8.3.16

Meia maratona por Manoel revista via-crúcis do metalúrgico

Hoje fiz o mais longo percurso desta CORRIDA POR MANOEL. Foram quase 22 quilômetros, mais do que uma meia maratona, por um trajeto exigente, cheio de longas subidas e fortes descidas.

Mais que tudo, um trajeto dolorido. Passei por ruas que talvez tenham oferecido a Manoel as últimas imagens da cidade, no seu trajeto, preso, de  casa até as celas do DOI-Codi.

Percorri, porém, no sentindo inverso: saindo da zona oeste, passei pelo DOI-Codi, no começo da zona sul de São Paulo. Então enveredei para leste, cortando colinas da Vila Mariana, subindo ao Ipiranga, cruzando grandes artérias e enfim chegando à monumental Sapopemba, de onde  aportei na rua Coronel Rodrigues.

Lá, no sobrado de número 155, dois policiais chegaram por volta do meio-dia de 16 de janeiro de 1976. Levavam Manoel Fiel Filho –o operário metalúrgico tinha sido tirado de seu posto de trabalho, na Metal Arte.

Estavam armados com metralhadoras, segundo me disse a viúva de Manoel, dona Thereza. Revistaram a casa, tentando encontrar exemplares do jornal “Voz Operária”; acreditavam que Manoel era um distribuidor da publicação do Partido Comunista Brasileiro.

Deixaram tudo bagunçado, mas nada encontraram. Mesmo assim, levaram Manoel, prometendo devolvê-lo logo.

O operário ainda teve tempo de dar um beijo de despedida na mulher com que vivera 22 anos e tivera duas filhas. “Não chora, nega, que eu volto”, disse.

Enquanto tiravam Manoel de casa, os policias ameaçaram, dona Thereza, avisando que ela devia ficar quieta, fazer silêncio, não contar nada para sua filha, não avisar os vizinhos.

Dona Thereza, então com 43 anos, chorou. Mas não ficou quieta nem se deixou largada, a esperar.

Em pouco tempo, a parentada foi se chegando, levando solidariedade, carinho, amizade.

“Nessas horas estavam todos os sobrinhos lá em casa”, lembra hoje Marcia, a filha caçula de Manoel e Thereza. Na época, ela tinha 16 anos.

Dona Thereza, sentada em um sofá na casa da filha, em Bragança Paulista, ainda tem dor na voz quando lembra: “Estava a família dele todinha esperando ele voltar”.

A ex-tecelã, mulher trabalhadeira, operária desde os 14 anos, não quis saber de esperar. Saiu atrás do marido.

“Fui procurar em todo lugar. Fui num conhecido meu que trabalhava em negócio da polícia.”

A única informação que obteve foi que Manoel estava preso incomunicável, na Operação Bandeirantes.

De fato, era no DOI-Codi, a central de torturas e assassinatos que sucedeu a Oban.



Em uma das celas dos fundos, no prédio de trás do conjunto de edifícios que formava o complexo de repressão, na rua Tutoia, 921, Manoel era torturado sem parar.

Documentos oficiais descobertos pela Comissão da Verdade reconhecem o crime. Há narrativas detalhadas das barbáries cometidas contra aquele trabalhador de 49 anos.

Relatório do SNI (Serviço Nacional de Informações), por exemplo, diz o seguinte: “Às 08.30 hs. de 17 jan 76, o nominado foi interrogado, tendo sido recolhido de volta ao xadrez às 10.30 hs. Às 11.00 hs., Manoel foi novamente retirado do xadrez, face a necessidade de acareá-lo com seu contato Sebastião de Almeida. Na acareação ficou comprovado ter Manoel mentido quando declarou anteriormente que recebia apenas um exemplar do jornal Voz Operária, de Sebastião de Almeida, o qual declarou fornecer a Manoel oito exemplares do citado jornal, mensalmente.”

A acareação durou 15 minutos. Manoel foi novamente recolhido ao cárcere, segundo o relatório, que continua: “Às 12.15 hs., aproximadamente, o carcereiro de serviço, ao fazer a costumeira verificação dos presos, viu Manoel sentado no interior do xadrez, apresentando, como se deu desde o início de sua prisão, estar absolutamente tranqüilo. Já às 13.00 hs., quando o oficial de permanência encontrava-se no refeitório, foi cientificado pelo carcereiro de serviço que Manoel Fiel Filho suicidara-se no xadrez, utilizando-se de suas meias, que atou ao pescoço, estrangulando-se”.

No Inquérito Policial Militar que foi instaurado, estão registrados os nomes dos interrogadores e demais envolvidos na maquiagem do crime (claro que o IPM não fala de maquiagem; ele acredita na trapaça, foi feito para dar ares de justiça ao assassinato).

“Naquela oportunidade estavam de serviço: como carcereiros, os soldados PM ALFREDO UMEDA e ANTÔNIO JOSÉ NOCETE, na equipe de interrogadores, chefiada pelo Ten. PM TAMOTU NAKAO, também Oficial de Permanência, os Delegados de Polícia Dr. HARIM SAMPAIO D’OLIVEIRA e o Dr. EDEVARDE JOSÉ, além do Sargento do Exército LUIZ SHINJI AKABOSHI.

“Ouvido o Ten. PM TAMOTO NAKAO por ele foi dito, em síntese, que, realmente, se encontrava com Oficial de Permanência do DOI/CODI/II Exército, no dia 17 Jan 76, quando no refeitório, por volta das 13,00 horas, foi procurado pelo carcereiro ALFREDO UMEDA dizendo-lhe que MANOEL FIEL FILHO não respondeu ao chamado quando fora levar o seu almoço, por encontrar-se deitado, inerte com algo enrolado em torno do pescoço; que o Ten. PM TAMOTU NAKAO imediatamente dirigiu-se à cela onde se encontrava MANOEL FIEL FILHO, em companhia do Delegado de Polícia Dr. HARIM, tomando as providências imediatas, com a chamada do Sargento Enfermeiro e comunicação ao Oficial mais graduado do DOI/CODI/II Exército presente em São Paulo, no caso o Maj. DALMO. Esclareceu, ainda, que MANOEL FIEL FILHO estava sendo ouvido pelo Sargento AKABOSHI, da equipe de dia, sobre o seu envolvimento com o PCB, fato esse citado no depoimento de SEBASTIÃO DE ALMEIDA; que, inclusive, momentos antes MANOEL fora acareado com SEBASTIÃO DE ALMEIDA, em virtude de discrepâncias em seus depoimentos. Finalmente informa ter sido o carcereiro ANTÔNIO JOSÈ NOCETE a última pessoa que viu MANOEL FIEL FILHO vivo, isto, por volta das 12 horas e 15 daquele dia. (...)” 

Sebastião de Almeida era um vendedor de bilhetes que trabalhava em frente à Metal Arte, segundo conta o repórter Carlos Alberto Luppi em seu livro “Manoel Fiel Filho – Quem Vai Pagar por Este Crime?”. 

No livro, Luppi publica trechos do depoimento de Almeida, que reproduzo a seguir tal e qual:

“No terceiro dia pela manhã estava sendo interrogado sem capuz quando trouxeram para a mesma sala Manoel Fiel Filho, cuja prisão eu ignorava. Os interrogadores queriam que fosse sanada uma divergência entre nomes de pessoas.

“Eu então pedi chorando a Manoel que concordasse com o que eu dizia pois estava me sentindo muito mal. Fiel, logo em seguida, acabou concordando com as minhas afirmações relativas ao esclarecimento pretendido. 

"Imediatamente, em razão disso, foi desferido em Manoel um violento golpe de cotovelo que o atingiu na altura do pâncreas e do baço. Manoel emitiu um gemido e curvou-se para a frente, sendo removido da sala, imediatamente.

“Eu ainda permaneci na sala prestando depoimento por um tempo que não sei determinar agora, mas pelo menos meia hora. Depois voltei à cela.

“Após algum tempo fui retirado dali e juntamente com outros presos conduzido até a cela de Manoel Fiel Filho, vizinha à minha, onde estava ele estendido no chão. Um policial disse que ele estava morto e um deles disse: “Ai de quem disser alguma coisa”.

“Depois disso fui levado para uma sala onde um homem com fisionomia de japonês me perguntou se eu sabia escrever. Eu disse que sim, mas muito mal. Em seguida, o referido policial começou a ditar uma declaração sobre a morte de Fiel Filho. Eu perguntei então se eu não seria prejudicado e me responderam negativamente.

“No dia seguinte fui transferido para o DOPS e eu me recusei a assinar ali as declarações que prestara e fui então ameaçado a voltar para o DOI para apanhar. Fui, então, convencido a assinar e ali também recebi safanões. Me recordo que me disseram terem-me aplicado uma injeção e que eu dormira o dia inteiro. Me recordo ainda de ter sido examinado por um médico no DOPS. Me lembro que no DOI/CODI ouvia muitos gritos e também ruídos de rádio ligado.

“Quando prestei informações no IPM sobre a morte de Fiel Filho fui bem tratado, mas na ocasião não me foi perguntado se eu fora torturado no DOI/CODI ou se presenciara alguma violência contra Fiel Filho. Me disseram no IPM que somente queriam saber o motivo da morte. Eu disse que não sabia se havia sido a cotovelada a causa da morte de Manoel. Depois da morte de Manoel Fiel Filho houve uma calma muito grande lá no DOI/CODI. Eu conhecia Fiel antes, era um homem forte e calmo”.

O atendente de enfermagem Geraldo Castro da Silva esteve preso no DOI/CODI em janeiro de 1976, junto com Manoel Fiel Filho. Quase três anos depois, apresentou-se espontaneamente à Comissão de Justiça e Paz de São Paulo para contar o que sabia. Eis a seguir trechos de seu depoimento, de acordo com o livro de Luppi:

“No dia 17, pela manhã eu estava ainda na cela quando ouvi o carcereiro chamar pelo preso Manoel Fiel Filho. Pelo barulho de abertura da porta e pelos ruídos das vozes, a cela de Manoel deveria ficar umas duas celas à esquerda da que eu estava. 

"Dez ou quinze minutos depois, fui chamado e levado, encapuzado, para o piso superior e passei a ser interrogado. 

"Me tiraram o capuz e o interrogatório foi feito com o mesmo respeito como estou sendo interrogado agora. Tratava-se de um senhor de meia idade, aparentando 50 anos, cabelos grisalhos e que portava um anel de pedra azul clara no dedo. Antes de ser retirado da cela, logo após Manoel Fiel Filho ter sido chamado, ouvi gritos: “Pelo amor de Deus não me judiem tanto que vocês me matam”.

“Quando estava sendo interrogado ouvi gritos “mais cansados” que vinham do piso inferior. Ouvia também gritos dos torturadores insultando o que gritava de dor. Os torturadores gritavam muito enquanto torturam. Eu lembro que, quando estava sendo torturado e pedia pelo amor de Deus que parassem de bater, um dos torturadores disse, aos berros: “Aqui não adianta pedir nem a Deus nem ao diabo, se eles caírem aqui também entram no pau”.

"Enquanto eu ouvia os gritos, foi ligado o rádio. Com o barulho do rádio as pessoas que se encontravam na cela não ouvem bem os gritos, mas de onde eu me encontrava dava para ouvir os gritos e o barulho do rádio.

“Enquanto eu estava sendo interrogado, subitamente se deu um silêncio, os gritos pararam e o rádio foi desligado. Passados uns cinco ou dez minutos, a porta foi aberta e eu ouvi quando um homem disse: 
“Chefe, o omelete está feito”.

“Eu iniciei uma resposta a uma pergunta que me tinha sido formulada, mas meu interlocutor, que se mostrou chocado e surpreendido com o que se ouvira por parte de quem entrara na sala, me disse: 
“Depois nós conversamos, depois do almoço nós continuamos o interrogatório”. Determinou, então, que fosse colocado o capuz em mim e eu fosse levado para a cela.

“Notei então, enquanto voltava, um silêncio medonho. Depois foi servido o almoço e eu estava na cela iniciando a refeição quando o carcereiro disse que nós deveríamos parar de almoçar para acompanha-lo, levando-nos de rosto descoberto até o extremo oposto do corredor onde, na cela à esquerda da entrada, na ala oposta à minha cela, encontrava-se o corpo de um homem estendido, em diagonal à cela, com os pés para a porta e a cabeça do lado do vaso sanitário tipo privada turca.

“Nós éramos 19 presos então e todos nós fomos levados à cela. Vi, então, uma meia amarrada ao pescoço do homem estendido e à porta estavam dois homens com características asiáticas, altos. Um deles disse então: “Observem bem, esse louco se suicidou, não havia necessidade para isso. Se vocês disserem o contrário lá fora nós temos o endereço de um por um e vocês vão pagar pelas consequências”. Eu pedi então para voltar para a minha cela. Depois disso, ninguém foi mais interrogado”.

“Omelete”, na gíria policial, significa morte, execução.



CORRIDA POR MANOEL – 18ª etapa

Destino: Casa onde morou Manoel, passando pelo DOI-Codi, um trajeto de 21,75 km feito em 3h05min17


Distância total percorrida até agora: 185,04 km

6.3.16

Em homenagem ao Dia Internacional da Mulher, saudamos a pioneira Bertha Lutz

Equiparação salarial com os homens, tratamento digno no local de trabalho e redução da jornada diária de 16 horas para dez horas –em nome dessas reivindicações, as operárias de uma fábrica de tecidos de Nova York foram à greve.

Era o ano de 1857, e os direitos civis e democráticos estavam longe das mulheres na terra que se dizia a maior democracia do planeta. A repressão foi violenta, feroz, assassina: no dia 8 de março, a fábrica foi incendiada, todas suas saídas trancadas.

Cerca de 130 tecelãs morreram queimadas.

Em uma conferência na Dinamarca, em 1910, o 8 de Março passou a ser reconhecido como Dia Internacional da Mulher. Mais de sessenta anos mais tarde, em 1975, a data foi oficializada pela Organização das Nações Unidas.

Na delegação brasileira presente no Primeiro Congresso Internacional da Mulher (esse da ONU, de 1975) estava uma senhora de 83 anos, aposenta havia mais de dez.

Foto Reprodução
Era Bertha Lutz.

Zoóloga de profissão, Bertha Lutz é reconhecida como a maior líder da luta pelos direitos políticos das mulheres no Brasil. 
É uma espécie de matriarca do feminismo verde-amarelo.

Filha do pioneiro da medicina tropical Adolfo Lutz e da enfermeira britânica Amy Fowler, Bertha nasceu em 1984. Estudou na Europa –fez biologia na Sorbonne, de Paris--, onde entrou em contato com as sufragistas britânicas.

Voltou ao Brasil em 1918. Um ano depois, já atuando na sua profissão, botou fogo na campanha pelo voto feminino, arregimentando apoiadoras e ativistas: com elas, criou a Liga para a Emancipação Intelectual da Mulher, que foi o embrião da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino (FBPF).

A página do Senado Federal ensina: “Em 1922, Bertha representou as brasileiras na Assembleia-Geral da Liga das Mulheres Eleitoras, nos Estados Unidos, sendo eleita vice-presidente da Sociedade Pan-Americana. Somente dez anos depois do ingresso das brasileiras na Liga das Mulheres Eleitoras, em 1932, por decreto-lei do presidente Getúlio Vargas, foi estabelecido o direito de voto feminino”.

Não bastava para ela –nem apara as mulheres. Organizou o primeiro congreso feminista no Brasil e ainda diversas associações: União Universitária Feminina, Liga Eleitoral Independente, União Profissional Feminina e União das Funcionárias Públicas. Foi deputada federal e, na Câmara, batalhou pelos direitos das mulheres.

Chegando à rua Bertha Lutz, Gabriela, Yara e  eu - Fotos Eleonora de Lucena


Em homenagem a ela e à luta das mulheres, o percurso de hoje, na 17ª etapa da CORRIDA POR MANOEL, teve como destino a rua Bertha Lutz, uma vielinha na zona norte de São Paulo, onde se chega depois de um monte de curva para cá e para lá, subidonas e fortes descidas.

É uma rua de família: não notamos nenhum estabelecimento comercial, nem barzinho de esquina.

Falo “não notamos” porque estávamos em três: a promotora Gabriela Manssur e a jornalista Yara Achôa participaram comigo dessa jornada dedicada às lutas femininas.

Começamos no centrão, um pouco abaixo da praça da Sé, atrás do Solar da Marquesa de Santos, em frente à Primeira Delegacia de Defesa da Mulher.

Pioneira no Brasil, a DDM foi criada em São Paulo em 6 de agosto de 1985 pelo então governador André Franco Montoro (1916-1999).

“A ideia era oferecer um espaço diferenciado para a mulher, que seria atendida por outras mulheres, para que ela ficasse mais à vontade para falar a respeito desse assunto”, lembra Rosmary Correa, a primeira delegada da repartição, em entrevista à EBC. Hoje há nove delegacias da mulher na capital e 130 no Estado de São Paulo.

Pode parecer muito bom –e é. Mas as delegacias da mulher funcionam em regime especial. Não abrem à noite nem nos finais de semana; nesses dias e horários, as mulheres vítimas de violência têm de buscar ajuda nas delegacias comuns, onde nem sempre são bem atendidas.

Na corrida de hoje, portanto, a largada foi em frente à uma casa fechada.



Tudo bem.

Saímos para enfrentar um percurso bem acidentado, começando com um “mergulho” desde a Sé até avenida do Estado, onde cruzamos o primeiro viaduto do trajeto. 

O segundo seria para chegar ao largo da Concórdia, que hoje estava mesmo em paz e tranquilidade, mas que, nos dias de semana, ferve com vendedores ambulantes que oferecem de um tudo aos passantes.

Enquanto corríamos, Yara e Gabriela contaram um pouco de suas aventuras mais recentes.

As duas estão trabalhando firme na promoção da corrida Movimento pela Mulher, que foi idealizada por Gabriela em parceria com duas atletas-blogueiras, Deborah Aquino  e Paula Narvaez.

A prova serve como propaganda e divulgação das lutas femininas, além de ser um estímulo à atividade física. “A ideia é levar mulheres e homens a refletir e discutir temas como empoderamento, igualdade e justiça e conscientizar a sociedade e o poder público sobre o grave problema social que é a violência contra a mulher” –assim diz o material de divulgação da corrida (saiba mais AQUI).

Pois falando de corrida e maratona, da vida do dia a dia e das lutas femininas, acabamos conseguindo chegar à rua Bertha Lutz sem nos perdermos muito.

É pouco mais de uma viela, não chega a ter nem cem metros. Mas é uma lomba de respeito, que nós tratamos de subir como se deve: correndo à toda, desafiando um ao outro para ver quem chega no alto primeiro.

Chegamos todos. E festejamos.

Depois de baixados os batimentos cardíacos –subir a toda a lombinha da Bertha Lutz manda o coração aos píncaros da glória, pode me acreditar--, conversei mais um pouco com Gabriela Manssur sobre seu trabalho como promotora de Justiça.

Casada, mãe de três filhos, ela tem 42 anos e é promotora há 13 anos; antes, atuou como advogada.  Trabalha em Taboão da Serra no Núcleo de Combate à Violência contra a Mulher e é diretora da Associação Paulista do Ministério Público – diretoria da mulher.

Eis a seguir um resumo de nossa conversa.

RODOLFO LUCENA - Começamos nossa corrida em frente à Delegacia de Defesa da Mulher. Por que é preciso existir uma delegacia da mulher?

GABRIELA MANSSUR - A DDM é imprescindível, porque ela tem um atendimento com um olhar para essa mulher vítima de violência.

Se a mulher chega numa delegacia comum e fala que foi vítima de violência, não é dada a ela a atenção devida. É como se fosse um crime de menos importância; passam na frente homicídio, tráfico de drogas, roubo, e aquela mulher fica esperando horas e horas para ser atendida.

Às vezes ela vai relatar uma ameaça, contar que levou um tapa, enfim, não é um crime importante [para a delegacia comum]. A Delegacia da Mulher é própria para isso, então ela recebe um atendimento muito mais humanizado, com esse olhar de gênero.

Há um atendimento mais confidencial, com mais habilidade; muitas vezes é feito por mulheres. É um atendimento muito melhor para essa mulher abrir o coração dela, falar, denunciar.

Por que a senhora passou a atuar nessa área de combate à violência contra a mulher?

Eu sempre gostei de trabalhar com o empoderamento da mulher. Antigamente não se falava de empoderamento, mas de conquista de direitos, luta por direitos já conquistados.

Empoderamento da mulher, para mim, nada mais é do que dar às mulheres consciência dos direitos delas, para que elas exercitem esses direitos que já foram conquistados.

Quando eu ingressei no Ministério Público, percebi que as mulheres sofriam muita violência física, muita violência psicológica, muita violência sexual, e que nós não tínhamos um instrumento legal, jurídico, à altura do combate, do enfrentamento, da prevenção dessa violência.

Isso me trazia uma certa indignação, um certo inconformismo, próprio já aí dos promotores de Justiça.

Comecei a acompanhar já aí a evolução do texto da Lei Maria da Penha, que foi aprovado em 2006. Eu já era promotora de Justiça. E aí eu me interessei muito por todos os institutos legais que estavam na Lei Maria da Penha, que é uma lei muito ampla, de proteção integral à mulher vítima de violência, que prevê não só a parte criminal e a parte da punição do autor de violência com também a parte assistencial da vítima de violência doméstica, que é o que as mulheres mais procuram, mais precisam.

Então passei a me dedicar muito a isso: aplicar a lei, lutar por sua aplicabilidade e fazer valer todos esses dispositivos que estão na lei.

A Lei Maria da Penha é um legado que vamos deixar para nosso país e para o mundo, mas nós temos ainda um alto índice de violência contra a mulher.

Então precisamos identificar onde está essa lacuna. E é nisso que eu trabalho muito.

A lei deu a visibilidade para esse tema, e hoje em dia nós falamos muito mais abertamente sobre a violência contra a mulher.

Antes, era como se estivesse entre quatro paredes. Hoje essas portas dessas quatro paredes se abriram, e isso deixou de ser um problema particular.

Hoje em dia a violência contra a mulher é uma causa pública, que deve ser encarada de frente por todos e todas.

A mulher está reagindo mais?

Muito mais. Logo no começo da Lei Maria da Penha, eu percebi que as mulheres passaram a denunciar mais, a procurar mais a Justiça. Ainda um pouco ressabiadas, com um pé atrás, sem saber o que elas iriam encarar pela frente.

Mas elas demoravam para denunciar. A gente pegava casos em que a mulher sofria violência havia cinco anos, dez anos, vinte anos... Aquela lei foi como se tivesse sido aberta a porta da liberdade, para sair daquele ciclo de violência. Eram mulheres mais velhas, mais de 40 anos, mais de 30 anos.

Hoje em dia, a procura pela Justiça, a denúncia feita por essas mulheres, elas partem de jovens, que já estão conscientes de seus direitos e não aceitam a violência, seja numa balada, seja num bar, seja no ambiente universitário, na escola... Elas já procuram denunciar a situação de violência.

Eu vejo também que as mulheres que estão em algum relacionamento abusivo, em que ainda não existe uma violência explícita, elas já conseguem identificar que isso pode se tornar um relacionamento violento e elas procuram ajudam mais rápido.

Isso é importante por que é uma forma de prevenir a violência mais grave contra a mulher. Porque nem sempre você consegue identificar e agir de forma segura para a mulher; muitas vezes ela já está em um ciclo de violência forte, em que ele está sofrendo violência física muito forte, ela está sofrendo tentativa de homicídio, ela está sofrendo estupros constantes, e aquela mulher está tão enfraquecida que ela não consegue mais se enxergar como sujeito de direitos e perceber que ela consegue sair desse ciclo da violência.

Isso acaba evoluindo para o feminicídio.

Hoje a gente consegue identificar os fatores de risco em que ela está. É como se uma mulher estivesse com câncer de mama, fosse a um médico e ouvisse do médico: “Você tem de fazer uma quimioterapia porque senão você vai morrer”. E aquela mulher fala: “Não quero fazer quimioterapia...”

É a mesma coisa no caso da violência. Ela procura uma porta de entrada do acesso à Justiça. A gente diz: “Você tem de denunciar, você tem de medir uma medida protetiva”, e ela não quer, e aí você não consegue impedir que aquela “doença”, a violência, se alastre de uma forma incontrolável, e a gente não consegue salvar a vida dessa mulher.

É bem aí que eu atuo: quebrando esse ciclo da violência.

O que a senhora faz?

Trabalho com a autoestima dessa mulher, as mulheres que chegam para mim nos processos no Ministério Público e na sociedade em geral.

A gente determina a instauração do inquérito policial e acompanha essa mulher por dois pilares: um, fazendo o empoderamento dessa mulher, vendo o que essa mulher precisa como sujeito de direitos –ela precisa trabalhar?, ela precisa estudar?, ela precisa de saúde?, ela precisa de transporte?, ela precisa – uma atendimento psicológico, ou psiquiátrico?. 

Então a gente faz essa parte assistencial.

O segundo pilar é a parte da Justiça: a gente faz toda a parte do acompanhamento do caso dela para que esses fatos sejam punidos.

A sensação da punição do autor da violência daquela mulher é muito importante, porque ela sente que o que ela falou tem valor e que alguém está preocupado com a vida dela. E que o que foi feito contra ela é grave, é crime, e existe uma punição, existe uma resposta da Justiça.

E eu criei uma nova frente, que é trabalhar com o agressor.

Porque muito embora a gente faça todo esse trabalho, a violência contra a mulher não diminuiu.

Percebi que, em muitos casos, o homem é reincidente. Ele cometeu   aquela violência contra aquela mesma vítima ou contra outras mulheres –filha, mãe, namoradas anteriores. Você percebe que o comportamento dele está enraizado, ou culturalmente ou pela criação dele, por aquilo que ele viu durante toda a sua vida, ou porque foi criado em ambiente violento, porque viu a mãe ser agredida ou ele mesmo foi agredido.

Entende que aquilo que ele pratica não é violência, acha que a mulher realmente merece ser violentada porque ela estava com saia curta ou porque ela traiu ou porque ela quer trabalhar ou porque ela quer ser mãe ou porque ela optou por não ser mãe. Ou seja, ele não consegue respeitar as escolhas e a autonomia da mulher.

Comecei a trabalhar com esses homens que estão sendo processados. Tentar transformar esse comportamento deles ou, pelo menos, tentar conscientizá-los de que aquilo que ele fez é errado. Buscar o comprometimento dele de que não vai se comportar mais daquele jeito, o que também vai lhe dar um benefício legal.

Como as mulheres enfrentam a violência institucional?

Toda a mulher sofre a violência institucional. Não é uma violência física, que alguém te agride ou te assedie; são as poucas oportunidades que a mulher tem para ocupar espaço de liderança, espaços de poder dentro das instituições, dentro das empresas, dentro dos escritórios de advocacia.

Existe uma pesquisa que fala que o Brasil é o terceiro pior país do mundo em termos de incentivo à participação das mulheres em cargos de liderança e poder. Está atrás do Japão e da Alemanha, que são piores.

Como é um aspecto cultural, as pessoas não percebem que não estão incentivando as mulheres a participar. Simplesmente não tem mulher [em cargos de liderança] e é como se isso não fosse uma meta a ser cumprida em termos de igualdade entre homens e mulheres nos cargos de liderança em empresas públicas e privadas.

Hoje em dia, o ingresso na carreira [de promotor público] é equilibrado, ou seja, não existe uma vedação para a mulher ingressar no Ministério Público. Não: é concurso público. Mas o que eu vejo é o seguinte: a mulher tem aquela dupla ou tripla jornada de trabalho, em que via de regra ela não pode abrir mão da sua vida pessoal, familiar, para ir para determinadas promotorias ou comarcas no interior, e isso acaba atrasando um pouco a carreira dela.

Isso também afasta a mulher profissional da vida institucional. Ela não consegue, além de dar conta da casa, cuidar de filho, cuidar da vida pessoal, trabalhar –e o nosso trabalho é muito sacrificante, é muito duro, são vários processos com pouca estrutura, o que é próprio dos órgãos públicos—e ainda fazer parte da vida institucional. Participar de reuniões, de projetos, de movimentos de política institucional. Isso é muito difícil para a mulher conseguir. Então ela acaba se afastando dessa vida política.

Para os homens, é bem mais fácil. E eles acabam dominando esses espaços de poder, que poderiam, sim, ser ocupados por mulheres.

Eles estão vedando as mulheres de participar? Não. Mas também não estão enxergando que nós não estamos participando. E precisam ser desenvolvidas políticas de participação das mulheres, com flexibilização de horários, adotando algum tipo de meta a ser alcançada, mas que sejam de alguma forma abertas as portas para nossa participação.

E o esporte? Qual o papel do esporte nisso tudo?

É total. Dá uma sensação de liberdade, de conhecer pessoas novas, compartilhar histórias, saber que você faz parte da história.

É bom para a autoestima, dá uma sensação de que você pode, você consegue se relacionar com pessoas que não conhecia antes, entender a história dessas pessoas. Isso de alguma forma te acrescenta. Você se sente importante por isso, você se sente parte dessa sociedade.

Você transfere isso para sua vida profissional, você também quer mudar a realidade dentro de sua vida profissional. 

Empreendedorismo social, liderança, desenvolvimento de projetos que atinjam a sociedade mais carente. Você acaba construindo metas e transferindo isso para sua vida pessoal.

Fora a sensação de liberdade, a saúde, que é muito importante ter saúde física e mental para lidar com todo esse tipo de violência de que você acaba indiretamente sofrendo, quando você atende casos de violência muito graves, violência contra criança, pedofilia, abusos sexuais, violência muito forte contra a mulher.

O esporte é uma satisfação pessoal. Você começa a ver que existe felicidade, existe vida fora daquele relacionamento ruim, daquele trabalho ruim, daquela situação em que você está infeliz.

Quando você corre você enxerga isso de uma forma diferente. Você vê isso como uma possibilidade de mudar a sua vida, seja na parte profissional seja na parte pessoal seja na sua forma física , na sua saúde.

Muita gente começa a correr para parar de fumar, para emagrecer, para melhorar a autoestima.


Eu comecei a correr há anos, corro há muito tempo, e o esporte sempre me clareou as ideias. Quando você começa a atingir objetivos dentro do esporte, você fala: poxa, eu consigo mudar de vida, eu também quero isso na minha vida pessoal. 

Essa sensação de felicidade, de liberdade, de autonomia, você quer ter para sempre.


CORRIDA POR MANOEL – 17ª etapa

Destino: Rua Bertha Lutz, com largada em frente à 1ª Delegacia de Defesa da Mulher, percurso de 10,46 km, realizado em 1h20min

Distância total já percorrida: 163,29 km

5.3.16

Ruela na zona sul homenageia o tenente José Ferreira de Almeida

Maria Sierra morreu de tristeza e dor. Não deixou herdeiros, não tinha marido.

Tivera.

Dona Maria era viúva do tenente José Ferreira de Almeida, assassinado pela ditadura militar em agosto de 1975 na mesma cela em que, dois meses depois, seria morto o jornalista Vladimir Herzog. Como no caso Herzog, a versão oficial foi de que o militar se enforcara com um cinto.

Na última vez em que viu o marido com vida, no prédio do Dops de São Paulo, não pode sequer abraçar o companheiro. 

“Estou muito dolorido”, disse ele à mulher e à sobrinha –filha aditiva, a bem dizer--, segundo registra reportagem de Paula Sacchetta publicada em “O Estado de S. Paulo” em 2012.

Maria e Nazareth, então com 28 anos, voltaram várias vezes ao prédio do Dops. Esperavam por horas, até que alguém lhes mandava embora, dizendo que ele não poderia receber visitas ou que não estava ali naquele dia –de fato, durante o mês em que esteve preso, Almeida transitou entre as celas e as câmaras de tortura do Dops, na região central de São Paulo, e do DOI-Codi, na zona sul.

“Piracaia”, como era conhecido o tenente nascido naquela cidade do interior paulista, se entregou à polícia política no dia 7 de julho de 1975.

Vinha sendo procurado havia vários dias. Sua casa, na rua Ibirajá, zona sul de São Paulo, tinha sido diversas vezes “visitada” por policiais. Finalmente um deles ameaçou Nazareth, a sobrinha-filha adotiva de Almeida: “Ou ele se entrega ou levamos você”.

Almeida, então com 63 anos, decidiu se entregar.

Ele era diretor de Clube de Oficiais da Reserva. Para a repressão, era um perigoso membro do Partido Comunista Brasileiro. A família, porém, nega relações de Piracaia com o PCB: “Só tinha ideia avançadas demais para o período”, disse Nazareth à repórter Paula Sacchetta.

O certo é que era um líder classista, defendia sua categoria e fazia reivindicações em nome dos trabalhadores na Polícia Militar do Estado de São Paulo. Foi preso com outros militantes, soldados e oficiais da PM, acusados de pertencerem ao PCB.


Reprodução de imagem publicada no portal Memórias da Ditadura

No seu livro “A Ditadura Encurralada”, o jornalista Elio Gaspari registra: “Descobrira-se uma base do Partidão dentro da Polícia Militar paulista. Ela estivera invicta desde sua montagem, em 1946. Funcionava sob as rígidas normas de segurança do Setor Militar, ligando-se diretamente a um representante pessoal do secretário-geral do PC. Segundo o CIE, conseguira infiltrar um sargento no DOI por dois anos. Na sua liquidação, prenderam-se 63 policiais. Entre eles, nove oficiais da ativa, inclusive um tenente-coronel, e doze da reserva”.

O tenente Almeida sobreviveu às torturas durante um mês.

A farsa montada pela ditadura, atribuindo sua morte a suicídio, foi desmascarada quase imediatamente. Durante o velório, apesar da proibição imposta pela autoridades da repressão, familiares abriram o caixão, constatando marcas de tortura no corpo.


Logo em seguida, militantes de resistência à ditadura distribuíram panfletos denunciando o caso. Um deles ficou nos arquivos do Dops e vai aqui reproduzido na íntegra:

“Faleceu no dia 07 do corrente nas dependências do DOI, segundo consta, em hora incerta, o 2º Tenente José Ferreira de Almeida, da Polícia Militar, Diretor do Clube dos Inativos e do centro dos oficiais da reserva da P.M. Casado com 63 anos de idade, havia sido preso no dia 07 de julho p.p. e encaminhado para o DOI. Dalí foi removido para o DOPS e novamente voltou ao DOI. Sua esposa pôde vê-lo uma única vez, quando da quebra da incomunicabilidade. Havia sido espancado, submetido a choques elétricos, socos e pontapés. Tiraram-lhe também os dentes da frente (uma pequena ponte móvel) prometendo-lhe que a mesma só lhe seria devolvida quando estiver morto. Sua casa foi vasculhada. José Ferreira de Almeida sofria de úlcera duodenal e necessitava de tratamento médico. Em virtude das torturas a que foi submetido e considerando o seu estado de saúde e a sua idade este soldado MORRE.

“Sua morte, decretada pela repressão reinante no País é justificada perante a família como o caso de um suicídio por estrangulamento ou asfixia. Com a frieza de ditadores que detêm o poder sobre a vida humana, um militar comunica a notícia à família, “por ordem superior”. Nenhuma noticia se tem sobre o suspeito “suicídio”. Testa a necropsia não se evidenciaram sinais no pescoço. A morte de José Ferreira de Almeida inaugura uma nova forma de assassinato sem qualquer prurido frente à opinião pública e ao mundo dos homens livres. A repressão assume essa morte no território de outras tantas mortes - a Oban (DOI-Codi). Já não há mais preocupação em forjá-las nas ruas sob a forma de eventuais acidentes.

“Na medida em que em nosso País tais fatos se sucedem e se acumulam de forma tão acelerada é impossível a qualquer brasileiro menos avisado acreditar nas promessas de distensão política, de busca de desenvolvimento pacífico e de redemocratização para a família brasileira. Não há falas presidenciais nem discursos ministeriais que possam encobrir a ditadura vigente. Ela está presente na cidade e no campo, penetra na nossa casa, amordaça nossas bocas, algema nossas mãos, tira nossas vidas.

“Para os brasileiros conscientes que lutam pelos Direitos Humanos e pelas liberdades Políticas o nome de José Ferreira de Almeida entra para a História como um combatente que COMBATEU UM BOM COMBATE!.”

A morte de Piracaia foi analisada pela Comissã da Verdade do Estado de São Paulo, que concluiu: “Diante das circunstâncias do caso e das investigações realizadas, pôde-se concluir que a vítima foi executada por agentes do Estado brasileiro, restando desconstruída a versão oficial de suicídio divulgada à época dos fatos”.

E recomendou: “Retificação do atestado de óbito, identificação e responsabilização dos agentes envolvidos na prisão, tortura e morte de José Ferreira de Almeida nas dependências do DOI-Codi/SP”.



A cidade de São Paulo homenageia o tenente José Ferreira de Almeida com uma rua na zona sul de São Paulo. Fui visitá-la hoje, na 16ª etapa da CORRIDA POR MANOEL.

Trata-se, de fato, de uma ruazinha, uma ruela, pouco mais do que uma viela de uns 120 metros de comprimento, sufocada entre duas outras vias.

A maior parte de um dos lados da rua é tomada por um muro, que cerca condomínio de vários prédios. Do outro lado, casas modestas, alguns sobrados.

No asfalto, sobram algumas lembranças do início do século, marcas de desenhos feitos provavelmente na época da Copa do Mundo de 2002  --há bandeiras do Brasil e do Japão que, junto com a Coreia do Sul, sediou a competição daquele ano.

Na única placa que identifica a rua, na esquina com a rua José Gervásio Artigas, a inscrição está incompleta, não dá para saber que o homenageado era militar. 

Numa linha, sobra apenas uma letra “a”. Na segunda linha, parte da primeira palavra está apagada; resta apenas: “te. José Ferreira de Almeida”.

É pouco.

CORRIDA POR MANOEL – 16ª etapa

Destino do dia: Rua Tenente José Ferreira de Almeida, percurso de 16,62 km realizado em 2h13min37


Distância total: 152,83 km