24.2.16

Prédio da Metal Arte, onde Manoel Fiel Filho trabalhou durante 19 anos, é hoje depósito de colchões

Em São Paulo, os trilhos são uma espécie de muro ao rés do chão, parede (quase) invisível que corta e separa a cidade.

Para dentro da linha férrea estão  o centro, a praça da Sé, as mansões dos Jardins, os modernosos prédios da avenida Paulista.

Do lado de lá, seja para o Norte, o Sul, o leste ou o Oeste, ficam as periferias, com seus eventuais bolsões de progresso e riqueza, mas de qualquer forma com carências que boa parte dos moradores do centrão urbano não conhecem.

Carros passam de um lado para o outro por viadutos e vias expressas. As gentes, porém, enfrentam mais dificuldades, como mais uma vez constatei hoje, quando parti de pertinho do Marco Zero de São Paulo em direção ao início da Zona Leste.

Por onde passam automóveis, não passam pessoas. Talvez eu não tenha encontrada a travessia correto: o fato é que tive de sair da Radial Leste –monumental complexo viário campeão de trânsito entre as rotas consideradas mais importantes pela CET (Companhia de Engenharia de Tráfego: pelos postos de controle passam  2,7 veículos por segundo, em média, nos horários de rush.

Com toda essa carralhama, não havia jeito senão fazer um atalho –que, no meu manual, sempre aumenta a distância. Azar e caverocas, como dizia minha mãe. Em compensação, conheci mais um pedacinho do passado de São Paulo.



Passei por baixo do viaduto Alcântara Machado, onde funciona uma movimentada comunidade do povo da rua.
Pelo que pude perceber, há vários grupos, associações de catadores e até uma enorme academia de ginástica, com muitas máquinas para musculação e outros exercícios.

Mini-hortas ou flores decorativas são cultivadas em garrafas de plástico penduradas em um alambrado; as paredes de alguns barracos funcionam também como mural em que colocam um alerta para a cidade que divide, discrimina e convive com a desigualdade.



Cruzando por eles, pego a rua Paulino Mônaco em busca de uma passarela de pedestres que vai me permitir cruzar para o outro lado da linha férrea. O quarteirão é feio: de um lado, a cerca protegendo os trilhos; de outro, armazéns fechados; na esquina, um bar em que bêbados discutem em altos brados na manhã que ainda vai curta.


A passarela é bela, porém abandonada. De ferro, com alambrados lindamente desenhados, que, com a falta de cuidados, viraram pedaços de ferro-velho carcomidos pelo tempo e pela ferrugem. Não vi em nenhum lugar a data de construção, mas deve ser pelo menos centenária.

Enfim do lado de lá dos trilhos, oficialmente no bairro da Mooca, dou de cara com o belo prédio onde está instalado o Museu da Imigração. 

Prédio onde funciona o Museu da Imigração - Foto Divulgação; as demais são de minha autoria


Originalmente, o edifício era a Hospedaria dos Imigrantes, abrigo inaugurado em 1887 para dar guarida aos chegantes ao Brasil de então.

Sigo em frente, sentindo os músculos ainda um pouco cansados da jornada do dia anterior. Por isso mesmo, hoje caminho, mas sem deixar a peteca cair: vou a passos rápidos, tentando manter a coluna ereta e a passada firme. Tenho de proteger o corpitcho envelhecido, senão qualquer hora voltam as dores na lombar, no quadril e alhures.

Hoje, pelo menos, não voltaram. Pude encontrar em paz, sem maiores altercações comigo mesmo, o meu destino de hoje: rua Siqueira Bueno, 668.



Ali, num prédio de dois andares de altura, frente estreita e dezenas de metros de fundos, funcionava em 1976 a Metal Arte, metalúrgica especializada em peças de iluminação –como suportes para luminárias; fazia também acessórios para automóveis.

Com 19 anos de casa, Manoel Fiel Filho estava entre os mais antigos dos cerca de 700 funcionários da empresa. Ele foi admitido na Metal Arte Indústrias Reunidas no dia primeiro de julho de 1957, com salário de CR$ 2,25 por hora de serviço.

Trabalhava das 7h às 17h30, com intervalo de uma hora para almoço, das 11h30 às 12h30, segundo registros citados por Carlos Alberto Luppi em seu livro “Manoel Fiel Filho – Quem Vai Pagar por Este Crime?”.

Então com 30 anos, Manoel tinha 1,59 m de altura e pesava 70 quilos. Toda sua documentação estava em ordem. Cumprira o serviço militar em quartel, como atestava seu certificado de número 90902. Tinha o título de eleitor número 76179 e votava na quarta Zona Eleitoral de São Paulo.

Talvez para ele, porém, o documento mais importante fosse outro, a Carteira Profissional. Os dados: número 23.044, série 82, de 27 de novembro de 1950.

Prezava a seriedade no trabalho, de onde quase nunca se ausentou ao longo de seus 19 anos de empresa. Ao que se saiba, há apenas duas faltas contabilizadas, ambas em 1971, por causa de dores na coluna.

Nada que fizesse com que perdesse a admiração e a confiança de chefes e colegas. Era “extremamente tranquilo e trabalhador”, segundo a gerência da empresa. Fazia horas extras “sempre que fosse preciso e sem se queixar de nada”, disseram os entrevistados de Luppi.

Começando como ajudante, foi galgando postos. Era encarregado do setor de prensas hidráulicas, lembra sua viúva, Thereza Fiel, em entrevista para este corredor.



O trabalho duro e o posto de chefe lhe valiam um salário de Cr$ 3.300. Com todas as trocas de moeda ao longo dos 40 anos passados desde então, não vou nem me atrever a fazer o cálculo dde quanto isso daria em valores de hoje. Era, de qualquer forma, um ganho razoável para a época; dava mais de seis salários mínimos, cujo valor, em janeiro de 1976, era de Cr$ 532,80.

Sempre chegava cedo ao trabalho, segundo o vigilante Arnaldo contou para Luppi. Seis da manhã já estava na porta da fábrica, onde ficava até o final do expediente e mais além: quando tocava o apito no fim da tarde, saía para um rápido lanche e voltava para o terceiro turno, o das horas extras.

A dedicação foi também atestada pelo gerente industrial da Metal Arte, Jorge Vito, citado no livro: “Manoel era homem de comportamento exemplar não participava de grupos e jamais foi visto distribuindo panfletos entre os operários”.
Até aí morreu o Neves, porque, se Fiel Filho efetivamente distribuísse material clandestino deveria fazê-lo clandestinamente, por suposto, fora das vistas de chefetes, subchefetes e gerentes em geral.

Alguma ação mobilizatória ele tinha. Era delegado sindical, representante de fábrica, como lembra o dirigente do Sindicato dos Metalúrgicos José Francisco Campos –o homem que abonou a ficha de filiação de Manoel em 1956.

A data da filiação de Manoel ao sindicato indica sua preocupação com as ações trabalhistas e com o trabalho de reivindicação: ele tinha apenas recentemente começado na profissão de metalúrgico, depois de atuar em ofícios diversos, incluindo trabalho em uma padaria e como cobrador de ônibus.

Ficou pouco tempo no primeiro emprego de operário, em uma metalúrgica que funcionava perto da rua dos Trilhos, segundo lembra dona Thereza. Em menos de um ano, saiu de lá para se empregar na Metal Arte.

No dia 16 de janeiro de 1976, dois homens desceram de um carro em frente à empresa, que fica em um quarteirão da Siqueira Bueno colado à Radial leste (ali a via se chama Alcântara Machado), à sombra do viaduto Guadajara, inagurado em 1970.

Era pouco depois das nove da manhã, de acordo com reportagem de Ricardo Kotscho publicada na época no jornal “O Estado de S. Paulo”.

Os dois homens, segundo o texto, procuraram o chefe de pessoal. Identificaram-se como ''elementos do DOPS", que precisavam falar com o operário Manoel Fiel Filho [outros relatos dão conta de que a polícia, na verdade, estava atrás de um certo Fiori ou Flores].
A reportagem de Kotscho segue: “O chefe de pessoal lembra que Manoel não mostrou nenhuma preocupação quando os dois homens lhe disseram que ele precisava ir ao DOPS "para fazer um reconhecimento”. Só perguntou se era preciso trocar de roupa, ao que os dois homens responderam que não: - É uma coisa muito simples, só prestar alguns esclarecimentos. Em duas horas ele está de volta.”
Manoel nunca mais voltou.
Já na época a Metal Arte estava em processo de transição –tinha sido vendida a investidores estrangeiros. A Metal Arte foi vendida a empresário estrangeiro.

Hoje, o local em que Manoel trabalhava faz parte de um depósito de uma empresa que fabrica colchões. Nesta manhã, o prédio de número 668 na Siqueira Bueno estava fechado.
Em frente ao depósito, sob o viaduto Guadalajara, funciona um serviço de atendimento a moradores de rua.

Mais para a esquerda, um murão protege um conjunto de prédios elegantes. Para diminuir sua feiúra, um grafite desfaz o azul-cinzento que cobre as paredes do restante do quarteirão.


CORRIDA POR MANOEL – sétimo dia

Destino: Rua Siqueira Bueno, 668, Mooca, onde funcionava a fábrica Metal Arte, onde Manoel Fiel Filho trabalhava; 6,62 km caminhados em 1h23min43

Quilometragem acumulada: 79,17 km



23.2.16

Correndo, juventude da zona leste faz homenagem a Rubens Paiva

Ela sorria, mas ao mesmo tempo não conseguia controlar as lágrimas que lhe tomavam os olhos. “É uma sensação esquisita sentir-se aliviada com uma certidão de óbito", disse lágrimas Eunice Paiva, viúva do deputado federal Rubens Paiva, desaparecido em 20 de janeiro de 1971.

Sua declaração à imprensa foi feita em 23 de fevereiro de 1996, no 1º Cartório de Registro Civil de São Paulo, onde recebeu a certidão de óbito do marido, após 25 anos de busca e espera.

"Durante muito tempo, como não nos entregavam esse papel, eu e meus filhos (cinco) ficamos na dúvida se Rubens estava morto ou não. Essa foi a forma de tortura mais violenta que impuseram às famílias dos desaparecidos políticos", disse Eunice conforme registro da “Folha de S. Paulo”.

Pois hoje, exatos 20 anos depois daquela dolorida conquista da família Paiva, tratei de fazer uma homenagem ao ex-deputado do Partido Trabalhista Brasil –aquele do século passado, de Getúlio e de Brizola.

Como parte do projeto CORRIDA POR MANOEL, fiz na minha sexta jornada um trajeto de pouco mais de vinte quilômetros até a Escola Municipal de Educação Fundamental e Média Rubens Paiva.

Pretendia pelo menos abraçar a escola com minhas passadas –se possível fosse, talvez conversar um pouco com alguns alunos, fazer uma corrida “in memória”.



A escola Rubens Paiva é um portento no Jardim Ângela –este fica na zona leste da cidade e não deve ser confundido com o distrito de mesmo nome, na zona sul da cidade; o da zona sul é  muito mais famoso e, em anos recentes, chegou a ser a região mais violenta de São Paulo.

O prédio da escola é gigante, se comparado com a maior parte das construções à sua volta. A escola fica numa encosta de morro: mais para cima, há casas de classe média, ainda que bastante simples; para baixo, há uma comunidade carente. É cercada por ruas estreitas e tortuosas, o que não garante que motoristas dirijam por ali em baixa velocidade: há alguns dias, uma estudante foi atropelada quando se dirigia para a escola.

Antiga, a Rubens Paiva viu crescer o bairro à sua volta. Instalada ali em 1997, quando muito da região “era mato”, como dizem alguns moradores mais antigo, serviu como polo aglutinador, imã atraindo gente para seu entorno.

Assim, não admira que fervilhe de gente. Funciona o dia inteiro, com aulas nos turnos da manhã, tarde e noite. No total, entre o pessoalzinho do fundamental e os mais taludos do ensino médio, abriga cerca de 1.100 estudantes.

No pouco tempo em que estive por lá, na manhã do dia do vigésimo aniversário da entrega do atestado de óbito de Rubens Paiva, vi corredores livres e limpos. A entrada da escola é protegida por grades. 

Depois de entrar, o visitante precisa ainda passar por um portão interno. Uma vez no prédio, é bem recebido: na sala de espera, há até um bonequinho com um pequeno cartaz dizendo “Sejam Bem Vindos”.

E bem-vindo eu fui, apesar de não ter tido oportunidade de preparar minha chegada com mais vagar. Conversei com o diretor, Rubens Batista, veteraníssimo da escola, onde atua desde 1998. 

Gentilmente, ele abriu espaço para uma conversa com os alunos mais velhos. Antes, ainda tive a oportunidade de apresentar o projeto da CORRIDA POR MANOEL para alguns professores, que acompanharam nosso bate-papo com os alunos.

Lá fomos nós para a primeira conversa, com alunos de segunda e terceira séries do segundo grau.

Eram mais de 50 adolescentes na sala, e apenas dois ou três levantaram o braço quando lhes perguntei se sabiam quem eram Rubens Paiva. 

Os que responderam, porém, foram 
certeiros nas informações.

Mesmo assim, tratei de dar um pouco mais de vida àquele conhecimento, juntando informações, falando do que tinha acontecido no Brasil em 1964.

O golpe militar, as perseguições políticas, o cerco aos sindicatos, as prisões arbitrárias e ilegais, a tortura, os assassinatos, a hipocrisia reinante.

Contei aos estudantes que Rubens Paiva era um jovem e aguerrido deputado quando o golpe fechou o parlamento: entre muitos que se calavam, ergueu a voz para denunciar o crime que se perpetrava contra as instituições e o povo brasileiro.

Viveu no exterior durante um período, mas logo tratou de voltar ao Brasil. Tratou de reerguer sua vida profissional, para garantir o sustento da família. E não deixou de lutar pelo que acreditava, apoiando, por exemplo, projetos jornalísticos que desafiavam o regime.

Era demais para a truculência ditatorial então instalada. As vozes rebeldes precisavam ser caladas. E o tacão se abateu sobre a família Rubens Paiva, como relata documento da Comissão da Verdade do Estado de São Paulo –nomeada justamente em homenagem ao líder estudantil e deputado nascido em Santos.

O relatório da Comissão, que reproduzo a seguir, traz detalhes da história:

“Na madrugada do dia 20 de janeiro de 1971, foram detidas por agentes do Centro de In­formações de Segurança da Aeronáutica (CISA) no aeroporto do Galeão, Cecília de Barros Correia Viveiros de Castro e Marilene de Lima Corona, sendo retiradas de avião da Varig procedente do Chile. Na revista de Cecília e Marilene, foram encontradas diversas cartas de exilados políticos no Chile para serem entregues no Rio de Janeiro. Um dos destinatários das cartas era Rubens Paiva.
Na manhã de 20 de janeiro, feriado de São Sebastião no Rio de Janeiro, Rubens Paiva e sua família foram surpreendidos por seis agentes do CISA armados com metralhadoras, que invadiram sua casa, no Leblon, logo após Rubens Paiva receber um telefonema de uma pessoa que queria lhe entregar uma correspondência proveniente do Chile. Então com 41 anos, Rubens Paiva foi levado de sua casa para prestar depoimento, em seu próprio carro, para o Quartel da 3ª Zona Aérea, localizado ao lado do aeroporto Santos Dumont, à época comandado pelo Tenente-Brigadeiro João Paulo Moreira Burnier, onde sofreu as primeiras torturas.
No mesmo dia 20 de janeiro, Rubens Paiva foi conduzido para o DOI – Destacamento de Operações de Informações do I Exército, situado na rua barão de Mesquita, no bairro da Tijuca, no Rio de Janeiro, juntamente com Cecília Viveiros de Castro e Marilene de Lima Corona. Em declarações prestadas no dia 11 de setembro de 1986, na Superintendência Regional do DPF no Rio de Janeiro, Cecília afirmou que:
“ao ser colocada no carro, encontrou no interior do mesmo um homem com as mãos amarradas, com a camisa em desalinho, tendo algumas manchas de sangue sobre a mesma e o que mais marcou a declarante foi a fisionomia do mesmo, o qual estava com os olhos ‘’esbugalhado”; que estava bastante vermelho naquela ocasião; que evidentemente aquele homem estava vivo até aquele momento; (...) ao entrar no carro que a levaria ao DOI-CODI reconheceu Rubens Paiva, e também foi reco­nhecida por aquele senhor; que esse reconhecimento foi apenas visual, não tendo na ocasião trocada nenhuma palavra(....)
No decorrer do dia 20 de janeiro, os agentes do CISA mantiveram os membros da famí­lia de Rubens Paiva incomunicáveis e detidos em sua própria casa. No dia seguinte, 21 de janeiro, Eunice Paiva e sua filha Eliane, então com 15 anos, foram levadas também para o DOI. Apesar da confirmação dos agentes do DOI de que Rubens Paiva lá estava detido, Eunice e a filha não estiveram com ele. Foram interrogadas várias vezes. A filha foi libertada no dia 23 e Eunice Paiva, apenas no dia 2 de fevereiro. Eliane, ao ser liberta na Praça Saens Peña, no bairro da Tijuca, foi informada pelo agente que fazia o serviço que o pai havia “fugido”.  Ao ser libertada, Eunice viu o carro do marido, um Opel Kadett, no pátio interno do quartel, carro que, posteriormente, foi devolvido à família mediante recibo de entrega do Ministério do Exército.
A família levou roupas para Rubens Paiva, entregues no segundo andar do Ministério do Exército, no Rio de Janeiro. Dias depois, nova entrega de roupas foi recusada, sob alegação de que ele não se encontrava em nenhuma organização militar sob o comando do I Exército. Para encobrir o desaparecimento forçado de Rubens Paiva, o Primeiro Exército divulgou versão na qual alegou que:
“O paciente não se encontra preso por ordem nem à disposição de qualquer OM deste Exército. Esclareço, outrossim, que segundo informações de que dispõe este Co­mando, o citado paciente quando era conduzido por Agentes de Segurança, para ser inquirido sobre fatos que denunciam atividades subversivas, teve seu veículo inter­ceptado por elementos desconhecidos, possivelmente terroristas, empreendendo fuga para local ignorado, o que está sendo objeto de apuração por parte deste Exército.”

Ainda que sem tantos detalhes, foi a história que contei aos estudantes da Rubens Paiva. 

Convidei a turminha para fazer uma rápida corrida memorial, mas já era quase hora do intervalo, falei para ouvidos moucos.

Na segunda conversa do dia, porém, o papo foi outro. Os quase setenta alunos de três turmas da primeira série do ensino médio não afinaram na hora do convite para a ação –brincadeira, movimento. 
Fizemos algumas voltinhas da quadra de esporte da escola.



Antes, conversamos sobre as histórias de Manoel Fiel Filho e de Rubens Paiva. “Encontraram o corpo?”, quis saber um dos garotos.

Não, não e não é a resposta. Torturado e assassinado em um quartel entre 20 e 22 de janeiro de 1971, seu corpo foi enterrado e desenterrado várias vezes por agentes da repressão, até ter seus restos jogados ao mar, na costa da cidade do Rio de Janeiro, em 1973, dois anos após sua morte.

Por mais de quarenta anos, porém, o Exército sustentou a versão do desaparecimento. Apesar de a família ter recebido o atestado de óbito em 1996, as circunstâncias da morte só vieram a ser oficialmente esclarecidas em fevereiro de 2013. Documentos então revelados pela Comissão Nacional da Verdade demonstram que Paiva morreu quando estava sob custódia do  Destacamento de Operações de Informações - Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-Codi) do 1º Exército, no Rio de Janeiro.

Depois da revelação, uma das filhas de Paiva disse frase semelhante à usada por sua mãe em 1996, quando recebeu o atestado de óbito de Rubens Paiva.  “O sentimento foi mais uma vez dar conta do luto interminável de 42 anos. Hoje é uma certa sensação de alívio” disse a psicóloga Vera Paiva em entrevista em Brasília.
Não basta, porém, identificar e reconhecer o crime, como disse Vera Paiva. “A gente imaginava que tinha acontecido, tinha indícios, mas não tinha prova material [do assassinato]. Com esses últimos documentos, um capitulo se encerrou, mas nós temos outros que é chegar, de fato, a quem procedeu a tortura e a morte de meu pai.”
Foi assim a história que relembrei com a turminha de estudantes da escola Rubens Paiva. 

Depois do bate-papo, fomos todos para a quadra de esporte, onde alguns se arriscaram a uma corridinha. 
Ao final, cantamos juntos: “Manoel Fiel Filho, presente! Rubens Paiva, Presente!”


CORRIDA PO MANOEL – sexto dia
Destino: EMEFM Rubens Paiva, no Jardim Angelo, 20,52 km em 2h41min38
Quilometragem acumulada: 72,55 km


21.2.16

Manoel separou sua vida familiar da militância sindical nos metalúrgicos

A rua Ibó vai de posto a posto, pode-se dizer. Nasce na esquina com a avenida Regente Feijó, grande artéria da zona leste de São Paulo; ali, do lado esquerdo, o lado ímpar da rua, há uma venda de gasolina.

De marca diferente, mas quase igual em tamanho, o outro posto fica no extremo oposto, no lado par da Ibó, quando ela se encontra com a avenida Sapopemba, uma das vias mais emblemáticas da cidade, marcante na história de São Paulo e dolorosa na carreira deste corredor.

A Sapopemba foi mote de debates, comentários, piadas e provocações durante a campanha eleitoral para a prefeitura paulistana, nos idos de 1985.

Com uma só frase, o ex-presidente Jânio Quadros (1917-1992) derrubou a empáfia de seu oponente, Fernando Henrique Cardoso, que se licenciara do posto de senador não eleito (suplente de Montoro, assumiu quando o colega de partido venceu as eleições para o governo de São Paulo, em 1982) para disputar o executivo municipal.

Jânio quis saber se o sabe-tudo FHC sabia onde ficava Sapopemba. A blague desarmou o peemedebista e deixou sua equipe em polvorosa –os assessores chegaram a montar polpudos dossiês sobre a avenida que corta a zona leste paulistana.

A Sapopemba também cortou meu coração. Para ser mais exato, meu joelho; para ser mais exato ainda, a cabeça da tíbia direita, o platô onde se insere a rótula. Foi ali que tive minha segunda fratura por estresse na minha curta, mas movimentada, carreira de corredor. O fato se deu em 2013, quando percorri a avenidona de cabo a rabo, num projeto para homenagear os 460 anos de São Paulo (saiba mais clicando AQUI).

Pois foi pela Sapopemba que cheguei à rua Ibó, para onde Manoel Fiel Filho levou sua jovem esposa em 1954. Naquela rua, em uma casa que hoje já não existe mais, moraram logo depois do casório.

Final da rua Ibó, no ponto em que ela se encontra com a avenida Sapopemba - Fotos Rodolfo Lucena


Lá viveram por muitos anos, lá viram as filhas crescerem –de lá viram a mais velha sair para construir sua própria família.

Naquela época, quando o século passado começava sua segunda metade, a região da Água Rasa, nas cercanias da Mooca, já vivia a efervescência industrial de que hoje vemos ruínas.

Correr num domingo pela rua da Mooca é como visitar uma cidade fantasma, pelo menos em seus primeiros quarteirões. Se, durante a semana, a região vive em burburinho, quando o comércio fecha o silêncio toma conta da via.

Cruzando o viaduto sobre os trilhos do trem –espécie de marco divisório entre a região central da cidade e a zona leste--, dá para ver os telhados de enormes construções que um dia abrigaram armazéns ou máquinas de agitadas metalúrgicas –hoje são ruínas.



Nesse cenário pouco empolgante, cinzento, sigo na corcoveada rua –são subidas e descidas leves, ao longo de três ou quatro quilômetros. Presto atenção nas transversais, pois é uma delas que vai me levar à Água Rasa. Nisso, sou surpreendido por uma rua que homenageia a atriz francesa Sarah Bernhardt (1844-1923); a lembrança é curiosa em meio a um monte de ruas em que são lembradas figuras não muito conhecidas do passado paulista e brasileiro. Dois quarteirões depois, como a me dizer que o tonto sou, e que homenagens nas cidades podem ser feitas a quem se queira, quando se queira, vem um rua que celebra a heroína francesa Joana D`Arc (1412-1431).

É melhor eu prestar atenção no trajeto, se não logo me perco.

Mas não: acerto o passo descendo a rua do Acre, cruzo a avenida Salim Farah Maluf, subo a primeira e dolorida lomba da icônica Sapopemba e logo me dou de cara com meu destino de hoje, quinto dia da CORRIDA POR MANOEL.

Metalúrgico quando morreu, Manoel tinha sido antes padeiro e cobrador de ônibus. Quando morou na rua Eli, onde conheceu sua futura esposa, ainda não era operário. Mas ganhava o suficiente para sustentar família e foi acolhido pelos pais de dona Thereza.

O namoro se deu à moda da época, e o casório também seguiu a apropriada liturgia. Apesar dos ganhos modestos –o pai de Thereza trabalhava na limpeza de ruas, e ele mesmo era tecelã--, a família da noiva tratou de produzir o casamento com a pompa que lhe era possível.

Ela estava linda, exultante, quando passou pelo corredor da grandiosa igreja da Vila Formosa. Na rua São Caetano, a “Rua das Noivas”, tinha garimpado um vestido que lhe caía no corpo com perfeição. A tiara e o véu que usou no dia ainda hoje arrancam suspiros da filha mais velha: “Olha isso!”, diz Aparecida, 60, mostrando a foto do casamento dos pais.

Dina Thereza mostyra imagem de seu casamento com Manoel - Foto Eleonora de Lucena


No civil, o enlace se deu no dia nove de dezembro de 1954; dois dias depois, aconteceram as núpcias no religioso. O novo casal foi morar em uma casinha nos fundos da casa dos pais de Thereza, na Água. O endereço era rua Ibó, 340 –em alguns documentos, porém, o nome da rua aparece grafado de maneira diferente.

“Fomos morar nos fundos da casa de minha mãe”, confirma dona Thereza em entrevista para este corredor. Era um conjunto movimentado, a julgar pela lembrança da filha mais velha, Aparecida.

“Morava a minha avó com meu avô na frente, nós na casa na sequência.  Morava a mãe, eu e o pai, e a minha avó alugava uma casinha que tinha do lado. Sempre tinha inquilino novo.”

Quando Aparecida nasceu, o pai já estava de emprego novo. Tinha finalmente iniciado carreira como metalúrgico. Na função de serralheiro, entrara em 19 de julho de 1956 na Indústria de Móveis Cromados, que funcionava na avenida Santo Amaro, 622.

Reprodução de regsitro de Manoel Filho Filho no Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo


Talvez por ser o emprego muito longe de sua casa, Miguel não ficou muito tempo naquela empresa.  No ano seguinte já estaria na Metal Arte, onde ficou por 19 anos –seu último dia de trabalho foi a sexta-feira 16 de janeiro de 1976, quando dois policiais não identificados o levaram dando explicações esfarrapadas para o sequestro.

Na rua Ibó a família ficou por longos anos. As filhas guardam de lá memórias gostosas. “A gente ficava muito em casa, tinha um quintal, tinha galinha, árvores”, lembra Aparecida.

A casa onde morou a família de Manoel Fiel Filho ficava à esquerda desse conjunto, um dos mais antigos da rua Ibó 



Quando era preciso algum reparo, Manoel assumia a responsabilidade. E ensinava para as filhas algumas tarefas. “Ele pintava as casas dos vizinhos”, conta a viúva. “Nós também pintávamos, na brocha”, diz Aparecida. “Ele não tinha filho homem, tinha de ser as mulheres mesmo”, completa Márcia, a caçula.

Também era rigoroso. “Gostava de limpeza, não podia ver um cisquinho”, fala dona Thereza. “Engraxava nossos sapatos, os de ir à escola”, diz a filha caçula.

Mesmo quando as meninas cresceram. Manoel não abandonou os cuidados, conforme conta Márcia: “A minha irmã estava grávida da primeira menina dela, casou às pressas, meu cunhado também não ganhava muito bem. Sábado, meu pai ia lá na feira perto da casa dela, enchia a sacola de frutas e legumes e levava para eles. Saía de casa, não falava onde ia”.

Cuidava da filha casada e não tirava o olho da que tinha ficado em casa, adolescente ainda. “Às vezes eu estava na casa de uma amiga, ele aparecia: `Vim te buscar`. Não tinha carro, era de ônibus. Ele saía atrás de mim. Com 15 anos eu estudava e trabalhava. Trabalhava na Casas Buri, perto da Vinte e Cinco de Março, na Barrão Duprat. A escola era [Escola Estadual] André Xavier Gallicho, na Rua da Mooca [4650]. Três quadras antes de acabar a Rua da Mooca”.

Manoel e Thereza, à direita, com parentes na casa da rua Ibó


Manoel fazia um bom bacalhau nos encontros da parentada, gostava de ouvir Elis Regina, adorava o Corinthians e, com a turma da família, evitada discutir político ou religião –“meu pai era completamente ateu”, fala a caçula, Márcia, 56.

Fosse por seu estilo calado, fosse por preocupações com a segurança da mulher e das filhas, o certo é que Manoel não costuma comentar em suas atividades sindicais.

Quando pergunto às filhas o que elas lembram da vida profissional de Manoel, quem responde é Aparecida: “A única coisa que a gente pode te contar com certeza é que a gente não sabia de nada em que ele participava”.

Dona Thereza confirma, falando como se o tempo tivesse parado: “Nós fomos saber agora”.

“Ele era muito certinho nos horários dele. A única coisa é que ele ia ao sindicato”, diz Aparecida. “De sábado ele falava: `Preciso ir no sindicato`. Era o Sindicato dos Metalúrgicos”, completa a mãe.

Depois da morte de Manoel, em encontros com antigos colegas de trabalho ou de atuação sindical, a família foi descobrindo coisas. Informações nebulosas, nada em que se possa por certeza.

Aparecida conta: “Falam cada coisa. Falam que ele ia para Minas fazer palestra... O que é lenda e o que é verdade?”

“Meu pai está parecendo agente secreto”, brinca Márcia.

Aparentemente, porém, os amigos sabiam ou imaginavam que Manoel talvez estivesse na mira dos informantes da ditadura militar, talvez sua atividade sindical –era delegado sindical, representante de fábrica—tivesse chamado atenção.

Dona Thereza lembra de um encontro no sindicato –provavelmente uma homenagem a Manoel— em que amigos do operário contaram que ele tinha sido aconselhado a fugir, a sair do Brasil.

“Como é que eu vou se a minha mulher não está sabendo de nada? Eu não tenho dinheiro para ir. Como é que eu vou?”, teria perguntado Manoel, recusando o caminho da fuga.

Dona Thereza conclui, as lembranças já lhe tomando conta das emoções: “ Ele ficou para morrer, para matarem ele”.



Corrida por Manoel - Dia 5
Destino: rua Ibó, 340 (15,24 km feitos em 2h08min18)
Distância acumulada: 51,82 km





20.2.16

Contra o preconceito e a discriminação, esportistas realizam Caminhada pela Inclusão Social

Negra e cega, Dinacleia Galdino não se apequena frente às adversidades que a vida lhe impôs nem se rende ao preconceito. Trabalha e garante o próprio sustento, circula pela cidade acompanhada por Ellie, seu cão-guia, e pratica esporte com rara determinação.

Cleia, como é chamada pelos amigos, é uma corredora entusiasmada. Afinal, o esporte foi uma das formas que ela encontrou para se manter disposta e de espírito alerta depois que perdeu a visão em 2005, aos 28 anos, por causa de um tipo de retinose.

Dinacleia Galdino, 39, maratonista cega que foi insultada por cilcista enquanto treinava nas alamedas da USP - fotos Eleonora de Lucena

Claro que os primeiros tempos foram duros, mas aos poucos a batalhadora Cleia foi se reaprumando. Manteve, por algum tempo, o trabalho que desenvolvia antes da doença –é formada em fonoaudiologia—, e descobriu a corrida.

Foi por incentivo de um amigo que começou a dar seus primeiros trotes, em 2008. No início, foi só para se manter alerta, mas logo vieram as corridas de rua.

Para encurtar a história: em janeiro de 2015, sete anos depois das primeiras e tímidas passadas, Cleia virou maratonista. Fez sua estreia em uma prova na Disney, nos Estados Unidos.

Como tinha de treinar bastante, resolveu logo de cara chutar o pau da barraca, enfrentando pedreira que muito maratonista experiente prefere evitar.

Fez o Desafio do Dunga, que consiste em correr, em quatro dias seguidos, uma prova de 5 km, uma de 10 km, uma meia maratona e uma maratona. 

Coisa para poucos, tontos ou doidinhos como era o simpático anão Dunga, da história da Branca de Neve e os Sete Anões.

Claro que ela arrastou na empreitada sua guia, parceira de corrida de todas as horas. A fisioterapeuta Lúcia Guimarães, 52, corre desde 2003 e atua como guia há dois anos.

Lucia, Cleia e Ellie lideram a cCaminhada pela Inclusão realizada nas alamedas da Cidade Universitária - Foto Rodolfo Lucena

Foi pegar logo uma figura entusiasmada e decida como a Cleia; o resultado é que, também para a Lúcia, a primeira maratona não teve só os tradicionais 42.195 metros, mas sim um pacote de quase 80 quilômetros em quatro dias seguidos.

É com Lucia que Cleia treina, nas alamedas da USP, três vezes por semana. 

E foi com ela que a deficiente visual ouviu a reclamação feita por um ciclista, em altos brados: “Puxa, agora até cego treina aqui na USP?!?!”  Como a dizer: “Sai daqui, coisa ruim!”

Quando a notícia se espalhou, muitos corredores e outros deficientes físicos que praticam esporte na USP também ficaram revoltados.


Dessa indignação nasceu a Caminhada Pela Inclusão Social, realizada hoje nas alamedas da USP, o mesmo terreno em que, há uma semana, Cleia foi ofendida e humilhada.

Decidi fazer um breve intervalo em meu mergulho corrido na história de Manoel Fiel Filho para participar da jornada pela inclusão. Acredito que meu homenageado, que era um batalhador pela democracia, apoiaria minha decisão.

A concentração foi em uma das travessas da chamada rua da Raia, entre o Velódromo e o Crusp, o centro residencial dos universitários.

Éramos umas poucas dezenas. Havia cegos, gente sem braço, deficientes auditivos, esportistas em cadeiras de rodas; e havia gente com visão, pernas, braços e audição, todos juntos na mesma jornada, que é um dos aspectos da luta contra a discriminação, a luta pela democracia.



Alguns vestidos de branco, outros com as camisetas coloridas de guia, seguimos todos em duplas unidas pela tradicional cordinha usada por deficientes visuais e guias durante treinos e corridas. Os que temos visão caminhamos de óculos escuros, como a dizer que estamos todos juntos na mesma balada.

Que, como várias pessoas destacaram, ao longo da caminhada, não é para pedir espaço para um cego ou para alguém que perdeu uma perna ou um braço ou não ouve ou não fala bem: o espaço é de todos e a sociedade tem de se abrir para todos e dar oportunidade a todos –é um dos caminhos para termos uma mundo melhor, mais justo e solidário.


Ou, como disse Dinacleia Galdino: “Eu gostaria que todos se conscientizassem de que tem espaço para todo mundo, que qualquer pessoa com deficiência pode praticar esporte, desde que tenha adaptação para isso. Assim como todo atleta gosta de ser respeitado, ele também tem de respeitar os outros”.



CAMINHADA POR MANOEL - Dia 4

Percurso de 4 km na Cidade Universitária, realizado em 1h04min
Quilometragem acumulada: 36,58 km