21.2.16

Manoel separou sua vida familiar da militância sindical nos metalúrgicos

A rua Ibó vai de posto a posto, pode-se dizer. Nasce na esquina com a avenida Regente Feijó, grande artéria da zona leste de São Paulo; ali, do lado esquerdo, o lado ímpar da rua, há uma venda de gasolina.

De marca diferente, mas quase igual em tamanho, o outro posto fica no extremo oposto, no lado par da Ibó, quando ela se encontra com a avenida Sapopemba, uma das vias mais emblemáticas da cidade, marcante na história de São Paulo e dolorosa na carreira deste corredor.

A Sapopemba foi mote de debates, comentários, piadas e provocações durante a campanha eleitoral para a prefeitura paulistana, nos idos de 1985.

Com uma só frase, o ex-presidente Jânio Quadros (1917-1992) derrubou a empáfia de seu oponente, Fernando Henrique Cardoso, que se licenciara do posto de senador não eleito (suplente de Montoro, assumiu quando o colega de partido venceu as eleições para o governo de São Paulo, em 1982) para disputar o executivo municipal.

Jânio quis saber se o sabe-tudo FHC sabia onde ficava Sapopemba. A blague desarmou o peemedebista e deixou sua equipe em polvorosa –os assessores chegaram a montar polpudos dossiês sobre a avenida que corta a zona leste paulistana.

A Sapopemba também cortou meu coração. Para ser mais exato, meu joelho; para ser mais exato ainda, a cabeça da tíbia direita, o platô onde se insere a rótula. Foi ali que tive minha segunda fratura por estresse na minha curta, mas movimentada, carreira de corredor. O fato se deu em 2013, quando percorri a avenidona de cabo a rabo, num projeto para homenagear os 460 anos de São Paulo (saiba mais clicando AQUI).

Pois foi pela Sapopemba que cheguei à rua Ibó, para onde Manoel Fiel Filho levou sua jovem esposa em 1954. Naquela rua, em uma casa que hoje já não existe mais, moraram logo depois do casório.

Final da rua Ibó, no ponto em que ela se encontra com a avenida Sapopemba - Fotos Rodolfo Lucena


Lá viveram por muitos anos, lá viram as filhas crescerem –de lá viram a mais velha sair para construir sua própria família.

Naquela época, quando o século passado começava sua segunda metade, a região da Água Rasa, nas cercanias da Mooca, já vivia a efervescência industrial de que hoje vemos ruínas.

Correr num domingo pela rua da Mooca é como visitar uma cidade fantasma, pelo menos em seus primeiros quarteirões. Se, durante a semana, a região vive em burburinho, quando o comércio fecha o silêncio toma conta da via.

Cruzando o viaduto sobre os trilhos do trem –espécie de marco divisório entre a região central da cidade e a zona leste--, dá para ver os telhados de enormes construções que um dia abrigaram armazéns ou máquinas de agitadas metalúrgicas –hoje são ruínas.



Nesse cenário pouco empolgante, cinzento, sigo na corcoveada rua –são subidas e descidas leves, ao longo de três ou quatro quilômetros. Presto atenção nas transversais, pois é uma delas que vai me levar à Água Rasa. Nisso, sou surpreendido por uma rua que homenageia a atriz francesa Sarah Bernhardt (1844-1923); a lembrança é curiosa em meio a um monte de ruas em que são lembradas figuras não muito conhecidas do passado paulista e brasileiro. Dois quarteirões depois, como a me dizer que o tonto sou, e que homenagens nas cidades podem ser feitas a quem se queira, quando se queira, vem um rua que celebra a heroína francesa Joana D`Arc (1412-1431).

É melhor eu prestar atenção no trajeto, se não logo me perco.

Mas não: acerto o passo descendo a rua do Acre, cruzo a avenida Salim Farah Maluf, subo a primeira e dolorida lomba da icônica Sapopemba e logo me dou de cara com meu destino de hoje, quinto dia da CORRIDA POR MANOEL.

Metalúrgico quando morreu, Manoel tinha sido antes padeiro e cobrador de ônibus. Quando morou na rua Eli, onde conheceu sua futura esposa, ainda não era operário. Mas ganhava o suficiente para sustentar família e foi acolhido pelos pais de dona Thereza.

O namoro se deu à moda da época, e o casório também seguiu a apropriada liturgia. Apesar dos ganhos modestos –o pai de Thereza trabalhava na limpeza de ruas, e ele mesmo era tecelã--, a família da noiva tratou de produzir o casamento com a pompa que lhe era possível.

Ela estava linda, exultante, quando passou pelo corredor da grandiosa igreja da Vila Formosa. Na rua São Caetano, a “Rua das Noivas”, tinha garimpado um vestido que lhe caía no corpo com perfeição. A tiara e o véu que usou no dia ainda hoje arrancam suspiros da filha mais velha: “Olha isso!”, diz Aparecida, 60, mostrando a foto do casamento dos pais.

Dina Thereza mostyra imagem de seu casamento com Manoel - Foto Eleonora de Lucena


No civil, o enlace se deu no dia nove de dezembro de 1954; dois dias depois, aconteceram as núpcias no religioso. O novo casal foi morar em uma casinha nos fundos da casa dos pais de Thereza, na Água. O endereço era rua Ibó, 340 –em alguns documentos, porém, o nome da rua aparece grafado de maneira diferente.

“Fomos morar nos fundos da casa de minha mãe”, confirma dona Thereza em entrevista para este corredor. Era um conjunto movimentado, a julgar pela lembrança da filha mais velha, Aparecida.

“Morava a minha avó com meu avô na frente, nós na casa na sequência.  Morava a mãe, eu e o pai, e a minha avó alugava uma casinha que tinha do lado. Sempre tinha inquilino novo.”

Quando Aparecida nasceu, o pai já estava de emprego novo. Tinha finalmente iniciado carreira como metalúrgico. Na função de serralheiro, entrara em 19 de julho de 1956 na Indústria de Móveis Cromados, que funcionava na avenida Santo Amaro, 622.

Reprodução de regsitro de Manoel Filho Filho no Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo


Talvez por ser o emprego muito longe de sua casa, Miguel não ficou muito tempo naquela empresa.  No ano seguinte já estaria na Metal Arte, onde ficou por 19 anos –seu último dia de trabalho foi a sexta-feira 16 de janeiro de 1976, quando dois policiais não identificados o levaram dando explicações esfarrapadas para o sequestro.

Na rua Ibó a família ficou por longos anos. As filhas guardam de lá memórias gostosas. “A gente ficava muito em casa, tinha um quintal, tinha galinha, árvores”, lembra Aparecida.

A casa onde morou a família de Manoel Fiel Filho ficava à esquerda desse conjunto, um dos mais antigos da rua Ibó 



Quando era preciso algum reparo, Manoel assumia a responsabilidade. E ensinava para as filhas algumas tarefas. “Ele pintava as casas dos vizinhos”, conta a viúva. “Nós também pintávamos, na brocha”, diz Aparecida. “Ele não tinha filho homem, tinha de ser as mulheres mesmo”, completa Márcia, a caçula.

Também era rigoroso. “Gostava de limpeza, não podia ver um cisquinho”, fala dona Thereza. “Engraxava nossos sapatos, os de ir à escola”, diz a filha caçula.

Mesmo quando as meninas cresceram. Manoel não abandonou os cuidados, conforme conta Márcia: “A minha irmã estava grávida da primeira menina dela, casou às pressas, meu cunhado também não ganhava muito bem. Sábado, meu pai ia lá na feira perto da casa dela, enchia a sacola de frutas e legumes e levava para eles. Saía de casa, não falava onde ia”.

Cuidava da filha casada e não tirava o olho da que tinha ficado em casa, adolescente ainda. “Às vezes eu estava na casa de uma amiga, ele aparecia: `Vim te buscar`. Não tinha carro, era de ônibus. Ele saía atrás de mim. Com 15 anos eu estudava e trabalhava. Trabalhava na Casas Buri, perto da Vinte e Cinco de Março, na Barrão Duprat. A escola era [Escola Estadual] André Xavier Gallicho, na Rua da Mooca [4650]. Três quadras antes de acabar a Rua da Mooca”.

Manoel e Thereza, à direita, com parentes na casa da rua Ibó


Manoel fazia um bom bacalhau nos encontros da parentada, gostava de ouvir Elis Regina, adorava o Corinthians e, com a turma da família, evitada discutir político ou religião –“meu pai era completamente ateu”, fala a caçula, Márcia, 56.

Fosse por seu estilo calado, fosse por preocupações com a segurança da mulher e das filhas, o certo é que Manoel não costuma comentar em suas atividades sindicais.

Quando pergunto às filhas o que elas lembram da vida profissional de Manoel, quem responde é Aparecida: “A única coisa que a gente pode te contar com certeza é que a gente não sabia de nada em que ele participava”.

Dona Thereza confirma, falando como se o tempo tivesse parado: “Nós fomos saber agora”.

“Ele era muito certinho nos horários dele. A única coisa é que ele ia ao sindicato”, diz Aparecida. “De sábado ele falava: `Preciso ir no sindicato`. Era o Sindicato dos Metalúrgicos”, completa a mãe.

Depois da morte de Manoel, em encontros com antigos colegas de trabalho ou de atuação sindical, a família foi descobrindo coisas. Informações nebulosas, nada em que se possa por certeza.

Aparecida conta: “Falam cada coisa. Falam que ele ia para Minas fazer palestra... O que é lenda e o que é verdade?”

“Meu pai está parecendo agente secreto”, brinca Márcia.

Aparentemente, porém, os amigos sabiam ou imaginavam que Manoel talvez estivesse na mira dos informantes da ditadura militar, talvez sua atividade sindical –era delegado sindical, representante de fábrica—tivesse chamado atenção.

Dona Thereza lembra de um encontro no sindicato –provavelmente uma homenagem a Manoel— em que amigos do operário contaram que ele tinha sido aconselhado a fugir, a sair do Brasil.

“Como é que eu vou se a minha mulher não está sabendo de nada? Eu não tenho dinheiro para ir. Como é que eu vou?”, teria perguntado Manoel, recusando o caminho da fuga.

Dona Thereza conclui, as lembranças já lhe tomando conta das emoções: “ Ele ficou para morrer, para matarem ele”.



Corrida por Manoel - Dia 5
Destino: rua Ibó, 340 (15,24 km feitos em 2h08min18)
Distância acumulada: 51,82 km





20.2.16

Contra o preconceito e a discriminação, esportistas realizam Caminhada pela Inclusão Social

Negra e cega, Dinacleia Galdino não se apequena frente às adversidades que a vida lhe impôs nem se rende ao preconceito. Trabalha e garante o próprio sustento, circula pela cidade acompanhada por Ellie, seu cão-guia, e pratica esporte com rara determinação.

Cleia, como é chamada pelos amigos, é uma corredora entusiasmada. Afinal, o esporte foi uma das formas que ela encontrou para se manter disposta e de espírito alerta depois que perdeu a visão em 2005, aos 28 anos, por causa de um tipo de retinose.

Dinacleia Galdino, 39, maratonista cega que foi insultada por cilcista enquanto treinava nas alamedas da USP - fotos Eleonora de Lucena

Claro que os primeiros tempos foram duros, mas aos poucos a batalhadora Cleia foi se reaprumando. Manteve, por algum tempo, o trabalho que desenvolvia antes da doença –é formada em fonoaudiologia—, e descobriu a corrida.

Foi por incentivo de um amigo que começou a dar seus primeiros trotes, em 2008. No início, foi só para se manter alerta, mas logo vieram as corridas de rua.

Para encurtar a história: em janeiro de 2015, sete anos depois das primeiras e tímidas passadas, Cleia virou maratonista. Fez sua estreia em uma prova na Disney, nos Estados Unidos.

Como tinha de treinar bastante, resolveu logo de cara chutar o pau da barraca, enfrentando pedreira que muito maratonista experiente prefere evitar.

Fez o Desafio do Dunga, que consiste em correr, em quatro dias seguidos, uma prova de 5 km, uma de 10 km, uma meia maratona e uma maratona. 

Coisa para poucos, tontos ou doidinhos como era o simpático anão Dunga, da história da Branca de Neve e os Sete Anões.

Claro que ela arrastou na empreitada sua guia, parceira de corrida de todas as horas. A fisioterapeuta Lúcia Guimarães, 52, corre desde 2003 e atua como guia há dois anos.

Lucia, Cleia e Ellie lideram a cCaminhada pela Inclusão realizada nas alamedas da Cidade Universitária - Foto Rodolfo Lucena

Foi pegar logo uma figura entusiasmada e decida como a Cleia; o resultado é que, também para a Lúcia, a primeira maratona não teve só os tradicionais 42.195 metros, mas sim um pacote de quase 80 quilômetros em quatro dias seguidos.

É com Lucia que Cleia treina, nas alamedas da USP, três vezes por semana. 

E foi com ela que a deficiente visual ouviu a reclamação feita por um ciclista, em altos brados: “Puxa, agora até cego treina aqui na USP?!?!”  Como a dizer: “Sai daqui, coisa ruim!”

Quando a notícia se espalhou, muitos corredores e outros deficientes físicos que praticam esporte na USP também ficaram revoltados.


Dessa indignação nasceu a Caminhada Pela Inclusão Social, realizada hoje nas alamedas da USP, o mesmo terreno em que, há uma semana, Cleia foi ofendida e humilhada.

Decidi fazer um breve intervalo em meu mergulho corrido na história de Manoel Fiel Filho para participar da jornada pela inclusão. Acredito que meu homenageado, que era um batalhador pela democracia, apoiaria minha decisão.

A concentração foi em uma das travessas da chamada rua da Raia, entre o Velódromo e o Crusp, o centro residencial dos universitários.

Éramos umas poucas dezenas. Havia cegos, gente sem braço, deficientes auditivos, esportistas em cadeiras de rodas; e havia gente com visão, pernas, braços e audição, todos juntos na mesma jornada, que é um dos aspectos da luta contra a discriminação, a luta pela democracia.



Alguns vestidos de branco, outros com as camisetas coloridas de guia, seguimos todos em duplas unidas pela tradicional cordinha usada por deficientes visuais e guias durante treinos e corridas. Os que temos visão caminhamos de óculos escuros, como a dizer que estamos todos juntos na mesma balada.

Que, como várias pessoas destacaram, ao longo da caminhada, não é para pedir espaço para um cego ou para alguém que perdeu uma perna ou um braço ou não ouve ou não fala bem: o espaço é de todos e a sociedade tem de se abrir para todos e dar oportunidade a todos –é um dos caminhos para termos uma mundo melhor, mais justo e solidário.


Ou, como disse Dinacleia Galdino: “Eu gostaria que todos se conscientizassem de que tem espaço para todo mundo, que qualquer pessoa com deficiência pode praticar esporte, desde que tenha adaptação para isso. Assim como todo atleta gosta de ser respeitado, ele também tem de respeitar os outros”.



CAMINHADA POR MANOEL - Dia 4

Percurso de 4 km na Cidade Universitária, realizado em 1h04min
Quilometragem acumulada: 36,58 km


19.2.16

Dona Thereza sai do tear para construir sua vida com Manoel

Eram enormes aquelas máquinas!!! Maiores ainda, gigantescas, monstruosas no olhar pela menina miúda que se arriscava a dominar aquelas engrenagens, comandar os teares, transformar fios em tecidos.

Ainda hoje, quase 70 anos depois, Thereza Fiel Filho parece se impressionar com o tamanho das máquinas. Abre os braços, alonga-os para cima, como a descrever algo muito além da compreensão humana.

Não eram. Com apenas 14 anos, Thereza ingressou na fábrica de tecidos das Indústrias Reunidas Francesco Matarazzo. Nunca sofreu um acidente, mas lembra que, de vez em quando, batia a cabeça em alguma volta das engrenagens.

Ela precisava ajudar a família, de imigrantes portugueses que desembarcaram no Brasil nas primeiras décadas do século passado para buscar uma vida melhor, talvez fugindo das agruras vividas na Europa depois de Primeira Guerra Mundial.

Nem dona Thereza nem suas filhas lembram exatamente das origens e das datas envolvendo os avós, seu Reis e dona Ana Maria. Sabem que eram portugueses legítimos, um de Bragança e outro de Trás-os-Montes. E sabem que o avô não tinha tempo para nada, estava sempre trabalhando.

Ele cumpria o turno da noite, atuava naqueles caminhões enormes de limpeza. Equipado com grandes vassourões, os veículos varriam as ruas no período noturno, jogando a sujeirada para a sarjeta, preparando tudo para o trabalho dos garis.

Tão ocupado era o seu Reis que não pode registrar a pequena Thereza no dia mesmo em que ela nasceu --nem na semana seguinte.

A futura esposa de Manoel Fiel Filho veio ao mundo em 15 de outubro de 1932, mas o pai só acabou por registrá-la em três de novembro.

Outubrina ou novembrina, era uma menininha aquela que saía da casa dos pais, na Água Rasa, para ir trabalhar no complexo empresarial criado pelo conde Francesco Matarazzo.
Complexo de indústrias na região da Celso Garcia na década de 1940; ao centro, mais para adireita, prédio central da IRFM - reprodução de foto histórica publicada em www.facebook.com/industriasmatarazzo/
No terceiro dia do projeto CORRIDA POR MANOEL, saí de casa buscando o mesmo destino onde, há mais de sessenta anos, Thereza Fiel batia ponto dos os dias.

Descendo da região do espigão da Paulista, vou direto para o centro velho de São Paulo, cruzo viadutos, passo sobre a linha de trens –os trilhos são o primeiro marco divisório, espécie de cerca separando a região central, rica e movimentada, da periferia. É para lá que vou.

A rua do Gasômetro, repleta de lojas de ferragens e madeiras, é o caminho até o largo da Concórdia, onde ambulantes vendem desde produtos usados a camisetas de grife. Daí é um pulo até a Celso Garcia, avenida que há mais de 400 anos é uma espécie de porta oficial de entrada –ou saída, claro—da zona leste de São Paulo.

Sua história começa ainda no Brasil Colônia, ensina texto da faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da USP. Por lá passavam as romarias que seguiam para capela da Penha, fundada em 1667; antes do nome atual, chamou-se Estrada da Penha e Caminho do José do Brás.

No início do século passado, a Avenida Celso Garcia começa a ganhar grande número de comércio, cinemas, casarões de famílias afluentes e muitas fábricas.

Talvez para celebrar esse passado, uma construtora resolveu dar a um modesto prédio de construção sisuda o nome de Olga Benário Prestes (1908-1942), mulher do líder comunista Luiz Carlos Prestes (1898-1990).


A homenagem à combatente pela liberdade assassinada pelos nazistas parece deslocada do entorno em que está instalado o pequeno prédio: igrejas e templos das mais diversas denominações religiosas. Ao lado do edifício, por exemplo, fica o Ministério Mudanças de Vida.

Um pouco antes, no caminho de quem vai do centro para o bairro, há uma casa de orações da igreja Universal, depois o portentoso Templo de Salomão e, à frente dele, do lado par da rua, igreja São João Batista do Brás.

Talvez Olga se sentisse melhor em outra companhia, a dos trabalhadores que viveram na quase vizinha Vila Maria Zélia, construída a poucos quarteirões da avenida Celso Garcia, na rua dos Prazeres.

Primeira vila operária do Brasil, a Maria Zélia foi inaugurada no ano da graça de 1917. Marco do processo de industrialização do país, o conjunto habitacional foi construído para abrigar as famílias dos 2.100 operários que trabalhavam em uma indústria têxtil, a Companhia Nacional de Tecidos de Juta, do jovem magnata Jorge Street.

Sua construção naquela região é mais um indicador de como o bairro, nas primeiras décadas do século passado, estava em franco progresso. Hoje, porém, a Vila Maria Zélia, ainda que de reconhecida importância histórica, sofre do mal do esquecimento.



A maior parte das casas foi reformada pelas famílias que compraram as residências. Há ainda grandes e antigos prédios em tristes ruínas.

Convênios entre diversas instâncias do governo foram assinados para promover o restauro, e há placas nos prédios informando isso, mas o fato é que, pelo menos ao olhar deste corredor que hoje passou por lá, nada de concreto parece estar sendo feito.

Exatamente o oposto do que ocorria nos anos 1920, 1930, 1940. Tudo era novo, cuidado, em funcionamento. Grandes complexos empresariais tomavam conta do entorno da avenida Celso Garcia, a começar pelo conjunto da IRFM, cuja porta de entrada era no número 1907.

Lá Thereza mourejou por sete ou oito anos, não se recorda mais com certeza. Sabe , porém, que largou o emprego quando casou com Manoel. Sua missão, a partir dali, seria construir família.

Provavelmente nunca mais voltou para ver o que aconteceu com a fábrica de tecidos onde, menina ainda, dominava aquelas máquinas enormes.

Pois fábrica não há mais. No terreno onde há décadas se ouvia o barulho de engrenagens e circulavam operários em faina intensa, hoje há prédios orgulhosos e movimentado centro comercial.



São 28 torres, conta o pessoal da segurança do enorme condomínio. Nos edifícios de centenas de apartamentos, moram 8.000 pessoas; se o conjunto fosse uma cidade, seria maior do que mais de um quarto dos municípios brasileiros.
Dia 3 - Corrida Por Manoel
Percurso: 14 km concluídos em 1h47min48
Quilometragem acumulada: 32,58 km




 


18.2.16

Na rua Eli, Manoel Fiel Filho conheceu o amor de sua vida

Quando nasceu, a rua Eli era uma coisiquinha de nada. Tinha uma casa ali, outra acolá, no meio de um loteamento aberto no início dos anos 1920 pela Companhia Paulista de Terrenos. Só virou rua mesmo, de verdade, com registro na Prefeitura, anos mais tarde: foi entregue ao trânsito público em 1928, por ato assinado no dia 24 de agosto.

Eram apenas dois quarteirões, começando na rua Curuçá, já uma rua importante na Vila Maria –região norte de São Paulo—e terminando em uma leve subida, encostando na rua Araritaguaba, que hoje é larga e bastante movimentada.

Como gente, a rua Eli cresceu, espichou-se, ganhou corpo e comprimento. Novas glebas foram sendo incorporadas, expandia-se o número de quarteirões –os anos de 1940 e 1941 foram de grande expansão, com vários decretos municipais determinando ganhos de área. Apesar da importância crescente no bairro –notada pelo aumentando de quilometragem--, arquivistas, administradores e outros funcionários envolvidos nos registros se esqueceram ou nunca fizeram questão de nos contar a razão e o por que da denominação da artéria.

Vista da rua Eli a partir de seu ponto mais alto, na parte final -- Fotos Rodolfo Lucena


Para os que lá moravam, não fazia diferença, por certo. Chegava-se lá por precisão, necessidade, oportunidade. A rua abrigava gente trabalhadora, operários metalúrgicos, trabalhadores em tecelagens. Apesar do trabalho pesado, os ganhos eram poucos.

Quem podia construía uma peça nos fundos do quintal ou liberava um cômodo da casa para alugar para outros ainda mais precisados, que estavam a recém construindo a vida independente.

Era o caso, no final dos anos 1940, de Manoel Fiel Filho.

Nascido em família pobre, 14º de 17 filhos de um trabalhador do campo, desde pequeno enfrentou a enxada e a terra seca em Quebrangulo, no interior de Alagoas, a cerca de 130 quilômetros de Maceió.

A vida ficou mais difícil depois que a mãe morreu, e o pai teve de cuidar da casa, da roça e do sustento da filharada, que nem sempre tratava com a maior gentileza do mundo.

“Meu avô era um carrasco”, diz a filha caçula de Manoel, Márcia, que hoje vive em Bragança Paulista. Talvez fosse a dureza do cotidiano: “Eles eram sofridos”.

Uma hora não deu mais para Manoel. Com 17 anos, juntou o pouco que tinha, arregimentou os trocados que conseguira economizar, uma muda de roupa ou pouco mais e encarou horas a fio na traseira de um caminhão para chegar a São Paulo.

Foi buscar seus sonhos viajando num pau de arara –o mesmo apelido de instrumento de tortura usado nos porões do DOI-CODI, onde, mais de vinte anos mais tarde, Manoel iria ser assassinado.

Chegou à cidade grande sem saber fazer muita coisa: tinha a experiência das lides do campo e a vontade de trabalhar, ganhar o próprio sustento, conquistar uma vida melhor.

Conseguia um emprego, aprendia o ofício, avançava. Depois de alguns anos em São Paulo, trabalhou em padarias. Depois, foi ser cobrador de ônibus, uma linha que cruzava pela Vila Maria, onde Manoel já morava.

Primeiro, dividiu espaço em uma casa com seu amigo Antonio Pereira, eletricista de profissão. Mais tarde, foi viver nos fundos de uma casa na rua Eli. Lá conheceu o amor de sua vida.

E foi para lá que parti nesta manhã, no segundo dia de minha CORRIDA POR MANOEL. Queria mergulhar na história do cidadão e também aprender um pouco do que as ruas nos contam sobre a cidade em que vivemos.

Meu caminho cruzou a cidade do oeste ao nordeste. Cedinho, desci correndo a Consolação, passando pelo maior shopping a céu aberto de lustres no mundo –pelo menos, no dizer dos lojistas da região.

Logo ao ver o prédio onde funcionou, décadas atrás, o famoso bar Redondo, quebrei para a esquerda, enveredando pela avenida Ipiranga. Bem antes de chegar à festejada esquina com a São João, passei pela não menos famosa boate Love Story.

Inacreditável: às 7h24 de uma quinta-feira, a “casa de todas as casas”, onde o povo que trabalha na noite se reúne depois do expediente, estava bombando. 

O som do baticum chegava à calçada, onde alguns frequentadores ainda se cumprimentavam afetuosamente. Pensei até em fotografar o ambiente, mas o olhar pouco amistoso dos seguranças estilo armário me fez desistir da ideia...



No caminho para a avenida do Estado, passei ao largo do belo e octogenário prédio do Mercado Público, projetado pelo arquiteto  Francisco de Paula Ramos de Azevedo –que hoje é nome de praça ao lado do Theatro Municipal. Do lado de cá da rua, porém, as coisas não estava tão boas: talvez atingido por um carro, um poste mal se equilibrava, caído sobre a calçada.

Cada rua que cruzava contava um pouco da história da cidade. Primeiro, o entorno do mercadão, com suas ruas estreitas e fedidas, pequenos armazéns e distribuidores de mantimentos. A seguir, cortei ruas conhecidas pelo comércio que abrigam, com a São Caetano, a “Rua das Noivas”.

Havia que atravessar a avenida do Estado para adentrar na região norte da cidade. Passei peja João Teodoro, que sai do Bom Retiro e corta o Brás, repleto de lojas de roupas e confecções.

Artéria poderosa, movimentado centro comercial, a João Teodoro tem mais de 140 anos. Seu batismo oficial ocorreu em 1875. O padrinho foi o presidente da Câmara Municipal, Ernesto Mariano da Silva Ramos: "Proponho que se dê em sinal de reconhecimento aos relevantes melhoramentos feitos á esta Capital pelo atual presidente da Província, dê-se à rua que partindo do Campo da Luz se dirige a Ponte dos Lázaros o nome de Rua do Dr. João Theodoro". O homenageado era um jurista, catedrático de direito civil da Faculdade de Direito de São Paulo. Foi até presidente da então Província de São Paulo.

Gente fina, hein! Nada que mude a vida dos que hoje por ali vendem calças e calções, vestidos, camisetas, bonés, roupa de casar e roupa de correr.

Não deu nem para prestar muita atenção nas vitrines: havia que correr para achar a minha ponte para cruzar o rio Tietê. 



O caminho passava por homenagem a outro brasileiro ilustre: a travessia é nomeada em honra do ex-presidente Jânio Quadros (1917-1992), que fez da Vila Maria seu reduto eleitoral.

Jânio gostava do povo desse antigo bairro –na época do Império, dom Pedro Primeiro tinha uma chácara na área.

Em seus discursos na comunidade, Jânio sempre começava conclamando “Povo da Vila Maria”... Certa vez, talvez achando que a identificação não estivesse precisa o suficiente, Jânio Quadro emendou: “...da Vila Maria Alta, da Vila Maria Baixa e, por que não dizer, da Vila Maria do Meio...”

Essa, por certo, não existia. A Vila Maria baixa é a parte mais perto do rio Tietê, onde começa a rua Eli.

É um começo meio tristonho, porque fechado. A rua inicia no número 14, uma transportadora, mas não sai de nenhuma avenida, não nasce na Marginal. Seu início é um muro, dos fundos de uma unidade do Corpo de Bombeiros.


Quebrando a feiura do muro, um portão, saída de veículos, por onde carros e caminhões de bombeiros podem passar em uma emergência, caso a entrada principal esteja bloqueada.

Inteira, de cabo a rabo, a Eli tem pouco mais de um quilômetro e meio --a numeração termina no 1.599.

No meu GPS, deu 1.650 metros, mas eu atravessei a rua várias vezes para fazer fotos. Uma delas é de um muro pintado, o único da rua com desenho, uma bela invenção de espírito infantil (ou assim me pareceu).



Também há apenas um prédio de apartamentos. É uma construção imponente, com vários blocos e mais de seis andares, que se destaca no cenário de casinhas baixas e pequenos sobrados, oficinas de automóveis, escritórios e representações comerciais. Em breve, porém, será desafiado por um edifício mais novo, também de vários andares, que está nas etapas finais da construção.

Para o corredor, o piso da rua Eli manda informações diversas, nem sempre agradáveis. O começo é de asfalto, dá para correr um pouco; logo, porém, temos traiçoeiros paralelepípedos: há que cuidar para não escorregar em uma pedra mais lisa ou evitar uma topada em alguma outra mal instalada.

Mais à frente, assim que passa a marca do primeiro quilômetro, a rua volta a ser asfaltada; estamos então em uma área mais rica do território. Um prédio da Secretaria da Fazenda, em alvenaria bem pintada, parece sinalizar a mudança de perfil da rua Eli, que inicia naquele ponto a subida até a Araritaguaba.


Não foi nesse terreno que Manoel viveu. 

Pela descrição das filhas, a moradia dos parentes de dona Thereza era na área mais baixa da rua, perto de onde ela se inicia: “Era uns pântanos, tinha uns alagados. Acho que era a penúltima casa”, diz Márcia, que hoje tem 56 anos –era uma adolescente de 16 anos quando seu pai foi sequestrado, torturado e morto.

Onde quer que fosse, a casa de dona Alzira, tia de Thereza, não existe mais. Afinal, já se passaram mais de 60 anos desde que a então moçoila, frequentando a casa da tia, botou os olhos no inquilino.

Dona Thereza de Lourdes, 84, dá entrevista na casa de sua filha mais nova, Marcia, em Bragança Pualista - Foto Eleonora de Lucena


“Ele era um homem bonito”, diz ela hoje, como um sorriso que a deixa sonhadora como se fosse a menina de 20 anos de quando conheceu Manoel.

No maior respeito, os dois se conheceram, conversaram, namoraram, casaram. Não puderam ser felizes para sempre, como nos contos de fadas, mas foi bom enquanto durou.

“Tiraram minha felicidade”, diz a Thereza de hoje.



Dia 2 - Corrida Por Manoel
Percurso de 15 km feito em 1h51min31
Distância acumulada: 18,58 km