1.3.16

Militante da imprensa clandestina, Cesar Teles leva comandante da tortura à Justiça

Esta CORRIDA POR MANOEL que venho fazendo é uma homenagem a todos os manoeis, joãos, marias e amelias que não se calaram frente a ditadura militar e dedicaram suas vidas ao combate pela liberdade, pela democracia, pela justiça, por um mundo melhor para seus filhos, netos, para todos.

É também uma celebração à imprensa combativa. Manoel foi sequestrado pela polícia política da ditadura sob nebulosas acusações de distribuir o “Voz Operária”, jornal clandestino do Partido Comunista Brasileiro.

A brutalidade insana da ditadura se abateu sobre muitos que trabalharam nesse jornal e em outras publicações de partidos e grupos que, desde a clandestinidade, buscavam levar esperança para a população brasileira. A perseguição aos boletins e panfletos, documentos, livros e jornais mostra que os opressores sabem quão forte é o poder da palavra.

Sempre que podiam, caíam sedentos sobre as gráficas clandestinas de onde saía a voz da resistência. Num desses episódios, invadiram a casa onde, em São Paulo, eram produzidos jornais e material de apoio aos militantes que organizavam a guerrilha do Araguaia.

Vídeo de entrevista de Cesar Teles, durante homenagem realizada na Câmara Municipal - foto Reprodução/Anibal Castro de Souza 

Cesar Teles e sua mulher, Amélia, dirigentes do Partido Comunista do Brasil, foram presos naquele dia 28 de dezembro de 1972. Os filhos pequenos do casal, Janaína e Edson, também foram levados.

Em depoimento à revista “Leituras da História”, citado pelo Jornal “Brasil de Fato”, Amelinha lembra o dia da prisão.

“Eram 18h, na Rua Loefgreen, Vila Clementino, quando nós paramos o carro. O Danieli [NR.: Carlos Nicolau Danieli, dirigente do PCdoB],  já havia descido alguns minutos antes para encontrar um companheiro e nós fomos cercados por quatro carros, que pararam na nossa frente – eu não sei como eles apareceram ali – [...] era aquele momento em que tudo estava escurecendo. Eles cercaram os lados, desceram com metralhadoras na mão: ‘terrorista, terrorista, terrorista!’, gritaram.”

De fato, o trabalho de Cesar Teles devia aterrorizar o regime ditatorial. “Nós publicávamos mil e quinhentos jornais todo o mês, para mandar para toda a comunidade. Com mimeógrafo a óleo ou a álcool. Mandava para o exterior – Suécia, Inglaterra, França, Itália, e outros países da Europa. E nós ouvíamos a rádio, a de Moscou, a de Pequim, nós éramos rádio-escuta também”, lembra Amelinha.

Cesar se foi no final do ano passado. Morreu aos 71 anos.

“César dedicou sua vida a tentar a ajudar os mais pobres. Torcedor do Atlético-MG, gostava de bater bola. Foi sindicalista ferroviário. Era exímio dançarino de salão. Lutou contra a ditadura. Adorava orquídeas. Foi o responsável pela logística da Guerrilha do Araguaia. Cantava óperas. Penou cinco anos na prisão, participou das campanhas da Anistia e das Diretas Já. Cobrou o paradeiro dos desaparecidos políticos, exigiu castigo legal aos violadores dos direitos humanos” –esse é um brevíssimo resumo de uma vida de combates, escrito pelo repórter Mario Magalhães, autor de “Marighella”.

No último dia 26 de fevereiro, familiares, amigos e companheiros de luta de Cesar Teles realizaram uma homenagem ao ex-líder sindical. Foi no auditório da Câmara Municipal de São Paulo.



Antes de subir para acompanhar a cerimônia, fiz por Cesar uma breve etapa da CORRIDA POR MANOEL, “abraçando” a Câmara com minhas passadas.

Lá em cima, no oitavo andar, a casa estava cheia, repleta de gente e de emoções. Muitos “cabeça branca”, antigos companheiros de César, mas também muita gente jovem e um exército de feministas –entre tantas lutas a que se dedicou, uma delas foi pela emancipação da mulher.

Amelinha falou, Janaína falou, houve vários depoimentos e celebrações.

E Cesar também falou. Foi trazido ao auditório por meio de um vídeo, uma entrevista que dera à filha anos antes, parte de um trabalho acadêmico de Janaína, que é historiadora.

Os minutos voaram enquanto ele contava histórias de sua luta, de como montou, com Amelinha e os filhos, a casa onde instalou a gráfica que tanto infernizou a ditadura militar.

A impressora ficava em um dos quartos. Cobertores eram presos à porta e às janelas para abafar o som. O rádio tocava em alto volume, e a máquina cuspia panfletos, jornais, propaganda. Quando não estava operando, ficava desmontada, dentro de um armário, e a casa ficava aberta para os vizinhos.

A vida da família Teles, aliás, era aberta aos vizinhos, era uma casa como qualquer outra da comunidade. Cesar, que dirigia um táxi para garantir a sobrevivência financeira, não poucas vezes usava o carro para levar um vizinho a um hospital ou fazer outra gentileza.

 “Por nossa ação, a casa não cairia”, afirmou ele no vídeo, certo da rede de proteção que tinha montado na comunidade.

De fato, a família acabou presa em outras circunstâncias, quando Cesar foi levar um dirigente do PCdoB a um encontro.

Janaína e Edson com os pais, Amelinha e Cesar Teles - foto Reprodução


Para piorar as coisas, a prisão encontrou um Cesar debilitado. A exposição constante aos gases da impressão –tintas e outros líquidos tóxicos—havia debilitado sua saúde; passara sete meses internado para tratamento de tuberculose e outras complicações. O que não diminuiu a violência dos torturadores.

Amelinha também sofreu barbaridades, como ela relata em depoimento realizado em 2004: “O coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra foi o primeiro a me dar um tapa na cara, me jogou no chão com aquele tapa. Me torturou pessoalmente. Foi ele quem mandou invadir a minha casa, buscar todo mundo que estava lá, meus filhos e minha irmã. Durante cerca de dez dias, minhas crianças me viram sendo torturada na cadeira de dragão, me viram cheia de hematomas, com o rosto desfigurado, dentro da cela. Nessa semana em que meus filhos estavam por ali, eles falavam que os dois estavam sendo torturados. 'Nessas alturas, sua Janaína já está dentro de um caixãozinho'. Disseram também que eu ia ser morta. Isso foi o tempo todo. O tempo todo, o terror. Ali era um inferno".

Por maior que fosse o sofrimento, quem sobreviveu tratou de se recuperar, enrijecer o espírito e continuar lutando. Na cadeia, Cesar Teles e outros companheiros presos conseguiram iludir a vigilância da ditadura e contrabandearam para fora um documento em que não só denunciavam ao mundo o tratamento a que eram submetidos como também apontavam 233 responsáveis diretos pela tortura.

A carta, que ficou conhecida como “Bagulhão”, está publicada integralmente em um livro organizado pela Comissão da Verdade de São Paulo e disponível para todos na internet (clique AQUI para acessar o texto).

Diz o livro: “O documento original, um calhamaço com as assinaturas dos 35 presos, saiu sigilosamente do presídio e chegou ao destinatário em segurança. A operação incluiu a montagem de um compartimento no interior de uma singela garrafa térmica, na qual as 28 folhas tamanho ofício foram alojadas”.

A carta ganhou o mundo. A reação da repressão foi imediata, como conta o livro “Bagulhão”:

“Passaram a intimidar familiares e amigos dos presos políticos, com cartas de ameaças de morte, via correio, assinadas com pincel atômico, em letras pretas, com a sigla A.A.B. que significava Associação Anticomunista Brasileira. Em 1978, o jornal da imprensa alternativa `Em Tempo foi o primeiro e único a publicar na íntegra a lista dos 233 torturadores. Esse jornal publicou ainda mais duas listas de agentes públicos acusados de tortura, feitas por presos políticos de outros estados. A edição do Em Tempo tinha uma tiragem de vinte mil exemplares que se esgotou tão logo o jornal foi para as bancas, o que fez com que batesse recorde de vendas. O jornal sofreu, em represália, na mesma semana que divulgou os nomes dos torturadores, dois atentados. Um na sucursal de Curitiba (PR)`, que teve sua sede invadida e pichada de spray: “233”. O outro atentado ocorreu em Belo Horizonte, quando colocaram ácido nas máquinas de escrever. Esses fatos chegaram a ser publicados pelo próprio jornal Em Tempo. Depois disso, o jornal não teve mais como existir, foi fechado. “

Depois do final da ditadura, Cesar e seus familiares continuaram sua militância e trataram também de lutar para expor a parte mais sangrenta e desumana do período da ditadura militar.

Em 2006, a família entrou na Justiça contra o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, acusado de sequestro e tortura. Era uma ação civil que pedia a declaração de ocorrência de danos morais e à integridade física.

Em reportagem publicada na época na “Folha de S. Paulo”, Mário Magalhães registrou as razões da família: “A história deve ser contada como aconteceu, para que não se repita'', diz a professora Maria Amélia de Almeida Teles. O aposentado César Teles responde à contestação do coronel Ustra sobre a demora para acionar a Justiça: “Denunciamos o que houve assim que saímos do pau-de-arara'' -os autos de um processo da década de 1970 confirmam. A historiadora Janaína Teles diz que a opção pelo processo contra o comandante do DOI-Codi -e não o Exército e a União- ocorreu porque “as pessoas que morreram na ditadura tinham nomes, sentimentos e história''. “Os que mataram, também'', afirma.”

Pois a Justiça reconheceu a razão da família. Ustra morreu no ano passado, aos 83 anos, tendo como resumo de sua biografia o carimbo oficial: foi um torturador.

Cesar, ao contrário, foi uma luz.


CORRIDA POR MANOEL – 12º dia

Percurso: “abraço caminhado” à Câmara Municipal de São Paulo, 2 km feitos em 24min39

Distância acumulada: 110,92 km



29.2.16

Sindicato dos Metalúrgicos interpela ditadura pela morte de Fiel Filho

Notícia publicada em uma coluna, no alto da primeira página da “Folha de S. Paulo”  de 20 de janeiro de 1976, uma terça-feira, informa: “II Exército tem novo comandante”.

O texto começa assim: “O Palácio do Planalto anunciou ontem, em Brasília, que o general Dilermando Gomes Monteiro é o novo comandante do II Exército (com sede em São Paulo). O atual comandante, general Ednardo D`Avila Melo, foi nomeado para a chefia do Departamento de Ensino e Pesquisa do Exército”.

Não há na chamada de capa menção à morte de Manoel Fiel Filho, ocorrida três dias antes nas dependências do DOI-Codi do II Exército. 

O caso também não é citado em nenhum dos quatro textos que, na página três do primeiro caderno, complementam a cobertura do caso.

“Dilermando assumirá esta semana”, diz o título do texto principal. A seguir, as notícias relacionadas: “No QG, nenhum comentário”,  “Brasília chama o governador”, “Surpresa na Arena e MDB” e “Novo comandante é velho amigo de Geisel”.

Nenhum dos textos especula sobre causas da mudança. No alto da mesma página, em uma coluna, separado do restante das notícias por um fio –como a dizer que uma coisa nada tem a ver com a outra--, está publicado texto em que o jornal reproduz comunicado dos militares.

“Morte no DOI: II Exército emite nota” é o título da notícia em três parágrafos. O primeiro deles apresenta a nota oficial, que começa assim: “O comando do II Exército lamenta informar que foi encontrado morto, às 13 horas do dia 17 do corrente, sábado, em um dos xadrezes do DOI/CODI/II Exército, o sr. Manoel Fiel Filho”.

Logo abaixo, notícia com título sem verbo, sem ação: “Comentário de Prudente de Morais”. O jornalista, presidente da Associação Brasileira de Imprensa, lembra a recente morte de Vladimir Herzog –ocorrida em outubro de 1975—e pede “apuração rigorosa das causas e pormenores dos fatos”.

Em São Paulo, a notícia cai como uma bomba sobre os movimentos populares e, especialmente sobre o movimento sindical. A rádio-peão já funcionava. Alguns sabiam da morte: José Francisco Campos e Miguel Huertas, representando o sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo, foram até a casa da família de Manoel levar a solidariedade da categoria.

Era preciso mais. Depois da publicação da nota do II Exército, a diretoria do sindicato se reúne e decide não ficar calada. Resolve interpelar o general Ernesto Geisel, que ocupava na época a Presidência da República.

Apesar da censura e do controle que havia sobre o mundo sindica e sobre a sociedade, o sindicato manda a Geisel o seguinte telegrama, com cópia para os ministros do Trabalho, da Justiça e do Exército:

“Sindicato Trabalhadores Metalúrgicos SPaulo tomando conhecimento através imprensa nota oficial Comando II Exército informando morte operário Manoel Fiel Filho vg seu associado desde 1956vg matricula 50.355 vg ocorrida último dia 17 corrente mês dependências xadrezes destacamento de operações de informações daquela unidade militar repetindo assim lamentável episódio registrado mês de outubro de 1975 morte jornalista Wladimir (sic) Herzog vg devido respeito pede vânia  comparecer presença Vossência a fim manifestar veemente protesto pelo ocorrido vg impondo-se enérgica e imediatas providência sentido apuração dos fatos e punição rigorosa seus responsáveis vg bem como impedir presos políticos continuem ser submetidos constrangimento  e violência vg a fim de prevenir novas ocorrências da mesma gravidade pt Circunstâncias desconhecidas causa morte ocorrida cárceres Polícia Militar provoca  insegurança et intranquilidade ppt Se motivada morte violência pretesto ...defesa Segurança Nacional vg merece repudio povo brasileiro pt Garantias constitucionais e respeito direitos humanos não constitue previlégio mas representa conquista civilização pt Trabalhadores metalúrgicos cientes providências já determinadas pelo Ilustre Presidente vg no sentido investigações para esclarecimento ocorrido vg sejam seus resultados trazidos conhecimento público.”

O documento é assinado pelo então presidente do sindicato, Joaquim dos Santos Andrade, que hoje é nome de uma rua íngreme colada à antiga sede da entidade, na rua do Carmo, no centrão de São Paulo.

“O Joaquinzão enfrentou muitas vezes o regime militar, um exemplo disso foi esse telegrama que ele mandou na época, questionando, pedindo investigação sobre a morte do Manoel Fiel Filho”, diz Miguel Torres, presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo.

Caminhada com dirigentes e ativistas do Sindicato dos Metalúrgicos na região central de São paulo - Fotos Paulo Segura/Divulgação



Miguel comandou hoje uma caminha dos metalúrgicos em homenagem a Manoel, na 11ª etapa da CORRIDA POR MANOEL. Mais de duas dezenas de dirigentes e militantes do sindicato participaram dessa jornada, que foi da sede atual da entidade até a antiga sede, na rua do Carmo, onde Manoel militou e que hoje abriga o Sindicato Nacional dos Aposentados.

Alguns sindicalistas da velha guarda ainda lembram da presença de Manoel Fiel Filho nos encontros da categoria. Campos, de 71 anos, na época era o responsável por abonar as novas filiações ao sindicato. Foi quem assinou a carteirinha de do operário assassinado em 1976 no DOI-Codi de São Paulo.

“O Fiel Filho tinha uma pastinha preta, vinha nas assembleias. Era do PCB, segundo dizem”, comenta o sindicalista.

“As assembleias tinham umas cadeiras estreitas, eram mais ou menos umas 300 pessoas. Eu lembro dele, de chapéu. Eu lembro de algumas pessoas que se tornavam quase personagens. Pessoas que iam sempre na assembleia. Ele ficava junto com o Pernambuco, um cidadão chamado Teófanes Roberto, está com noventa e poucos anos, foi meu assessor.”

Concentração em frente ao Palácio do Trabalhador, na rua Galvão Bueno, Liberdade


Relembrar o passado não significa ficar com reminiscências saudosistas. Ao longo dos cerca de dois quilômetros de nossa caminhada de hoje, Miguel Torres destacou a importância de resgatar a memória das lutas sindicais e das figuras dos combatentes pelos trabalhadores. O que não é exatamente a coisa mais fácil do mundo neste momento.

“O nosso sindicato, acho que o movimento sindical como um todo, ele não preserva muito a memória. Isso é um grande problema que nós temos aqui. Criamos um departamento de memória sindical que o Campos [José Francisco Campos] está tocando. Mas ainda é pouca coisa. Temos participado do Centro de Memória Sindical, também com uma atuação muito forte, está recuperando, mas o dirigente sindical, as entidades sindicais, têm um problema, ela quer contar a história a partir do dirigente que está na direção. Você não consegue mostrar a história como deve ser. Isso é uma batalha”, diz Torres.

Apesar dos percalços, é preciso ter a 
história como ferramenta de luta e conscientização, aponta o dirigente dos metalúrgicos:

“As novas gerações que estão entrando do mercado de trabalho hoje não têm a noção para que serve o sindicato. Qual a importância do movimento sindical na época, na vida do trabalhador, principalmente brasileiro. Não sabe que as conquistas que têm hoje, os benefícios foram conquistas de alguém que participou da luta sindical. Não existe nada que não tenha sido fruto de reivindicação dos trabalhadores. Nenhuma lei no Brasil, ou no mundo, não passou primeiro por uma construção, por uma reivindicação, protesto, por uma mobilização. No movimento sindical é a mesma coisa. O jovem não tem noção disso. Não sabe porque tem o 13º, férias, 1/3 de férias, 40% do FGTS [Fundo de Garantia por Tempo de Serviço], não sabe porque a jornada de trabalho é 44 e não 48 [horas]. Essa ideia de a gente puxar e resgatar, até para mostrar que todo mundo tem que participar para melhorar. Hoje o trabalhador que vai numa empresa já encontra cesta básica, convênio médico, a maioria tem transporte. Mas aquilo foi fruto de mobilização no sindicato. Não veio de graça. Se fosse pelo patronato isso não existia. A ideia de resgatar a memória é para mostrar a necessidade de continuar essa luta, para avançar nos direitos, melhorar a vida do trabalhador.”

Isso é feito na luta no dia a dia e também em cerimônias e homenagens: o sindicato celebra, por exemplo, o Dia do Delegado Sindical Metalúrgico a 17 de janeiro, data do assassinato de Manoel Fiel Filho.

“Essa é uma categoria guerreira, que já passou por inúmeras dificuldades e situações de grandes desafios, venceu e se fortaleceu”, lembra o presidente Miguel Torres.

É uma categoria que lembra e celebra seus lutadores e também participa das campanhas para que os crimes do passado não fiquem impunes.

O Sindicato dos Metalúrgicos esteve representado, por exemplo, na Comissão Nacional da Verdade e ajudou a elaborar o capítulo sobre os movimentos dos trabalhadores.

O texto denuncia: “A classe trabalhadora e o movimento sindical foram alvos primordiais do golpe de Estado de 1964, das ações antecedentes dos golpistas e da ditadura civil militar.”

Lembra que as organizações sofreram ataques desde as primeiras horas do golpe militar, na madrugada de 1º de abril de 1964: “Intervenções em direções sindicais, depredação de sedes de entidades, prisões, torturas, execuções foram acontecimentos reiterados e sistemáticos”.

Somente entre março e abril de 1964, a ditadura nomeou 235 interventores nos sindicatos, segundo afirma texto disponível no site do Sindicato dos Metalúrgicos. “No total, o ano de 1964 somaria a intervenção do ministério do trabalho em 409 sindicatos e 43 federações. Entre 1964 e 1970, o número de sindicatos atingidos pela repressão chegou a 536, e a estimativa de dirigentes cassados neste período é de dez mil. Na base do Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo, por exemplo, foi estimado em 1.800 o número de delegados denunciados pelos interventores após o golpe.”

É bem verdade que a entidade já estava com a casca grossa, acostumada a enfrentar o poderio do estado e dos patrões desde o seu nascimento em 27 de dezembro de 1932.

“Os primeiros meses de vida do Sindicato foram bastante duros. Os empregadores continuavam a demitir líderes trabalhistas e os metalúrgicos não se arriscavam a filiar-se a entidade, temendo represálias políticas e policiais”, diz texto sobre a história do sindicato publicado no site.

E prossegue: “Com o pequeno número de filiados, a entidade enfrentava enormes dificuldades financeiras que comprometiam sua própria sobrevivência. “Os diretores e sócios eram obrigados a tirar dinheiro do próprio bolso para pagar as pequenas despesas do sindicato,” recorda Armando Suffredini, um dos fundadores e ex-presidente da entidade. “Os que acreditavam na nossa entidade iam trabalhar à noite na sede, depois de batalhar o dia inteiro dentro das fábricas.””.

No período da ditadura militar, porém, a perseguição redundava em prisões, tortura e morte de sindicalistas. O livro em que o repórter Carlos Alberto Luppi relata o caso Manoel Fiel Filho traz uma lista de mais de 20 trabalhadores, muitos deles metalúrgicos, assassinados por agentes do regime militar.

A morte de Manoel foi um marco, um ponto de ruptura. No governo, o general responsável pelo DOI-Codi é substituído; no movimento sindical, as lideranças parecem decidir que não dá mais para suportar o torniquete imposto à sociedade.

Metalúrgicos caminham por Manoel; o presidente Miguel Torres está ao meu lado, mais ou menso no meio do grupo;


“Foi o grande alicerce para a retomada”, me disse Miguel Torres durante nossa caminhada de hoje. Lembrou as greves de 1978 e 1979, e a decisiva participação dos trabalhadores nas lutas democráticas ao longo da década de 1980, culminando na campanha pelas eleições diretas.

“O sindicato sempre teve essa atuação em defesa da cidadania”, resume ele quando encerramos nossa jornada, na rua do Carmo, palco de históricas reuniões do movimento sindical brasileiro.

CORRIDA POR MANOEL – 11º dia

PERCURSO entre a sede atual e a antiga sede do Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo e Mogi, 1,9 km percorrido em 25min

QUILOMETRAGEM ACUMULADA: 108,92 km



28.2.16

Viagem até o sobrado onde Manoel vivia quando foi sequestrado

Manoel Fiel Filho foi sequestrado no dia 16 de janeiro de 1976. Dois homens o pegaram na fábrica onde ele trabalhava, a Metal Arte, e o levaram para o DOI_CODI, onde foi torturado até a morte. Antes, passaram pela casa onde o metalúrgico morava com a esposa, dona Thereza de Lourdes, e a filha caçula, Márcia.

Com 16 anos, a menina trabalhava e estudava, passava o dia fora. Só dona Thereza estava no sobrado da rua Coronel Rodrigues, número 155, quando Manoel chegou de surpresa, trazido por aqueles dois desconhecidos.

Hoje, 40 anos depois, a viúva ainda se emociona quando descreve aqueles momentos. Sentada no sofá da casa de Márcia, em Bragança Paulista, onde a família vive atualmente, dona Thereza conta o momento da despedida.

“Era hora do almoço. Eu comecei a chorar, ele falou assim: `Não chora, não, nêga, eu vou voltar logo`. Me deu um beijo na testa e foi embora. Era uma sexta-feira; no sábado, na hora do almoço, ele já estava morto.”

O sobrado da rua Coronel Rodrigues, número 155, último local em que o operário metalúrgico foi visto com vida e em liberdade, foi o meu destino no décimo dia da CORRIDA POR MANOEL.


Como em outras jornadas deste mergulho na história de Manoel, o percurso cortou a cidade. 

A família Fiel Filho era consistentemente zona leste: lá morava, lá Manoel trabalhava, lá a filha mais nova, Márcia, estudava. Aparecida, a mais velha, já estava casada na época, mas também vivia na região.

Para quem sai do centro, um dos acessos à zona leste é pela rua da Mooca. Partindo da Sé, do Marco Zero da cidade, na praça da Sé, há que descer a rua Tabatinguera, passar por baixo do viaduto do Glicério e cruzar o viaduto Abreu Sodré.


Foto Ayrton Vignola Jr., repórter fotográfico que correu comigo neste domingo

É uma região pobre e cinzenta; sob o viaduto, convivem moradores de rua, coletores de material reciclado e homens e mulheres que pensam apenas na próxima tragada ou na cheirada seguinte em alguma droga qualquer.

Do alto do viaduto, veem-se esqueletos de antigos armazéns da Mooca, os trilhos do trem que separam a periferia da região central da cidade. No início da manhã deste domingo, as avenidas lá embaixo estavam quase vazias; destacava-se um grupo de velhos Fuscas, talvez rumando para um encontro de colecionadores...



As primeiras centenas de metros da rua da Mooca são as mais carentes. Nas transversais, como nos baixios dos viadutos, moradores de rua. Algumas fachadas, por certo, dão acesso a cortiços em que se acotovelam várias famílias. 

Numa entrada de estacionamento, uma placa avisa: “Aluga-se cômodo para boliviano”.




Depois do primeiro quilômetro zona leste adentro, a rua da Mooca parece ganhar mais movimento, mesmo no domingão preguiçoso. Ficaram para trás os esqueletos de antigas fábricas, os armazéns de paredes pichadas. Há igrejas, padarias, restaurantes.

Com meu amigo Ayrton Vignola Júnior, repórter fotográfico, ciclista e ultramontanhista –veterano de provas cabulosas em montanhas, como a Ultramaratona dos Anjos--, seguimos descobrindo mistérios da Mooca.

Um deles deixa este gremista gaúcho de queixo caído. É a churrascaria Gre-nal Grill, que está fechada na hora quase madrugadeira quando passamos por lá.


Na sua propaganda, convivem em paz os símbolos do Grêmio e do Internacional, os times que tomam conta do coração e das emoções da gauchada –já deu até morte em choques das duas torcidas.

Na rua da Mooca, não. Ali, Grêmio e Inter convivem em harmonia à beira da churrasqueira.


Um pouco mais adiante, encontramos a escola André Xavier Gallicho

onde Márcia Fiel estudou. Parece indício de que estamos perto do destino, mas não; apenas adentramos a “região Fiel”, há ainda muito a percorrer.

A próxima etapa é subir a grandiosa avenida Sapopemba, marco da zona leste, que se vai embora por 26 quilômetros e chega até o vizinho município de Mauá.

Três horas de subidas e descidas saindo da zona oeste da cidade para chegar à rua Coronel Rodrigues



Há dois anos, percorri cada um dos encabritados metros da Sapopemba. Agora, porém, vamos parar bem antes. Passamos pelo ponto em que uma adutora serve de divisa da rua e desculpa para instalação de uma longa praça. Fazemos uma parada no bar do Pagé para hidratação e seguimos subindo.

A rua Coronel Rodrigues nasce em um dos pontos mais altos da Sapopemba, quase 800 metros acima do nível do mar.

E segue subindo por três quarteirões, depois forma um platô e desce um pouquinho. Mesmo assim, do final da rua, a 832 metros de altitude, dá para ver os confins da zona leste, imagem aberta que dá ideia das mastodônticas dimensões da cidade.



A casa onde viveu a família Fiel fica na parte inicial da rua, quase no final da primeira subidona. A julgar pelo que dona Thereza e as filhas contam pelo que disseram à imprensa os vizinhos na época do sequestro, é bem possível que Manoel jamais tenha ido até o ponto final de sua rua, jamais tenha visto a cidade que se espalhava na distância.

O sobrado em que a família morou por cerca de quatro ou cinco anos fica na parte inicial da Coronel Rodrigues, quase no alto da primeira subida. Tem cerca de seis metros de frente, e a casa começa pela garagem.


Foto Ayrton Vignola Jr.


Caseira, a família não tinha grande vida social. “Bom dia”, “boa tarde”, cumprimentos formais era o máximo que trocavam com os vizinhos, segundo texto publicado em 1976 na “Folha de S. Paulo”.

“É uma boa freguesa, paga sempre direitinho”, disse alguém à reportagem, referindo-se à dona Thereza. Também sobre ela foi dito: “É uma boa dona de casa”.

Os homens que chegaram com Manoel por volta do meio-dia de 16 de janeiro de 1976 bagunçaram a casa toda. Chegaram armados, com “arma grande”, embrulhada em jornal, como nos disse a viúva de Manoel.

Na época, ela contou mais detalhes ao repórter Carlos Alberto Luppi, conforme o livro “Manoel Fiel Filho – Quem Vai Pagar Por Este Crime?”:

“Logo antes do almoço, ele passou por aqui com dois homens em trajes civis, que se diziam funcionários da Prefeitura. Estava muito branco, e eu observei logo que os homens eram policiais. Estavam com duas metralhadoras embrulhadas num papel de jornal. Eu esbarrei numa delas e um dos homens gritou: “Não mexa nisso aí. Saia daí!’ “

Os dois homens reviraram a casa toda, mexeram em tudo: livros, armários. “Ainda bem que não encontramos prova alguma, hein, Manoel!”, disse um deles, conforme o relato de dona Thereza.

Ela quis saber de que prova estavam falando. “Estamos procurando um jornalzinho”, disse um polícia.

Dona Thereza disse então que tinha o jornal do Sindicato dos Metalúrgicos, e Manoel pediu para ela ser deixada em paz.

A conversa já estava chegando ao fim. Um dos homens ordenou: “A senhora não vai abrir a boca nem avisar pra vizinho algum que estivemos aqui”.

Dona Thereza perguntou para onde estavam levando o marido, o que seria dele: “Se ele não voltar hoje, volta amanhã”, respondeu-lhe um dos policiais.

Ela não se deu por achada, não calou a boca. Seguiu questionando os policiais, conforme registra o livro de Luppi.

 “O que vou dizer para minha filha quando ela chegar e perguntar pelo pai?”, interpelou.

“A senhora diz pra ela que o Manoel teve que fazer um trabalho extra na fábrica à noite e por isso vai chegar tarde”, disse um agente.

Dona Thereza contra-ataca: “Mas meu marido não faz hora extra à noite. Nunca fez e a menina não vai acreditar”.

“Então a senhora fale para ela o que bem entender.”

Ela não se calou: “Os senhores estão dizendo que são da Prefeitura, que ele vai assinar uns papeis, mas quem cuida dos assuntos dele com a Prefeitura sou eu”.

Não tinha mais nada a ser dito, os policias já lhe carregavam o marido.

Manoel ainda teve tempo para tentar consolar a mulher: “Não chora, não, nêga, eu vou voltar logo”. Deu-lhe um beijo na testa e se foi.



CORRIDA POR MANOEL – décimo dia
Destino: Rua Coronel Rodrigues, 155, percurso de 18,77 km realizado em 2h26min16


Distância acumulada: 107,02 km

27.2.16

Caminhada em Bragança Paulista reúne família de Manoel Fiel Filho

Dona Thereza estava feliz –e emocionada. 

Na manhã deste sábado, a viúva de Manoel Fiel Filho tinha à sua volta toda a família: duas filhas, três netos e dois bisnetos, mais genro e a esposa de um dos netos. Esperavam todos o início de uma caminhada em homenagem ao patriarca, nona etapa da CORRIDA POR MANOEL.

“É difícil reunir todo mundo assim”, comentou alguém. Como em todas as famílias, cada um tem seus horários de trabalho, seus compromissos, vontades e desejos. O encontro foi na casa da filha caçula de Manoel e Thereza, Márcia, em Bragança Paulista, onde todos moram atualmente.


De pé, a partir da esq.: Gabriel e sua mãe, Márcia; Thadeu, Thiago e sua esposa, Luciene; Aparecida e o marido, Osvaldo; sentados, dona Thereza e os bisnetos Maria Beatriz e Vinícius Augusto - foto Rodolfo Lucena


A filha mais velha, Aparecida, foi a desbravadora, a primeira que se mudou de São Paulo. Depois de viver por mais de 15 anos no mesmo sobrado de onde o pai foi levado, em 1976, para nunca mais voltar, decidiu que era hora de mudar de ares.

Ela e o marido, Osvaldo, já costumam levar os filhos para um sítio de lazer em Bragança. Resolveram se transferir de mala e cuia para a “Capital da Linguiça”.

Depois foi a vez da mais nova, que morava com mãe em São Vicente, para onde as duas tinham ido logo depois do assassinato de Manoel Fiel Filho.

 “A situação na época era meio estranha”, lembra Márcia. A família não chegou a ser perseguida, mas costumava haver gente rondando a casa em que moravam, na zona leste de São Paulo.

A pressão foi maior depois que dona Thereza entrou com processo para responsabilizar a ditadura militar pela morte do marido.

A família foi representada pelos advogados Marco Antonio Rodrigues Barbosa e Samuel Mac Dowell de Figueiredo. Na manhã deste sábado, quase vinte depois da última vez em que estiveram juntos, Marco Antonio esteve também na casa de Márcia para participar da caminhada com a família de Manoel Fiel Filho.


Dona Thereza mostra xícara de conjunto de porcelana que ganhou de presente de casamento - Fotos Eleonora de Lucena


“Vocês estão me fazendo lembrar de coisas que eu não queria lembrar”, disse, emocionada, dona Thereza, quando viu Marco Antonio subindo as escadas da casa. Os dois se abraçaram em silêncio, sorrisos de cada um encobrindo a emoção.

Não houve choro nem tampouco muitas reminiscências, apenas algumas histórias do tempo em que Manoel estava vivo. 

Osvaldo, marido de Aparecida, lembrou que foi ele quem contou ao sogro sobre a morte de Vladimir Herzog. Trocaram poucas frases, Manoel quis logo mudar de assunto.

“Meu pai não gostava de falar de política nem de religião nem de futebol”, disse Aparecida. Osvaldo, palmeirense, reafirma: nunca chegou a ter discussões esportivas com o sogro corintiano.


A partir da esq.: Gabriel, Osvaldo, Laura, Aparecida, Marcia, Marco Antonio, Carmen e Rodolfo 


O papo estava bom, mas o asfalto nos chamava para a caminhada. O grupo que foi para a rua foi menor: Aparecida e o marido, Marcia e o filho, Gabriel, Marco Antonio com sua mulher e filha, Carmen e Fabiana, mais os Lucenas: Eleonora, eu e nossa filha mais velha, Laura, que é historiadora e está ajudando na pesquisa e produção da Corrida por Manoel.

A caminhada foi curta, um passeio de amigos e conhecidos. Demos uma volta na praça conhecida como “Do Matadouro”, porque ali funcionava um abatedouro de gado. A antiga construção, erguida em um dos cantos do parque, é hoje um centro cultural.

Quando havíamos quase completado a primeira volta na praça, começa a chuva que vinha se armando desde o início da manhã. Não chegou a ser um aguaceiro, mas deu para refrescar corpos e espíritos.

No final, estávamos todos rindo. A despedida virou uma promessa de reencontro.

CORRIDA POR MANOEL - nono  dia

Destino: Caminhada com a família de Manoel Fiel Filho em Bragança Paulista, 1 km em 20min.

Distância acumulada: 88,25 km