1.10.15

Vamo que vamo!!! é o blog oficial de Rodolfo Lucena


Querido leitor, estimada leitora

Talvez você não tenha visto, mas ontem anunciei que chegou ao fim o blo de corridas que durante quase dez anos produzi para a Folha.

A partir de agora, este passa a ser meu espaço especial na internet. Espero conseguir trazer para você textos especiais, além de comentários e análises sobre as notícias do mundo do atletismo, das corridas de rua e da vida mesmo, tal como ela é.

Estou em busca de parcerias que possam contribuir para o enriquecimento dos conteúdos que vou oferecer para você e possam também compensar meu trabalho jornalístico.

Espero em breve ter novidades muito bacanas. Se você for um grande empresário, um formidável investidor ou um secretivo “Angel investor”, fique à vontade para abrir conversações. Um bom papo é sempre bem-vindo.

Enquanto isso, considerando que o texto que publiquei ontem na Folha é apenas para assinantes, reproduzo aqui para você minha última mensagem no blog Mais Corrida.

Abraço e vamo que vamo!!! A seguir, o texto publicado ontem no Mais Corrida.





A despedida do blogueiro


Começa aqui o último texto que publico neste espaço internético.

A Folha decidiu acabar com nosso blog, o primeiro do gênero em grandes portais noticiosos. O Mais Corrida foi lançado em 2 de novembro de 2006, recebeu milhares de textos, rendeu um livro e, acima de tudo, propiciou nosso encontro virtual vezes sem conta.
Justificativas para o fim não são necessárias.

Extirpar qualquer uma de suas seções é uma prerrogativa do jornal, quaisquer que sejam suas motivações.

A mim resta apenas agradecer a você, querido leitor, estimada leitora, que há quase dez anos me acompanha com carinho, respeito, crítica, sorriso e suor.

Sua companhia e suas mensagens são energia e força para que nosso trabalhe continue.

Esta despedida não é um adeus. Como já disse muitas vezes em conversas sobre corridas, parar não é desistir.

Estou em busca de outros desafios e espero encontrar com você em meus novos caminhos internéticos.

Você pode acompanhar meus textos no blog Vamo que Vamo! (http://lucenacorredor.blogspot.comhttp://lucenacorredor.blogspot.com) e na minha página no Facebook (http://facebook.com/lucenaaposentadohttp://facebook.com/lucenaaposentado). Também estou no Twitter (http://twitter.com/rrlucenahttp://twitter.com/rrlucena) e no Instagram (http://instagram.com/lucena.rodolfohttp://twitter.com/rrlucena).

Confira ainda meu projeto especial de corridas e reportagens com trabalhadores rurais: Maratonando com o MST, http://mstmaratonando.wordpress.comhttp://mstmaratonando.wordpress.com).

Espero em breve ter novidades, trazer boas notícias para você.

Enquanto isso, beijo para quem é de beijo, abraço para quem é de abraço ou tudojuntoemisturado, que também é bom.

Vamo que vamo!!!




21.8.15

Aos 55 anos, secretária treina para sua primeira maratona


Nair Rocha de Oliveira é uma simpática senhora de cabelos curtos e corpo miúdo –tem um metro e meio e pouco mais de 50 quilos.
Eu a conheci nas sala de exercícios da Força Dinâmica  --empresa que combina preparação técnica e física e orientação biomecânica—quando ela vivia agitada na expectativa de fazer sua primeira meia maratona.
O tempo passou e as meias maratonas também.
Hoje a paulista nascida em Pacaembu, que trabalha de sol a sol como secretária em uma clínica médica,  está na reta final dos treinos para sua estreia na distância completa –o debute será em Berlim.
A prova será também uma comemoração de sua vida de atleta: começou a correr há dez anos, quando tinha 45.
Enquanto se prepara, Nair dedicou um pouquinho de seu tempo para responder a algumas perguntas sobre a experiência. E sobre o fato de, como nós outros daqui, praticar atividade física intensa numa idade em que muitos preferem apenas movimentar os botões do controle remoto do televisor.
  
Nair durante a meia maratona de Paris -- Foto Arquivo Pessoal

Como lhe surgiu a ideia de fazer uma maratona?
Quando comecei correr, entrei numa equipe de corrida e alguns meses depois um grupo de corredores mais antigos da equipe começaram treinar para a maratona de Paris. Acompanhei todos os preparativos e a expectativa  para a viagem e a prova. Foi muito legal. Já estava gostando de correr e acho que foi ali que começou meu sonho de fazer uma maratona no exterior.

O que correr 42.195 metros sem parar pode ter de bom?
Não só a prova, mas toda a preparação e os treinos para a maratona já trazem muitas coisas boas.  Estou mais focada em todas as minhas atividades, pois tenho que administrar melhor o meu tempo, estou mais disciplinada, cuidando muito bem da minha saúde.
Em certa medida, os treinos já são uma prova. Alguns são muito bons, outros nem tanto, mas sempre que termina é mais uma vitória. No dia que terminei o meu treino mais longo (36 km), fiquei emocionada, era um sábado chuvoso, terminei lá pelas 10h30, não tinha quase mais ninguém na USP, estava sozinha, comemorei como se estivesse completando a prova.

Quais são os riscos da maratona?
Sei que há riscos. Posso lesões importantes, que me impeçam de continuar correndo ou encurtem a minha vida de corredora. Tenho me preparado com muito cuidado, não só agora, mas desde que comecei fazer meias maratonas.
Tenho uma boa orientação técnica e nutricional e, acima de tudo, respeito meus limites; procuro fazer com que tudo seja prazeroso, não só as provas, como os treinos. Não estou preocupada em diminuir meu tempo, gosto de correr num ritmo confortável e curtir a corrida.
No começo pensava no risco cardíaco, mas agora estou vendo que meu coração está cada vez melhor.

Por que escolheu a maratona de Berlim para sua estreia?
Quando comentei  com meu treinador que gostaria de fazer minha primeira maratona no exterior, ele, muito sensato,  me aconselhou fazer primeiro uma aqui no Brasil, pois seria mais tranquilo, não teria tanta expectativa.
Mas aí eu pensei que não sabia se conseguiria fazer mais que uma, então melhor fazer logo uma bem bacana. Poderia ser Paris, mas achei que Berlim também seria uma boa opção por ser considerada uma prova totalmente plana, com temperatura boa  e muito bem organizada.
No ano passado estive em Berlim uma semana antes da maratona, já percebi um pouco o "clima" e adorei a cidade, bonita, moderna, muito fácil para se locomover. Fiz a pré-inscrição em novembro e em janeiro recebi o email informando que eu havia sido sorteada, aí não teve mais jeito...

Por que a senhora começou a correr?
Eu fumei dos 17 aos 30 aos. Quando parei de fumar, tentei começar a correr mas detestei, achei muito chato  mesmo.
Também naquela época não existia esta "cultura da corrida", não tinha essa profusão de assessorias nem tantas provas.
Além disso, por ironia do destino, eu estava toda animada e comprei um livro sobre corrida, de um corredor chamado James Fix.
Um dia depois de ter comprado o livro, vi numa banca de jornal uma revista com uma matéria de capa que dizia mais ou menos o seguinte: "Correr não é tão bom como se pensa,  o corredor James Fix morreu de um ataque cardíaco aos 50 anos..."
Bom, aí acabou de vez meu entusiasmo pela corrida.
Fui fazer outras atividades, me matriculei numa escola de natação e gostei muito de nadar. Depois de algum tempo, iniciei também aulas de dança de salão, que na época (1994/1995) estava em alta. A dança de salão também foi algo muito bom na minha vida, conheci muita gente legal, amizades que cultivo até hoje.
Depois de muito tempo nadando em escolas de natação e depois no Sesc, resolvi ficar sócia de um clube para ter mais liberdade para nadar. Quando fiquei sócia do tal, clube a piscina foi fechada para reforma! Enquanto a piscina não abria, comecei a caminhar e fazer musculação. Nessa época estava lendo o livro do Nuno Cobra e foi o que me impusionou a dar os primeiros passos na corrida.
Nunca vou me esquecer, comecei correndo 200 m na pista de Cooper do Ibirapuera e aí fui aumentando cada semana 100 m até o dia que completei 1.200 m correndo. Assim fui indo até chegar aos 3.000 m, quando descobri que no clube havia uma equipe de corrida.
Comecei meio relutante, pois ainda fazia dança de salão e saía à noite para dançar, ficava muito difícil levantar cedo para correr. Mas, com o tempo, fui gostando muito da corrida, também conheci muita gente interessante e acabei trocando a natação e a dança pela corrida.

Hoje como é sua preparação?
Meu treino é bem equilibrado, tem sempre um pouco de caminhada no começo e no fim. Nos treinos longos, há intervalos de 200/300 m de caminhada a cada 5 km mais ou menos. Treino corrida três vezes por semana, um dia de caminhada e dois dias de treino de força, sempre de manhã. No domingo descanso.

Há outros trabalhos de reforço físico?
Faço trabalho de força específico, com orientação para melhorar a postura na corrida e prevenir lesões.
Sempre tive hábitos alimentares saudáveis, isso já vem da minha educação. Agora tenho orientação nutricional para suprir melhor as necessidades do corpo com a atividade física, mas nada muito especial, apenas um equilíbrio melhor. Naturalmente como bastante verdura, frutas, alimentos integrais, carnes magras, pouca gordura, como doce e chocolate com moderação (às vezes a gente dá uma escorregada), gosto de tomar vinho e cerveja, geralmente no final de semana.


Qual foi sua primeira corrida de rua?
Minha primeira prova não foi uma experiência muito legal, foi a Maratona de Revezamento do Pão de Açúcar. Fui uma das últimas corredoras da equipe, mas, como havia chegado cedo, tive que esperar muito para correr, foi bem chato.
Acho que a primeira corrida que curti bastante mesmo foi os 10 km do Graac, que é uma prova que tem um astral muito legal. Outra que também foi uma das primeiras e marcou muito foi a do Centro Histórico, adoro correr pelo centro da cidade.

Qual é sua melhor lembrança de uma corrida de rua?
Geralmente as boas lembranças estão relacionadas a  boas provas,  lugares bonitos e boa preparação. Na meia maratona do Rio, quando a gente chega  no topo da subida e avista toda a orla, é um deslumbramento, aquela vista maravilhosa, aí você pensa: lá vou eu...que delícia! Outras boas lembranças  foram na meia das cataratas e na de Budapeste, tanto por estar me sentindo muito bem como pela paisagem.

E a pior?
As piores lembranças geralmente estão relacionadas a provas mal organizadas e percursos ruins. Os 25 km da Maratona de São Paulo,se não me engano em  2013, foi uma das piores, principalmente o final da prova que foi uma desorganização total. Jurei que jamais faria uma maratona aqui em São Paulo, o que é uma pena...

A senhora já passou dos 50 anos. Não é hora de parar?
De jeito nenhum, acho que agora é o melhor momento.
Já me aposentei, mas ainda continuo trabalhando. Espero poder diminuir um pouco o rítmo de trabalho para ter mais tempo para correr e fazer outras coisas.
O problema é que a gente precisa de dinheiro, afinal correr não é uma atividade tão barata quanto se pensa, ainda mais quando se quer correr no exterior. Só com a aposentadoria hoje não é possível.

O que o exercício traz de bom para veteranos como nós?
Traz vitalidade, entusiasmo, a qualidade do sono é muito melhor quando praticamos atividade física.
Correr é muito bom, mas nem todo mundo gosta ou se adapta. Acho bom que as pessoas pratiquem atividade física de uma maneira geral.
Caminhar e correr é mais fácil, pois  pode ser praticado em qualquer lugar, porém é preciso tomar cuidado, não dá prá começar a correr de uma  hora prá outra, é preciso ir devagar, ter paciência. Isso é bom, pois as pessoas mais velhas geralmente já aprenderam ser mais pacientes.

Quais os benefícios específicos da corrida?
Traz uma sensação de bem estar, disposição, um cansaço bom, que faz a gente dormir muito bem. Outra coisa muito legal é que a corrida em si é um momento muito bom para refletir, estar com a gente mesmo, fazer planos. É gostoso também correr com os amigos, mas na maioria das vezes corro sozinha.

A corrida rejuvesce?
É muito comum ouvir que a corrida deixa as pessoas com aparência mais envelhecida, por causa da exposição ao sol, perda de líquido, do imapcto, etc...De fato, a corrida é bastante desgastante para o corpo, principalmente para nós que vivemos num clima quente e  numa cidade tão poluída, como São Paulo. Ë preciso muita hidratação e protetor solar, além dos outros cuidados com alimentação e treinos adequados.
Um conselho interessante de uma dermatologista, além de todos os cuidados, é prestar atenção nas caretas que gente faz enquanto corre.

Por outro lado, o bem estar e a energia que  sentimos com a corrida rejuvenescem e compensam muito este desgaste físico, a gente fica mais feliz. 

12.8.15

Aos 98 anos, brasileiro Frederico Fischer é prata nos 100 m no Mundial de veteranos

Até quando a gente pode correr, saltar, lançar, arremessar? Com que idade ficamos velhos? Um bando de homens e mulheres está se encarregando de desafiar ideias preconcebidas, disputando na cidade francesa de Lyon o Mundial de atletismo para veteranos.

Dá uma inveja!!!

É sensacional acompanhar os resultados de pessoas que já passaram dos 80, dos 90, dos 95. Não são mais crianças, não têm a força da juventude, mas têm determinação inquebrantável e servem de exemplo para qualquer um.

A delegação brasileira está tendo um desempenho sensacional, que deveria servir de exemplo e iluminação para os dirigentes esportivos de nossas modalidades olímpicas.

No quadro de medalhas, o Brasil aparece em 19 pódios (pelo que vi, porém, está desatualizado e já há mais uma medalha verde-amarela). O país contabiliza nada menos do que seis campeões mundiais.

Um deles é o meu amigo, entrevistado e perfilado em meu livro “+Corrida” Frederico Fischer (foto Fernando Donasci).



Do alto de seus 98 anos, lançou o martelo a 16,62 m para conquistar o ouro na categoria de maiores de 95 anos (M95). No arremesso de disco, ficou em segundo, com 13,21 m (perdeu para um austríaco três anos mais jovem).

Mas o que me impressiona mesmo em Fischer é a inabalável decisão de continuar treinando corrida n as areais de Peruíbe. Faz “tiros” de 50 metros, intercala com caminhada, começa tudo de novo, depois de alguns alongamentos. Também realiza trabalhos de força.

Vale a pena: é o recordista mundial dos 100 m entre os maiores de 90 anos (M90) e os maiores de 95 (M95). Neste mundial, conquistou a prata na distância, que completou em 24s89, apenas um segundo e 39 centésimos atrás do britânico que levou o ouro e tem dois anos a menos.

Não é à toa que Fischer diz: "Não é só bocha e truco que o idoso deve fazer. Tem é que se movimentar mesmo. E outra: sentir cansaço. Não é começou a cansar e parar. Tem de forçar um pouco mais".

Ele deu essa receita em entrevista que me concedeu há seis anos e resultou em uma reportagem na Folha que você pode ler clicando AQUI. A transcrição (quase) integral de nossa conversa –e também de uma longa entrevista com outro veteraníssimo brasileiro, o “seu” Toniquinho—você pode ler em meu blog, clicando AQUI –tem de rolar a página até chegar ao texto desejado.

Ainda que Fischer seja talvez a estrela mais brilhante da delegação verde-amarela, temos outros grandes atletas na turma dos superveteranos.

Recordista mundial nos 100 m e nos 200 m, categoria maiores de 85 anos (M85), Yoshiyuki Shimizu conquistou neste Mundial o ouro nas duas distâncias. Aos 87 anos, traz também o primeiro lugar no salto triplo!!

E uma senhora de 84 anos de mesmo sobrenome –esposa dele, talvez, não consegui confirmar--, dona Mitsu Hotsumi Shimizu, traz o bronze para o Brasil nos 100 m para mulheres de mais de 80 anos (W80).

Falando em mulheres dessa faixa etária, há que tirar o chapéu para Margarida Hochstatter, que conquistou a prata nos 5.000 m, com impressionantes 31min30s99 (ainda que eu não seja parâmetro para nada, adianta que hoje não consigo nem chegar perto disso)

Dona Margarida também foi prata nos 10.000 m, com 1h04min39s93. E ainda pegou um bronze na distância intermediário de 8.000 m (prova não olímpica), com 55min16.
Nessa distância, aliás, outro brasileira também brilhou: Marisa Cruz, 71, trouxe o bronze na categoria maiores de 70 (W70) –mesmo posto que obteve nos 10.000 m, completados em 52min02s65!!!!

Volto à homarada para destacar os resultados do senhor Mamoru Ussami, que representou o Brasil na categoria maiores de 90 anos: traz o ouro nos 200 m e a prata nos 100 m.

Infelizmente, não dá para citar todo mundo. Mas prometo que vou atrás de alguns desses nomes e de outros competidores brasileiros; pretendo trazer várias entrevistas para você.

Enquanto isso, fique ligado no Mundial de veteranos (osite oficial está AQUI). Domingo, dia 16, será realizado o Mundial de maratona para maiores de 35 anos, homens e mulheres.

Assim que tiver dados disponíveis, conto tudinho para você.





7.7.15

Velhinho aposentado canta vitória contra a dor e faz balanço da alegria

A dor é inimiga do desempenho, adversária da satisfação, rival do prazer.

Ao longo de quase dois anos, minha vida de corrida foi uma vida de dores.

Terminei mancando a maratona de Vancouver, no primeiro semestre de 2013. Sofria com pontadas nas costas, agulhadas no quadril, cansaço generalizado e dolorido.

Parei, descansei. Fui me recuperando aos poucos, fazendo fisioterapia, treinando mal e porcamente, fugindo da planilha preparada com carinho pelo meu treinador da época. Estava me reforçando, mas tudo muito lento, às vezes dava vontade de jogar tudo para o alto.

Veio o aniversário de São Paulo, 460 anos em 25 de janeiro de 2014. Em primeiro de dezembro de 2013, iniciei uma jornada para homenagear a cidade, prometendo correr um quilômetro em saudação a cada ano de existência da Pauliceia (leia mais AQUI).

Cinco dias depois, sofri uma fratura por estresse.

Não desisti dos 460 quilômetros, realizando o percurso em uma sequência de caminhadas, apoiado pelo pessoal do Instituto Vita: fisioterapia, massagens, acompanhamento médico, orientação. Ao mesmo tempo, eu passava a ser meu próprio treinador, fazendo o que era possível a cada dia.

Completei com muita alegria o desafio perseguido –veja AQUIum vídeo de balanço da jornada. Mas sobraram sequelas desesperadoras: uma inflamação em uma vértebra no meio das costas, aumento das já brutais dores na lombar, agulhamento no miolo do glúteo (o maldito piriforme), sem falar de uma pontada que assustadoramente chegava até a virilha.

Para piorar, uma enorme inflamação no pé esquerdo, logo atrás do segundo dedo, como se fosse Neuroma de Morton, mas não era. Inflamação traiçoeira, que aceita o impacto rápido da corrida, mas derruba quando o pé vem de prancha na caminhada: só dói quando eu caminho!!!

Ainda por cima, eu envelhecia. Envelhecemos todos, um pouco a cada dia, mas há momentos que são de virada, de inflexão, de reflexão. Em setembro de 2014, iniciou-se oficialmente minha aposentadoria, depois de 39 anos de registro em carteira.

Como grande parte dos aposentados brasileiros, segui trabalhando, não mais registrado, mas fazendo o que me é possível neste momento. É o que fazemos, nós, os velhinhos ainda produtivos: 39,1% dos aposentados de 60 a 69 anos continuam trabalhando; quase 16 milhões se mantêm como arrimo de família, conforme dados do Instituto Data Popular.

Na hora da aposentadoria, muitos de nós paramos para um balanço. “Agora vou fazer o que sempre quis”, sonham alguns; “estou perdido”, desesperam-se outros. Entre sonhos perdidos e choque de realidade, muitos de nós caímos na depressão, ficamos dando voltas sobre nossos próprios quase cadáveres (é como muitos de nós nos vemos ou imaginamos que a sociedade nos vê).

Resolvi enfrentar isso, como você sabe, colocando como meta voltar a treinar para uma maratona, fazer minha primeira maratona como aposentado. Eu, que não vinha fazendo nem dez quilômetros de uma tacada só, partiria para o maior desafio dos corredores olímpicos, a grande jornada de 42.195 metros.

Tive o apoio luxuoso do já citado Instituto Vita, agora com o reforço de uma nutricionista. E voltei a receber orientação do pessoal da Força Dinâmica, grandes estudiosos do movimento humano e cuidados manejadores de cargas para desafiar o corpo, sem machucá-lo.

Pois o desafio para todos eles –e para mim—era conseguir aumentar minimamente a quilometragem semanal sem puxar os gatilhos da dor.

Alexandre Blass, o treinador responsável pelas planilhas e orientação do meu trabalho de força, tratou de criar uma estratégia de combinação de corrida e caminhada; Graziella Cândido, a fisioterapeuta do Vita que mais de perto acompanhou todo o meu processo, cuidou de reforçar a musculatura interior –o dito “core”—e relaxar pontos de tensão ao longo do período de treinamento. Cito os dois como representantes de todo o grupo envolvido.

O resultado foi estupendo, como você, estimado leitor, querida leitora deste blog, já sabe (balanço da corrida no quadro abaixo).



Apesar de ter sofrido muito ao longo do treinamento e de nem sempre ter conseguido cumprir toda a programação feita pelo treinador, cheguei ao dia da maratona com pelo menos a preparação nos três últimos meses prévios executada com galhardia.

Cansei na prova, a musculatura endureceu –mas não travou—e enfrentei comigo mesmo uma batalha de vontades, em que me venci e fui vitorioso contra mim (a meu favor). 

Talvez, se tivéssemos tido mais tempo ou se eu não estivesse tão fragilizado ao longo de boa parte do período de treinamento, pudesse ter realizado mais três ou quatro longos. Isso talvez me permitisse manter por mais tempo a velocidade média dos primeiros 28 km ou 30 km, fazendo com que eu completasse em menos de cinco horas.
Não dá para saber. 

O que dá para saber é que, com o treinamento feito, com uma quilometragem mínima de corridas, é possível enfrentar a distância com um grau suportável de sofrimento, que não chega a ser dor de alguma patologia, apenas o sofrimento muscular normal do cansaço e da sobrecarga.

O que nós fizemos foi muito simples (mas só pôde ser feito graças aos profundos conhecimentos técnicos do Alexandre). TODOS os treinos de corrida foram feitos em blocos que combinavam corrida e caminhada (abaixo, balanço geral do processo).



Os blocos variavam conforme o dia da semana, conforme a distância máxima desejada, conforme a semana de treinamento e a proximidade com a data da prova, conforme minhas dores ou minha condição mais positiva.

Recebi planilhas semanais. Não poucas vezes, elas foram modificadas durante a semana em curso para se adaptar às minhas condições específicas daquela semana (em geral, negativas; mas também houve semanas em que pedi mais treino e fui atendido).

Fizemos blocos de 1.800 metros de corrida por 200 de caminhada (como fiz hoje, a primeira vez que corri desde a maratona), outros de 300 de caminhada por 3.700 de corrida, e até de 500 metros de caminhada por 4.500 metros de corrida.



No total, foram 73 treinos registrados pelo meu relógico com GPS. A quilometragem acumulada, entre caminhadas e corridas, chegou a 780 km –como fiz vários treinos de caminhada sem registro, estimo que, no total geral mesmo tenho sido de 80 a 85 jornadas, com cerca de 850 quilômetros percorridos.

Nesses cinco meses (quatro meses e meio) de treino, a partir de fevereiro, houve um crescendo da quilometragem mensal. Mesmo assim, como você pode ver no quadro abaixo, não é nada que deixe maratonistas experientes abismados; ao contrário: é muito bom ver que quilometragem tão baixa permitiu chegar a um resultado tão positivo.

O segredo talvez esteja na sábia manipulação dos volumes e das cargas semanais, que não foram crescentes, mas sim variadas: cresce uma ou duas semanas, cai, volta a crescer, estabiliza, cai novamente, sobe e assim vai.



O balanço das cargas semana a semana é esclarecedor.

Como dá para perceber, meu ritmo médio geral, considerando todos os treinos, foi de sete minutos e meio por quilômetro (7,5min/km). Isso é o balanço total, misturando treinos de corrida e caminhada, resultados de provas, jornadas de apenas caminhada etc.; e, para surpresa de ninguém, foi quase exatamente o ritmo empregado na prova.

Pelos dados do meu GPS, aliás, minha média foi um pouquinho mais rápida do que a dos treinos: 7,3min/km. Ele considera que a distância que percorri (talvez por idas e vindas ou por não respeitar exatamente o trajeto ideal traçado pelos organizadores) foi de 42,6 km (não 42,195 km).

Com este balanço, concluo o projeto PRIMEIRA MARATONA COMO APOSENTADO. Mas não paro com meus desafios.

Este blog continuará vivo e atento a tudo o que envolve a vida, o trabalho e a política do povo da Terceira Idade, os veteranos, os aposentados, os velhinhos, nóis tudo que tamo aqui. Estou planejando, com meus apoiadores, o desenho de um novo projeto.
Desde já, agradeço ao Vita e à Força Dinâmica pela companhia nesta jornada e pelo incentivo para o que vem por aí.

Vai ser muito bacana, espero que seja também inspirador. Vai ser difícil e caro. Portanto, querida leitora, estimado leitor, se você conhecer empresas ou entidades que estejam dispostas a apoiar a jornada de um aposentado pela vida, contra a depressão, pelo trabalho, contra a doença, pelo prazer e pela alegria, pode me apresentar a eles.

Estamos abertos para conversar sobre diversas formas de apoio para um projeto que, espero, você venha a gostar muito e a apoiar ainda mais do que apoiou esta jornada que ora se conclui.

Muito obrigado por tudo. Fique comigo, acompanhe as novas mensagens que colocarei aqui e não deixe de curtir minha página no Facebook. Clique AQUI para chegar até ela, compartilhe, divulgue.

Vamo que vamo!!!

Agora é já, depois é mais tarde!!!!



22.6.15

Aposentado corre maratona no Alasca e volta cheio de esperança

Muro, parede, hora em que o urso sobe nas costas –maratonistas conhecem bem esse momento em que as forças parecem ter abandonado o corpo e já não há nada mais a fazer senão entregar ossos e músculos à mente, para que sejam obrigados a obedecer, dar mais um passo e outro mais. Às vezes, o desastre é no km 30, outras no km 32; há quem desabe metros antes de cruzar a linha de chegada.

Para mim, foi na altura no km 29, e não houve muro, parede ou barreira a brotar do chão, isso é mais comum acontecer quando a pessoa forçou demais ou não comeu direito ao longo do percurso. Para mim, o que veio foi o canto de sereia da Preguiça, incendiado e colorido pelo combustível do Cansaço, alimentado pelo Desânimo...

“Mais um pouco e dou uma caminhada”, disse para mim mesmo. “Está muito difícil, está doendo, as pernas não estão respondendo, que diferença faz seguir ou ficar, caminhar ou correr?”, eu me perguntava enquanto, ao mesmo tempo, calculava a combinação a empregar, se caminhadas de 300 metros para trotes de 2.700 metros ou mais preguiçosos trechos de 500 m por 2.500 metros.

Afinal, bastava chegar para vencer o desafio que havia proposto para meu corpo velho e machucado. Havia dois anos que não corria uma maratona, derrubado por lesões, tarefas profissionais e os males da idade. No meio tempo, tinha me tornado oficialmente um aposentado.

Ainda que continuasse na ativa, o momento da retirada é emblemático para a vida. Será que agora vou poder fazer tudo o que sonhava quando estava limitado pelo horário de trabalho? Ou será que agora serei esquecido, como um velho, abandonado e perdido, considerado inútil pela sociedade?

Foi essa uma das razões para a criação deste desafio: voltar a correr uma maratona é mais do que um esforço físico, é uma caminhada contra o esquecimento, uma jornada contra a depressão, uma campanha pela vida, por se demonstrar ativo, forte, guerreiro.

Ainda que fosse um guerreiro cansado no quilômetro 29 da Mayor`s Midnight Sun Marathon and Half Marathon, a Maratona do Sol da Meia Noite de Anchorage, Alasca, um inesperado destino mesmo para mim, que já percorri traçados maratonísticos nos cinco continentes.

A cidade, maior centro urbano do maior Estado norte-americano, é curiosa. Espalha-se por quilômetros sem fim –sua área é três vezes maior do que a de São Paulo--, a maior parte deles sem viva alma a habitar (tem apenas 300 mil habitantes, menos que o Grajaú e um pouquinho mais do que o Jardim Ângela).

Por isso, as distâncias são grandes e as ruas, largas, quase todas do tamanho de nossas avenidas; estradas de alta velocidade ligam bairros de Anchorage, e o transporte público não é exatamente o melhor do mundo: algumas linhas de ônibus circulam de hora em hora, outras mais movimentadas largam os veículos a cada meia hora!!!

Acabei indo de táxi para a largada, numa escola de segundo grau a quase 20 km do hotel onde fiquei. O prédio é impressionante, e os recursos disponíveis para os alunos mais ainda –enorme ginásio, salas para teatro e artes, auditório, corredores imensos, refeitório gigante, vários banheiros específicos para alunos com necessidades especiais...

Dez minutos antes da largada, num dia fresco e nublado, ótimo para correr –um alívio depois de dois dias de forte calor, em que as temperaturas passaram dos 22 graus--, começou a cerimônia, que incluiu algumas palavras do diretor da prova e a execução do Hino Nacional. Guardas florestais carregaram as bandeiras do Alasca e dos Estados Unidos (antes deles, fiz essa foto solitária com o portal de largada).



Éramos um punhado de corredores em busca do desconhecido  --havia gente dos 50 Estados dos EUA e de mais de dez países, sendo eu o sujeito que percorreu maior quilometragem para chegar àquele momento, voando mais de 8.000 quilômetros desde São Paulo.

O dia era cinza e o percurso também. Não há ouro nem gelo no trajeto, apenas asfalto cobrindo uma trilha de caminhada/pedaladas. De um lado, temos a autoestrada, de outro, um enorme terreno de propriedade do Exército norte-americano. Grama, pasto árvores, verde, é para lá que olho.


Nem bem dá um quilômetro e recebo o primeiro aviso: o joelho esquerdo bambeia e um raio passa pela lateral da perna, que fica frouxa, renga, incapaz de obedecer aos comandos do cérebro. Isso dura uma fração de segundo, o tempo suficiente para jogar pavor no corredor, que se recupera e pisa firme.

Essa dor me era conhecida. Já havia sofrido com ela em alguns treinos. Não conseguira explicação, apesar de um monte de investigações feitas pelos especialistas que me acompanham  --obrigado aí, Graziella, Marcelo, Luca, Cabrita!!! Chegamos até a fazer uma ressonância do joelho, que trouxe a feliz notícia de que minhas articulações estão em forma juvenil...

Mesmo assim, doía e me deixava a perna bamba, correndo por um músculo que vim a conhecer nos últimos meses, o tal de fibular, que leva esse nome porque acompanha o osso assemelhadamente nomeado (pelo menos, é o que eu imagino).

Bueno, já disse a sabedoria popular, o que não tem remédio remediado está. Tratei de aprumar o corpo, organizar a passada e mandar brasa, aproveitar o clima agradável e a mente desperta.

Foi muito bom!!!

Parece que a corrida é um bom tratamento para a dor, pelo menos por algum tempo. Comecei a fazer quilômetros em cima de quilômetros em ritmo melhor do que o treinado. E me disse que não era hora de economizar; não dá para sair à la louca, mas também não vou caminhar e trotar, vou dar o que tenho.



Às vezes, trazia para o dia o mantra que criei na minha segunda maratona, lá em Porto Alegre, a mais rápida que fiz até hoje: velocidade não é nada, ritmo é tudo.

Observava os corredores à minha volta, tentava marcar alguns alvos, mas logo me perdia em meus pensamentos. A corrida era comigo. E assim passei do km 10 em melhores condições do que numa corrida de dez quilômetros que fizeram em Porto Alegre.

Me animei quando vi, ao longe, uma poderosa montanha, primeiro grande sinal de vida selvagem no percurso, até então muito bem comportado.

Logo ficaria mais complicado: cruzamos sobre a rodovia e entramos numa estrada de chão batido, coberta por pedregulhos dos mais diversos tamanhos –no site da corrida, dizia que poderia haver alguns do porte de uma bola de beisebol.




Mas não era uma trilha. Por ali até carro passava. Mesmo assim, era preciso prestar bastante atenção ao terreno, evitando as depressões e morrinhos no percurso. Até uma pedra pequena poderia significar torção do pé, se a pisada entrasse de mau jeito.

Apesar do caminho civilizado, a sensação era de passar em uma floresta selvagem, pois era mato cerrado dos dois lados. Aos poucos, a trilha estreitava; de vez em quando, cruzávamos pequenas pontes sobre riachos cantantes... Eu tremia só de imaginar quão gelada a água poderia estar.



Quando passei a metade da prova, comecei a me entusiasmar. Se mantivesse o ritmo, conseguiria terminar em cinco horas cravadas, menos uns dois ou três minutos talvez, mais uns três ou quatro se diminuísse...

Fazia disso um plano, um sonho... Afinal, o esperado era completar inteiro. Ponto Final. O sonhado era terminar em cerca de seis horas. O idealizado era chegar ao fim em cinco horas e meia. Qualquer coisa abaixo disso seria motivo para comemorações infindáveis. E agora os números em meu relógio diziam que estava em ritmo para fechar em cinco horas???

Que que é isso, ô meu?   

Cada olhada no relógio instigava as pernas, os braços, o corpo todo... Conseguia correr bem –para um sujeito de quase 60 anos, com duas hérnias, costas alquebradas e musculatura ainda não totalmente consertada--, não queria descansar nem seguir os planos de caminhar e correr.

Reduzia apenas nos postos de hidratação e para me reabastecer de carboidratos de acordo com o planejado. Ali precisa mesmo caminhar, não dava para beber água em copo trotando ou correndo.

Houve momento em que até me emocionei imaginando a chegada em 4h57, talvez 4h58, mas já corri mais de 30 provas de longa distância e sei muito bem que a corrida só acaba quando termina. Do jeito que eu estava, rapidamente os quilômetros começariam a ficar mais compridos, mais demorados, viria a dor, poderia até passar das sete horas, sabe-se lá...

Desencanei do tempo, mas não do entusiasmo. Fui ficando mais lento, a musculatura das pernas se endurecia, não respondia mais aos comandos. Mesmo assim, até o km 29 a perspectiva era de chegar em menos de cinco horas, se e somente se eu mantivesse um ritmo de sete minutos por quilômetro por toda a distância que restava.

Meu ritmo já estava variando muito, chegava às vezes a oito minutos, às vezes mais. Era hora de jogar a toalha, caminhar, descansar e completar inteiro minha primeira maratona como aposentado.

Tentei, porém, correr mais um quilômetro. Deu certo, as pernas obedeceram. Então disse que seguiria correndo somente até o próximo posto de hidratação. 

Deu certo.

Não vou caminhar ainda, estava me dizendo, quando vi um sujeito parado no meio da estrada fotografando o nada, matagal e pasto do lado esquerdo, pertinho da floresta.

Bueno, nada não podia ser. Apertei os olhos e vi o bichão que o matagal escondia. Um dos famosos alces de Anchorage!!! Também parei para fotografá-lo, registrar tão preciso momento.



E Voltei a correr. Em alguns momentos, desanimava, queria descansar. Mas agora era uma briga entre quem era mais cabeça dura, se eu ou se minhas pernas.

Por enquanto, eu estava ganhando. Quando cheguei ao 39 sem ter sido obrigado a caminhar, de novo comecei a sentir lágrimas escorrendo pelo rosto.

Pensava nas minhas filhas, na minha mulher, imaginava a chegada, pensava no treinamento, nas dores e na caminhada para o conserto do corpo. 

Queria continuar correndo, apesar da Preguiça e de seu canto de sereia, do monstro do Desânimo e da poética Desesperança.

O último quilômetro traz uma íngreme subida nos derradeiros metros, curtinha e dolorida. Pois até ela enfrentei, para descer correndo em direção ao parque onde estava montado o circo da chegada.

Tinha vencido meus perrengues, correra o tempo todo, sempre no máximo que eu podia, mesmo quando o máximo foi 8min30 por quilômetro. O que vale é que a gente não afrouxa –“nóis capota mais não breca”, está escrito em ximbicas velhas que torturam o léxico e a gramática.

Estava deixando de ser um corredor da ladeira da memória e voltando a ser uma maratonista vivo e ativo, APOSENTADO CORREDOR, não corredor aposentado.




Ganhei meu beijo de prêmio, chorei com minhas filhas ao telefone. Mais tarde, fui fazer meu banquete de vencedor: cachorro-quente de linguiça feita de carne de rena. Um seria de alce???