12.3.16

“Democracia está ameaçada”, alerta Suplicy depois de participar de corrida no Ibirapuera

A preocupação com o momento que o Brasil vive, de incerteza e intranquilidade, marcou a etapa de hoje da CORRIDA POR MANOEL, que começou em frente ao monumento em homenagem aos mortos e desaparecidos políticos durante a ditadura militar, no parque Ibirapuera.

“É importante resgatar a memória de Manoel Fiel Filho e dos companheiros que tombaram na luta pela democracia, ainda mais neste momento em que ela se vê outra vez ameaçada”, disse o Eduardo Suplicy, secretário municipal de Direitos Humanos e Cidadania e convidado especial na jornada deste sábado.

De fato, o país assiste a cenas que lembram o que ocorria no período da ditadura militar, vê fatos que parecem nascer em um regime de exceção, não em uma democracia.

Na véspera de nossa corrida, por exemplo, uma manifestação realizada na sede do Sindicato dos Metalúrgicos de Diadema foi invadida por soldados da Polícia Militar armados até com metralhadoras.

De acordo com o deputado estadual Luiz Fernando (PT), que estava no local, dois policiais armados invadiram o sindicato, enquanto outros policiais e viaturas esperavam do lado de fora do prédio.

"Teve um grande tumulto. Eles não tinham mandado e também não souberam explicar os motivos de estarem lá. Foi claramente um ato de tentar intimar a militância", disse ele à reportagem da “Folha de S. Paulo”. Havia cerca de 2.000 pessoas no ato de solidariedade ao ex-prefeito de Diadema, José Filippi Júnior, e ao ex-presidente Lula, ambos conduzidos a prestar depoimentos durante a 24ª fase da Operação Lava Jato.

Na manhã de hoje, não houve polícia nem violência. Éramos cerca de  uma dezena de corredores, desde jovens que se sensibilizam pela recuperação da memória brasileira até gente veterana. 


Foto Ayrton Vignola Jr.

Vários do grupo nem conheciam o monumento, que foi instalado em 2014 pela Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania e estampa os nomes de 436 mortos e desaparecidos políticos durante a ditadura.

O psiquiatra Pedro Braga, um dos participantes da corrida de hoje, emocionou-se ao ver ali o nome de um primo, Zoé Lucas de Britto Filho, e de um contemporâneo de escola, Emmanuel Bezerra dos Santos. 



“Meu primo fazia movimento estudantil. Foi morto aqui em São Paulo nos anos de chumbo”, disse Braga.

Com o grito de  paz “Para que não se esqueça e nunca mais aconteça”, largamos. Saímos para uma volta no parque Ibirapuera, um dos mais belos recantos da cidade.

Com projeto criado por Oscar Niemeyer mais os arquitetos Ulhôa Cavalcanti, Zenon Lotufo, Eduardo Kneese de Mello, Ícaro de Castro Mello e o paisagista Augusto Teixeira Mendes, o parque foi inaugurado em 21 de agosto de 1954 durante as comemorações do 4º Centenário de São Paulo.

O parque tem cerca de 500 espécies de plantas, de árvores gigantes a vegetais rasteiros. Tem bicho às pampas –são 218 espécies cadastradas, de borboletas a morcegos, de cágados e cobras a sabiás e papagaios.

Tem 1,6 milhão de metros quadrados, mas o que interessa, para os corredores, são as trilhas, ruas e caminhos que nos servem de rota de treino e disputa. 

Fotos Eleonora de Lucena

Os percursos mais conhecidos são a “volta de seis” ou “da cerca”, que acompanha o perímetro do parque e tem a maior parte do trajeto em chão batido, e a “volta de três”, toda no asfalto, mais no coração do parque.

Fizemos hoje uma variante do percurso interno, conversando enquanto seguíamos pelos caminhos sombreados. 

Alguns corredores ou passantes lançaram palavras de provocação ao senador Suplicy, outros vinham cumprimentá-lo.
Faz parte da vida política e da luta democrática, ainda que algumas manifestações tivessem o ranço fedido e virulento dos tempos da ditadura.

Foi durante a ditadura militar, por sinal, que Suplicy, hoje com 74 anos, ingressou na vida política parlamentar.

Em 1976, quando morreu Manoel Fiel Filho, o eterno senador de São Paulo já era um economista reconhecido, professor universitário e articulista da “Folha” –antes, fora editor de economia da revista especializada “Visão”.

“Eu estava muito ligado à importância de nós garantirmos as liberdades democráticas, a liberdade de imprensa, que estava sendo objeto de restrições, como naquele episódio em que houve a morte de Vladimir Herzog. Ele foi morto por tortura. Eu me lembro muito bem da notável mobilização que começou a acontecer”, me disse Suplicy em um entrevista que fizemos dias antes de nossa CORRIDA POR MANOEL.

Ele segue: “Três meses após a morte de Vladimir Herzog houve a morte deste trabalhador metalúrgico que pelo fato de ser uma assinante, leitor, de um jornal do Partido Comunista, resolveu ser perseguido e levado ao DOI-CODI, e lá torturado, e infelizmente faleceu. Isto causou novo impacto em todos nós que queríamos muito assegurar o direito à liberdade de pensamento, à liberdade de imprensa, liberdade de associação, de formação de partidos, de tudo aquilo que acabou resultando. Esses episódios foram fazendo com que a consciência nossa, pelas liberdades democráticas, fosse aumentando. Eu, por exemplo, em 1976, participei com diversos amigos, voluntariamente, da campanha para eleger um jovem, Flávio Flores da Cunha, para vereador pelo MDB [Movimento Democrático Brasileiro]”.

Fazia política, mas não deixava de cuidar da boa forma. Gostava de praticar boxe, esporte que aprendeu a praticar ainda menino –“Com dez, 11, 12 anos, eu fui campeão de boxe na minha categoria”, lembra ele em nossa conversa.

Corria só para garantir a movimentação no ringue. Em 1988, quando se elegeu o vereador mais votado de São Paulo, concorrendo pelo PT, festejou a passagem do ano correndo a São Silvestre.


Já lá se vão quase 30 anos. De qualquer forma, Suplicy se garantiu bem na volta que fizemos no Ibirapuera –quem sabe, com um pouco mais de treino, ele se anime a enfrentar novamente a São Silvestre.

No caminho, fizemos uma parada estratégica para beber uma água de coco. Não foi apenas um momento de descanso, mas também de mergulho em outra história de lutas, a da construção da Cooperativa dos Vendedores Autônomos do Parque Ibirapuera.

Paramos no carrinho de dona Antonia Celeide de Oliveira, cearense de 51 anos, presidenta da entidade, que reúne 115 associados. Ela nos contou como a união e a organização dos ambulantes mudou a vida de cada um, de seus filhos e netos.

Foto Rodolfo Lucena

“Hoje a gente é respeitada, antes não era”, disse Antonia. “Muitas pessoas não acreditavam, porque ambulantes ou marreteiros são discriminados. Mas nós acreditávamos”.

Foi uma parada longa, mais de dez minutos. Parava gente para ouvir Suplicy e dona Antonia, para cumprimentar. Um ou outro, depois de passar, gritava, às escondidas, “Fora PT”. Para um deles, Suplicy respondeu: “O PT vai continuar, amigo”.

A quem perguntasse na boa, porém, ele respondia que nossa corrida ali era suprapartidária, uma manifestação em defesa dos direitos humanos, uma homenagem a quem lutou pela democracia no Brasil.

E assim seguimos, de volta ao monumento que foi criado por Ricardo Ohtake e está instalado próximo ao portão dez do parque.

Festejamos a conclusão do circuito, que acabou sendo um pouco mais longo que o esperado –Suplicy vem treinando três quilômetros com a regularidade possível. Depois de um brado de “Manoel Fiel Filho, presente!”, saímos cada qual para cuidar da vida.

Eu fiquei mais um pouco, revendo os nomes gravados nas folhas de aço. Ainda bem, porque logo chegava ali Rogério Sottili, secretário especial de Direitos Humanos do Ministério das Mulheres, da Igualdade Racial e dos Direitos Humanos.

Não conseguiu aparecer antes, mas fez questão de levar seu apoio à CORRIDA POR MANOEL. E deu um breve depoimento, destacando o quão necessária é a recuperação da memória das lutas democráticas em nosso país.



Eis a palavra de Sottili:
“Lembrar hoje os 40 anos da morte do Manoel Fiel Filho é muito importante por vários motivos, porque nós estamos vivendo no Brasil um momento muito difícil da história de nosso país.

“Ameaças importantes à democracia estão ocorrendo, ameaças de redução de direitos conquistados com muita luta, com muito suor, com muito sangue pelo povo brasileiro estão acontecendo quase que diariamente no Brasil, com muitos movimentos de ódio, movimentos de ameaça, de saudosismo à ditadura militar.

“Tudo isso acontece porque nós não elaboramos de forma adequada todos os processos de violência na história do Brasil; entre eles, a ditadura militar. Nós não elaboramos porque, ao invés de fazermos justiça, nós fizemos homenagens aos torturadores, homenagens aos ditadores, como o viaduto Costa e Silva, o viaduto 31 de Março, como várias avenidas e ruas da cidade de São Paulo. 
Ao homenagearmos essas figuras, nós sinalizamos para as populações futuras que as pessoas podem cometer qualquer crime que serão impunes.

“Relembrar os 40 anos da morte de Fiel Filho significa a gente sinalizar que nós ainda queremos justiça, para que nunca mais venham a ocorrer ditaduras, mortes e torturas.

“É isso que estamos fazendo neste momento na história do Brasil: é relembrar, mudar nomes de ruas, promover mudanças importantes para que a gente possa, definitivamente, virar essa página da história e viver num país com liberdade, com democracia e, fundamentalmente, com direitos humanos.”


CORRIDA POR MANOEL – 22ª etapa

Destino de hoje: Monumento em Homenagem aos Mortos e Desaparecidos Políticos na Ditadura Militar, percurso de 3,36 km realizado em 29min30.

Distância percorrida até agora: 217,02 km


11.3.16

Memorial da Resistência guarda marcas da dor e da grandeza dos presos na ditadura militar

Vivo e vermelho, um cravo está colocado em lugar de honra na cela quase nua. Sob iluminação especial, contrasta ainda mais com o cinza do conjunto, com a dureza das formas, com a frieza do ambiente.

Ali ficaram dezenas, centenas de presos políticos durante o período da ditadura militar. Muitos com corpos machucados, arrebentados por tortura, outros com a mente maltratada. Todos dispostos a ajudar um ao outro, lutar pela sobrevivência e liberdade.

No Natal de 1969, a militante da Ação Popular Elza Lobo, presa nas catacumbas do Departamento Estadual de Ordem Política e Social, pede que a família lhe traga flores, em uma das eventuais visitas.


Assim foi feito. Chegaram cravos vermelhos, que foram distribuídos aos outros presos e iluminaram as celas, como se trouxessem para o ambiente um cheiro de liberdade.

Hoje, o prédio do antigo Deops é um lugar de cultura e luta democrática –ali funcionam a Estação Pinacoteca e o Memorial da Resistência. Nas celas por onde passaram os combatentes da ditadura está registrada a memória de suas lutas; uma delas, a mais visitada, exibe o cravo vivo e vermelho.

“Aqui a solidariedade era muito forte. As pessoas sobreviveram por causa da solidariedade que havia no interior e também pela solidariedade de fora, nas passeatas e movimentos”, diz Kátia Neves, 50, que coordena o Memorial desde sua inauguração.

Ela foi minha convidada na caminhada pela história que fizemos hoje, 21ª etapa da CORRIDA POR MANOEL. Conosco também estava Maurice Politi, diretor do Núcleo Memória e um dos tantos que estiveram presos nas celas do Deops.

Foto Eleonora de Lucena


Partimos do histórico prédio projetado pelo escritório do arquiteto Ramos de Azevedo. Inaugurado em 1914, o edifício abrigou até 1938 os escritórios e armazéns da Companhia Estrada de Ferro Sorocabana. Depois de reformas, foi sede do Deops de 1940 a 1983, quando aquele órgão policial foi extinto. Foi tombado em 1999 e passou por um processo de restauração –o que não significa que as estruturas originais tenham sido preservadas.

Saímos em direção à avenida Tiradentes. Passamos pela magnífica Estação da Luz e, depois de costear o também maravilho prédio onde funciona a Pinacoteca, demos uma parada em um resto da memória paulista e brasileira.

Do presídio Tiradentes, onde estiveram presos Monteiro Lobato e a presidenta Dilma Rousseff, sobra apenas um pórtico.
Construído durante o Império, em 1852, ali foi de tudo: depósito de escravos, casa de correção, cadeia pública e cárcere político. O conjunto, que ocupava uma área de mais um quarteirão, foi demolido em 1973, depois de muitos protestos dos presos políticos sobre as barbaridades que lá se praticavam.
Maurice Politi foi testemunha de muitas delas.

Na nossa parada, ele conta que o prédio tinha dois andares. Ao rés do chão, ficavam as celas onde eram amontoados os presos comuns, os correcionais –“corrós”, na gira da cadeia. No superior, ficavam os presos políticos, que ali estavam para cumprir pena –as torturas, portanto, não eram corriqueiras.

Texto do programa Locais de Memória, produzido pela equipe do Memorial da Resistência, registra: “A detenção não significava propriamente o fim das atrocidades praticadas pelo aparato repressivo; o preso político poderia retornar aos interrogatórios seguidos de torturas, tanto no DOI-Codi quanto no DEOPS, como aconteceu com diversos militantes, entre eles Frei Tito, que posteriormente se suicidou, e a teatróloga Heleny Guariba, desaparecida política”.

Os presos comuns sofriam o diabo na mão dos carcereiros, conta Politi. Quando os guardas consideravam que alguém tinha abusado ou que havia muita confusão, tratavam de acalmar os ânimos torturando os detentos.

Havia no centro do pátio um antigo poço –ali, segundo as lendas, eram banhado os escravos que chegavam ao presídio, antes de serem colocados à venda.



Pois, no final dos anos 1960 e início dos anos 1970, o poço era usado para diversão dos guardas e carcereiros. Jogavam ali, nus, os presos que queriam castigar. Quando a vítima conseguia voltar à tona, recebia porretadas na cabeça, era obrigada a mergulhar de novo, numa variante da tortura que os americanos chamam de “waterboarding” ou afogamento.

Vendo os maus tratos, os presos políticos abriam o berreiro. Gritos, bateção nas grades e, principalmente, denúncias que eram transmitidas para fora dos paredões do presídio. Mais tarde, também foi assim, por meio de denúncias, que desmascararam o Esquadrão da Morte: policiais que chegavam ao Tiradentes no meio da noite, pegavam um ou vários presos, e os levavam para a execução pura e simples.

“A investigação das mortes praticadas pelo Esquadrão foi possível devido ao trabalho do ex-preso político Guilherme Simões Gomes, dentista, que mantinha as fichas de atendimento dos presos; estas nem sempre correspondiam aos registros internos do presídio, o que viabilizou a instauração do processo contra o grupo”, segundo o texto produzido pelo Memorial.

Cruzando a avenida Tiradentes, nosso pequeno grupo seguiu pela área dos quartéis da Polícia Militar de São Paulo. Em poucos quarteirões, há várias unidades da PM, como o monumental edifício que abriga a Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar, a Rota, tristemente famosa por sua violência e letalidade.

Passamos também pelo que resta de um prédio da antiga Usina de Força, atingido por bombardeios durante a Revolução de 1924, o maior conflito bélico da história de São Paulo. Sobra apenas uma mal cuidada chaminé, que guarda marcas dos tiros recebidos. Está suja e abandonada, tão esquecida quanto o movimento dos tenentes que ousaram enfrentar o governo federal naquela época.



Voltando, circulamos pelo belíssimo parque da Luz e chegamos novamente ao prédio do Memorial da Resistência. Na cela do cravo vermelho, conversei mais um pouco com Kátia, que é alagoana e mestre em museologia.

RODOLFO LUCENA – Para que serve o Memorial da Resistência?
KÁTIA NEVES - Ele dá mais concretude aos fatos. Quando um estudante, um menino de 16 ou 18 anos vem para o memorial, ele tem aqui fatos, contados por meio de fotografias e textos, e o protagonistas, o resistente, que conta uma parte da história para ele. Isso acaba aproximando, trazendo a história mais para o tempo presente.

A questão da ditadura ficou muito distante das pessoas. Há um professor que disse que os estudantes conhecem mais sobre a revolução francesa do que sobre a ditadura militar no Brasil. De fato, faz pouco tempo, três ou quatro anos, que houve uma mudança nos currículos e a história recente é mais bem trabalhada nas escolas.

Quando a gente implantou o Memorial, ninguém ainda tinha coragem de falar sobre o que aconteceu. Jornais, TVs vinham aqui, entrevistavam, depois não saía nada. As pessoas tinham medo de divulgar. Isso em 2009, quando a gente inaugurou.

O Memorial tem contribuído muito para isso, aproximar o passado do presente. A gente pega as questões do passado para discutir os problemas do presente.

A gente fala da tortura que acontecia na época da ditadura e fala da tortura que acontece hoje, nas delegacias e em outros locais. A gente trata de problemas como preconceito, a questão da terra, a repressão aos indígenas. A gente procura tratar de temas atuais.


Foto Divulgação


O Memorial está exatamente na área em que ficavam as celas do Deops?
Eram dez celas. Havia essas quatro, no primeiro bloco, que é onde nós estamos. Havia mais duas ali onde hoje está montada a linha de tempo [também dentro do prédio] e outras quatro fora, nos fundos do prédio.

Essas de fora eram solitárias, em que ficavam presas pessoas que tinham de ficar afastadas do grupo ou eram presos que tinham voltado da tortura e estavam muito machucados. Essas quatro foram destruídas ainda antes da reforma do prédio, deve ter sido por volta de 1995.

Essas quatro celas de fora, que não existem mais, foram também usadas para as mulheres. À medida que a repressão foi aumentando, também aumentou a prisão de mulheres, o que fez com que uma das celas aqui deste corpo central também fosse destinada a mulheres.

Quando foi feita a reforma, que começou em 1999 e terminou com a inauguração [do prédio] em 2002, a gente fez a reforma, aquelas duas celas , onde está hoje a linha do tempo, foram destruídas.

Neste espaço hoje há quatro celas, o corredor principal, que dá acesso às celas, e o corredor secundário, que dá acesso ao corredor para banho de sol.

Nem todo mundo foi tomar banho de sol ali. Teve gente que ficou cem dias e nunca saiu para o sol. E era importante sair, porque aqui havia uma média de 13 presos por cela, em celas de menos de 15 metros quadrados, não tinha espaço nenhum. Ir para o banho de sol era uma forma de o preso caminhar um pouco.

Quanto presos passaram por aqui durante a ditadura militar?
Não sabemos, não temos nem ideia de quantos ficaram presos aqui na ditadura. Nem toda a documentação foi totalmente trabalhada, porque é um volume imenso.

Muitos documentos foram destruídos. Tempos atrás um colega me entregou umas fichas de presos políticos que foram encontradas por um arquiteto, jogadas aí na rua não sei quantos anos atrás, provavelmente na década de 1990.

Além disso, houve uma determinada época, especialmente de 1969 a 1971, que estava todo mundo tão descontrolado, esses organismos de repressão, que eles pegavam, torturavam e já jogavam na rua sem nem fazer fichamento nem nada.

Então mesmo que a documentação não tivesse sido destruída, muitos presos não foram registrados, não houve documentação de muitos presos que passaram por aqui.

Aqui era um presídio? Havia tortura?
O prédio é usado desde 1940. Isso aqui não foi bem um presídio, era um lugar temporário. A pessoa ficava presa enquanto ia sendo interrogada, enquanto eram levantadas informações sobre ela. Era um local de transição.

Durante a ditadura, as pessoas eram presas pela Oban e trazidas para cá ou então presas diretamente pelo Deops (Departamento estadual de Ordem Pública e Social).

Aqui eles eram torturados. Os ex-presos dizem que as salas de tortura eram no terceiro e no quarto andares, não há um local muito preciso porque a gente não tem nenhuma memória do edifício –hoje lá é a Estação Pinacoteca.

Os presos eram torturados lá e trazidos por um elevador que era chamado de Expressinho, uma referência ao Expresso da Morte. Ele descia do andar em que havia as torturas até o térreo, de onde eram trazidas para cá, para as celas.

A tortura nunca acontecia nas celas aqui de baixo, aqui era onde as pessoas ficavam. Tinha gente que ficava três meses, outros ficavam 30 ou 40 dias, e aí eram mandados para outros presídios –Tiradentes, Barro Branco, Hipódromo, vários outros. Aqui era um espaço de transição.


CORRIDA POR MANOEL - 21ª etapa
Destino: região dos prédios históricos em torno do Memorial da Resistência, percurso de 4,58 km percorrido em 1h06min56


Distância total já percorrida: 213,66 km

10.3.16

Morte de Manoel rompe unidade precária no interior da ditadura

Duas orquídeas brancas enfeitam uma árvore magra e alta, de copa bem verde, em frente ao número 815 da alameda Casa Branca, nos Jardins, bairro rico de São Paulo.

Sob a árvore, um marco de pedra informa: ali foi executado em emboscada Carlos Marighella, comandante da resistência armada ao regime militar.

Passei por lá na manhã de hoje, um dia cinzento, chuvadonho. Meu caminho tinha como destino a área de quartéis no Ibirapuera; ia correr em volta do Quartel General do Segundo Exército, a primeira instituição a sofrer as ondas do abalo sísmico provocado no regime pelo assassinato de Manoel Fiel Filho em 17 de janeiro de 1976.

Àquela altura, o general-presidente Ernesto Geisel encaminhava o que chamava de “distensão”, mais tarde transformada em “abertura lenta e gradual, porém segura”. Supostamente, queria encaminhar o processo de redemocratização do país; para isso, precisava conter o superextremistas que se aninhavam nas esferas de poder, eram o poder, compartilhavam o poder.

Ao longo de 1975, os terroristas que se aninhavam nas estruturas governamentais tinham assassinado em São Paulo o tenente PM José Ferreira de Almeida e o jornalista Vladimir Herzog.

Apesar de toda a repressão, o povo não aguentou calado o crime. Mais de 8.000 pessoas lotaram a catedral da Sé no culto ecumênico por Herzog –ali tomava corpo uma mobilização que já tinha se expressado nas urnas, no ano anterior, quando o regime fora fragorosamente derrotado.

Geisel não queria saber de resistência, queria tudo sob controle. A violência de seus subordinados, porém, podia chacoalhar seus propósitos. Pelo menos, é que contou Paulo Egydio Martins, então governador de São Paulo, em depoimento à Globonews em 2012.

Ele testemunhou encontro entre Geisel e o general Ednardo D`Ávila Mello, que comandava o Segundo Exército, pouco depois do assassinato de Vladimir Herzog. Assim transcorreram os fatos, segundo Paulo Egydio:

“Eu já tinha me recolhido com o presidente Geisel para a ala residencial do Palácio dos Bandeirantes. Estávamos sentados na biblioteca. Ednardo subiu para a ala residencial. Quando apareceu na porta, fiz um gesto de me levantar. Não ia ficar presente a uma reunião do Presidente da República com o comandante do II Exército, os dois generais. Geisel virou para mim e disse:  “Não, não, Paulo. Quero que você fique aí e escute”. E o general Ednardo D`Ávila Melo, perfilado, em posição de sentido, na frente de Geisel e na minha, ficou ouvindo Geisel se dirigir a ele assim:  “Ednardo, você me conhece muito bem. Você sabe do meu passado. Você sabe da minha história. Não vou admitir que fatos como esses que ocorreram aqui no II Exército se repitam. Quero que você saiba que vou tomar medidas. Você vai tomar conhecimento pelo seu ministro do Exército e pelo Diário Oficial. Vou tornar isso um decreto: proibir que alguém seja preso antes de uma comunicação ao meu gabinete – ao gabinete militar, ao SNI ou a mim, pessoalmente. Só depois dessa comunicação é que posso admitir que um preso político seja levado ao recinto de um quartel do Exército. O senhor está me ouvindo? Está entendendo? “. E o general: “Sim, senhor  Presidente; sim, senhor Presidente”. Geisel: “Pode se retirar”. Escutei tudo aquilo quieto e calado. Meses depois, houve o caso de Manoel Fiel Filho – que contrariou juridicamente, formalmente e hierarquicamente todas as determinações do Presidente da República, comandante-em-chefe das Forças Armadas do Brasil. Consequência: o general, fiel às palavras que tinha proferido na minha frente, exonerou um general de quatro estrelas do comando do II Exército, fato inédito na história do Exército brasileiro”.



A tortura e os crimes praticados no DOI-Codi, que era subordinado ao comandante do Segundo Exército, eram sobejamente conhecidos. Houve militares que, sabendo das diferenças internas da estrutura de comando, tentaram até se aproveitar disso, segundo relato do ex-governador Paulo Egydio na mesma entrevista à Globonews:

“Quando o coronel Erasmo Dias ( secretário de segurança ) me procurou, me disse o seguinte: “Governador, o general Marques me procurou, nervosíssimo, extremamente tenso, porque um sargento e um cabo, integrantes da equipe do DOI-Codi, foram a ele pedindo um volume de dinheiro. Senão, iriam delatar para a imprensa o que se passava dentro do DOI-Codi. E ele ficou sem saber o que fazer. Veio me pedir se eu podia arranjar esse dinheiro da verba secreta da Secretaria de Segurança.
“Quando eu assumi o governo, extingui a verba secreta do gabinete do governador. E disse a Erasmo que a verba secreta da Secretaria de Segurança era de responsabilidade dele. Jamais eu iria intervir. Virei para ele e disse: “Erasmo, a decisão é sua, sobre se vai atender ao Marques ou se não vai atender. Chantagem só tem duas respostas: “Ou você mata ou você morre”. Porque qualquer tentativa de aceitar chantagem é horrível, é péssima. É minha reação pessoal. Você faz o que você quiser fazer.
“Nunca mais tive retorno dessa conversa. Nada aflorou dessa chantagem. Mas ela mostra o que significa, como quebra de hierarquia militar: a gravidade deste episódio. Porque, quando um cabo e um sargento procuram um general comandante do Estado Maior de um Exército e chantageiam pedindo dinheiro para não contar o que estava se passando dentro do recinto pertencente a esse mesmo Exército, acabou qualquer hierarquia militar, qualquer espírito militar. Isso é absoluta e totalmente incompreensível e inaceitável”.

O comandante Ednardo sabia de tudo, aprovava e defendia. Em pelo menos uma vez, apareceu pessoalmente nas salas de tortura do DOI-Codi, a cerca de três quarteirões do Quartel general do Segundo Exército.

Quem conta é uma prima dele, Sarita D`Ávila Mello, militante do Partido Comunista, que esteve presa nas câmaras de tortura da rua Tutóia.



Em depoimento à Comissão Municipal da Verdade, Sarita relatou que o general Ednardo D’Ávila Mello chegou à sala quando ela estava começando a receber choques elétricos. Segundo ela, o general pediu aos torturadores que preservassem a vida da moça.

Não foi torturada naquele dia nem nos dias seguintes em que esteve presa. Sua libertação, no dia 24 de outubro de 1975, não significa, porém, que o esquema de tortura no DOI-Codi tinha sido abrandado ou contido: no dia seguinte Vladimir Herzog foi assassinado.

Apesar das ordens dadas por Geisel a Ednardo, a fúria brutal dos ultradireitistas continuou.

Menos de três meses depois do assassinato de Herzog, Manoel Fiel Filho é morto sob tortura. A tentativa de disfarçar o crime, transformando assassinato em suicídio, não serviu nem para as “internas”, conforme descobriu o coordenador da Comissão Nacional da Verdade, Claudio Fonteles, analisando documentos guardados no Arquivo Nacional. Eis o que ele relata em entrevista a Luciana Lima, do site Ig:

“No caso da morte do operário Manoel Fiel Filho, preso num episódio periférico, distribuindo panfletos, há no Arquivo Nacional um bilhete manuscrito informando que o general Ednardo (D’Ávila Mello,  comandante do então II Exército, São Paulo) manda prender e manter incomunicável toda a equipe (um tenente, dois delegados e dois agentes) que participou do interrogatório. Mostra que o Estado sabia que ele havia sido morto (sob tortura) pelos agentes e não se suicidado (por enforcamento), como informaria a versão oficial (a alegação de que o operário usara as meias para se enfocar, segundo o bilhete, deixara o general “preocupado, contrariado e constrangido” antes que o assunto tivesse sido noticiado.”

Mais contrariado ainda ficou o general-presidente, que soube da morte na noite de domingo, dia 18 de janeiro de 1976, mais de 24 horas depois do crime ter ocorrido. Foi avisado pelo governador de São Paulo, Paulo Egydio, por telefone.

“Presidente! Matando-se assim, um por mês, no DOI-Codi do Segundo Exército, não ganharemos eleição em São Paulo”, disse o governador, segundo registra Sylvio Frota, então ministro do Exército, em seu livro “Ideais Traídos”.

As traições foram em penca, naqueles dias, a crer no relato de Frota –mais tarde também defenestrado por Geisel.

Frota, por sinal, diz ter sido o último a saber: foi informado apenas na manhã de segunda-feira. O subchefe do Centro de Informações do Exército, que estava de plantão no fim de semana, não achara necessário informar ao ministro quando soube do assassinato do operário em São Paulo.

O próprio comandante do Segundo Exército, de acordo com o livro, só teria sabido na manhã de segunda-feira –Manoel fora preso na sexta e morto no sábado. O então chefe do SNI (Serviço Nacional de Informações), general João Baptista Figueiredo, mais tarde sucessor de Geisel também só recebeu a informação na manhã do dia 19.

Eram indicadores de que a divisão e a discórdia reinavam no interior do regime. Geisel decidiu pela exoneração de Ednardo –a notícia foi publicada na terça-feira, na mesma página da Folha de S. Paulo em que saiu uma nota oficial do Segundo Exército dando conta da morte de Manoel.

Ainda que as Forças Armadas aceitassem o comando de Geisel,  a situação era instável. Para Frota e muitos aliados dele, “o Governo estava traindo a Revolução, insultando o Exército e estimulando a subversão”.

Cinco generais chegaram a oferecer a Frota suas tropas. Pelas propostas, o ministro do Exército deveria se demitir e tomar a frente de um movimento de reação ao governo de Geisel.

No livro, Frota não explica por que não aceitou a chamada para um golpe de ultradireita em uma ditadura já de superdireita. O certo é que, naquele momento, ficaram mais evidentes e expostas as fissuras no regime.

Para muitos analistas, a morte de Fiel Filho é um divisor de águas. O cineasta Jorge Oliveira, que produziu um documentário sobre o caso, deixa claro sua opinião no próprio título do filme: “Perdão, Mr. Fiel – O Operário Que Derrubou a Ditadura no Brasil”.

Isso provavelmente é um exagero. Mas não muito, como analisa o ex-presidente Lula em declaração ao documentarista: “Depois da morte [de Fiel] começou o processo de democratização no país e não parou nunca mais”.



CORRIDA POR MANOEL – 20ª etapa
Destino: QG do Segundo Exército, percurso de 13,71 km realizado em 1h47min08
Distância percorrida até agora: 209,08 km





9.3.16

No IML, dizem que Manoel passou mal no serviço e morreu no hospital

Passavam vinte minutos das oito horas da noite do dia 17 de janeiro de 1976 quando um automóvel grande, um Dodge Dart, estacionou em frente à casa da família Fiel, na zona leste de São Paulo.

Um sujeito alto e magro desceu do carro, bateu à porta do sobrado, falou com dona Thereza de Lourdes Fiel.

“Sou do Hospital de Clínicas”, disse o desconhecido, segundo registra o repórter Carlos Alberto Luppi em seu livro “Manoel Fiel  Filho – Quem Vai Pagar Por Esse Crime?”.

Entregou um embrulho para a já então viúva e falou: “Vim avisar que se marido se suicidou. Aqui estão suas roupas”.

Mais não disse nem lhe foi perguntado.

“Eu saí xingando!”, lembra hoje dona Thereza. “Vocês mataram meu marido!”, era o grito da ex-tecelã na ruela da zona leste.

No Dodge Dart, o homem se chispou. Em frente ao sobrado, dona Thereza ficou com um saco de lixo azul; nele estavam as roupas de Manoel: blusão, calça, sapatos, cinto e uma nota de Cr$ 10.

Dona Thereza tinha virado a noite anterior procurando por Manoel. “Ela foi atrás dele com um sobrinho do meu pai, que hoje mora em Quebrangulo, José de Lima. Ele que andou com a minha mãe a noite inteira, procurando em todas as delegacias”, conta Márcia, a filha caçula de Manoel.

Durante a noite, alguém havia dito que Manoel estava preso, incomunicável. Agora sabiam que ele estava morto, o corpo esperando no IML, o Instituto Médico Legal.


IML na década de 1970- Fotos Jurassaba
Bueno, Arquivo do Estado 
“O Instituto Médico Legal (IML) é o órgão 
técnico mais antigo da Polícia de São
Paulo, criado ainda durante o governo monárquico no Brasil em 1886”, ensina texto publicado pelo Memorial da Resistência no programa Lugares de Memória.

O texto prossegue: “O Instituto teve como origem o Serviço Médico Policial da Capital, instituído pela Lei nº 18 de 07 de abril de 1886 e foi regulamentado pouco tempo depois, no dia 20 de abril. A instituição funcionou a partir do atendimento de dois médicos que acumulavam as funções de médicos legistas e clínicos nas cadeias públicas. 

Eram atribuições do Serviço Médico Policial da Capital examinar indivíduos vivos e cadáveres encaminhados pelas autoridades, produzindo exames de corpo de delito e cadavérico a partir da análise de lesões e ferimentos das vítimas; realizar avaliação toxicológica de substâncias; conduzir exames em corpos exumados; ministrar os primeiros socorros em feridos conduzidos ao Serviço Médico Policial; e tratar clinicamente dos presos recolhidos em cadeias públicas”.


O IML foi meu destino de hoje, na 19ª etapa da Corrida Por Manoel.


Já fora lá várias vezes, no início da década de 1990. Nenhuma delas foi divertida. Como repórter de Cidades, acompanhei trabalhos investigativos de médicos legistas. Ouvi gente que esperava para receber de volta os corpos de parentes ou amigos.


Há quem caia em prantos, há quem chore em silêncio; outros ficam catatônicos, enquanto alguns explodem de raiva. Em todos se nota a dor da impotência, a consciência de que não podem fazer mais nada.

O IML fica na rua Enéas Carvalho de Aguiar número 600, na esquina com a Teodoro Sampaio. O bairro é Cerqueira César, região central da cidade. Fica numa espécie de superquarteirão médico.

Atravessando a rua, os cerca de 700 metros de extensão da Enéas Carvalho de Aguiar, no lado ímpar, é quase todo ocupado pelo complexo de prédios que integram o Hospital de Clínicas, o HC, que por nome completo é Hospital de Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.

Na Teodoro Sampaio, o vizinho de frente do IML é a Faculdade de Saúde Pública.

O quarteirão mesmo onde está o IML é gigante, tendo por limites a Enéas Carvalho de Aguiar, a Teodoro Sampaio e as avenidas Doutor Arnaldo e Rebouças. Ali ficam a faculdade de Medicina, o Incor, o Hospital do Câncer e o Emílio Ribas, que trata de doenças infecciosas.

A volta no quarteirão tem 1.700 metros, que eu fiz repetidas vezes na manhã de hoje. Notei, por exemplo, as minilixeiras para baganas de  cigarro instaladas na cerca do Hospital do Câncer; ali funcionários se reúnem em horas de folga, aspirando baforadas rápidas do mesmo veneno que contamina os doentes que eles atendem. Vai entender.

Nas minhas voltas, pensava em Manoel, na família de Manoel, em como foram tratados e mal tratados.

No início da tarde do dia 17 de janeiro de 1976, o corpo do operário foi levado do DOI-Codi, onde fora morto, para o IML. O diretor do instituto, Arnaldo Siqueira, ordenou que os médicos legistas José Antonio de Mello e José Henrique da Fonseca fizesse exame de corpo de delito no cadáver de Manoel Fiel Filho.

O exame necroscópico deveria responder aos seguintes quesitos: Primeiro: Houve morte?; Segundo: Qual a causa?; Terceiro: Qual o instrumento ou meio que a produziu?; Quarto: Foi produzida por meio de veneno, fogo, explosivo, asfixia ou tortura, ou por outro meio insidioso ou cruel.

Instalações do IML na década de 1970
No laudo, reproduzido no livro de Luppi, os legistas descrevem assim o corpo que analisaram: “Cadáver de indivíduo adulto, do sexo masculino, de cor branca, aparentando a idade da qualificação, biotipo brevelíneo, cabelos pretos, grisalhos nas têmporas, supercílios pretos, bigodes grisalhos, olhos castanho escuros, equimoses subconjuntivas bilaterais, barba por fazer, dentes presentes e bem conservados em ambas as arcadas, panículo adiposo regularmente distribuído pelo corpo, de acordo com o sexo, musculatura bastante desenvolvida, pilosidade abundante, genitais externos sem alterações. 1) Notava-se extensa cianose tomando toda a pela visível da cabeça e da face, protusão da língua e líquido sanguinolento vertendo das narinas; 2) Região cervical: apresneta um laço constituído de duas meias, situado na região mediana do pescoço, circular, horizontal, não interrompido e duplo. Laço constituído de duas meias amarradas pelas extremidades correspondentes às pontas dos pés. Esse laço achava-se enrolado na região do pescoço com duas voltas e o nó corresponde às extremidades distais encontrava-se na região posterior juntamente com o primeiro que unia as pontas dos pés das meias. Esse laço formava dois sulcos paralelos em alguns pontos e unidos em outros, formando impressões cutâneas pálidas e isquêmicas, separadas por zonas de hipóstase tanto acima como abaixo desses sulcos. Na região da nuca notava-se também ligeira escoriação superficial da pele no pescoço entre os sulcos. 3) Tórax e abdômen, dorso e membros sem vestígios de soluções de continuidade recentes na pele. Notamos uma cicatriz antiga circular, hipocrômica de bordas pigmentadas no terço distal da perna direita, face externa; outra cicatriz de seis centímetros na região inguino-abdominal direita (Mac Burney). 4) Região perineal anterior e posterior sem sinais de violência”.

O repórter Carlos Alberto Luppi nota que as tais “equimoses subconjutivais bilaterais” significam a existência de rompimento de pequenas artérias; são resulta de ocorrência que agrida a vítima, como socos.

Os legistas, como se vê, não deram maior atenção a isso. Suas respostas aos quatro quesitos que investigaram foram as seguintes: ao primeiro, sim; ao segundo, asfixia mecânica por estrangulamento; ao terceiro, agente conscritivo contundente; ao quarto, não.

A farsa serviu para a rede de mentiras montada pela ditadura naquele momento, mas não resistiu ao exame da história. Os dois médicos legistas estão citados no relatório da Comissão da Verdade, responsabilizados por “ocultação de informação das causas da morte de Manoel Fiel Filho”. O médico legista Ernesto Eleutério também aparece no documento, acusado de “ocultação de informações do laudo preliminar induzindo à alteração da causa mortis de Gastone Lúcia de Carvalho Beltrão; Manoel Fiel Filho”.

Depois de examinado em maca de ferro, o corpo de Manoel foi colocado em uma das geladeiras em que os cadáveres até serem liberados para enterro. O destino do corpo de Manoel, na noite de 17 para 18 de janeiro de 1976, ainda era incerto.

O homem que apareceu na casa da família dissera ser do Hospital de Clínicas. Mas todos sabiam que o corpo deveria ser procurado no IML.

“Não podia ir mulher nenhuma para fazer reconhecimento”, diz Aparecida, a filha mais nova. Por isso, a família mandou parentes, um sobrinho e um irmão de Manoel, mais um cunhado.

“Foram os três, José de Lima, Paulo e o tio Osvaldo, irmão da minha mãe. Foram os três. Levaram a roupa, mas não puderam entrar”, lembra Aparecida, a filha mais velha, hoje com 60 anos.

Os funcionários do IML negaram que o corpo estivesse lá. Sabendo que era mentira, o irmão de Manoel insistiu. Tanto fez que afinal admitiram que o corpo estava lá, mas que tinha chegado havia pouco: “Ele passou mal no serviço e, levado para o HC, acabou de falecer”, disse alguém, conforme regsitra o repórter Carlos Alberto Luppi.

Para morte tão corriqueira, os cuidados no IML eram para lá de exagerados. Havia ordens para que ninguém visse o corpo. E tudo tinha de ser feito na surdina, sem aviso à imprensa nem divulgação do  velório.

“O enterro deve sair daqui mesmo e a família não deve ser avisada”, foi a determinação que os parentes de Manoel ouviram de policiais no IML.

E ai de quem tentasse fazer qualquer coisa. A ameaça era clara: se houvesse “escândalo”, dariam um fim no corpo de Manoel, o cadáver seria enterrado como indigente em vala comum e nunca mais seria descoberto.



CORRIDA POR MANOEL – 19ª etapa
Destino: “amarração” do IML, percurso de 10,33 km percorrido em 2h05min59
Distância total já percorrida: 195,37 km