11.2.16

Uma homenagem jornalístico-esportiva a Manoel Fiel Filho

Operário metalúrgico de Alagoas foi assassinado há 40 anos em sessão de tortura nos porões do DOI-CODI de Sâo Paulo

O jornalista, escritor e maratonista Rodolfo Lucena realiza uma homenagem jornalístico-esportiva a MANOEL FIEL FILHO, operário metalúrgico assassinado nos porões da ditadura militar há 40 anos. Manoel foi morto sob tortura no dia 17 de janeiro de 1976 no Doi-Codi de São Paulo.

Para marcar a data, Rodolfo faz a CORRIDA POR MANOEL, 40 dias de corridas por percursos significativos para a vida e a morte do operário assassinado três meses depois da execução de Vladimir Herzog.

Em muitos desses trajetos, que relembrarão a luta contra a ditadura, pela democracia, pela liberdade e pela justiça, o maratonista será acompanhado por convidados.

Além de familiares de Manoel, estão convidados os advogados Samuel Mac Dowell e Marco Antonio Rodrigues Barbosa, que representaram a família de Manoel em processo contra a União, o ex-preso político e diretor do Núcleo Memória Maurice Politi e a coordenadora do Memorial da Resistência, Katia Regina Neves.

"Consideramos que o grande valor da Corrida por Manoel Fiel Filho é justamente por ser uma forma original de resistência política contra o esquecimento e, portanto, pela preservação da memória", afirma Katia.

E Maurice acrescenta: “Homenagear Manoel Fiel Filho, 40 anos após seu brutal assassinato, com essa corrida simbólica, significa resgatar a luta dele como operário metalúrgico, trabalhador consciente de seu papel, e de todos aqueles que deram a vida em favor do fim de um dos regimes mais violentos que tivemos no Brasil republicano”. 

A largada da CORRIDA POR MANOEL será em ato no Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo (rua Galvão Bueno, 782), às 8h da próxima quarta-feira, 17 de fevereiro. A partir dali sairemos na primeira jornada, uma caminhada em memória da vida e da morte do operário.

“Importante esse resgate da luta e da vida de Manoel Fiel Filho”, diz Miguel Torres, presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo. “Oportuno num momento em que as novas gerações não têm acesso ou conhecimento de nossa história.”

Cada trajeto será registrado em foto e vídeo; reportagem sobre o percurso de cada dia, com entrevistas e documentação histórica, será publicada neste blog, que foi especialmente desenhado para o projeto CORRIDA POR MANOEL.

././././././././.

Rodolfo Lucena, 59, é gaúcho de Porto Alegre e estava fazendo o vestibular para jornalismo quando Manoel foi assassinado. Ultramaratonista, fez mais de 30 provas de longa distância, da maratona a corridas de cem quilômetros. É autor de “Maratonando” (Record, 2006) e “+Corrida” (Publifolha, 2009). Repórter da “Folha de S. Paulo”, é colunista da revista de corrida “O2” e blogueiro; desenvolve o projeto Maratonando com o MST, de corridas em assentamentos e acampamentos dos sem terra (http://mstmaratonando.wordpress.com).

Fale com ele pelo e-mail lucena.rodolfo@gmail.com

2.2.16

Sem dó nem piedade, Haile destrói sonhos de velhinho corredor


Pois Haile veio ao Brasil. Os corredores falamos dele assim, com essa intimidade: Haile. A maioria de nós pronuncia Hai-lê, com a tônica na sílaba final; no idioma etíope, porém, a palavra ganha uma delicadeza extra, com a tônica na primeira sílaba, levemente acentuada: Hái-le, sendo a primeira sílaba um ditongo decreste.


O cara, porém, não tem nada de delicado, como mostra sua folha corrida. Nascido pobre na miserável Etiópia, que hoje ocupa a 174ª colocação no ranking Índice de Desenvolvimento Humano –o Brasil está em 75° lugar e a Noruega, em primeiro-, Haile Gebrasellassie dominou o mundo das corridas de longa distãncias por cerca de duas décadas.

Nesse período, estabeleceu 27 recordes mundiais nas mais variadas distâncias –ficou famoso, porém, pelas marcas fabulosas nos 5.000 metros, nos 10.000 m e na maratona. Hoje aposentado do atletismo, aos 42, é um próspero homens de negócios –um ricaço mesmo, dono de vários empreendimentos, de venda de automóveis a um sensacional resort.

Apesar de toda a fama e fortuna –basta dizer que seu apelido é Imperador-, o cara continua fiel a seus patrocinadores. E foi para atender a interesses da fabricante de calçados esportivos cuja marca leva na camisa que Haile veio ao Brasil.

Sua visita foi tão rápida quanto ele mesmo. Chegou na sexta, cumpriu agenda no sábado em São Paulo, viajou para o Rio, onde repetiu a dose, voltou a Sampa e se foi do Brasil neste segunda.

“Sem Carnaval!”, disse ele, todo sorridente, enquanto era abraçado, tocado, homenageado por uma pequena turma de corredores em um recanto próximo à Cidade Universitária, em São Paulo. Eram atletas amadores de uma assessoria esportiva ligada à patrocinadora de Haile.

O programa foi curto: uma pequena corrida festiva com umas poucas dezenas de convidados, participação num evento de entrega de prêmios, sessão de autógrafos e pose para fotos e selfies com os fãs (foto). No final de tudo, teria alguns minutinhos corridíssimos para falar com a imprensa.

Beleza. “Melhor que nada”, pensei, já imaginando o texto iria produzir para minha estreia no serviço on-line da revista “O2” –esta própria coluna que você lê neste momento e que foi publicada originalmente AQUI (clique em AQUI para ver). E queria a chance de correr com mais um monstro do atletismo.

Digo “mais um”, pois já participei de uma corrida festiva, num evento semelhante, com o queniano Geoffrey Mutai, que, na época de nosso enfrentamento no asfalto do Ibirapuera, era o maratonista com a mais rápida marca da história. Não valia para recorde, mas era 2h03min02 –tá bom  prá você?

E não fiquei apenas nos maratonistas. Tive oportunidade de conhecer o jamaicano Asafa Powell –ex-recordista mundial dos 100 m. Corri com ele numa pista improvisada montada sobre a neve, quase no topo de uma montanha gelada na Suíça.

Agora, Haile. O cara era só simpatia quando chegou, fez pose para foto, abriu sorriso, cumprimentou uns e outros, assinou montes de camisetas, caderrnos e cartões (fotos de minha lavra). Daí foi para o asfalto na USP, do ladinho mesmo de onde estávamos.

A massa foi junta, umas 30 ou 40 pessoas, talvez. Alguns se colocaram ombro a ombro com o Imperador. Mais modesto –e confiando no que haviam dito, de que ele sairia na boa-, fiquei um pouco atrás, imaginando que logo poderia até acelera e ficar mais perto do super-hiperrecordista.

Não era, para mim, apenas um sonho de uma noite de verão. Digo por quê.

A marca de Mutai era quase um minuto melhor do que a melhor marca de Haile na maratona e, mesmo assim, naquela sessão no Ibirapuera deu para acompanhá-lo por quase cinco quilômetros –depois ele seguiu mais rápido,e aí só uns poucos foram capazes de se manter com ele.

Imaginando que Haile faria coisa semelhante, acalentei sonhos de correr lado a lado com o Imperador, dois veteranos em amistoso desafio –ainda que eu seja quase 20 anos mais velho do ele; aliás, acho que eu era o mais velho de todos os que estavam naquele evento.

Largamos!!


Não foi nada do que eu esperava, nada do que se tinha combinado, nada do que haviam anunciado. O cara largou correndo e quem pudesse que fosse com ele.
Em poucos segundos, começaram as exclamações, a surpresa de corredores mais lentos com o ritmo que nos era imposto.

Olhei para o meu GPS e quase tive um infarto: estava a 4min30 por quilômetro naquele instante. Saiba você que já fui capaz de manter esse ritmo em corridas por duas oportunidades, em uma prova de oito quilômetros, e em um desafio de seis quilômetros, ambos realizados no século passado.

Por incrível que pareça, aqueles instantes duraram uma eternidade, talvez 15 segundos, talvez 20 segundos, e logo o relógio já marcava 5min30 e caindo (ou subindo, conforme a ótica do leitor).

Não fui só eu o surpreendido. Quando Haile passou o primeiro quilômetro em 3min31 (ou 3min30, segundo outros), o espanto era geral, até mesmo de um dos treinadores que participara da organização da corrida comemorativa.

Bom, antes de completar o primeiro quilômetro eu já nem via mais o pelotão da frente, o que dirá Haile!. Vai daí que, metro sobre metro, suor sobre suor, vi desabar meu sonho de correr ao lado do Imperador. O devaneio deste velhinho corredor foi reduzido a pó, sem dó, pelo ritmo impiedoso do multirrecordista mundial etíope.

Pelo menos tiramos uma foto juntos, que fez muito sucesso nas redes sociais e reproduzo aqui (gentileza da grande fotógrafa Fernanda Paradizo).


E, depois de mais um chá de cadeira, finalmente consegui fazer a entrevista com Haile Gebrselassie, por muitos considerado o mais completo e melhor corredor de longa distância de história.

O tempo de espera para falar com ele foi inversamente proporcional aos escassos minutos em que pude fazer algumas perguntas para o cara. Pelo menos foi uma conversa exclusiva, cara a cara, acompanhada apenas pelos assessores encarregados de controlar o tempo a que tive acesso a Haile.

O resultado está abaixo. Espero que você goste, compartilhe, comente e volte sempre a este novo espaço de minha atuação no mundo internético.

RODOLFO LUCENA – O senhor ainda pensa em se candidatar a presidente da Etiópia?
HAILE GEBRSELASSIE – Sim, eu penso nisso, mas não sei exatamente quando isso poderia acontecer, porque eu estou fazendo muitas coisas hoje em dia. Tenho muitos compromissos, negócios, mas quem sabe? Eu acho que a vida política será meu último objetivo.

O que o senhor pretende fazer se chegar a presidente da Etiópia?
Muitas coisas. Quero compartilhar minha experiência, as coisas que aprendi no mundo. Não é fácil, são 25 anos de experiência que eu tenho [NR.: na elite mundial do atletismo]. Estive em mais de cem países, é muita coisa, acho que posso fazer muito por meu país. Eu quero fazer alguma coisa pelo meu país.

O que o seu país mais precisa?
Educação é a questão mais importante; acabar com a pobreza também. Nós precisamos erradicar a pobreza, alguma coisa precisa ser feito. No meu país há mais de 100 milhões de pessoas, e nós precisamos ter alguma coisa importante, alguma coisa boa para o futuro de todos eles.

O que o senhor pensa das denúncias de corrupção e acobertamento de doping na IAAF? 
Eu digo para você: essa coisa toda está matando o atletismo. Está matando os jovens. Quem será o modelo para eles, para esses jovens que trabalham e suam em suas vilas? Eu gostaria muito que não houvesse um problema como esse. Mas, se as coisas estão mesmo desse jeito, eu acho que eles precisam tomar providências, fazer um movimento sério para nos livrarmos de todos esses problemas. É bom para o esporte. Se deixarem passar batido, protegendo, acobertando os responsáveis, as coisas continuarão do mesmo jeito.
Você ouve todas essas coisas ruins. Escândalo de doping, escândalo de corrupção, eu não entendo porque essa gente está fazendo essas coisas. Eu fico muito triste com isso, eu digo para você: estou muito triste.

Em resposta aos escândalos de doping, surgiu a proposta de desconsiderar os recordes mundiais da última década. O que o senhor pensa disso?
A questão não é sobre os recordes, a questão é sobre os jovens. Nós precisamos pensar nos jovens [atletas]. Imagine os jovens que estão suando, treinando em suas vilas. O que nós vamos ensinar a eles? Em vez de fazer as coisas por suas próprias forças, vão dizer: “Não posso fazer isso sem doping, eu não posso fazer isso sem usar um remédio”. Eu não quero ver isso acontecer. Não quero ver os jovens desenvolvendo esse tipo de mentalidade.
Não tem sentido cancelar tudo o que já foi feito, essa não é a questão. O que está em jogo é o futuro do atletismo. É preciso pensar em algo bom.

O senhor acredita que é possível fazer a maratona em menos de duas horas?
Claro, com certeza, não há dúvida sobre isso. As pessoas falam, pensam que isso só seria possível com doping, mas não é nada disso, não, não, não. Sem pílulas, sem drogas, atletas podem conseguir, podem correr assim. A única coisa que eles precisam saber é a tática, o descanso, o treinamento; combinam tudo isso, eles poderão conseguir alguma coisa.

Quando comecei a correr maratonas, as pessoas diziam que era impossível fazer uma maratona em 2h02. Mas eu estava treinando para fazer duas horas e dois minutos. Eu não consegui, mas pelo menos fiz abaixo de 2h04 [NR.: Haile foi o primeiro homem na história a correr a maratona em menos de duas horas e quatro minutos]. Agora, alguns anos mais tarde, é possível que alguém corra em 2h02.

Mas nós estamos falando agora de maratona em menos de duas horas. Sim, é possível. Quando? Nunca se sabe quando um recorde será quebrado. Quando Abebe Bikila [NR.: etíope vencedor da maratona olímpica de Roma] quebrou o recorde, sua marca foi de 2h15 [NR.:2h15min16]. Isso foi há quase sessenta anos. Então, é possível baixar...

Qual foi o momento mais feliz de sua vida de corredor?
O momento mais feliz de minha vida de corredor foi em Sydney-2000, na Olimpíada [NR.: Haile conquistou a medalha de ouro nos 10.000 depois de uma renhidíssima disputa com o queniano Paul Tergat]. Aquele foi um momento muito especial, quando conquistei meu segundo ouro. E também o recorde mundial em Berlim [NR.: na maratona] e o recorde mundial em Zurique, em 1995 [NR.: nos 5.000 m]. Mas a Olimpíada foi algo muito especial [abre um largo sorriso].

Por que a Olimpíada é tão especial?
É a Olimpíada. Acontece apenas a cada quatro anos. Quantos corredores conseguem se manter em ótima forma por quatro anos? Muito poucos. Então venceu em uma Olimpíada é muito especial.

E qual foi o momento mais triste?

Nova York, 2010 [NR.: naquele ano, com dores, Haile abandonou a maratona e, quase em seguida, anunciou que iria se aposentar do atletismo]. Foi muito, muito duro para mim.


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OBSERVAÇÃO: Com esta texto, inicio uma nova parceria com a revista O2 e com o site ativo.com, o maior site de corridas do país, onde passo a produzir a coluna MARATONANDO COM RODOLFO LUCENA. Venha comigo. A coluna está AQUI.

24.1.16

Corrida do Bradesco Seguros tem falha de segurança lamentável


Foi um tombo monumental.

A garota corria pelo meio da rua, cerca de dezenas de outros corredores que participaram, na manhã deste domingo, da etapa paulistana do Circuito da Longevidade Bradesco Turismo.

De repente, algo acontece. Ela tropeça e, talvez pela velocidade que vinha imprimindo, talvez porque estivesse em uma descida, talvez pela combinação desses fatores e outros tantos, sua queda foi espetacular: rolou pelo asfalto e só foi parar perto na sarjeta, quase na guia da calçada.

Mal tinha parado que rolar e já estava cercada de gente, outros corredores, que a ajudaram a se levantar e trataram de ver se havia algum prejuízo de monta.

O incidente (acidente?) ocorreu a poucos metros de mim, menos de dez metros. Quando passei pela garota, ainda abraçada por uma senhora mais velha que a ajudava a caminhar, perguntei se estava tudo bem.

A resposta foi positiva. Dava para ver que a jovem –não devia ter mais de 18 anos—não tinha se machucado, não havia sangue; mas ela parecia meio tonta, talvez ainda chocada pela queda, assustada com tudo o que tinha acontecido.

Quedas acontecem em corridas. Essa, porém, não foi acidente, e sim resultado de incúria dos organizadores ou de quem desenhou o percurso da prova, que integra um circuito apreciado por muitos iniciantes no mundo das corridas.

Desenho do percurso disponível no site da prova
Digo isso porque vi outros quase-acidentes, além do desconforto de um bom número de corredores. A causa foi uma falha absurda no desenho do percurso, desrespeitando até o traçado original da prova, apresentado no site oficial.

Segundo aquele desenho (ao lado), o percurso da corrida de 6 km era uma volta só, com largada e chegada praticamente no mesmo ponto.

Largando de dentro do parque da Independência –aquele belissimamente retratado em mural colocado na estação Alto do Ipiranga (metrô linha verde)--, os corredores sairiam pela rua dos Patriotas, descendo à esquerda na rua Bom Pastor para fazer uma longa volta que acabaria por cercar o perímetro do parque, onde entrariam novamente pela rua dos Patriotas.

Dessa forma, seria uma longa procissão, na qual dificilmente os primeiros colocados jamais encontrariam retardatários em seu caminho. Por outro lado, os corredores mais lentos jamais teriam problemas com máquinas de correr bufando ao seu redor.

Não foi o que aconteceu.

Trajeto efetivamente realizado pelos corredores
Em vez da volta bonitinha e limpa apresentada no site, o circuito foi encurtado. Assim, para completar os seis quilômetros, o que enfrentamos hoje foi uma volta e meia em torno do parque, com consequências danosas para a segurança e o conforto dos corredores.

Saímos pela rua dos Patriotas, como previsto, mas a chegada foi pelo outro lado do parque, pela avenida Nazareth. Com a tal volta e meia, os corredores  mais rápidos se encontraram com os mais lentos ao longo de mais de um quilômetro e meio.

Pior: os primeiros colocados chegaram em alta velocidade exatamente em cima da massa dos mais lentos, dos retardatários.

Eu passei pelo pórtico de largada nove minutos depois do tiro de largada; saí do parque uns quatro minutos depois e, como todos os demais, desci à esquerda na rua Bom Pastor em direção ao meu primeiro quilômetro na corrida.

Não tinha rodado 50 metros pela Bom Pastor quando comecei a ouvir buzinas e gritos de “Afasta!, Afasta”, “Vão para a esquerda, para a esquerda!”.

Eram os motoqueiros que precediam os primeiros colocados. Vinham dois batedores serpenteando pela multidão que enchia a rua de lado a outro.

Montados em suas possantes motos, o único aviso que davam ao povo eram as buzinadas e os gritos, tentando abrir espaço para os monstros de velocidade que desciam a rua Bom Pastor como se fossem salvar alguma ovelha do precipício.

A bagunça foi instaurada naqueles poucos metros em que acompanhei o movi mento das motos e a passagem dos líderes. A massa foi forçada para a esquerda, teve gente que parou, outros que gritaram, houve quem aplaudiu os líderes, supercorredores para nós outros.

E foi nessa confusão que aconteceu a queda da moça.

Imagino que o problema tenha se repetido mais à frente, pouco depois do quilômetro cinco, porque ali houve um cruzamento: a massa seguia para a frente, rumo ao segundo quilômetro, e as motos e os líderes do percurso, que estavam no lado direito da rua, deveriam dobrar à esquerda para entrar na avenida Nazareth.

Corredores da turma dos mais lentos, como eu sobem a avenida Nazareth, perto do km 4
Nada disso, repito, estava apropriadamente sinalizado. Na bifurcação, havia pessoal da organização dando orientação aos gritos (a mim pareceu que foram colocados ali também de última hora, mas não posso afirmar). 

Quando, cerca de 15 minutos mais tarde, passei por ali retornando para fazer minha primeira subida da avenida Nazareth, havia sido improvisada uma linha divisória em parte dos pontos em que os da primeira e da segunda volta dividiam o mesmo espaço.

Ainda bem que, ao que eu saiba, nada de mais grave aconteceu. O que não significa que esse tipo de coisa seja aceitável, ainda mais em um circuito tão bacana como o da Longevidade.

Ele tem etapas no Brasil todo, sempre com jornadas que incluem uma caminha e uma corrida de percurso curto. Por isso, me parece um dos mais importantes do país como divulgador da corrida como forma de melhorar a qualidade de vida e como fator de atração de iniciantes para o mundo das corridas.

Tudo isso dá ainda mais responsabilidade aos patrocinadores, que deveriam ser mais rigorosos na cobrança dos realizadores da prova. Que, por sua vez, falharam em outros quesitos além da lamentável falha no item segurança.

O horário da largada, por exemplo, foi ótimo e muito bem escolhido: sete horas da manhã. No dia de hoje, propiciou um clima agradável, bom para uma corrida curta como a proposta pelo Circuito da Longevidade. 

A página da prova nas redes sociais, porém, apontava 7h30 como horário de largada, o que fez com que muita gente chegasse atrasado.

Mais. Havia água em profusão, em dois postos bem servidos e longos, com bastante gente para atender. 
Largados em gavetões, os copinhos estavam cobertos de gelo, também em grande quantidade. A água, no entanto, estava morna, indicando que os postos de hidratação forma montados em cima da hora. Só fui beber água gelada depois de terminar a provar a prova –menos mal.

Muvuca para encontrar uma fila para conseguir a medalha, frutas e isotônico depois da prova - fotos Rodolfo Lucena

Aparentemente, também houve problemas no período de inscrição. Digo isso por causa de comentários que ouvi durante a muvuca (outra falha) de espera para chegar a uma fila para pegar a medalha e as frutas pós-prova (havia ainda isotônico bem gelado, ótimo).

Estou registrando, mas não posso confirmar: como fui convidado pela assessoria de imprensa da prova, não tive de passar pelo processo de registro via site.

Enfim, é uma série de problemas. Alguns muito graves, como a questão de segurança do percurso, outros menos importantes –mas que incomodam o corredor.


Imagino que possam ser corrigidos com facilidade (aliás, de acordo com o site, o choque no percurso nunca deveria ter acontecido). Tomara que sejam, pois a prova é divertida e tem méritos.

Vamo que vamo!

21.1.16

Cadeirante biamputado desafia ultramaratona mais difícil do Brasil

Em 2003, o estudante norte-americano de química Andre Kajlich, então com 24 anos, fazia uma temporada na Universidade de Praga. Certa noite, depois de uma festa, começou a voltar para casa e só acordou no hospital, todo enfaixado e entubado.
Tinha sido atropelado pelo metrô. Perdeu as duas pernas e a esperança de viver. Esta, pelo menos, recuperou: hoje é um dos mais conhecidos paratriatletas de aventura do mundo.
Há três anos, tornou-se o primeiro cadeirante a enfrentar aquela ultramaratona nas montanhas da serra da Mantiqueira, desafiando e vencendo os 217 quilômetros da BR135.
Agora, volta para um desafio ainda maior. Aquela ultra cresceu, virou BR135+, chega a 260 quilômetros.
A prova começou nesta quinta-feira. Segundo Monica Otero, que acompanha Andre, ele vai enfrentar o caminho aos poucos.
“A prova começa em São João da Boa Vista, e o atleta tem a escolha de ir até Paraisópolis (217 km) ou até o pesqueiro da Montanha, próximo a Campos do Jordão (260 km). Se ele chegar bem a Paraisópolis, vamos prosseguir.”
Desta vez eu não consegui conversar com o Andre, mas, em 2013, fiz uma bela entrevista com ele, que resultou em reportagens publicadas na Folha (CLIQUE AQUI) e no meu blog, então na página da Folha na internet (CLIQUE AQUI).
Reproduzo a seguir o texto publicado na época, contando a sensacional história do Andre (fotos Arquivo Pessoal). Como você vai perceber, quando publiquei o texto ainda não sabia do resultado da prova; mesmo assim, mantive o formato original. Andre completou o desafio.

 Cadeirante dos EUA enfrenta ultramaratona na serra da Mantiqueira
POR RODOLFO LUCENA
19/01/13  12:27
O cadeirante norte-americano Andre Kajlich, de 33 anos, é o primeiro cadeirante a se aventurar pelas estradas, grotas e montanhas que integram o percurso da Brazil 135, considerada por muitos a mais difícil ultramaratona do Brasil. Prova classificatória para a temível Badwater, nos EUA, tem 217 km e começou ontem em São João do Boa Vista, na divisa entre São Paulo e Minas.

Não consegui falar com ninguém, ainda, para saber em que pé está a corrida. Mas vale aquele ditado: “O milagre não é que eu consegui terminar, o milagre é que tive coragem de estar na linha de largada”.

Para Kajlich, com quem conversei na última quarta-feira, em São Paulo, o surpreendente mesmo é estar vivo, pois suas chances de sobrevivência eram mínimas depois do acidente que o deixou sem a perna esquerda e com apenas parte da coxa direita, além de muitas cicatrizes pelo corpo todo.

Ele conta como foi: “O acidente aconteceu quando eu tinha 24 anos, em dezembro de 2003. Tivemos uma festa em minha casa, em Praga, onde eu estudava química. Fiz burritos para todos, e daí saímos para as baladas. Normalmente a gente ficava fazendo festa a noite toda, tomava café na rua na madrugada. Finalmente, quando cada um pegou seu caminho, eu disse tchau para um amigo e acordei três semanas depois em um hospital, sem as pernas. Ninguém sabe como aconteceu, mas eu caí nos trilhos do metrô, o condutor me viu, mas não pode fazer nada. Basicamente, o trem inteiro passou por cima de mim.”

Ele continua: “Quando me tiraram dos trilhos, eu estava praticamente morto, sem pressão sanguínea, e mesmo assim eles foram capazes de me salvar. Muito sortudo. Perdi toda a perna esquerda, e a direita foi cortada uma pouco acima do joelho. Quebrei costelas, o pulmão foi perfurado, o fígado também foi atingido. Quase perdi o braço esquerdo, quebrado perto do cotovelo. Os médicos pensaram que eu jamais seria capaz de me movimentar. Talvez pudesse andar de cadeira de rodas e comandar o corpo para poder, por exemplo, lavar as mãos”.

E mais: “Não houve um momento em que acordei e me vi sem as pernasEu estava inconsciente e tinha momentos de lucidez, aos poucos recobrava a consciência e depois desmaiava novamente. Finalmente, quando comecei a perceber o que tinha acontecido, fiquei muito preocupado com o futuro, sem saber o que eu seria capaz de fazer. Não sabia se seria capaz de andar ou se algum dia poderia ser feliz novamente”.

Depois de quase três meses no hospital, foi transferido de volta para os EUA, para sua família: os pais são tchecos, emigraram em 1967, Andre nasceu em Edmonds, no Estado de Washington, em 1979. 

Em um ano, já conseguia caminha com pernas mecânicas e bengala, também começava a dominar melhor a cadeira de rodas.

Voltou a Praga para terminar o curso e continuar as festas. Acabou se apaixonando por Mariana, uma fotógrafa romena um ano mais velha que ele. 

Namoraram e, quando Andrés enfim viu que era hora de voltar mesmo aos EUA, em 2008, casaram. Ele já praticava um pouco de esporte na cadeira de rodas e fazia algumas caminhadas, além de gostar de nadar.
Tudo isso deu um quilo: nos EUA, participou de um triatlo de revezamento e adorou: “. Era muito bom sentir o coração batendo forte novamente. A partir dali eu fui em frente, tive sucesso.”

Sucesso é pouco: teve uma evolução impressionante em seu desempenho esportivo. Passou a treinar forte, entrou em competições de paratriatlo, fez um meio Ironman e se classificou para o pai de todos, o Ironman de Kona, no Havaí. Tirou o segundo lugar em 2011, foi campeão em 2012. E é bom também em provas curtas: foi medalhista de prata nos Mundiais de paratriatlo de Pequim-2011 e Auckland-2012.

Com as conquistas, chegaram mais apoios. No início, ele tirava do seu salário –trabalha com pesquisas em medicina de reabilitação na Universidade de Washington, em Seattle—e contava com contribuições de parentes e amigos. Tudo muito necessário: só as próteses que usa para caminhar custam mais de US$ 100 mil. E ele caminha bem.

“Não consigo correr, mas talvez seja o melhor caminhante do mundo com esse nível de amputação”, diz ele. Tão bom que vem sendo convidado pelo Exército dos EUA para ajudar nos trabalhos de reabilitação de soldados feridos nas guerras em que o país participa.

Kajlich não cansa de procurar novos desafios, como a Brazil 135, que conheceu ao ouvir no rádio uma entrevista de outro atleta cadeirante, o brasileiro Carlos Moleda. Ficou entusiasmado, entrou em contato com os organizadores e tratou de treinar. 

Não sabia exatamente como se preparar, mas subiu montanhas nevadas com sua cadeira de rodas, enfrentou gelo e barro e vai fazer o que der na serra da Mantiqueira.

“Acho que em alguns trechos terei de sair da cadeira e puxá-la com uma corda”, diz ele, que montou um equipamento especial para enfrentar trilhas, usando rodas de mountain bike em sua cadeira e martelando o equipamento até que ficasse do jeitinho que ele considerava adequado.

E vai para a luta com um sorriso: “Depois de meu acidente e do processo de recuperação, aprendi que esses grandes desafios, cheios de incertezas, são realmente onde você aprende mais, eles te dão os momentos mais definitivos da vida. Eu aprendi muito com tudo isso, de forma que hoje vejo meu acidente de uma forma muito positiva, por causa das poderosas experiências de vida que pude ter depois, como o Ironman ou esta Brazil 135. Essas conquistas me dão base e consistência para enfrentar os próximos desafios”.


18.1.16

Fisioterapeuta contesta “consenso do saber” e dá dicas sobre postura de corrida

Rola pelas redes sociais uma reportagem publicada pela edição espanhola da revista “Runner`s World” para mulheres em que são oferecidas dicas sobre postura de corrida.

A reportagem tem uma ilustração muito bacaninha que mostra uma moça na suposta posição ideal de corrida.

A ilustração é acompanhada de pequenos textos que explicam e orientam sobre como devem ficar as diversas partes do corpo envolvidas no movimento (claro que o corpo todo está se movimentando, mas alguns membros são destacados).

Quando esse material chegou até mim achei tudo muito bacana, como disse no início. Numa primeira olhada, parecia consolidar o que costumeiramente se lê a respeito de corrida, da postura no movimento, do “gesto ideal” de corrida.

Comprime em uma ilustração o que se poderia chamar de “consenso do saber” sobre o corredor em ação. A ilustração é esta que publico a seguir.



Bom, mas sempre fui muito desconfiado de consensos e de saberes absolutos. Para ser jornalista, há que ser cético e desconfiado. E lembrar que há muitas opiniões sobre cada assunto.

Vai daí que resolvi fazer uma breve consulta a uma fisioterapeuta que já dedica décadas de trabalho  e pesquisa ao estudo do movimento. Trata-se de Marcelo Semiatzh, um dos fundadores da clínica Força Dinâmica (outro dos envolvidos é o meu treinador, Alexandre Blass).

Não foi uma entrevista, apenas uma consulta por meio de redes sociais. O Marcelo está fazendo doutorado e não tem tempo para nada. Mesmo assim, mando uma breve resposta que pode instigar em cada um de nós novas perguntas, questionamentos sobre o que faz, como corre, como se movimenta.

Mostrando a ilustração, perguntei a ele se 
considerava corretas aquelas dicas. Eis a resposta.

“Não está correto”, disse Marcelo (foto). E explicou: “Correr é um ato de fazer força e não de relaxar, portanto o corpo deve estar coordenado para aplicar e transmitir força. Não se deve pensar somente em corrigir a posição das partes do corpo, mas corrigir a força que essas partes aplicam”.

Esse me parece um raciocínio muito legal. A gente esquece da vida quando corre, relaxa em relação ao estresse do dia a dia, voa pelo pensamento, viaja na maionese. Mas correr é um ato de fazer força.

Sobre a postura, Marcelo pode falar horas. Mas, analisando a ilustração, fez algumas breves frases que podem ajudar cada um de nós a pensar sobre o que faz. Eis o que ele afirma:

“A cabeça, apesar de olhando para frente, apresenta leve rotação no plano horizontal. Os ombros não devem ficar, mas sim fazer força para baixo, o que ajuda a ação dos músculos abdominais na corrida.”

Ele segue fazendo considerações sobre ombros e movimentos dos braços. O texto está meio complicado: “O ombro relaxado pode atrapalhar se o braço que está indo para trás colaborar impulsionando o tórax para trás, aumentando a carga de inércia do tórax, impedindo que o tronco esteja a frente”.

Sobre as mãos, que também não ficam relaxadas: “Podem estar abertas ou fechadas, mas sempre impulsionando o corpo à frente”.

Quanto às pernocas propriamente ditas, Marcelo dá a seguinte orientação:

“A ênfase deve ser na extensão da perna de trás, com quadril, joelhos e pé em extensão trabalhando o impulso horizontalmente do corpo. A perna da frente deve ter boa flexão e com joelho bem levantado. A flexão do membro da frente com a extensão do membro de trás devem ser bastante treinados.”

Sei, sei, sei, cada frase dessas vale uma dissertação de mestrado. Não chegaremos a tanto, mas vou tentar conseguir espaço na agenda do Marcelo para obter mais explicações sobre as teorias da Força Dinâmica sobre a postura da corrida.

Fique com a gente que vem mais por aí.

Vamo que vamo!


8.1.16

Apesar da crise, velhinho faz percurso inédito de 16 km em homenagem ao Ano Novo

Quase não acreditei: finalmente, enfim, fiz minha primeira corrida deste novo ano. Para marcar a data, resolvi tentar completar –e consegui—um percurso de 16 km, saudando os 16 anos deste milênio.
Pode parecer pouco para você, mas, para mim, foi um verdadeiro sucesso internacional!!
Não corria desde o ano passado, jogado às traças por dores e uma tristeza profunda, causada por sucessivas falhas em completar treinos de longa distância.
Era o sol forte, a lombar, a preguiça, e tudo somado dava como conta final falta de determinação, de garra, de ânimo. Um cansaçozinho à toa, e eu parava nos 20 quilômetros de um treino de 24 ...
Quando era para fazer 32, então, ficava dias me preparando, como se o desafio fosse grande coisa. Planejava percurso, organizava alimentação, bebia água mais que um camelo se preparando para a travessia do Saara, dormia cedo, acordava de madrugada... E voltava a dormir.
Tanto que, somatizando ou não, sabe-se lá por quê, a musculatura se engruvinhou toda, a panturrilha travou... Pelo menos, tive uma razão para suspender por uns dias as corridas.
Daí não teve treino no primeiro do ano, nem no segundo nem no terceiro... Será que ia continuar assim?
Pois continuou, até que a dor pareceu arrefecer. Foi quando eu me disse: não tem tu, vai tu mesmo. Acordei mais tarde do que deveria, mas o dia estava nublado, colaborou comigo, e eu enfiei no tênis a tristeza, nas meias a depressão, e saí pro asfalto, que a gente aqui é corredor de rua.
Saí para um percurso inédito em minha carreira. A bem da verdade, conhecia e já percorrer boa parte do trajeto que imaginava ser capaz de fazer. Menos o coração do caminho, aquele que faria a diferença.

Havia que rodear um morro, enfrentar estrada que só tinha visto no mapa, imaginava perigosa, solitária.
De fato, ela tem uns tantos quilômetros de asfalto e bloquete, mas depois sobe um morrinho, rodeia a montanha e vira puro chão batido. De cada lado, mato e montanha.
Medo de nada. Receio de cachorros soltos, essas propriedades rurais sempre têm uns cuscos meio ladinos. Depois de passar por dois ou três que só latiram de longe, peguei umas pedras e passei a correr preparado para enfrentar eventuais ataques.
Não houve nenhum. Eu que me ataquei com a paisagem. Vi morros ao longe, coroados por nuvens escuras,  e fui me acalmando. Aos poucos, ganhei confiança, passei a acreditar que poderia voltar a correr, a cumprir o treino dado.
É que eu não sou um corredor de nascença, um sujeito musculoso e longilíneo, pau para toda obra, saltador, atlético, flexível e veloz.
Que nada. Sou mais baixo do que gostaria, mais pesado do que deveria, lento e preguiçoso.
Para correr, tenho de treinar. Fazer das tripas coração para ganhar coragem de sair da cama e, aos poucos, botar uma perna à frente da outra, dar um passo e mais outro.
O peso além do recomendado pelas tábuas dos mestres do exercício cobra sua conta, a velocidade não é a mesma, tudo precisa de esforço, concentração, determinação...
E é tão fácil desistir, tão fácil parar, tão fácil cair na preguiça.
Mas não quero. Passo por um riacho que corta a estrada pelas profundezas da terra e só vai aparecer murmurante lá embaixo, no meio da mata. Me alegro com ele.

Descanso subindo mais um morrinho, percebo que a estradinha rural está prestes a acabar, estou terminando o contorno da montanha, em breve volto para terreno conhecido.
É quando a preguiça me chama, pede para eu desistir. Negocio: vamos correr até a praia, convido meu corpo.
Será uma espécie de desafio à autoridade: meu treinador desrecomenda fortemente qualquer treino nas areias da praia. Mas é tão bom correr com a brisa marinha refrescando o corpo, o mar se fazendo de infinito ao meu lado...
Chego às areias da praia de constato que meu treinador tem razão: o terreno é por demais inclinado, cheio de ondulações perigosas, melhor obedecer às regras traçadas e seguir por outro caminho. Apenas capturo uma imagem para me acompanhar pelos quilômetros restantes.

São os piores. Mais duros, menos interessantes, mais quentes. O corpo já está dolorido, a idade pesa e a falta de determinação ajuda, mas um pouco de cabeça dura é suficiente para dar o contra na preguiça, na malemolência e no mimimi.
Sigo. E completo minha primeira corrida do ano. Dezesseis quilômetros suados e sofridos, mas alegres e bisbilhoteiros, pesquisadores de meus demônios internos, desafiadores de minhas fraquezas e fragilidades. Uma homenagem a 2016.
Que venham outros.

Vamo que vamo!! Feliz Ano Novo!

4.1.16

Primeiras impressões a respeito de um calçado de corrida chinês



A China vai dominar o mundo, dizem os entendidos, brandindo estatísticas econômicas e demográficas. Os quatro maiores bancos do mundo são chineses, o que já parece suficiente para exemplificar o poder desse grande país oriental.

No terreno esportivo, fizeram maravilhas nos Jogos Olímpicos de 2008, assombrando o planeta com os resultados de seus atletas, com a beleza das construções.

Naquele ano, aliás, o mundo foi brindado com o que talvez tenha sido o mais impressionante desempenho de um corredor em uma maratona olímpica, com a estupenda vitória do jovem Sammy Wanjiru.

Não surpreende, pois, que o país queira se estabelecer também como fornecedor de material esportivo para o mundo. É essa a missão da empresa que tem o estranho nome 361º (lê-se trezentos e 
sessenta e um graus).

Nunca tinha ouvido falar dela até o ano passado, o que apenas mostro com sou ignorante: a empresa nasceu em 2002 e a marca foi lançada dois anos mais tarde. Fornece equipamentos para seleções chinesas de várias modalidades e está hoje estabelecida na Europa, Estados Unidos e Brasil.

Ao longo dos últimos 20 dias, tive a oportunidade de testar seu modelo de ponta para corrida, o Spire. Trata-se de um calçado com bom amortecimento, para corredores de pisada neutra.

Segundo o material distribuído pela assessoria de imprensa, “o Spire é o top de linha da 361°, com o sistema de amortecimento QDP (Quick Dynamic Performance) – formado pela palmilha e entressola Quikfoam (EVA de diferentes densidades) e uma fina placa de EVA ainda mais densa (dura) sob a entressola para estabilização. O solado é de borracha, com esponja de borracha no antepé para reduzir o peso do tênis e aumentar o amortecimento e arco de TPU injetado para estabilidade. O cabedal é de Air Mesh para melhor ventilação, sem costuras no calcanhar, com aplicações estratégicas de TPU no contraforte. Tecido refletivo na biqueira e no calcanhar.”

Eu não dou muita bola para essas descrições supostamente mais técnicas. Quero saber, ver sentir o calçado, verificar se ele é firme onde tem de ser e flexível quando necessário.

Basicamente, o que todo aquele palavreado aí de cima quer dizer é que o Spire tem uma estrutura mais mais rija, sobre a qual são colocadas camadas para ampliar o conforto e o amortecimento.

O importante é que o objetivo é atingido. Ainda que não tenha o design feérico que as grandes marcas vêm adotando, o Spire é um calçado de boa qualidade, pronto para o trabalho.

Como se pode ver pela foto que ilustra este texto, trata-se de um modelo tradicional, nada daquela história de minimalismo ou drop 2 , drop 1, drop 0 (diferença, em milímetros, entre a altura do calcanhar e da parte da frente do calçado.

Donde se conclui que corredores ortodoxos, como eu, vão se sentir à vontade com o pisante. Ele é bem estruturado, firme; no calcanhar, isso é até um pouco exagerado para o meu gosto, mas não chega a causar desconforto. Corredores acostumados a calçados que “abraçam” o calcanhar talvez não gostem das “paredes” do Spire.

Do ponto de vista de amortecimento, me senti à vontade durante todo o tempo –fiz treinos de até 20 quilômetros com ele, rodando um total de mais de cem quilômetros no período de testes.

Quanto à aparência geral, achei meio mangolão; lembra os tênis que eu comprava no início do século... Talvez as combinações de vários tons de azul escuro tenham contribuído para essa impressão.

O preço sugerido no Brasil, R$ 549, é condizente com os modelos concorrente. O que me parece um erro; marcas que entram no mercado e querem cavar seu espaço costumam oferecer preços mais atraentes que os dos competidores.

Duvido que um consumidor vá deixar de comprar um produto que conhece tem preço semelhante apenas para experimentar um novo fornecedor. Mas os caras devem saber muito mais do que eu a respeito do comportamento do consumidor.

Aliás, essa parece ser a política da empresa nos vários mercados em que atua: nos EUA, por exemplo, o Spire custa US$ 140. O que o coloca na mesma faixa de preço dos top de linha de marcas mais conhecidas.

Enfim, é um tênis bom, confortável mesmo para corredores mais pesados. O preço, porém, não me parece compensador. E, para o meu gosto, não é dos mais bonitos.

Ah, faltou falar do nome da empresa, que me pareceu muito estranho. Qual seria o significado? Dar uma volta (360 graus) e andar mais um grau? Qual a vantagem disso? Não seria muito pouquinho?


Em minha defesa, registro que a própria empresa reconhece que muitos não entendem o raciocínio que existe por trás da marca. Mas eles explicam: “Um grau além dos 360 é um ponto que poucos alcançam e que muitos jamais entenderão. Para nós, um grau a mais é ir além. Além dos muros, além da zona de conforto, além do que se convencionou "o suficiente". Não importa se o limite parece próximo, se você está apenas iniciando a jornada ou se está recomeçando do zero”.