedência do patrimônio da União e outras autoridades. Nós fomos fazer o reconhecimento do prédio, eu fui, eu e mais duas pessoas, como testemunhas, contando: aqui foi isso, aqui foi aquilo...

“Eu entrei nessa sala e eu vi minha mãe. E ela morreu faz 15 anos. Eu vi ela. Eu entrei aqui há dois anos atrás e eu vi esse momento. Esse episódio foi a recordação mais... Foi muito forte. Foi um momento que me marcou, mais forte que no Dops e outros lugares em que eu fiquei.”

Maurice se cala, como a lembrar aquele momento. E volta a contar como funcionavam os julgamentos na Auditoria Militar.

“A chegada dos presos aqui era espalhafatosa, principalmente quando eram muitos, como no meu processo.

“Quando eram duas ou três pessoas sendo julgadas, eles traziam numa viatura policial, com sirene, tal, mas não tinha muito alarde.

“Quando vinham muitos presos, homens e mulheres juntos, vinham aqueles camburões, lá dentro cabem 20 ou 30 pessoas, mais a polícia.

“As mulheres faziam questão de virem muito bem arrumadas, muito bem vestidas. Porque eles fechavam a rua, não deixavam ninguém passar. E aí juntava aquela população curiosa, que ia ver o que estava acontecendo, todo o trânsito estava parado.

“A gente descia abaixo de uma guarda de metralhadores, como se fôssemos... E aí a população começava a gritar: “Os terroristas, os terroristas!” Por isso as mulheres iam sempre bem arrumadas, para mostrar que eram gente como qualquer um. Não era um bicho...

“A gente ia lá para o fundo, havia uma edícula onde a gente ficava até ser chamado para o julgamento. Até lá a gente ia algemado. Na sala de julgamento, eles tiravam as algemas e aí a pessoa era julgada.”

Mesmo depois do período do enfrentamento armado contra a ditadura, o regime militar manteve a estrutura judicial de fancaria, afirma Maurice Politi. Um dos muitos episódios que evidenciaram o arremedo de justiça envolveu o ex-presidente Lula –na época, presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo.

Enquanto, no bar em que conversávamos, noticiário da TV falava da ação da Polícia Federal contra Lula, Maurice Politi contava outro caso de trapaça, tramoia, enganação ocorrido na Auditoria Militar.

“O Lula foi julgado aqui em 1982, se não me engano, quando ele foi preso devido à greve do ABC, assim como vários outros sindicalistas.

“Na época em que eu fui preso tinha mais gente de luta armada. Mas, depois disso, quando arrefeceu a luta armada e começou todo o movimento social, dos sindicalistas, muitos deles foram presos e julgados aqui.

“E era uma farsa, era tudo uma farsa.

“Sentenças era feitas antes, como aconteceu no caso do Lula. O Luiz Eduardo Greenghalg, que era um dos advogados do Lula, conta que veio aqui quatro dias antes do julgamento do Lula e a sentença estava sendo escrita, datilografada.”

O mesmo prédio que abrigou tanta enganação e covardia também viu episódios de bravura indomável. Presos que não baixavam a cabeça e fazia do tribunal militar palco de denúncias das atrocidades cometidas pelos militares e pela polícia política.

Um deles foi o cabo Mariani, lembra Politi, que esteve preso no Dops com o militar.

“O cabo José Mariani Ferreira era um cabo do Exército que tinha saído do Exército junto com o Lamarca. Formaram um grupo de soldados e sargentos que saíram do Exército para se afiliar a uma organização revolucionária chamada VPR (Vanguarda Popular Revolucionária).

“Esses militares, quando eram presos, a tortura sobre eles era muito maior. Os militares achando que eles eram traidores da pátria. A tortura contra eles foi muito violenta, todos eles apanharam muito. Teve um que enlouqueceu...

“O cabo Mariani era muito jovem e foi muito torturado porque eles queriam que ele dissesse onde estava Lamarca. Ele não sabia.

“Na Operação Bandeirantes, fizeram um tipo de tortura com ele que poucos casos ocorreram no Brasil de torturas similares.

“Simplesmente pegaram ele nu, pegaram os órgãos genitais dele, puseram numa gaveta e fecharam a gaveta. Com isso, os testículos dele se arrebentaram. Com isso ele ficou impotente.

“Você imagina: um rapaz de vinte e poucos anos não tinha mais ereção. Ele percebeu isso logo em seguida. Na época da prisão ele falava nisso.

“Ele veio aqui, na Auditoria Militar, no dia do julgamento, e denunciou isso. Falou: “Eu fui torturado e eu fui torturado dessa forma: puseram meus testículos numa gaveta, fecharam a gaveta, com golpes”.

“Os militares que estavam julgando e o próprio juiz ficaram tão surpresos com essa notícia que reagiram: “O senhor está mentindo. O Exército não faz isso. Nós não fazemos isso. O senhor está mentindo. Isso é mentira!”.

“E ele me contou, contou a mim, que ali o juiz Nélson da Silva Machado Guimarães, que era um famigerado juiz da 2ª Auditoria Militar, diante dessa polêmica entre os militares e o juiz, falou: “Suspenda-se o julgamento! Leve-se o réu para que reflita sobre o que vai falar”.

“Então levaram ele o cabo Mariani para essa edícula onde a gente ficava e lá ele apanhou. Esse foi um dos casos de tortura que aconteceram nesse lugar.”

O ex-juiz, em depoimento à Comissão Nacional da Verdade, afirmou que sabia das torturas, mas que não encaminhava as denúncias recebidas “porque não ia dar em nada”.

Além disso, havia uma razão ideológica, política, para não fazer o encaminhamento, segundo ele disse à CNV: “encaminhar as denúncias, conforme ele disse à CNV em 2014: “Pedi várias vezes [a apuração das denúncias de tortura], em outras ocasiões era inútil e iria favorecer os guerrilheiros treinados fora do Brasil para fazerem aqui a guerra psicológica. Eram denúncias de tortura e de morte também. Na guerra se mata e se tortura dos dois lados. A estupidez de um extremismo acaba gerando, naquele que deveria se opor a essa estupidez de maneira legal, um outro tipo de estupidez. Isso é história”.


Pois para manter a história viva, o Núcleo Memória tratou de reivindicar ao governo federal a preservação do prédio, para que ele fosse convertido em sítio de consciência.

Em 2013, a Superintendência do Patrimônio da União em São Paulo repassou a cessão do prédio para a Ordem dos Advogados, que em parceria com o Núcleo Memória irão administrar o Memorial da Luta

“Nós achamos que faz parte da história do povo brasileiro, esses prédios fazem parte de nossa história. A gente precisa preservar para saber o que ocorreu”, diz Politi.


Ele continua: “O que aconteceu na época da ditadura, nos 21 anos de ditadura, está expresso em prédios simbólicos, como os do Dops, do DOI-Codi, em todos os Estados, não só em São Paulo. São prédios em que ocorreram torturas, mortes, desaparecimentos, violações dos mais elementares direitos humanos, humilhações. Isso tem de ser conhecido, principalmente pela juventude. A juventude tem de saber o que ocorreu, porque nos livros de história não diz nada sobre isso”.

Trata-se de, como diz o slogan do Núcleo Memória, de “conhecer o passado, entender o presente, construir o futuro”.

CORRIDA POR MANOEL – 15º dia

Destino: prédio em que funcionaram as auditorias militares durante a ditadura militar, percurso de 1,26 km realizado em 20min21

Distância total acumulada: 136,21 km 

3.3.16

No DOI-Codi, ditadura militar expõe sua face mais sangrenta

Quem sai da região do Ibirapuera, na zona sul de São Paulo, e sobe a rua do Livramento chega direto na pontinha do paredão que cerca o conjunto de prédios onde funcionou o DOI-Codi, a sucursal da inferno ou a “Casa da Vovó”.

Talvez seja ilação meio doida deste corredor que roda a cidade em busca de algum sentido que venha das ruas. Quem deu o nome à rua do Livramento, imagino eu, nem pensava na ironia urbana feita no encontro dela com a rua Tutóia, número 921.

Quem estivesse nas celas traseiras de qualquer um dos prédios do conjunto talvez pudesse ver, ao longe, as árvores da rua do Livramento. Que, por outra ironia, é de mão única: nelas, os carros só vão para longe, se afastam do prédio maldito, rodam sempre na direção dos ares mais benfazejos do Ibirapuera.

Notícias de jornal, conversas de políticos e até textos acadêmicos já se acostumaram a usar sempre a sigla como identificador do mais brutal serviço de repressão que atuou durante a ditadura militar.

É bom lembrar, porém, seu nome completo e sobrenome, para que ninguém esqueça e nunca mais aconteça. O Destacamento de Operações de Informação - Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-CODI) faz parte da história de um sem número de brasileiros que lutaram pela liberdade.

Nas suas celas foi torturado até a morte o operário Manoel Fiel Filho. Vou deixar para mais tarde o relato das barbaridades que Manoel lá enfrentou; hoje, 14º dia desta jornada jornalístico-esportiva em homenagem a Manoel, apresento tão somente o prédio e o serviço de atrocidades que lá se instalou.

Na minha corrida, tratei de fazer uma amarração no conjunto de edifícios onde hoje funciona o 36º Distrito Policial. Dei duas voltas completas no bloco, que não é um quarteirão bem formado: o desenho que fica é irregular, estrambótico, parece um rim machucado.


Assim também foram as decisões envolvendo a criação do DOI-Codi. Ele é a versão legalizada de um organismo criado em São Paulo depois da decretação do Ato Institucional nº 5, o AI-5: era a Oban, Operação Bandeirantes. O relatório da Comissão Nacional da Verdade resume a encrenca:

“A partir de uma Diretriz para a Política de Segurança Interna expedida em 2 de julho de 1969, o comandante do II Exército, general José Canavarro Pereira, juntamente com a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo, chefiada por Hely Lopes Meirelles, resolveu unificar “os esforços” do Exército, da Polícia Federal e das polícias estaduais, civil e militar do estado de São Paulo para o combate aos opositores do regime, criando a Oban. O governador Abreu Sodré transformaria as dependências do 36º Distrito Policial, localizado na esquina das ruas Tomás Carvalhal e Tutóia, em um centro de torturas e assassinatos. Na Polícia Civil havia um grupo de policiais chefiados pelo delegado Sérgio Paranhos Fleury, da Delegacia de Roubos, que se notabilizou pela prática do extermínio (“Esquadrão da Morte”), transplantando seus métodos para a Oban, com o apoio do governo estadual. Por sua vez, a prefeitura de São Paulo, governada por Paulo Salim Maluf, providenciou o asfaltamento da área da Oban, reformou a rede elétrica e iluminou a região com lâmpadas de mercúrio.”

Na Oban foi torturado até a morte Virgílio Gomes da Silva, ex-líder sindical e comandante do sequestro do embaixador norte-americano no Brasil.

A mão armada e assassina da ditadura militar teve o apoio entusiasmado de grande parte do empresariado, segundo documento da Comissão Nacional da Verdade. As articulações passavam pela Fiesp, a organização que reúne os capitães de indústria do Estado –onde completei minha jornada de hoje.

Prédio da Fiesp, na avenida Paulista

Diz o texto: “Um número incerto de empresários paulistas também contribuiu, já que a arrecadação de recursos contava com o apoio ativo da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), por meio de seu presidente, Theobaldo De Nigris”.

E Paulo Egydio Martins, que viria a ser governador de São Paulo, afirmou, segundo registra o jornalista Elio Gaspari: “Àquela época, levando-se em conta o clima, pode-se afirmar que todos os grandes grupos comerciais e industriais do estado contribuíram para o início da Oban.”

O organismo se instalou direto no endereço da Tutóia, que também tem entrada pela Tomás Carvalhal, 1.030. 



Desde o início da década era usado como centro policial: em 1960 foram desapropriados três lotes, num total de 2.858,40 metros quadrados, para a instalação da Delegacia de Polícia da Vila Mariana”.

Pois no final daquela década o local se tornou um antro de criminosos  a soldo do Estado. 

Talvez por sua estrutura independente demais dos poderes executivos instituídos, a Oban não durou muito: criada em julho de 1969, deixou de existir em setembro do ano seguinte.

Não que tenha sido desarticulada. Foi transformada no DOI-Codi, que estava devidamente incluído na cadeia de comando dos órgãos repressivos. O que não significa que respeitasse a lei, como é sobejamente sabido.

Talvez nunca se venha a saber exatamente quantas pessoas sofreram nas celas do conjunto de prédio da Tutóia.



O artigo “Estatísticas do DOI-CODI”, assinado por Pedro Pomar e publicado na Revista da Adusp, lança alguma luz sobre esses números tão escondido.

O texto cita um relatório secreto do Exército dando conta da morte de  que 50 pessoas sob custódia do DOI-CODI, além da passagem de 6.700 pessoas por ali num período que vai entre 1970 e 1975 e detalhados no Relatório Periódico de Informações 6/75 (RPI 6/75), datado de junho de 1975.

Claro que esse não foi o número total de mortos. Há pelo menos mais três casos conhecidos de assassinatos depois de junho de 1975: o tenente José Ferreira de Almeida, o Piracaia, foi morto em agosto; em outubro Vladimir Herzog foi assassinado e, em janeiro de 1976, a vítima foi Manoel Fiel Filho.

O jornalista Marcelo Godoy, em seu livro “A Casa da Vovó”, em que faz uma espécie de biografia do DOI-Codi, crava 66 mortes, das quais 39 sob tortura após a prisão e outras 27 depois de gravemente baleadas durante a detenção.

Os crimes do regime militar acabaram contribuindo para sua derrocada.

A revolta contra a barbárie foi um dos combustíveis que ajudaram a retomado do movimento popular, das lutas sindicais e da oposição política à ditadura. O regime militar ainda sobreviveu por quase uma década, mas acabou enterrado.

Muitos algozes daquela época trataram de esconder documentos e provas de seus crimes. Por outros motivos, a tentativa de esquecimento da barbárie, até gente que combateu a ditadura pensou em botar abaixo a central de tortura.

Nana nina.

Há que “conhecer o passado, entender o presente, construir o futuro”, como diz o slogan do Núcleo Memória, entidade que reúne ex-presos políticos.

Em 2010, Ivan Seixas, um de seus fundadores e então integrante da Conselho de Defesa da Pessoa Humana, entrou com pedido de tombamento do conjunto de prédios onde funcionou a sucursal do inferno.

A reivindicação, apoiada por diversas entidades de direitos humanos e de vítimas da ditadura, saiu vitoriosa: em janeiro de 2014 o Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico (Condephaat), órgão estadual de preservação, aprovou o tombamento.

A instrução do processo foi feita por uma jovem historiadora, Deborah Neves, que atua na Unidade de Preservação do Patrimônio Histórico da Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo..

Eu pedi para outra jovem historiadora, Laura Lucena –que é minha filha e tem me ajudado enormemente  na pesquisa e na produção deste projeto CORRIDA POR MANOEL--, conversar com a Deborah. Trocaram várias mensagens por e-mail,e o resultado você acompanha a seguir.

LAURA LUCENA -  O que te motivou a estudar o DOI-CODI?

DEBORAH NEVES - Sou historiadora no Condephaat desde setembro de 2010, período em que estava com um projeto de mestrado pronto.

Nesse mesmo ano, havia ingressado aqui um pedido de tombamento formulado pelo Núcleo Memória, na figura de Ivan Seixas e outros coletivos de defesa de direitos humanos. Quando soube que havia esse pedido em andamento aqui, pedi à Diretora para que eu pudesse fazer a instrução do processo, já que o tema era diretamente relacionado ao tema de minha pesquisa de mestrado.

O processo foi aberto no ano de 2012, quando estava no segundo ano de meu mestrado e então a minha pesquisa e a elaboração do parecer acabaram influenciando um ao outro. Foi muito importante na minha formação profissional e acadêmica e tenho colhido muitos frutos de ambos.

Imagem incluída no texto sobre o tombamento do conjunto de prédios do DOI-Codi publicado no Diário Oficial de São Paulo


Quais os principais desafios enfrentados no processo de tombamento?
Alguns desafios foram impostos. O primeiro deles era criar uma argumentação que desse consistência à proposta de tombamento que não considerasse os aspectos estéticos e arquitetônicos dos edifícios como motivação principal para a preservação.

Por outro lado, era importante assegurar que os poucos locais identificados como próximos do "original" permanecessem preservados pelo tombamento. Era necessário convencer 26 conselheiros --muitos deles arquitetos e outros habituados à preservação por razões estéticas mais do que históricas-- de que o DOI CODI, uma edificação ordinária, merecia preservação por sua relevância para a história do país, muito além que para a história de São Paulo.

O desafio seguinte foi justamente identificar a história da construção: datar quando foi construído cada um dos edifícios e se havia muitas transformações externas e internas nele.

O primeiro passo foi coletar imagens de mapas históricos da região e fotografias aéreas. Depois a pesquisa em Diários Oficiais que levassem a  compreender como a edificação foi idealizada e depois transformada em DOI CODI, e por fim, identificar outros documentos administrativos que dessem conta da história desses prédios, pois sobre a estrutura já havia trabalhos conhecidos.

Nesse momento tive a ajuda de um investigador da Polícia Civil --que não trabalhou ali, ele é bem mais jovem- e que por curiosidade coletou algumas informações importantíssimas sobre o prédio.

A partir da colaboração dele e de alguns documentos "soltos" que ele me forneceu, encontrei processos junto à Procuradoria do Patrimônio Imobiliário que deram conta de revelar muitos pormenores importantes do uso pelo Exército. Foi determinante para datar e identificar como se deu a cessão do espaço do Governo do estado para o II Exército. A colaboração da Polícia Civil também foi importante, pois cederam algumas plantas do prédio da delegacia que foram determinantes para compreender como era a edificação, quais foram as alterações e a partir daí elaborar uma proposta de preservação.

Com isso, um terceiro desafio foi imposto: levar e ouvir as pessoas que ali ficaram detidas ou que ali trabalharam para fazer uma identificação in loco. Esse talvez tenha sido o momento mais importante do processo.

Separamos as pessoas por ano de detenção para que pudessem explicar como era o prédio no momento em que estiveram presos, pois sabia que internamente as disposições mudaram de acordo com as "necessidades" do DOI-CODI.

Esse momento foi bastante desafiador por algumas razões: a primeira era reunir o maior numero de pessoas para termos diversidade de informações; a segunda, pela sensibilidade de as pessoas ali retornarem depois de tantos anos.

Todas ficaram bastante emocionadas, mas as reações foram distintas: houve quem falasse muito, numa espécie de catarse, houve quem se resignou, houve quem chorou, houve quem se revoltou, mas todos, ao final, sentiam que aquele era um momento importante para sua própria história, por estar em uma outra posição nesse momento.

O terceiro desafio era manter o trabalho com o caráter técnico --havia o receio de que essa "incursão" com ex-presos tivesse uma conotação excessivamente política. Embora eu tenha tentado contatar ex-funcionários do DOI-Codi, nunca localizei nenhum.

Onde funcionava cada organismo, de acordo com croqui publicado no Diário Oficial de SP

Quais os benefícios desse tombamento?
Sob o meu ponto de vista, esse tombamento talvez seja o mais importante como registro da história da ditadura no Brasil.

Foi neste DOI-CODI que nasceu a estratégia militar de repressão, foi aqui que nasceu o modelo que se espalhou pelo país.

É um edifício emblemático para compreender como o estado lidou com a oposição e quais forças mobilizou em nome de um projeto.

É um espaço de morte, de dor, de censura, repressão e desaparecimento que ainda envolve as forças de segurança do país. É um modelo que, embora extinto em 1983, perpetuou uma mentalidade. Portanto, é um tombamento que nos conta sobre o passado mas nos explica ainda mais sobre o presente.
É também um reconhecimento simbólico do Estado que um dia torturou e matou pessoas por discordarem de um sistema. Uma reparação à sociedade e também aos perseguidos e suas famílias.

Pode vir a ser um compromisso com a interrupção desse modelo de segurança pública, mas aí já é uma esperança e uma construção que cabe a todos nós.

Por fim, é a preservação de um espaço em que se cometeram atrocidades e que pode permitir, através de sua visitação, que cada indivíduo tire suas conclusões a partir da percepção individual sobre o que ali aconteceu. A experiência de estar no local em que tantos crimes ocorreram é única e individual.

CORRIDA POR MANOEL – 14º dia

Destino – Prédio onde funcionou o DOI-Codi e passagem em frente à Fiesp, percurso de 11,58 km realizado em 1h36min48

Distância total: 135 km






2.3.16

Lições do comandante Jonas: todo revolucionário deve estar fisicamente preparado

Carlos Marighella, Carlos Lamarca, Olga Benário, Sandino, Joaquim Câmara Ferreira, Pedro Pomar, Steve Biko, Rubens Paiva, todos eles, juntos e misturados, se encontram em esquinas, conversam atrás de praças, batem papo lomba acima e lomba abaixo.

Revolucionários estrangeiros e brasileiros são homenageados no Jardim Elisa Maria, na zona norte de São Paulo, onde emprestam seus nomes para uma série de ruas.
Encontro das ruas Carlos Mariguella e Olga Benário; a foto foi feita a partir da rua Patrice Lumumba



Uma delas lembra Virgílio Gomes da Silva, o comandante Jonas, líder do grupo que sequestrou, em 1969, o embaixador norte-americano no Brasil, Charles Burke Elbrick, em uma das mais audaciosas e surpreendentes ações de enfrentamento à ditadura militar.

Foi o primeiro preso político assassinado na Operação Bandeirante, a Oban, precursora do DOI-Codi. Os criminosos esconderam seu corpo, que até hoje nunca foi encontrado –Virgílio é o primeiro desaparecido do regime militar.

“Preso no dia 29 de setembro de 1969, cerca de três semanas depois do sequestro, Jonas foi barbaramente torturado numa sessão de dez horas de pau-de-arara, afogamentos, choques elétricos, espancamentos, queimaduras etc. Recusou-se a ceder qualquer informação a seus torturadores, enfrentando-os a socos, pontapés e xingamentos. Como não puderam vencê-lo, os torturadores resolveram destruí-lo. Mataram-no selvagemente, batendo sua cabeça contra a parede até reduzi-la a uma pasta. No local do crime, restou uma poça de sangue, que os torturadores, eufóricos e excitados, exibiram a outros presos políticos como troféu de guerra” –o relato é do jornalista Franklin Martins, um dos participantes do sequestro do embaixador, em artigo publicado no jornal “O Globo”.

Apesar da tentativa dos agentes da ditadura de apagar a existência de Virgílio, sua memória está preservada em livros, documentos, na ação de amigos, nos seus filhos e netos e nas homenagens que o Brasil continua prestando a ele.

Cartaz com foto de Virgílio produzido para homenagem feita a ele pelo Sindicato dos Químicos, categoria em que militou com líder sindical

Nascido em Sítio Novo, no sertão do Rio Grande do Norte, em 15 de agosto de 1933, foi morto aos 36 anos em São Paulo –cidade que hoje o tem como cidadão honorário e nome de rua.

Foi para lá que partimos hoje na 13ª jornada da CORRIDA POR MANOEL. Do coração da zona oeste, saímos eu e Gregório Gomes da Silva, o filho mais novo de Virgilio –depois dele há ainda uma moça, Isabel. Nosso percurso lembraria a vida do companheiro Jonas, os ensinamentos que deixou para os filhos.

Eu e Gregório no caminho para a zona norte; até cruzar os trilhos fomes bem; depois nos perdemos um pouco


Gregório, um engenheiro civil de 49 anos, casado, pai de duas moças, tem lembranças difusas do pai. “Quando eu nasci, ele já estava na clandestinidade, estava em Cuba, fazendo treinamento”, conta.

As lembranças que têm Virgílio são difusas, indiretas, é um “imaginário construído, vários retalhos que vou emendando a partir da valoração de terceiros”.

O maior período de convivência que o menino que mal começava a caminhar teve com o pai foi de alguns meses, do final de 1968 a meados de 1969.

Viviam então em um sítio em Ribeirão Preto, para onde foram Virgílio e a esposa, Ilda, e os três filhos –Vladimir, nascido em 1962, Virgílio, de 1961, e Gregório, de 1967. A caçula, Isabel, nasceu enquanto a família estava no sítio, e foi batizada em honra da mãe de Virgílio, que também morava com a família.

O ambiente doméstico servia de fachada para as verdadeiras funções do local, que era um centro de treinamento da ALN. Ali os militantes aprendiam a manusear armamento, “montar e desmontar armas”, segundo Gregório. “A ideia da ALN na época era partir para a luta armada rural.”

Também havia exercícios casca grossa, treinos de sobrevivência na mata.

Virgílio em treinamento - foto Álbum de Família
Quando não estava atendendo a companheirada visitante, Virgílio cuidava de preparar seus filhos. Gregório era muito pequeno, claro, mas os dois maiores estavam sempre na correria.

“Praticavam corrida, treinavam flexões e pular corda”, diz ele enquanto corremos pelas ruas de São Paulo. Virgílio colocava os dois garotos, de sete e oito anos, para lutar boxe; num rio próximo,  ensinou os meninos a nadar.

“Todo revolucionário tem de estar fisicamente preparado”, era o que costumava dizer, afirma Gregório. “E levava isso bem a sério. Cultuava muito o exercício físico”, diz o filho.

Bem que fazia o jovem sertanejo, retirante do Rio Grande do Norte que aportou por São Paulo. Graças à sua grande resistência física, ganhou fama em São Paulo.

Quando a operária Ilda Martins da Silva o conheceu em carne e osso, durante a grande greve da Nitro Química em 1957, já tinha a ficha da figura: era o “Louco do Rádio”.

Ela o chamava assim porque Virgílio havia participado, tempos antes, de um concurso da rádio Record, o Resistência Carnavalesca. Vencia quem ficasse mais tempo dançando, dia e noite, sem comer nem dormir. “Virgílio não gostava muito de dançar, mas resistiu por 78 horas”, registra o livro “De Retirante a Guerrilheiro”, de Edileuza Pimenta e Edson Teixeira.

Virgílio e sua bicileta - Álbom de Família
Venceu. Sua ótima forma física de lutador de boxe dedicado lhe valeu utensílios domésticos e um terreno no litoral paulista, além de virar nome conhecido.

Na hora do sério, também ia com tudo. Líder sindical e já na época militante do Partido Comunista Brasileiro, levou à vitória o movimento grevista da Nitro Química, a mais importante empresa da São Miguel Paulista, na zona leste de São Paulo.

Casamento de Ilda e Virgílio - Reprodução
E ainda arranjou uma namorada, a já citada Ilda, com quem se casou em 21 de maio de 1960. A noiva começou o casório fazendo uma concessão ao parceiro –como era mais alta que Virgilio, tirou os sapatos na hora da foto oficial da cerimônia.

As alegrias foram cortadas pelo golpe militar. Líder sindical, Virgílio foi preso em dois de outubro de 1964. Foi solto uma semana depois, no dia 9, mas ficou mais complicado ganhar a vida.

Tratou de montar um bar na região onde vivia, em São Miguel. Para celebrar sua paixão pelo boxe, batizou a casa de “Galo de Ouro”, homenagem a Éder Jofre, na época ainda campeão mundial peso galo (título que manteve até 1965).

Durante a semana, vendia bebidas e salgadinhos. Nos fins de semana, diz Gregório enquanto corremos pela cidade, cruzamos o trilhos e atravessamos a marginal Tietê, Virgílio saía para longas caminhadas.

Ia para a Serra do Mar, se embrenhava na mata em busca de orquídeas, uma de suas paixões. Em casa, cultivava as flores com carinho. “É uma planta que parece muito delicada, mas é resistente para caramba. Talvez ele visse nelas alguma semelhança com o ser humano”, filosofa o filho do comandante Jonas.

O certo é que Virgílio tinha muito carinho por suas plantas. Quando se aproximou a hora em que teria de mergulhar na clandestinidade –tinha rompido com o PCB para acompanhar Carlos Marighella na ALN--, tratou de deixar as orquídeas com quem fizesse bons uso delas. “Levou as flores para o Viveiro Manequinho Lopes, fez doação de suas orquídeas”, me conta Gregório.

Com as plantas protegidas e a família também em segurança, Virgílio foi cumprir suas tarefas. Depois do treinamento em Cuba, participou de várias ações armadas da ALN.

Ainda que no fogo da batalha, tratava de dar uma olhadinha na família quando possível. Disfarçado, percorria as ruas de São Miguel Paulista, cumprimentava de longe a mãe.

Voltou a se reunir com a mulher e os filhos no sítio em Ribeirão Preto, de onde saiu para comandar o sequestro de Elbrick. Meses depois, a prisão, a tortura e a morte.

Foi preso na rua Duque de Caxias, na região central de São Paulo, quando ia a um encontro com um companheiro da ALN. Ferido a bala, foi levado para Oban, na rua Tutóia, onde deu entrada às 10h.

Abaixo de pancada, foi colocado no pau-de-arara, onde seguiu apanhando e levando choques elétricos.

“Retirado do pau de arara por volta das 12h30, Virgílio surpreendeu seus assassinos, tentando reagir as agressões”, segundo conta Antonio Carlos Fon, ex-militante da ALN e ex-preso político, em seu livro “Tortura: A História da Repressão Política no Brasil”.

O relato segue: “Mãos e pés amarrados, ele foi, então, derrubado em um canto da sala e, durante os vinte minutos seguintes, massacrado a pontapés. As manchas de sangue permaneceram durante meses na câmara de torturas da Operação bandeirantes –uma pequena sala, de 4 x4 metros, no fundo do corredor do segundo andar do 34º [NR.: de fato, 36º] Distrito Policial de São Paulo”.

Os responsáveis pelo crime, segundo o livro de Fon, foram os capitães Benone de Arruda Albernaz, Homero Cesar Machado e Dalmo Luiz Cirillo, o major Inocêncio Fabrício de Mattos Beltrão e o sargento PM Paulo Bordini.

Os assassinos não ficaram satisfeitos. Dias depois, a viúva de Virgílio foi presa em São Sebastião. Sem saber da prisão e morte do marido, Ilda organizava as coisas da família para sair do país.

“Na cadeia, minha mãe soube que tinham matado meu pai”, conta Gregório. “Como forma de tortura da minha mãe, colocavam gravações de sessões de tortura de meu pai.”

“Ilda foi retirada do pau de arara e amarrada a cadeira do dragão [NR.: outro equipamento de tortura]”, diz Fon em seu livro, em que também relata a barbárie a que foi submetida a dona de casa.

“Os mesmo homens que mataram seu marido levaram para a câmara de torturas uma mesa, onde foi colocada Isabel Gomes da Silva, filha de Ilda e Virgílio, de apenas quatro meses de idade. Eles faziam perguntas a Ilda e, quando ela dizia não saber as respostas, davam choques na criança.”

As crianças foram conduzidas para um Juizado de Menores, de onde uma tia, Creuza, as resgatou dias depois. Ilda foi transferida de cadeia, como conta Gregório durante nossa corrida até a zona norte de São Paulo.

“Minha mãe ficou nove meses presa no presídio Tiradentes, junto com a Dilma [NR.: a hoje presidenta Dilma Rousseff], eram companheiras de cela, também a Rose Nogueira, que também é jornalista. Boa parte desse tempo ficou incomunicável. Depois um belo dia, soltaram ela, sem julgamento, sem pedir desculpas, sem nada, foi um sequestro mesmo.”

Em liberdade, Ilda tentou seguir a vida no Brasil. Uma dureza: “Era seguida, sempre tinha alguém diferente por perto dela, não arrumava emprego, tinha quatro filhos para criar”, diz Gregório.

Para segurança de todos, a organização decidiu tirar a família Gomes da Silva do país. Em 1972, vão para o Chile, onde ficam um ano: em março de 1973, seguem para o destino final, Cuba.

São recebidos como amigos. Apesar das dores e das memórias sofridas, tratam de seguir a vida.

As crianças vão estudar –Gregório já está então em idade de começar o primário, é alfabetizado em espanhol. Ilda vai trabalhar em uma fábrica de roupas, onde também completa seus estudos: ela tinha apenas os primeiros anos do primeiro grau.

“Muitas vezes fizemos pesquisas juntos”, lembra Gregório. Mãe e filho faziam ao mesmo tempo o mesmo curso, ele na escola, ela na fábrica.

Fizeram amigos, cresceram, se apaixonaram. Vladimir, Virgílio Jr. e Maria Isabel se casaram em Cuba, onde também fizeram faculdade –geologia para o mais velho e a mais moça, dois cursos para Virgilinho, engenharia de produção e engenharia mecânica. Gregório, meu parceiro nessa corrida pela memória, formou-se em engenharia civil.

Na ilha, a prática de esportes fazia parte do cotidiano dos filhos do companheiro Jonas.

“Em Cuba todos nós praticávamos esporte. A corrida quem começou foi o Vladimir, eu achava que era coisa de doido, o Virgílio também. Ele corria lá seus dez quilômetros, foi o precursor. O Virgílio nadava muito, eu também nadava, jogava bola”, diz Gregório enquanto a gente se perde pela zona norte de São Paulo.

Familiares de Virgílio recebem na Cãmara Municipal o título de Cidadão Paulistano concedido ao líder revolucionário - Reprodução de imagem publicada em revista da Adusp

Demos um baita perdido mesmo. Em vez de cruzar a Marginal Tietê pela ponte que dá na avenida Inajar de Souza, como eu tinha planejado, rodamos vários quilômetros além. Atravessamos a ponte para subir a avenida Edgar Facó e tratamos de recalcular então nosso percurso.

Um errinho besta, que nos deu vários quilômetros a mais e ainda subidonas inesperadas pelas ruas Marilândia e Itaquara –essa aí é sangue ruim mesmo!—para chegar à avenida Itaberaba e conseguir voltar ao trajeto inicialmente planejado.

Ainda bem que Gregório nos últimos anos retomou a fidelidade aos ensinamentos do pai e tem se dedicado com afinco a manter a forma.

Bem mais do que isso, na verdade. Depois de ter superado os cem quilos, em meados da década passada, tratou de começar a correr.

Primeiro aos pouquinhos. Depois, aos bastantinhos. Hoje já contabiliza cinco maratonas no currículo e, como se não bastasse, ainda se dedica ao triatlo de longa distância --no ano passado, fez um meio Ironman.

Para quem não conhece, dizer “meio Ironman” pode parecer pouca coisa. Não é. A prova inclui 1.900 metros de natação, 90 quilômetros de ciclismo e 21,1 quilômetros (meia maratona) de corrida, um depois do outro, sem descanso.

“Eu entendo o esporte como um excelente meio de formar a disciplina e estimular o trabalho coletivo, mesmo nas modalidades individuais, além dos comprovados benefícios no bem-estar e na saúde”, diz Gregório.

Vista geral da rua Virgílio Gomes da Silva


E a corrida é também uma excelente forma de mergulhar na história, como estamos vendo nessa jornada, que se encerrou na rua Virgílio Gomes da Silva, Jardim Elisa Maria.

Circulamos os dois pelos menos de 200 metros da rua sem saída, que começa com um bar bastante simples e termina em cunha, com várias casas se acotovelando. Na porta de uma delas, uma vibrante pintura de um garboso e combativo São Jorge.



Corintiano como seu pai e todos seus irmãos, Gregório faz foto no local, posando ao lado do símbolo do time relembrado na rua que homenageia Virgílio.

Conversamos com uma moradora do bairro que não tinha a menor ideia de quem fora Virgilio Gomes da Silva e se espantou ao saber que Gregório era filho do nome da rua: “Você deve se orgulhar de ter um pai importante”.

Já estávamos saindo felizes e satisfeitos da rua, prontos para pegar um ônibus de volta, quando percebemos uma pichação nos muros da escola Jardim Santa Tereza, na confluência das ruas Virgilio Gomes da Silva e Augusto César Sandino, revolucionários do Brasil e da Nicarágua.

“Cotó # Luto Cotó mais um# ASSASSINOS DE FARDA”.

“Continua”, Gregório comentou apenas.



Quem passava por ali na hora disse não saber quem era Cotó. Pesquisando na internet, também não identifiquei o caso. 

Mas descobri que a violência policial está muito presente no Jardim Elisa Maria, uma comunidade que em 1992 resolveu homenagear em suas ruas combatentes pela liberdade (o decreto da então prefeita Luiza Erundina identifica o loteamento como Jardim Thereza).

Vista da zona norte a partir da rua Virgílio Gomes da Silva

As ruas do bairro já foram palco de terríveis chacinas. Em 2 de fevereiro de 2007, sete jovens que conversavam nas escadarias da rua Olga Benário foram fuzilados com dezenas de tiros –minutos depois, carros da Rota, a tropa de elite da PM de São Paulo, chegaram para recolher as cápsulas de bala.

A chacina foi realizada pelos Matadores do 18, grupo de extermínio cujo nome faz referência ao batalhão da PM em que os militares eram lotados. Sete policiais foram presos acusados de envolvimento na chacina do escadão.

A coisa não parou. De lá para cá aconteceram outras mortandades, sempre com suspeita de envolvimento de policiais.

Em 2014, cinco moradores do bairro foram mortos e três ficaram feridos em ações semelhantes, segundo reportagem publicada no ano passado pela edição brasileira do “El País”.

“Sabemos que isso vai continuar acontecendo. E o que choca é que todo mundo conhece alguém que morreu numa situação dessas”, disse Valmir Rodriguez, 37, diretor de videoclipes ouvido pelo repórter Gil Alessi. “A ditadura está presente no nosso dia a dia. Se depender da PM e do Governo estamos fodidos."





CORRIDA POR MANOEL – 13º dia

Destino: Rua Virgílio Gomes da Silva, 
percurso de 12,5 km realizado em 1h53

Distância total: 123,42 km

PS.: Depois de publicado esse texto, consegui as duas fotos em preto e branco do Virgílio fazendo exercício e segurando sua bicileta. Segundo me disse Gregório, um fotógrafo que analisou as imagens afirma que elas foram produzidas pelo próprio Gregório, usando câmera fotográfica com disparador programável --uma espécie de "selfie" dos anos 1960