21.1.16

Cadeirante biamputado desafia ultramaratona mais difícil do Brasil

Em 2003, o estudante norte-americano de química Andre Kajlich, então com 24 anos, fazia uma temporada na Universidade de Praga. Certa noite, depois de uma festa, começou a voltar para casa e só acordou no hospital, todo enfaixado e entubado.
Tinha sido atropelado pelo metrô. Perdeu as duas pernas e a esperança de viver. Esta, pelo menos, recuperou: hoje é um dos mais conhecidos paratriatletas de aventura do mundo.
Há três anos, tornou-se o primeiro cadeirante a enfrentar aquela ultramaratona nas montanhas da serra da Mantiqueira, desafiando e vencendo os 217 quilômetros da BR135.
Agora, volta para um desafio ainda maior. Aquela ultra cresceu, virou BR135+, chega a 260 quilômetros.
A prova começou nesta quinta-feira. Segundo Monica Otero, que acompanha Andre, ele vai enfrentar o caminho aos poucos.
“A prova começa em São João da Boa Vista, e o atleta tem a escolha de ir até Paraisópolis (217 km) ou até o pesqueiro da Montanha, próximo a Campos do Jordão (260 km). Se ele chegar bem a Paraisópolis, vamos prosseguir.”
Desta vez eu não consegui conversar com o Andre, mas, em 2013, fiz uma bela entrevista com ele, que resultou em reportagens publicadas na Folha (CLIQUE AQUI) e no meu blog, então na página da Folha na internet (CLIQUE AQUI).
Reproduzo a seguir o texto publicado na época, contando a sensacional história do Andre (fotos Arquivo Pessoal). Como você vai perceber, quando publiquei o texto ainda não sabia do resultado da prova; mesmo assim, mantive o formato original. Andre completou o desafio.

 Cadeirante dos EUA enfrenta ultramaratona na serra da Mantiqueira
POR RODOLFO LUCENA
19/01/13  12:27
O cadeirante norte-americano Andre Kajlich, de 33 anos, é o primeiro cadeirante a se aventurar pelas estradas, grotas e montanhas que integram o percurso da Brazil 135, considerada por muitos a mais difícil ultramaratona do Brasil. Prova classificatória para a temível Badwater, nos EUA, tem 217 km e começou ontem em São João do Boa Vista, na divisa entre São Paulo e Minas.

Não consegui falar com ninguém, ainda, para saber em que pé está a corrida. Mas vale aquele ditado: “O milagre não é que eu consegui terminar, o milagre é que tive coragem de estar na linha de largada”.

Para Kajlich, com quem conversei na última quarta-feira, em São Paulo, o surpreendente mesmo é estar vivo, pois suas chances de sobrevivência eram mínimas depois do acidente que o deixou sem a perna esquerda e com apenas parte da coxa direita, além de muitas cicatrizes pelo corpo todo.

Ele conta como foi: “O acidente aconteceu quando eu tinha 24 anos, em dezembro de 2003. Tivemos uma festa em minha casa, em Praga, onde eu estudava química. Fiz burritos para todos, e daí saímos para as baladas. Normalmente a gente ficava fazendo festa a noite toda, tomava café na rua na madrugada. Finalmente, quando cada um pegou seu caminho, eu disse tchau para um amigo e acordei três semanas depois em um hospital, sem as pernas. Ninguém sabe como aconteceu, mas eu caí nos trilhos do metrô, o condutor me viu, mas não pode fazer nada. Basicamente, o trem inteiro passou por cima de mim.”

Ele continua: “Quando me tiraram dos trilhos, eu estava praticamente morto, sem pressão sanguínea, e mesmo assim eles foram capazes de me salvar. Muito sortudo. Perdi toda a perna esquerda, e a direita foi cortada uma pouco acima do joelho. Quebrei costelas, o pulmão foi perfurado, o fígado também foi atingido. Quase perdi o braço esquerdo, quebrado perto do cotovelo. Os médicos pensaram que eu jamais seria capaz de me movimentar. Talvez pudesse andar de cadeira de rodas e comandar o corpo para poder, por exemplo, lavar as mãos”.

E mais: “Não houve um momento em que acordei e me vi sem as pernas. Eu estava inconsciente e tinha momentos de lucidez, aos poucos recobrava a consciência e depois desmaiava novamente. Finalmente, quando comecei a perceber o que tinha acontecido, fiquei muito preocupado com o futuro, sem saber o que eu seria capaz de fazer. Não sabia se seria capaz de andar ou se algum dia poderia ser feliz novamente”.

Depois de quase três meses no hospital, foi transferido de volta para os EUA, para sua família: os pais são tchecos, emigraram em 1967, Andre nasceu em Edmonds, no Estado de Washington, em 1979. 

Em um ano, já conseguia caminha com pernas mecânicas e bengala, também começava a dominar melhor a cadeira de rodas.

Voltou a Praga para terminar o curso e continuar as festas. Acabou se apaixonando por Mariana, uma fotógrafa romena um ano mais velha que ele. 

Namoraram e, quando Andrés enfim viu que era hora de voltar mesmo aos EUA, em 2008, casaram. Ele já praticava um pouco de esporte na cadeira de rodas e fazia algumas caminhadas, além de gostar de nadar.
Tudo isso deu um quilo: nos EUA, participou de um triatlo de revezamento e adorou: “. Era muito bom sentir o coração batendo forte novamente. A partir dali eu fui em frente, tive sucesso.”

Sucesso é pouco: teve uma evolução impressionante em seu desempenho esportivo. Passou a treinar forte, entrou em competições de paratriatlo, fez um meio Ironman e se classificou para o pai de todos, o Ironman de Kona, no Havaí. Tirou o segundo lugar em 2011, foi campeão em 2012. E é bom também em provas curtas: foi medalhista de prata nos Mundiais de paratriatlo de Pequim-2011 e Auckland-2012.

Com as conquistas, chegaram mais apoios. No início, ele tirava do seu salário –trabalha com pesquisas em medicina de reabilitação na Universidade de Washington, em Seattle—e contava com contribuições de parentes e amigos. Tudo muito necessário: só as próteses que usa para caminhar custam mais de US$ 100 mil. E ele caminha bem.

“Não consigo correr, mas talvez seja o melhor caminhante do mundo com esse nível de amputação”, diz ele. Tão bom que vem sendo convidado pelo Exército dos EUA para ajudar nos trabalhos de reabilitação de soldados feridos nas guerras em que o país participa.

Kajlich não cansa de procurar novos desafios, como a Brazil 135, que conheceu ao ouvir no rádio uma entrevista de outro atleta cadeirante, o brasileiro Carlos Moleda. Ficou entusiasmado, entrou em contato com os organizadores e tratou de treinar. 

Não sabia exatamente como se preparar, mas subiu montanhas nevadas com sua cadeira de rodas, enfrentou gelo e barro e vai fazer o que der na serra da Mantiqueira.

“Acho que em alguns trechos terei de sair da cadeira e puxá-la com uma corda”, diz ele, que montou um equipamento especial para enfrentar trilhas, usando rodas de mountain bike em sua cadeira e martelando o equipamento até que ficasse do jeitinho que ele considerava adequado.

E vai para a luta com um sorriso: “Depois de meu acidente e do processo de recuperação, aprendi que esses grandes desafios, cheios de incertezas, são realmente onde você aprende mais, eles te dão os momentos mais definitivos da vida. Eu aprendi muito com tudo isso, de forma que hoje vejo meu acidente de uma forma muito positiva, por causa das poderosas experiências de vida que pude ter depois, como o Ironman ou esta Brazil 135. Essas conquistas me dão base e consistência para enfrentar os próximos desafios”.


18.1.16

Fisioterapeuta contesta “consenso do saber” e dá dicas sobre postura de corrida

Rola pelas redes sociais uma reportagem publicada pela edição espanhola da revista “Runner`s World” para mulheres em que são oferecidas dicas sobre postura de corrida.

A reportagem tem uma ilustração muito bacaninha que mostra uma moça na suposta posição ideal de corrida.

A ilustração é acompanhada de pequenos textos que explicam e orientam sobre como devem ficar as diversas partes do corpo envolvidas no movimento (claro que o corpo todo está se movimentando, mas alguns membros são destacados).

Quando esse material chegou até mim achei tudo muito bacana, como disse no início. Numa primeira olhada, parecia consolidar o que costumeiramente se lê a respeito de corrida, da postura no movimento, do “gesto ideal” de corrida.

Comprime em uma ilustração o que se poderia chamar de “consenso do saber” sobre o corredor em ação. A ilustração é esta que publico a seguir.



Bom, mas sempre fui muito desconfiado de consensos e de saberes absolutos. Para ser jornalista, há que ser cético e desconfiado. E lembrar que há muitas opiniões sobre cada assunto.

Vai daí que resolvi fazer uma breve consulta a uma fisioterapeuta que já dedica décadas de trabalho  e pesquisa ao estudo do movimento. Trata-se de Marcelo Semiatzh, um dos fundadores da clínica Força Dinâmica (outro dos envolvidos é o meu treinador, Alexandre Blass).

Não foi uma entrevista, apenas uma consulta por meio de redes sociais. O Marcelo está fazendo doutorado e não tem tempo para nada. Mesmo assim, mando uma breve resposta que pode instigar em cada um de nós novas perguntas, questionamentos sobre o que faz, como corre, como se movimenta.

Mostrando a ilustração, perguntei a ele se 
considerava corretas aquelas dicas. Eis a resposta.

“Não está correto”, disse Marcelo (foto). E explicou: “Correr é um ato de fazer força e não de relaxar, portanto o corpo deve estar coordenado para aplicar e transmitir força. Não se deve pensar somente em corrigir a posição das partes do corpo, mas corrigir a força que essas partes aplicam”.

Esse me parece um raciocínio muito legal. A gente esquece da vida quando corre, relaxa em relação ao estresse do dia a dia, voa pelo pensamento, viaja na maionese. Mas correr é um ato de fazer força.

Sobre a postura, Marcelo pode falar horas. Mas, analisando a ilustração, fez algumas breves frases que podem ajudar cada um de nós a pensar sobre o que faz. Eis o que ele afirma:

“A cabeça, apesar de olhando para frente, apresenta leve rotação no plano horizontal. Os ombros não devem ficar, mas sim fazer força para baixo, o que ajuda a ação dos músculos abdominais na corrida.”

Ele segue fazendo considerações sobre ombros e movimentos dos braços. O texto está meio complicado: “O ombro relaxado pode atrapalhar se o braço que está indo para trás colaborar impulsionando o tórax para trás, aumentando a carga de inércia do tórax, impedindo que o tronco esteja a frente”.

Sobre as mãos, que também não ficam relaxadas: “Podem estar abertas ou fechadas, mas sempre impulsionando o corpo à frente”.

Quanto às pernocas propriamente ditas, Marcelo dá a seguinte orientação:

“A ênfase deve ser na extensão da perna de trás, com quadril, joelhos e pé em extensão trabalhando o impulso horizontalmente do corpo. A perna da frente deve ter boa flexão e com joelho bem levantado. A flexão do membro da frente com a extensão do membro de trás devem ser bastante treinados.”

Sei, sei, sei, cada frase dessas vale uma dissertação de mestrado. Não chegaremos a tanto, mas vou tentar conseguir espaço na agenda do Marcelo para obter mais explicações sobre as teorias da Força Dinâmica sobre a postura da corrida.

Fique com a gente que vem mais por aí.

Vamo que vamo!


8.1.16

Apesar da crise, velhinho faz percurso inédito de 16 km em homenagem ao Ano Novo

Quase não acreditei: finalmente, enfim, fiz minha primeira corrida deste novo ano. Para marcar a data, resolvi tentar completar –e consegui—um percurso de 16 km, saudando os 16 anos deste milênio.
Pode parecer pouco para você, mas, para mim, foi um verdadeiro sucesso internacional!!
Não corria desde o ano passado, jogado às traças por dores e uma tristeza profunda, causada por sucessivas falhas em completar treinos de longa distância.
Era o sol forte, a lombar, a preguiça, e tudo somado dava como conta final falta de determinação, de garra, de ânimo. Um cansaçozinho à toa, e eu parava nos 20 quilômetros de um treino de 24 ...
Quando era para fazer 32, então, ficava dias me preparando, como se o desafio fosse grande coisa. Planejava percurso, organizava alimentação, bebia água mais que um camelo se preparando para a travessia do Saara, dormia cedo, acordava de madrugada... E voltava a dormir.
Tanto que, somatizando ou não, sabe-se lá por quê, a musculatura se engruvinhou toda, a panturrilha travou... Pelo menos, tive uma razão para suspender por uns dias as corridas.
Daí não teve treino no primeiro do ano, nem no segundo nem no terceiro... Será que ia continuar assim?
Pois continuou, até que a dor pareceu arrefecer. Foi quando eu me disse: não tem tu, vai tu mesmo. Acordei mais tarde do que deveria, mas o dia estava nublado, colaborou comigo, e eu enfiei no tênis a tristeza, nas meias a depressão, e saí pro asfalto, que a gente aqui é corredor de rua.
Saí para um percurso inédito em minha carreira. A bem da verdade, conhecia e já percorrer boa parte do trajeto que imaginava ser capaz de fazer. Menos o coração do caminho, aquele que faria a diferença.

Havia que rodear um morro, enfrentar estrada que só tinha visto no mapa, imaginava perigosa, solitária.
De fato, ela tem uns tantos quilômetros de asfalto e bloquete, mas depois sobe um morrinho, rodeia a montanha e vira puro chão batido. De cada lado, mato e montanha.
Medo de nada. Receio de cachorros soltos, essas propriedades rurais sempre têm uns cuscos meio ladinos. Depois de passar por dois ou três que só latiram de longe, peguei umas pedras e passei a correr preparado para enfrentar eventuais ataques.
Não houve nenhum. Eu que me ataquei com a paisagem. Vi morros ao longe, coroados por nuvens escuras,  e fui me acalmando. Aos poucos, ganhei confiança, passei a acreditar que poderia voltar a correr, a cumprir o treino dado.
É que eu não sou um corredor de nascença, um sujeito musculoso e longilíneo, pau para toda obra, saltador, atlético, flexível e veloz.
Que nada. Sou mais baixo do que gostaria, mais pesado do que deveria, lento e preguiçoso.
Para correr, tenho de treinar. Fazer das tripas coração para ganhar coragem de sair da cama e, aos poucos, botar uma perna à frente da outra, dar um passo e mais outro.
O peso além do recomendado pelas tábuas dos mestres do exercício cobra sua conta, a velocidade não é a mesma, tudo precisa de esforço, concentração, determinação...
E é tão fácil desistir, tão fácil parar, tão fácil cair na preguiça.
Mas não quero. Passo por um riacho que corta a estrada pelas profundezas da terra e só vai aparecer murmurante lá embaixo, no meio da mata. Me alegro com ele.

Descanso subindo mais um morrinho, percebo que a estradinha rural está prestes a acabar, estou terminando o contorno da montanha, em breve volto para terreno conhecido.
É quando a preguiça me chama, pede para eu desistir. Negocio: vamos correr até a praia, convido meu corpo.
Será uma espécie de desafio à autoridade: meu treinador desrecomenda fortemente qualquer treino nas areias da praia. Mas é tão bom correr com a brisa marinha refrescando o corpo, o mar se fazendo de infinito ao meu lado...
Chego às areias da praia de constato que meu treinador tem razão: o terreno é por demais inclinado, cheio de ondulações perigosas, melhor obedecer às regras traçadas e seguir por outro caminho. Apenas capturo uma imagem para me acompanhar pelos quilômetros restantes.

São os piores. Mais duros, menos interessantes, mais quentes. O corpo já está dolorido, a idade pesa e a falta de determinação ajuda, mas um pouco de cabeça dura é suficiente para dar o contra na preguiça, na malemolência e no mimimi.
Sigo. E completo minha primeira corrida do ano. Dezesseis quilômetros suados e sofridos, mas alegres e bisbilhoteiros, pesquisadores de meus demônios internos, desafiadores de minhas fraquezas e fragilidades. Uma homenagem a 2016.
Que venham outros.

Vamo que vamo!! Feliz Ano Novo!

4.1.16

Primeiras impressões a respeito de um calçado de corrida chinês



A China vai dominar o mundo, dizem os entendidos, brandindo estatísticas econômicas e demográficas. Os quatro maiores bancos do mundo são chineses, o que já parece suficiente para exemplificar o poder desse grande país oriental.

No terreno esportivo, fizeram maravilhas nos Jogos Olímpicos de 2008, assombrando o planeta com os resultados de seus atletas, com a beleza das construções.

Naquele ano, aliás, o mundo foi brindado com o que talvez tenha sido o mais impressionante desempenho de um corredor em uma maratona olímpica, com a estupenda vitória do jovem Sammy Wanjiru.

Não surpreende, pois, que o país queira se estabelecer também como fornecedor de material esportivo para o mundo. É essa a missão da empresa que tem o estranho nome 361º (lê-se trezentos e 
sessenta e um graus).

Nunca tinha ouvido falar dela até o ano passado, o que apenas mostro com sou ignorante: a empresa nasceu em 2002 e a marca foi lançada dois anos mais tarde. Fornece equipamentos para seleções chinesas de várias modalidades e está hoje estabelecida na Europa, Estados Unidos e Brasil.

Ao longo dos últimos 20 dias, tive a oportunidade de testar seu modelo de ponta para corrida, o Spire. Trata-se de um calçado com bom amortecimento, para corredores de pisada neutra.

Segundo o material distribuído pela assessoria de imprensa, “o Spire é o top de linha da 361°, com o sistema de amortecimento QDP (Quick Dynamic Performance) – formado pela palmilha e entressola Quikfoam (EVA de diferentes densidades) e uma fina placa de EVA ainda mais densa (dura) sob a entressola para estabilização. O solado é de borracha, com esponja de borracha no antepé para reduzir o peso do tênis e aumentar o amortecimento e arco de TPU injetado para estabilidade. O cabedal é de Air Mesh para melhor ventilação, sem costuras no calcanhar, com aplicações estratégicas de TPU no contraforte. Tecido refletivo na biqueira e no calcanhar.”

Eu não dou muita bola para essas descrições supostamente mais técnicas. Quero saber, ver sentir o calçado, verificar se ele é firme onde tem de ser e flexível quando necessário.

Basicamente, o que todo aquele palavreado aí de cima quer dizer é que o Spire tem uma estrutura mais mais rija, sobre a qual são colocadas camadas para ampliar o conforto e o amortecimento.

O importante é que o objetivo é atingido. Ainda que não tenha o design feérico que as grandes marcas vêm adotando, o Spire é um calçado de boa qualidade, pronto para o trabalho.

Como se pode ver pela foto que ilustra este texto, trata-se de um modelo tradicional, nada daquela história de minimalismo ou drop 2 , drop 1, drop 0 (diferença, em milímetros, entre a altura do calcanhar e da parte da frente do calçado.

Donde se conclui que corredores ortodoxos, como eu, vão se sentir à vontade com o pisante. Ele é bem estruturado, firme; no calcanhar, isso é até um pouco exagerado para o meu gosto, mas não chega a causar desconforto. Corredores acostumados a calçados que “abraçam” o calcanhar talvez não gostem das “paredes” do Spire.

Do ponto de vista de amortecimento, me senti à vontade durante todo o tempo –fiz treinos de até 20 quilômetros com ele, rodando um total de mais de cem quilômetros no período de testes.

Quanto à aparência geral, achei meio mangolão; lembra os tênis que eu comprava no início do século... Talvez as combinações de vários tons de azul escuro tenham contribuído para essa impressão.

O preço sugerido no Brasil, R$ 549, é condizente com os modelos concorrente. O que me parece um erro; marcas que entram no mercado e querem cavar seu espaço costumam oferecer preços mais atraentes que os dos competidores.

Duvido que um consumidor vá deixar de comprar um produto que conhece tem preço semelhante apenas para experimentar um novo fornecedor. Mas os caras devem saber muito mais do que eu a respeito do comportamento do consumidor.

Aliás, essa parece ser a política da empresa nos vários mercados em que atua: nos EUA, por exemplo, o Spire custa US$ 140. O que o coloca na mesma faixa de preço dos top de linha de marcas mais conhecidas.

Enfim, é um tênis bom, confortável mesmo para corredores mais pesados. O preço, porém, não me parece compensador. E, para o meu gosto, não é dos mais bonitos.

Ah, faltou falar do nome da empresa, que me pareceu muito estranho. Qual seria o significado? Dar uma volta (360 graus) e andar mais um grau? Qual a vantagem disso? Não seria muito pouquinho?


Em minha defesa, registro que a própria empresa reconhece que muitos não entendem o raciocínio que existe por trás da marca. Mas eles explicam: “Um grau além dos 360 é um ponto que poucos alcançam e que muitos jamais entenderão. Para nós, um grau a mais é ir além. Além dos muros, além da zona de conforto, além do que se convencionou "o suficiente". Não importa se o limite parece próximo, se você está apenas iniciando a jornada ou se está recomeçando do zero”.

31.12.15

Mensagem de Ano Novo para os amigos, conhecidos, corredores e caminhantes deste planeta

Vamo que vamo!!!

Vamo que vamo!!!

Vamo que vamo!!!

Vamo que vamo!!!

Vamo que vamo!!!

Bueno, 5x tá bom, não tá??!!

29.12.15

Homenagem a Oswaldo Silveira, maratonista e maître campeão


O mundo das corridas e o universo da gastronomia perderam nesta terça-feira Oswaldo Silveira, exemplo de corredor e profissional. Aos 85 anos, trabalhou e treinou enquanto lhe foi possível, sem nunca deitar nos louros –chegou a ser campeão da maratona de Nova York na sua faixa etária. Ao longo dos últimos anos, tive oportunidade de fazer algumas entrevistas com ele. A mais recente foi publicada na edição de dezembro de 2013 na revista “O2”. A seguir, reproduzo aquele texto como mais uma homenagem a esse atleta sorridente e inspirador.

Olhou-se no espelho e percebeu que não dava mais. 
A cintura não estava tão garbosa como antigamente. A bem da verdade, a pança se expandia por vários centímetros além do recomendado pela elegância e pelos cânones da boa forma. Mas ele não precisava ouvir críticos: fazia sua própria avaliação, talvez mais rigorosa do que a de qualquer médico ou nutricionista.

“Eu estava ficando barrigudo, tomando muita cerveja, já não dava mais para jogar direito nas partidas de futebol na Freguesia do Ó, em Santana, no Jóquei Clube.”
Sentindo-se “pesadão”, Oswaldo Silveira, então com 54 anos, buscou ajuda de um médico. O doutor recomendou que entrasse numa academia de ginástica para tentar perder a barriga e que começasse a fazer regularmente algum tipo de exercício de forma regular –futebol no fim de semana, seguido por cervejada e churrascada não conta...
Silveira lembrou-se de seus primeiros tempos de futebol. “Eu era grosso, era ruim de bola, mas amava a bola. Certa vez, o técnico falou: `Olha, você não precisa jogar bola. Como você corre bem, você marca aquele cara lá, não deixa ele jogar, que já está bom`. O cara era o melhor jogador deles, corria muito, mas eu ganhava dele na corrida.”
Assim, quando teve de buscar um esporte para combater a pança crescente, optou pela simplicidade de botar uma perna na frente da outra o mais rapidamente possível. “O instrutor me levou para fazer uma corrida de 6 km no Ibirapuera, e eu me apaixonei. De lá para cá não parei mais.”
De fato, não parou mesmo. Hoje com 83 anos, Oswaldo Silveira contabiliza mais de dez maratonas no currículo de atleta amador, mais de 30 meias maratonas e dezenas (centenas, talvez, já perdeu até a conta) de provas em distâncias menores.
Todas feitas com o ardor e a disposição de quem gosta de dar o máximo em tudo o que faz: “Ganhei muitas o primeiro lugar nos 10 km da Tribuna, em Santos, e nas meias maratonas de São Paulo e do Rio. Fui campeão da meia de Gotemburgo, na Suécia, e de Miami, nos Estados Unidos, e segundo colocado na meia de Buenos Aires”.
E, em Nova York, é o rei de cabelos brancos: foi campeão da maratona, na sua faixa etária, em 2010. Antes, já conquistara um honroso segundo lugar e era recebido com carinho por todos. Tudo isso conquistado sem nunca deixar de trabalhar.
Silveira está prestes a completar 84 anos –a festa será no mês que vem--, mas continua trabalhando como se garoto fosse. Diz que um dos prazeres de sua vida é servir aos outros, coisa que fez ao longo de toda a sua carreira profissional, sempre trabalhando em restaurantes de hotéis –hoje atua em um sofisticado estabelecimento em Campos do Jordão.
Começou cedinho. Quando a maioria das crianças ainda está lutando para completar a primeira etapa do processo escolar, ele já se candidatava a uma vaga em hotel. Era uma forma de enfrentar a infância difícil.
Oswaldo nasceu a 13 de janeiro de 1930 em São Sebastião da Grama, pertinho de Poços de Caldas. A família era grande, e o pai pouco fazia para sustentar os nove filhos, seis homens e três mulheres.
“Meu pai tinha uma mão santa para curar pessoas. Dava remédios de homeopatia, era procurado por gente que vinha de longe. Ele não cobrava nada e ainda dava alguns remédios de graça, recebendo como recompensa como recompensa uma galinha, um porco, uma novilha...”
Isso nem de longe resolvia os problemas domésticos, e até hoje se percebe uma certa mágoa nas palavras do maître maratonista: “Meu pai não trabalhava, só enrolava, fazia os filhos trabalharem”. As coisas pioraram quando a mãe morreu: “Eu tinha sete anos, fomos jogados para o mundo, porque meu pai se casou de novo  com uma viúva, ela tinha quatro filhos, foi o fim do mundo”.
O jeito foi tratar de construir o próprio mundo. Com 12 anos, andando pelas ruas de São Paulo, bateu à porte de um hotel procurando trabalho. “Eu não tinha Carteira do Trabalho, porque era preciso saber as quatro operações matemáticas. Aprendi sozinho. Quando consegui, foi como se recebesse um troféu, o primeiro da minha vida.”
O começo foi como mensageiro: “Naquela época e nas minhas condições, equivalia a fazer tudo o que me mandasse fazer”. Ele tirava o pó dos móveis, buscava água nas fontes e trazia os garrafões cheios, pesadões, atendia a porta na madrugada, carregava malas.
Com alguns anos de trabalho, conseguiu promoção para commis (ajudante de garçom). Foi nessa função, ainda menor de idade, que conheceu a moça com quem iria se casar –o casamento já dura quase 60 anos, e o casal tem duas filhas.
A mulher não corre; as duas moças também não. Silveira, por assim dizer, corre pela família inteira.
Daquela primeira prova de 6 km no Ibirapuera, passou com elegância e galhardia para distâncias maiores: 10 km, meias maratonas. Mantinha sempre a disciplina e, já sessessão, foi enfim apresentado à maratona. O ponto de encontro não foi no asfalto nem nas trilhas, mas no restaurante em que trabalhava como maître –chefe dos garçons—, em um hotel de Campos do Jordão, na serra paulistana.
Todas as imagens são do Arquivo Pessoal de Oswaldo Silveira

Por causa da altitude –fica a mais de 1.600 metros acima do nível do mar--, das suas trilhas e da tranquilidade, a cidade é usada por maratonistas de elite como local de treinamento. Vez que outra, grupos de maratonistas amadores também aproveitam as belezas locais para inspirar sua preparação.
Foi o que aconteceu naquele ano, quando um grupo treinado por Wanderlei de Oliveira se hospedou no hotel em que Oswaldo trabalhava: “Eles me viram treinando e me convidaram para treinar com eles. Fomos dar uma volta ao mundo: é um treino de 22 km, diziam que quem conseguisse terminar aquele treino estava apto para correr a maratona de Nova York”.
Não preciso nem falar que o maître corredor –até então não maître maratonista—completou o desafio com louvor. Todo mundo ficou entusiasmado e as engrenagens da rede amigos do simpático senhor começaram a se mover para que Silveira pudesse dizer “Presente!” no asfalto de Nova York.
O patrão contibuiu com US$ 500, um freguês do restaurante entrou com as passagens, um parente que vivia nos Estados Unidos ofereceu hospedagem e lá se foi Oswaldo Silveira para sua primeira maratona no exterior, em novembro de 1994.
“Terminei a prova em 4h21min25. Tomei um trem para Port Chester, onde estava hospedado na casa de meu cunhado. Na estação, comprei uma cerveja e pedi um copo, mas me disseram que não podia beber na estação. Levei a garrafa fechada a viagem toda, só fui beber quando cheguei em casa. Queriam me entrevistar, mas eu pedi licença para dormir um pouco, dar uma descansadinha. Dormi duas horas direto, acordei quase bom.”
Se já gostava de correr, agora mesmo é que passou a adorar. Rendeu-se ao canto de sereia da maratona, virou o Maître Maratonista. No ano seguinte, com 65 verões já transcorridos em sua vida, voltou a Nova York para mais uma participação na maior maratona do mundo.
“Caí ao passar em uma das pontes e esfolei a perna e o braço.Um policial que estava em frente à ambulância me disse:`Come with me`[Venha comigo]. Eu agradeci, mas respondi que não. Ele insistiu: ´You must come!`[Você tem de vir], ao que retruquei que não tinha de ir coisa nenhuma. Ele mandou ver: “Go to hell!”[Vá para o inferno!]. E eu agradeci novamente: `Thank you very much!`. E segui na minha corrida.”
Terminou sete minutos mais lento que no ano anterior, mas melhorou a posição na faixa etária, passando do 187º lugar para a 176ª colocação, com 65 anos. Mais de dez anos se passaram até que ele retornasse à maratona norte-americana –coisas da vida. Em compensação, voltou arrasando: esteve no pódio em todas as edições da maratona de Nova York em que participou desde então.
A mais bacana foi exatamente a corrida da volta, em 2007, quando foi vice-campeão na faixa etária –estava com 77 anos. “Havia 36 concorrentes na minha faixa. Corri vestindo meias brancas, calção preto e camisa vermelha onde meu nome estava escrito com letras bem grandes. Eu passava sempre pela direita e o pessoal gritava, `GO OSWALDO, GO BRAZIL`. Emocionante.”
Fosse pelo entusiasmo, fosse pelo apoio do público ou pela força e resistências construídas nos duros treinos em Campos do Jordão, Silveira fez então seu melhor tem no chamada Big Apple. Cortou nada menos do que 15 minutos em relação à sua marca de 1995, completando no tempo líquido de 4h13min38. No total, foi o 16.056º colocado entre 38.607 concluintes.
Assim sim! Ali era o seu lugar. Ainda pegou um terceiro posto em 2009 e, aos 80 anos, em 2010, chegou para ser campeão.
Fazia treinos de 26 km, ida e volta de uma choperia no centro de Campos do Jordão até o horto florestal; seus treinos de 20 km era ida e volta até o Belvedere, na estrada de Campos a São Paulo.
Chegou a fazer  296 km em um mês no processo de preparação. Além dos treinos de mais de 20 km que já fazia, ainda realizou dois longões de 30 km cada um. Para fortalecer o corpo, muito peixe, massa, legumes cozidos, saladas e doces, que ninguém é de ferro. A comida é moderadamente irrigada por suco de cevada (mais conhecido por cerveja), vinho e um uisquezinho de vez em quando.
O sujeito tem de estar bem para largar. E, uma vez tendo sido dada a partida, precisa ter ânsia de vencer.
“Saí na onde 2, eram três grupos, cada um saindo de uma ponte e se encontrando depois lá na frente. Foi quando teve o engarrafamento e eu segui `costurando`para fazer as ultrapassagens. Mandei bordar meu nome bem grande na camiseta e no gorro, a multidão gritava `GO, Go, GO`. Falavam `Oswaldo`, `isaldo`, `Valdo`, incentivando.”

Bem diz o ditado, porém, que “o apressado come cru”. Oswaldo acredita que aquele zigue-zague em busca de ultrapassagens, atrás de conquistar um posto mais à frente, por mínimo que fosse, acabou por prejudicá-lo: “Aquilo me desgastou um pouco. Fiz os primeiros 10 km em 56min, mas a meia maratona me tomou 1h56. Apesar disso, estava muito empolga, sentia que poderia ser o primeiro na minha categoria. No km 25, senti uma fisgada na barriga da  perna esquerda. Aquilo me assustou, diminuí o ritmo e não tive mais confiança. Mas no fim estava bem”.

O octagenário atleta completou no tempo líquido de 4h33, a sua pior marca em maratonas –a melhor foi 3h59 em Paris, em 1998, com 68 anos. “Mas foi a melhor. De noite, não conseguia dormir, lembrando a multidão que gritava meu nome. Quando cheguei a São Paulo, a TV me esperava em Cumbica para me entrevistar...”

A fama e as homenagens –no ano passado, saiu um livro sobre sua vida, “Correndo para Viver, Vivendo para Servir”, de Celly Adelina Monitor—não mudaram sua rotina de trabalho e de treinos. Não mudaram também os cuidados que dá ao corpo em cada prova, em cada momento de preparação: “Depois de alguns quilômetros, em uma prova, você precisa se analisar: ver os dedinhos do pé, o calcanhar, o tornozelo, a barriga da perna, o joelho, a coxa, a barriga e depois você vai subindo até a cabeça para você se analisar como é que você está. Porque tem pessoas que sentem dor em lugares diferentes, não é? Você precisa sentir como é que você está”.´
É uma regra básica para todos os corredores, ouvir o corpo, mas nem sempre a gente a cumpre. Também há muitos que não cumprem a recomendação de começar aos poucos, que Oswaldo faz, do alto de sua experiência de quase 30 anos de corrida:
“Primeiro, é preciso andar bastante e não deixar de fazer check-up. É importante saber onde tem algum defeito. Começar andando, correndo devagarinho e vai aumentando. Vai aumentando a carga horária. Se alimentar bem. Não dormir muito. Não pode dormir muito. Não dá tempo.”
Digamos que a receita não tenha unanimidade no que se refere às horas de sono –nesse terreno, como diz o povo, é cada um com seu cada qual. Mas as demais recomendações são referendadas por técnicos e manuais de corrida...
Mas Oswaldo é um corredor que vai muito além dos manuais. Basta ver como termina e começa sua semana:
“Trabalho atualmente em um hotel em Campos do Jordão, de quarta-feira no jantar, quinta, sexta e sábado no café da manhã, almoço e jantar. No domingo, trabalho no café da manhã e almoço; em seguida, vou para São Paulo e danço das 19h às 22h.”
Frequentador do clube Piratininga, não escolhe ritmo para rodopiar pelo salão, mas gosta mesmo de samba. No dia seguinte, acorda cedinho para o treino com sua equipe, no Ibirapuera. Aconteça o que acontecer, não abandona a corrida: “É preciso ter determinação, mas esse sacrifício vale a pena para que se conquiste a longevidade com saúde e com qualidade de vida”.






  

14.12.15

Guinness reconhece recorde de ultramaratonista brasileiro


Para quem gosta de ter tudo registrado, documentado, letra por letra, tintim por tintim, a coisa já está sacramentada, carimbada, arquivada e distribuída para o mundo: o analista de sistemas Marcio Villar, carioca de 48 anos, é recordista mundial de distância percorrida em esteira durante uma semana.

Ele bateu o recorde em junho passado, em um shopping do Rio de Janeiro, correndo 827,16 quilômetros. Com toda a burocracia e análise de documentação comprobatória, o Guinness só veio a oficializar o registro recentemente (confira AQUI).

Eu fiz uma reportagem sobre o caso para a Folha (leia AQUI).

Agora, publico para você a entrevista completa que fiz com Marcio Villar, que ficou tão feliz com a notícia do registro no Guinness que tatuou no pescoço a logomarca da empresa.

Fotos Arquivo Pessoal 


Qual a importância de ter um recorde mundial reconhecido pelo Guinness?
É a realização de um sonho, do reconhecimento do trabalho, não tem dinheiro que pague. Foram cinco anos sonhando com esse recorde. Estou cadastrado desde 2011 no Guinness para tentar bater o recorde, mandando o projeto para varias empresas e só recebendo não, a pior coisa que tem para um atleta é saber que tem capacidade e ninguém acreditar em você. Mas, se não desistir, tendo foco e determinação, uma hora você chega lá.

Quando e onde você quebrou o recorde mundial de corrida em esteira durante uma semana?
Foi no Americas Shopping, no Recreio de 27\06\2015 a 04\07\2015. Arrecadei duas mil latas de leite em pó para o hospital do cancer.

Como você se alimentou durante o período?
Procurava comer coisas pastosas tipo purê, sopa, açaí, caldo de cana, paçoca, refrigerante, isotônicos e frutas.

Havia intervalos para dormir e ir ao banheiro?
Dormia de duas a três horas por noite, quando a dor no corpo deixava. Na última noite não pude dormir para poder conseguir bater o recorde. Tive que correr dando tapa no meu rosto para me manter acordado.

Houve, durante a semana do recorde, algum momento depressivo, em que pensou em desistir?
Nas últimas 36 horas eu tive que buscar 200 km, isso com o tendão do pé esquerdo rompido e a coxa direita com estiramento. Corria chorando de dor o tempo todo.

Na última noite não podia dormir para poder recuperar o tempo perdido. Eu corria jogando água na cara para me manter acordado. Minha esposa gritava para eu abrir os olhos, o shopping cheio de amigos a madrugada toda dançando e cantando para me incentivar e não me deixar dormir.

Porém quando deu 4 da manhã pedi dois minutos de silencio, sentei na esteira, cobri a cabeça com a toalha e falei para mim mesmo,"já era, não dá mais, acabou, não tenho mais força, estou caindo da esteira de sono e dor".


Então, do nada, não sei de onde, veio a ideia de dar tapa no meu próprio rosto e comecei a dar tapas, o rosto começou a arder, levantei e subi na esteira, o shopping veio abaixo com todo mundo vibrando, acelerei a esteira de uma vez só (parecia que o Brasil tinha ganho a copa), todos vibravam sem parar, me animei e corri o resto da madrugada dando tapa no rosto.

Depois amanheceu, despertei, e encaixou o ritmo, conseguindo superar o recorde as 11h15. Até o meio-dia consegui colocar mais 5 km na frente.
Quando acabou, dei a volta olímpica no shopping, fui para capela assistir a missa de agradecimento e depois fui para casa na cadeira de rodas.

Como você se preparou para o desafio de tentar quebrar o recorde?
Foram seis meses correndo dia e noite na esteira me preparando fisicamente e mentalmente.

Por favor, cite algumas de suas principais conquistas anteriores.
Sou o único atleta do mundo a triplicar a Ultra dos Anjos -705 km de montanhas, único atleta do mundo a triplicar a Brazil 135 correndo 651 km de montanhas, único atleta do mundo a dobrar a Jungle Marathon correndo 509 km dentro da Floresta Amazônica, recordista da double da Badwater correndo 434 km com 60°C de temperatura no deserto do Vale da Marte em 79 horas e primeiro atleta do mundo a completar a Copa do Mundo de ambientes extremos

Quando começou a ser profissional de ultramaratonas?

Eu era analista de sistemas, mas me sentia preso a um escritório e infeliz. Hoje faço o que amo e isso não tem preço. Há dois anos que decidi arriscar tudo, largando o emprego para montar a loja e fazer palestras. Hoje minha principal fonte de renda são as palestras. A loja virtual também é muito importante, vendo meu livro e material esportivo.