Hoje
fiz o mais longo percurso desta CORRIDA POR MANOEL. Foram quase 22 quilômetros,
mais do que uma meia maratona, por um trajeto exigente, cheio de longas subidas
e fortes descidas.
Mais
que tudo, um trajeto dolorido. Passei por ruas que talvez tenham oferecido a
Manoel as últimas imagens da cidade, no seu trajeto, preso, de casa até as celas do DOI-Codi.
Percorri,
porém, no sentindo inverso: saindo da zona oeste, passei pelo DOI-Codi, no
começo da zona sul de São Paulo. Então enveredei para leste, cortando colinas
da Vila Mariana, subindo ao Ipiranga, cruzando grandes artérias e enfim
chegando à monumental Sapopemba, de onde
aportei na rua Coronel Rodrigues.
Lá,
no sobrado de número 155, dois policiais chegaram por volta do meio-dia de 16
de janeiro de 1976. Levavam Manoel Fiel Filho –o operário metalúrgico tinha
sido tirado de seu posto de trabalho, na Metal Arte.
Estavam
armados com metralhadoras, segundo me disse a viúva de Manoel, dona Thereza.
Revistaram a casa, tentando encontrar exemplares do jornal “Voz Operária”;
acreditavam que Manoel era um distribuidor da publicação do Partido Comunista
Brasileiro.
Deixaram
tudo bagunçado, mas nada encontraram. Mesmo assim, levaram Manoel, prometendo
devolvê-lo logo.
O
operário ainda teve tempo de dar um beijo de despedida na mulher com que vivera
22 anos e tivera duas filhas. “Não chora, nega, que eu volto”, disse.
Enquanto
tiravam Manoel de casa, os policias ameaçaram, dona Thereza, avisando que ela
devia ficar quieta, fazer silêncio, não contar nada para sua filha, não avisar
os vizinhos.
Dona
Thereza, então com 43 anos, chorou. Mas não ficou quieta nem se deixou largada,
a esperar.
Em
pouco tempo, a parentada foi se chegando, levando solidariedade, carinho, amizade.
“Nessas
horas estavam todos os sobrinhos lá em casa”, lembra hoje Marcia, a filha
caçula de Manoel e Thereza. Na época, ela tinha 16 anos.
Dona
Thereza, sentada em um sofá na casa da filha, em Bragança Paulista, ainda tem
dor na voz quando lembra: “Estava a família dele todinha esperando ele voltar”.
A
ex-tecelã, mulher trabalhadeira, operária desde os 14 anos, não quis saber de
esperar. Saiu atrás do marido.
“Fui
procurar em todo lugar. Fui num conhecido meu que trabalhava em negócio da
polícia.”
A
única informação que obteve foi que Manoel estava preso incomunicável, na
Operação Bandeirantes.
De fato, era no DOI-Codi, a central de torturas e assassinatos que sucedeu a Oban.
Em
uma das celas dos fundos, no prédio de trás do conjunto de edifícios que
formava o complexo de repressão, na rua Tutoia, 921, Manoel era torturado sem
parar.
Documentos
oficiais descobertos pela Comissão da Verdade reconhecem o crime. Há narrativas
detalhadas das barbáries cometidas contra aquele trabalhador de 49 anos.
Relatório
do SNI (Serviço Nacional de Informações), por exemplo, diz o seguinte: “Às
08.30 hs. de 17 jan 76, o nominado foi interrogado, tendo sido recolhido de
volta ao xadrez às 10.30 hs. Às 11.00 hs., Manoel foi novamente retirado do
xadrez, face a necessidade de acareá-lo com seu contato Sebastião de Almeida.
Na acareação ficou comprovado ter Manoel mentido quando declarou anteriormente
que recebia apenas um exemplar do jornal Voz Operária, de Sebastião de Almeida,
o qual declarou fornecer a Manoel oito exemplares do citado jornal,
mensalmente.”
A
acareação durou 15 minutos. Manoel foi novamente recolhido ao cárcere, segundo
o relatório, que continua: “Às 12.15 hs., aproximadamente, o carcereiro de
serviço, ao fazer a costumeira verificação dos presos, viu Manoel sentado no
interior do xadrez, apresentando, como se deu desde o início de sua prisão,
estar absolutamente tranqüilo. Já às 13.00 hs., quando o oficial de permanência
encontrava-se no refeitório, foi cientificado pelo carcereiro de serviço que Manoel
Fiel Filho suicidara-se no xadrez, utilizando-se de suas meias, que atou ao
pescoço, estrangulando-se”.
No
Inquérito Policial Militar que foi instaurado, estão registrados os nomes dos
interrogadores e demais envolvidos na maquiagem do crime (claro que o IPM não
fala de maquiagem; ele acredita na trapaça, foi feito para dar ares de justiça
ao assassinato).
“Naquela
oportunidade estavam de serviço: como carcereiros, os soldados PM ALFREDO UMEDA
e ANTÔNIO JOSÉ NOCETE, na equipe de interrogadores, chefiada pelo Ten. PM
TAMOTU NAKAO, também Oficial de Permanência, os Delegados de Polícia Dr. HARIM
SAMPAIO D’OLIVEIRA e o Dr. EDEVARDE JOSÉ, além do Sargento do Exército LUIZ
SHINJI AKABOSHI.
“Ouvido
o Ten. PM TAMOTO NAKAO por ele foi dito, em síntese, que, realmente, se
encontrava com Oficial de Permanência do DOI/CODI/II Exército, no dia 17 Jan
76, quando no refeitório, por volta das 13,00 horas, foi procurado pelo
carcereiro ALFREDO UMEDA dizendo-lhe que MANOEL FIEL FILHO não respondeu ao
chamado quando fora levar o seu almoço, por encontrar-se deitado, inerte com
algo enrolado em torno do pescoço; que o Ten. PM TAMOTU NAKAO imediatamente
dirigiu-se à cela onde se encontrava MANOEL FIEL FILHO, em companhia do
Delegado de Polícia Dr. HARIM, tomando as providências imediatas, com a chamada
do Sargento Enfermeiro e comunicação ao Oficial mais graduado do DOI/CODI/II Exército
presente em São Paulo, no caso o Maj. DALMO. Esclareceu, ainda, que MANOEL FIEL
FILHO estava sendo ouvido pelo Sargento AKABOSHI, da equipe de dia, sobre o seu
envolvimento com o PCB, fato esse citado no depoimento de SEBASTIÃO DE ALMEIDA;
que, inclusive, momentos antes MANOEL fora acareado com SEBASTIÃO DE ALMEIDA,
em virtude de discrepâncias em seus depoimentos. Finalmente informa ter sido o
carcereiro ANTÔNIO JOSÈ NOCETE a última pessoa que viu MANOEL FIEL FILHO vivo,
isto, por volta das 12 horas e 15 daquele dia. (...)”
Sebastião
de Almeida era um vendedor de bilhetes que trabalhava em frente à Metal Arte,
segundo conta o repórter Carlos Alberto Luppi em seu livro “Manoel Fiel Filho –
Quem Vai Pagar por Este Crime?”.
No livro, Luppi publica trechos do depoimento
de Almeida, que reproduzo a seguir tal e qual:
“No
terceiro dia pela manhã estava sendo interrogado sem capuz quando trouxeram
para a mesma sala Manoel Fiel Filho, cuja prisão eu ignorava. Os interrogadores
queriam que fosse sanada uma divergência entre nomes de pessoas.
“Eu
então pedi chorando a Manoel que concordasse com o que eu dizia pois estava me
sentindo muito mal. Fiel, logo em seguida, acabou concordando com as minhas
afirmações relativas ao esclarecimento pretendido.
"Imediatamente, em razão
disso, foi desferido em Manoel um violento golpe de cotovelo que o atingiu na
altura do pâncreas e do baço. Manoel emitiu um gemido e curvou-se para a
frente, sendo removido da sala, imediatamente.
“Eu
ainda permaneci na sala prestando depoimento por um tempo que não sei
determinar agora, mas pelo menos meia hora. Depois voltei à cela.
“Após
algum tempo fui retirado dali e juntamente com outros presos conduzido até a
cela de Manoel Fiel Filho, vizinha à minha, onde estava ele estendido no chão.
Um policial disse que ele estava morto e um deles disse: “Ai de quem disser
alguma coisa”.
“Depois
disso fui levado para uma sala onde um homem com fisionomia de japonês me
perguntou se eu sabia escrever. Eu disse que sim, mas muito mal. Em seguida, o
referido policial começou a ditar uma declaração sobre a morte de Fiel Filho.
Eu perguntei então se eu não seria prejudicado e me responderam negativamente.
“No
dia seguinte fui transferido para o DOPS e eu me recusei a assinar ali as
declarações que prestara e fui então ameaçado a voltar para o DOI para apanhar.
Fui, então, convencido a assinar e ali também recebi safanões. Me recordo que
me disseram terem-me aplicado uma injeção e que eu dormira o dia inteiro. Me
recordo ainda de ter sido examinado por um médico no DOPS. Me lembro que no
DOI/CODI ouvia muitos gritos e também ruídos de rádio ligado.
“Quando
prestei informações no IPM sobre a morte de Fiel Filho fui bem tratado, mas na
ocasião não me foi perguntado se eu fora torturado no DOI/CODI ou se
presenciara alguma violência contra Fiel Filho. Me disseram no IPM que somente
queriam saber o motivo da morte. Eu disse que não sabia se havia sido a
cotovelada a causa da morte de Manoel. Depois da morte de Manoel Fiel Filho
houve uma calma muito grande lá no DOI/CODI. Eu conhecia Fiel antes, era um
homem forte e calmo”.
O
atendente de enfermagem Geraldo Castro da Silva esteve preso no DOI/CODI em
janeiro de 1976, junto com Manoel Fiel Filho. Quase três anos depois,
apresentou-se espontaneamente à Comissão de Justiça e Paz de São Paulo para
contar o que sabia. Eis a seguir trechos de seu depoimento, de acordo com o
livro de Luppi:
“No
dia 17, pela manhã eu estava ainda na cela quando ouvi o carcereiro chamar pelo
preso Manoel Fiel Filho. Pelo barulho de abertura da porta e pelos ruídos das
vozes, a cela de Manoel deveria ficar umas duas celas à esquerda da que eu
estava.
"Dez ou quinze minutos depois, fui chamado e levado, encapuzado, para o
piso superior e passei a ser interrogado.
"Me tiraram o capuz e o interrogatório
foi feito com o mesmo respeito como estou sendo interrogado agora. Tratava-se
de um senhor de meia idade, aparentando 50 anos, cabelos grisalhos e que
portava um anel de pedra azul clara no dedo. Antes de ser retirado da cela,
logo após Manoel Fiel Filho ter sido chamado, ouvi gritos: “Pelo amor de Deus
não me judiem tanto que vocês me matam”.
“Quando
estava sendo interrogado ouvi gritos “mais cansados” que vinham do piso
inferior. Ouvia também gritos dos torturadores insultando o que gritava de dor.
Os torturadores gritavam muito enquanto torturam. Eu lembro que, quando estava
sendo torturado e pedia pelo amor de Deus que parassem de bater, um dos
torturadores disse, aos berros: “Aqui não adianta pedir nem a Deus nem ao
diabo, se eles caírem aqui também entram no pau”.
"Enquanto eu ouvia os gritos,
foi ligado o rádio. Com o barulho do rádio as pessoas que se encontravam na
cela não ouvem bem os gritos, mas de onde eu me encontrava dava para ouvir os
gritos e o barulho do rádio.
“Enquanto
eu estava sendo interrogado, subitamente se deu um silêncio, os gritos pararam
e o rádio foi desligado. Passados uns cinco ou dez minutos, a porta foi aberta
e eu ouvi quando um homem disse:
“Chefe, o omelete está feito”.
“Eu
iniciei uma resposta a uma pergunta que me tinha sido formulada, mas meu
interlocutor, que se mostrou chocado e surpreendido com o que se ouvira por
parte de quem entrara na sala, me disse:
“Depois nós conversamos, depois do
almoço nós continuamos o interrogatório”. Determinou, então, que fosse colocado
o capuz em mim e eu fosse levado para a cela.
“Notei
então, enquanto voltava, um silêncio medonho. Depois foi servido o almoço e eu
estava na cela iniciando a refeição quando o carcereiro disse que nós
deveríamos parar de almoçar para acompanha-lo, levando-nos de rosto descoberto
até o extremo oposto do corredor onde, na cela à esquerda da entrada, na ala
oposta à minha cela, encontrava-se o corpo de um homem estendido, em diagonal à
cela, com os pés para a porta e a cabeça do lado do vaso sanitário tipo privada
turca.
“Nós
éramos 19 presos então e todos nós fomos levados à cela. Vi, então, uma meia
amarrada ao pescoço do homem estendido e à porta estavam dois homens com
características asiáticas, altos. Um deles disse então: “Observem bem, esse
louco se suicidou, não havia necessidade para isso. Se vocês disserem o
contrário lá fora nós temos o endereço de um por um e vocês vão pagar pelas
consequências”. Eu pedi então para voltar para a minha cela. Depois disso,
ninguém foi mais interrogado”.
“Omelete”,
na gíria policial, significa morte, execução.
CORRIDA POR MANOEL – 18ª etapa
Destino: Casa onde morou
Manoel, passando pelo DOI-Codi, um trajeto de 21,75 km feito em 3h05min17
Distância total
percorrida até agora: 185,04 km
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