14.4.15

Quarentão quebra recorde mundial da maratona na categoria veteranos

Tá certo que o cara está longe de nossa faixa etária e, ao que parece, não pretende se aposentar tão cedo. Mas, para o mundo das maratonas competitivas, em que o objetiva é levar uma grana para sustentar a vida, quarenta anos já é praticamente um ancião.

Mesmo assim, o queniano Keneth Mungara, 41, corre como um garotinho. Neste último domingo (12.4), detonou o recorde mundial da maratona, categoria veteranos, que já durava mais de dez anos.

Ele venceu a maratona de Milão em 2h08min44, o que lhe deu apenas dois segundos de vantagem sobre a marca anterior, estabelecida pelo mexicano Andres Espinosa em 2003, em Berlim.

Mungara vem “comendo pelas bordas” no circuito internacional de maratonas, participando de provas menos concorridas e com menor pagamento –foi quarto vezes campeão da maratona de Toronto, por exemplo.

Ele começou a correr há menos de dez anos, quando já tinha passado dos 30 e trabalhava em uma barbearia. Muitos de seus clientes eram corredores famosos, mas Mungara não dava muito por eles: “Posso ganhar desses caras”, pensava ele.

Não conseguiu, mas também não fez feio. Conquistou sua primeira vitória em Praga em 2008; lá também estabeleceu o melhor tempo de sua carreira, 2h07min36 em 2011.


Pode não ser grande coisa, considerando os resultados das grandes maratonas internacionais de hoje em dia. Mas, em toda a história, há apenas dois corredores brasileiros com tempos melhores do que o do veterano campeão: Ronaldo da Costa e Marílson Gomes dos Santos.

9.4.15

Turma dos velhinhos é a que mais cresce no mundo das maratonas

O grupo de corredores maiores de 50 anos é o que mais cresce no mundo das maratonas, segundo revelou recente estudo realizado por pesquisadores dinamarqueses que analisaram resultados de nada menos que 131 maratonas em todo o mundo, de 2008 a 2014.

Segundo o ex-corredor Jens Jakob Andersen, especialista em estatística que liderou o trabalho, trata-se do mais abrangente estudo de resultados de maratonas em toda a história: foram examinados dados de 1.815.091 concluintes de provas de 42.195 metros.

Para efeito da análise, os concluintes foram distribuídos conforme sexo, idade, tempo final, tempos intermediários e outros critérios, que darão origem a diversas pesquisas mais específicas.

Nem todas as maratonas tinham todos os registros; quando a sexo, por exemplo, foram identificados 1.423.160 concluintes –68,48% deles homens. Quanto às idades ou faixas etárias,  422.003 estavam adequadamente identificados.

As faixas etárias da terceira idade são as que apresentaram crescimento mais acentuado no período 2008-2014, como você pode notar no gráfico abaixo.



Mais especificamente, a classe de 65 a 69 é a que teve maior crescimento de participação, tanto para mulheres quanto para homens –entre estes, você pode notar que o crescimento mais forte é na faixa de maiores de 80 anos. Isso, no entanto, deve ser desconsiderado, segundo me disse Andersen, por causo do baixo número de participantes nesse segmento.

Também é notável o aumento da participação de mulheres veteranos, que é mais acentuado do que o de homens. Na categoria 50+, o crescimento da presença feminina é de 89,70%, contra 54,56% entre os homens. A diferença na faixa de mulheres de 60-64 é de cerca de 110%; na faixa seguinte, beira nos 150%!!!!

O coordenador da pesquisa, publicada no RunRepeat (cliqueAQUI para ler a íntegra do texto em inglês), na conversa que tive com ele, preferiu não formular hipótese sobre as razões dessa acentuada expansão na participação da turma mais velha.

Talvez a aposentadoria seja uma explicação. A vontade de retardar o envelhecimento pela prática de exercícios físicos e o uso da corrida como terapia e forma de ampliar o círculo de amizades também podem ser boas justificativas.

O certo é que os velhinhos estão firmes na paçoca, como a gente costumava dizer no Rio Grande do Sul quando eu era guri.


Vamo que vamo!

6.4.15

Aposentado corre pelos caminhos do Che menino

Celia era uma garota linda, aventureira e rebelde. Fumava, mantinha curta a cabeleira, pregava a autonomia das mulheres e não se filiava a religião nenhuma –muito pelo contrário. Só isso bastaria para escandalizar a sociedade argentina naquele fim dos anos 1920, ainda mais que a moçoila era a caçulinha dileta de uma família de poderosos estancieiros.

Pois ela não estava nem aí. Além de tudo, defendia e praticava, no frescor de seus 20 aninhos, a independência sexual.

Vai daí que, quando se engraçou com um rapagão desempenado, que se apresentava como engenheiro e se dizia empreendedor do ramo da construção civil, não demorou muito para ficar grávida, fora do casamento!!!, e sem a benção paterna!!!

Para obrigar a família a aceitar o inevitável, engendrou com Ernesto Guevara uma fuga de casa. Papá La Cerna se rendeu ao fogo da filha, e não só se fez o casório como também ela, ainda menor de idade, ganhou o direito de levar sua parte na herança.

Com a grana, Ernesto e Célia compraram uma plantação de erva mate em Puerto Caraguatay, uma zona rural da província de Misiones, no distrito de Montecarlo, a 1.200 quilômetros ao norte de Buenos Aires. Lá o intrépido engenheiro poderia trabalhar e manter a gravidez da mulher longe de línguas fofoqueiras.

Não só, como o próprio Guevara pai conta em seu livro "Meu Filho, o Che", de 1981: "Era um lugar emocionante, cheio de animais ferozes, trabalho perigoso, roubos e assassinatos, ventos com chuvas intermináveis e doenças tropicais. Lá, na misteriosa Missiones, tudo atrai e emociona. Atrai como tudo o que é perigo e emociona como toda paixão".



A citadina Celia se deu bem no meio do mato. Sua barriga de grávida vicejou saudável e, em meados de maio, avisou o marido que tinha chegado a hora. Foi só baixar até a praia, no próprio terreno Guevarista, nas barrancas do rio Paraná, para pegar um barquinho ruma a Buenos Aires.

Para o parto do primogênito, a família queria a segurança e os recursos da capital. Mas a natureza falou mais alto: na descida do rio, passando por Rosario, as dores se fizeram sentir. Ela estava com oito meses e meio de gravidez, não havia como prosseguir.

Assim, às 15h05 do dia 14 de maio de 1928, nasceu no hospital Centenário aquele que o mundo conheceria por Che, comandante Guevara, herói da humanidade, combatente da liberdade e da justiça. Nos registros oficiais, Ernestito veio à luz no dia 14 de junho, de “parto prematuro”, explicação dada para encobrir o fato de que o garoto fora gerado antes do casamento, realizado em dezembro de 1927.

Passadas as naturais celebrações com a família e o período de resguardo, o trio calafrio voltou para as barrancas do rio Paraná, no distrito de Montecarlo.

E foi lá que este aposentado corredor –mas não corredor aposentado—se encontrou a treinar dias atrás, em uma manhã fresquinha...



A cidade de Montecarlo é o principal ponto turístico na região, ficando entre Foz do Iguaçu e as reduções jesuíticas de Santo Inácio. Também é famosa pela produção de orquídeas –lá se realiza uma festa nacional dedicada a essa flor (este site AQUI traz informações turísticas sobre a região).

Implantada em região encoxilhada, praticamente não há trecho plano. No meu curto treino, feito para desencaroçar as juntas depois de longa viagem, estive sempre subindo ou descendo longas e suaves (às vezes, nem tanto).

A cidade ainda dormia enquanto eu corria, mas deu para perceber a quantidade de lojas de flores e o uso generoso da palavra orquídea nos nomes de lojas, restaurantes, oficinas, hotéis e pousadas –a que eu fiquei, por sinal, era bem boazinha, ainda que bastante simples; em contrapartida, o café da manhã era esquálido.

Com cerca de três quilômetros de corrida já chegara à estrada que corta os arrabaldes de Montecarlo; por algumas centenas de metros, corri ao lado de uma plantação de árvores. A madeira seria destinada a fabricação de móveis, outro dos orgulhos locais –há várias lojas de mesas, cadeiras, camas e armários apresentados como “artísticos”.

Lá do alto, só me restava voltar. E assim fiz, cumprindo seis gostosos quilometrozinhos sem dor, cheios de curiosidade pelo território desconhecido e de emoção por trilhar percursos que possivelmente foram percorridos pela família Guevera, já lá se vão mais de 80 anos (clique AQUI para saber mais sobre os caminhos de Che na Argentina).

Dali partiria, já alimentado, limpo e de roupas civis, para visitar a joia mais rara da região: el Hogar Misionero del Che.


Do lar dos Guevara, construído por Ernesto pai com as próprias mãos (não sem ajuda de algum empregado, por supuesto, pois a família era simples e aventureira, mas tinha recursos), sobram ruínas tomadas pela grama, cobertas de limo e musgo, debilmente protegidas por uma cerquinha de madeira que fecha o perímetro do quadrilátero quase nonagenário.


Uma casa apresentada como réplica daquela em que Che viveu sua primeira infância abriga um museu simples e emocionante. A inscrição “Caraguatay – Aqui comenzó la historia”, escrita em cartaz que encima a entrada geral do museu dá o tom do que o visitante vai encontrar nas salas quase desnudas.


A riqueza maior do memorial são fotos de Che menino, com a mãe e o pai, em cenas domésticas.

Em uma delas, por exemplo, o garoto testa com o pé a temperatura do arroio Salamanca, que serpenteia cantante por trás da propriedade, gerando pequena cascata e piscina natural.

Há ainda cartazes, pinturas, imagens lembrando a trajetória do Comandante. Uma pintura, em especial, marca o lugar, posicionando o Che guerreiro em meio à paisagem missioneira.

No terreno em frente à casa, uma pequena rótula apresenta árvores plantadas por filhos de Che quando da reinauguração do memorial, há quase dez anos. Lá estão os nomes de Camilo, Aleida e Celia. 

E há também a indefectível lojinha, onde o visitante encontra recuerdos do passeio, como botoms, chaveiros, canetas, camisetas e erva mate guevarista.



Sai-se de lá de espírito leve, ainda que circunspecto. A história de Che pode ter começado ali, mas sua luta continua, abraçada por milhares e milhões no mundo, emocionando até velhinhos de barba branca.


Vamo que vamo!

30.3.15

Velhinhos de Limeira dão exemplo de velocidade e resistência

Hoje trago para você uma história muito bacana, que mostra a tenacidade dos corredores mais velhos. Trata-se das aventuras da turma de Limeira, no interior de São Paulo, onde um grupo de veteranos mantém acesa a chama do esporte, inspirando e mobilizando gente muito mais jovem.

Até dois meses atrás, quando lancei este blog, nunca tinha ouvido falar desse grupo.Quem chamou minha atenção para os masters de Limeira foi a jornalista Daíza Lacerda, uma jovem de 30 anos que está se iniciando nas artes da corrida –orientada por um veterano que tem mais que o dobro de sua idade, o Fumaça (olhaí os dois na foto/Arquivo Pessoal).

Pois a Daíza mandou para mim uma simpática cartinha eletrônica me convidando para conhecer a turma e participar das corridas que organizam na cidade. E falou também dos problemas que enfrentam: a cidade perdeu há pouco sua principal pista de atletismo, por causa de obras para contenção de enchentes. Os treinos são feitos numa pista nova, improvisada, mas a turma não dá o braço a torcer.

Conversa vai, conversa vem, foi a minha vez de fazer o convite, chamando a Daíza para uma colaboração para o blog, deixando que ela mesma contasse a história dos seus companheiros de treinos e inspiradores para a corrida.

Ela gentilmente aceitou e acabou mandando o texto que publico a seguir; também mandou uma batelada de fotos. Infelizmente, não dá para publicar todas. Espero que as imagens que escolhi já sirvam para você conhecer melhor essa sensacional turma de corredores que enfrentam o tempo e as adversidades em nome da saúde e do prazer de correr.

Bueno, fique agora com o texto da DAÍZA LACERDA, a quem mais uma vez agradeço pela contribuição.




VETERANOS DE LIMEIRA PERDEM A PISTA, MAS NÃO A POSE

Para eles, a idade parece quase um detalhe. Circulando com suas rugas, cabelos brancos e peles flácidas, parte dos vovôs e vovós de Limeira quer saber mesmo é de correr. Nas trilhas com pedra e areia fofa do Horto Florestal de Limeira, eles não perdem o riso e nem a competitividade. Do alto dos seus 60, 70 ou quase 80 anos de idade, começam cada ano com uma nova medalha na coleção.

Com recorde de 230 inscritos, o Campeonato Municipal de Pedestrianismo de Limeira está sendo realizado pelo 22º ano consecutivo, atraindo cada vez mais velhinhos para as corridas gratuitas que acontecem mensalmente em distintos bairros.

Para quem não para de correr, é o termômetro do poder de fogo das canelas, em evento organizado de forma artesanal: fichinhas feitas à mão, que faz às vezes do chip, e linha de chegada delimitada por um barbante, o funil. Mas tem suquinho na chegada, lanche comunitário e sorteio de camisetas para quem participa.

Há também enfrentamentos com a turma dos veteranos da região, que participam do Campeonato Máster do Interior. Não é proibido para menores (até 34 anos), que podem se meter a besta, sem pontuação para equipes. Mas os novinhos têm de ser humildes e se sujeitarem a engolir poeira da véiarada, um bando de homens e mulheres inspiradores. Afinal, o máster é disputa de verdade para nervos e músculos lapidados em anos e quilômetros sem fim de asfalto ou terra, sem páreo para ratos de academia.

DE REPENTE, 72

Essa história toda começou com o Fumaça, que alguns até conhecem como José Carlos da Silva. Aos 72 anos, ele também não larga o osso. Está há meses na lida com “uns probleminhas” no nervo ciático, que deve deixá-lo de molho por outros meses. Mas a aposentadoria não está nos seus planos. Reduzir, sim. Parar, jamais. Está firme e forte no propósito de participar dos Jogos Regionais do Idoso (Jori) e Jogos Abertos do Interior deste ano, e faz planos para quando mudar de categoria.



Figura lendária no atletismo de Limeira e região, Fumaça corre desde os 18 anos, quando trocou o futebol (que lhe rendeu o apelido) pelas pistas. É da época em que o município sequer tinha local para reunir a dúzia de corredores que estavam perdidos por aí. Ele calcula cerca de 500 troféus e outras 500 medalhas no gigante histórico de competições.

A mais recente é a melhor colocação do Estado nos Jogos Abertos do Interior de 2014. Trouxe para Limeira o ouro nos mil metros, vencidos em 3min42 em sua categoria. “Ainda dou trabalho para eles!”, celebra. De todas as premiações, acredita que pelo menos umas 50 vieram depois dos 60 anos.

Sem aviso, a idade chegou na vida corrida. “De tanto que corri, nem percebi. Não parei. De repente, estou com 72”, conta, paciente, em meio a inúmeras interrupções de atletas ou colegas de trabalho que insistem em lhe consultar, ora sobre as próximas provas, ora sobre a parte burocrática da Associação Limeirense de Atletismo (ALA), da qual é treinador.

Fumaça conta que a idade não lhe trouxe muitos problemas de saúde, o que credita à vida de treinos. Para ele e para os pupilos entre 10 e 80 anos. Trata a fisgada no ciático como algo pontual, provavelmente adquirido em outras atividades que não a corrida. “É claro que a corrida também caleja. Mas essa dor não desejo para ninguém. É uma das piores, mexe com tudo. Mas agradeço aos médicos que estão me ajudando”.

Ele dá bronca na terceira idade. “Não tem nada que esperar a aposentadoria para iniciar no esporte. Ficar só no dominó, esperando o infarto, ou só começar quando o médico mandar”, prega ele, sobre a vontade que deve prevalecer à necessidade.

No campeonato municipal, as cabeças brancas (ou tingidas) são mais numerosas nos últimos cinco anos, como ele calcula. E a necessidade de o município ter um time de velhinhos para representação no Jori contribuiu para que uma parcela deixasse, de fato, o dominó de lado para correr. Praticar o esporte é bom. Mas a coisa muda quando há disputa pelo pódio.

“Na pista, a pessoa tem a chance de andar, parar, sentar. Sem a responsabilidade de participar, vai bem. Colocou responsabilidade, daí pesa. Não é fácil carregar 300 habitantes nas costas, nas competições”.

A contragosto, reconhece a necessidade de aliviar o passo. “Tem que controlar, aprender a dosar. Quando eu chegar nos 75, vou correr 800 metros. Aí vou pegar uns velhinhos mais fracos”, planeja.


UM LUGAR PARA CHAMAR DE NOSSO

A história de Fumaça se mistura com a da pista de atletismo de Limeira. O traçado oval de 300 metros com pedriscos, recheado com grama, foi inaugurado em 1967. Desde agosto é uma cratera cheia de barro, concreto, máquinas e homens, que constroem ali um piscinão para conter a água da chuva e evitar enchentes naquela e outras regiões.

O projeto existe há uma década e saiu do papel em convênio de R$ 25 milhões com o governo federal. O plano é devolver a pista nas mesmas condições de treino de antes da obra, que deve ser concluída em dois anos. Mas já houve atrasos devido à lentidão do governo em liberar a verba para continuidade dos trabalhos.

Para quem esteve ali desde sempre, a despedida não foi fácil. "Vi jogarem a primeira grama no campo. Acompanhei os tratores passando, as minas d'água. Presenciei a construção dos alicerces das arquibancadas. Depois, treinavam velho, novo, gordo, magro, branco, preto. Só não podia fumar, jogar bola, e levar cachorro e papagaio”, conta Fumaça sobre a antiga casa, frequentada não só pelos atletas da ALA, mas alunos de academias e anônimos em geral, usando o local para garantir um passo à frente do sedentarismo.

Na defesa da corrida como base para qualquer esporte, a agenda de disputas se misturou com o trabalho desenvolvido na pista que nascia, e ele não competiu na estreia. Mas competiu em outras, ou mandou “seus meninos” disputarem – e ganharem – por ele. A pista já não era apta a receber jogos abertos ou regionais, devido às exigências "a nível de seleção".

As oficiais têm de ter 400 metros, com piso de tartan, uma espécie de borracha, e não de carvão, como a pista limeirense. "Mas já vi algumas de tartan piores que a nossa de carvão", alfineta o treinador.

A casa nova e provisória fica próxima da antiga, em área pública que passou por adequações para receber os atletas, que agora são desafiados com subida e descida em mais de 400 metros do traçado oval. É a topografia do local onde não foi possível mexer, resultando numa pista com desníveis. Mas isso não foi problema, considerando o lado masoquista dos usuários. O que dizem é que a subida desafiadora de hoje vai calhar com tempos melhores quando a velha pista for retomada.

Fumaça lembra que os poucos atletas da época da construção treinavam na rua. Mas a pista própria do município fomentou o esporte, com a criação de escolinha para crianças. Com o crescente número de atletas, faltava uma identidade.

m 1991, os praticantes se organizaram em grupo e criaram a Associação Limeirense de Atletismo (ALA), que tem sede na pista. "Daí para frente, formamos muitos campeões, como o Odair dos Santos, paralímpico que começou conosco. Doutores, industriários e engenheiros da cidade passaram por aqui. E a população tem que aproveitar o que tem".


O MÁSTER CHEGA AOS 30

Limeira tem outra figura jurássica das corridas. E ela é sempre vista por aí com um chapeuzinho, carregando pastas, a pé ou de bicicleta. De cabelos muito brancos e olhos bem azuis, seu Rui Camargo é idealizador, junto com Fumaça, do Campeonato Máster do Interior, que completa 30 anos em 2015.

À frente da Camal (Corredores Amigos Másters do Atletismo de Limeira), seu Rui gosta de exatidão nos números. Tem 77 anos de idade, 390 medalhas, 101 troféus e 753 corridas concluídas. Aliás, 754 corridas e 391 medalhas, considerando o pódio da abertura do campeonato municipal.



Para desespero da esposa, não enche os cômodos da casa só com as medalhas e troféus, mas com cadernos e mais cadernos de anotações de suas competições e do máster. Dita que, em 2014, foram 39 participantes acima de 60 anos, 29 com mais de 65, 18 acima dos 70, nove que passaram a linha dos 75 e um que representa os 80+.

Se lá nos anos 1980 a idade média dos participantes era 40 anos, na última década explodiu a invasão dos aposentados. Nos aquecimentos, atividades da terceira idade e o orgulho dos netos são assuntos. Na hora da prova, fim de papo e o bicho pega entre os concorrentes, a maioria correndo por equipes independentes ou vinculados aos departamentos de esporte de municípios.

Nos mesmos moldes artesanais do “filhote” municipal, o pega pra capar regional deste ano já tem data e local: 29 de março, às 8h, com largada e chegada na pista da ALA em Limeira (Rua Capitão Antonio Esteves dos Santos, Jardim Piratininga, ao lado da Câmara Municipal). Com expectativa de 200 participantes no campeonato, durante o ano, as outras cidades da liga sediarão outras etapas: Cordeirópolis, Jundiaí, Cajamar, Sumaré, Mogi Mirim, Mogi Guaçu e Campinas.

O ÚLTIMO GOLE
Corredor e organizador de corridas, seu Rui era refém da bebida no início dos anos 1960. Trocou os copos pelas ruas numa data marcante para ele: 1º de maio de 1962, sua estreia na Corrida do Trabalhador. Não parou mais e garante que nunca precisou de médicos na trajetória, sem histórico de lesões. Ou quase. A esposa o desmente e entrega, contando o dia que o marido chegou com o rosto sangrando, após um tropeço num treino. Nada além de um susto. Ou, azar, nas palavras dele.

Mas seu Rui tem exemplos para não abusar. Já viu dois colegas idosos morrendo em meia maratona, nos últimos cinco anos. Os dois casos ocorreram em Campinas, e os atletas não alcançaram a linha de chegada, tomados por ataques cardíacos no percurso.

“Na época, pressionamos para que não participassem, mas insistiram. Assinaram um termo de responsabilidade e mesmo assim deu problema depois”, lembra. “Se passou dos 60, não adianta querer o ritmo de quem tem 30 ou 40. Tem de se conhecer. O corpo avisa dos limites”, alerta ele. Embora muitos de 60+ passem brincando pelos de 30+, como já testemunhei.

A SÃO SILVESTRE MORREU

Quando seu Rui começa a relembrar das corridas das antigas, pergunto da São Silvestre e recebo uma avalanche de fúria. “Não existe mais São Silvestre. É corrida para 10 pessoas, cinco homens e cinco mulheres. O resto é figurante”. Instantaneamente perco o riso, sendo que me esforcei no ano passado para ser uma “figurante”. Depois é que entendo suas razões.

“Corri quatro vezes a São Silvestre, quando havia eliminatórias no interior para poder participar. O Fumaça, em 1966, ficou na 31ª colocação geral, foi o 1º do interior e 11º brasileiro. Participavam no máximo 460 pessoas, era tudo gratuito. Eram premiados os melhores do interior e do Estado, além dos estrangeiros.

Naquele ano foram 34 países”. Para comprovar o passado perdido, saca edições da Gazeta Esportiva e outros jornais com notícias das eliminatórias e as classificações. Ele e Fumaça são identificados em fotos, além de outros atletas da região.



Crítico ferrenho do modelo atual de corridas de “ostentação”, seu Rui queria mesmo é protestar contra o esporte como comércio. Mas ele mesmo reconhece que é “bater em ferro frio”. Ainda que para ele o modelo certo seja o das antigas, as ilusões também ficaram lá atrás.

“A corrida é uma distração, não é cara. É melhor do que passar o dia inteiro no sofá em frente da TV ou no computador. Enquanto eu tiver saúde, corro. Senão, caminho. Corro para manter a forma, sem a ilusão de ganhar. Antes, partia pra cima. Agora, se alguém me passa, deixo que vá”.



27.3.15

Aposentado faz mais longo treino do ano, cansa, mas não chora

Na manhã de hoje fiz o meu mais longo treino deste ano, cumprindo a maior distância desde que iniciei este projeto de me reinventar como maratonista. 

Doeu, cansei, mas completei. Foram 14 km, começando sob uma temperatura agradável e terminando sob sol forte nesta primavera paulistana.

Já lá se vão dois anos sem que eu tenha sequer conseguido arrebanhar coragem e músculos capazes de enfrentar a preparação para a rainha de todas as distâncias. Agora, não. Com condições ou nem tanto, estou me preparando para reaprender as delícias e as desgraças que envolvem o treinamento maratonístico.

Uma delas, ao mesmo tempo delícia e desgraça, é o treino longo –longão, dizem alguns, longa, falam outros. Não importa. É o dia em que a gente executa a corrida de maior distância na semana. É quando a gente começa a testar a preparação, começa a ver como o corpo reage a ficar tanto tempo sob estresse.

Talvez pela ausência de treinamento organizado ao longo de tanto tempo, acabei pegando um certo receio do dito longão –a distância é relativa, pois cada etapa do treinamento encerra seus próprios desafios; no início, por exemplo, uma pernada de cinco quilômetros já pode ser considerada treino longo para alguns corredores.

Já na semana anterior fico pensando em como vai ser e organizo trajetos possíveis, sempre imaginando duas possibilidades: ida e volta correndo ou ir para sempre e voltar com auxílio motorizado, seja ônibus, seja metrô. Gosto mais desta última, ainda que acabe tomando mais tempo.

Bueno, o meu primeiro longo do ano seria ontem. Dormi pouco, acordei mais tarde do que deveria, larguei às 9h já com sol alto e temperatura acima de 24 graus. Saí para fazer 14 km, fracionados em sete blocos de 1.700 m de corrida por 300 m de caminhada.

Desde que criei barbas brancas e que as dores dificultam a movimentação mais escorreita, meus treinos vêm sendo assim, divididos em blocos, combinando corrida e caminhada. O arquiteto desse desenho é o treinador Alexandre Blass, que você pode conhecer melhor CLICANDO AQUI.

Pois saí ontem lépido e fagueiro, queimando o chão. Apesar do sol, as pernas saíram leves e fiz o primeiro bloco em ritmo imprevisto, fechando os dois quilômetros iniciais em cerca de 12 min, mesmo com o trecho de caminhada.

Beleza, pensei, e segui na mesma balada no segundo bloco. Na metade dele, ao longo da avenida Brasil, já vi que tinha feito c***. As pernas não rendiam, a respiração estava irregular, e a mente dizia: Que saco! Não tinha dores, mas também não tinha vontade de seguir no treino.

Quando deu o quinto quilômetro, metade do terceiro bloco, já estava no Ibirapuera. Finalmente, parei para beber alguma coisa, sorvi de gut-gut uma garrafa de água inteira, em cima de um dulcíssimo sachê de carboidrato.

Nada disso adiantou. Quinhentos metros para a frente e de novo eu estava remelento, inquieto, cansado. Caminhei mais um pouco, volteia  correr e chutei o pau da barraca: Chega!

Bem que eu poderia ter sido mais esperto e abortado o treino mais perto de um ponto de ônibus: caminhei ainda um quilômetro e meio, me xingando o tempo todo e prevendo o fracasso do treinamento, a degringolada da maratona, a vergonha e a débâcle moral  completa.

No ônibus, no caminho de volta, fui colocando a mente em ordem –se é quem dá para se dizer algo assim de minha mente—e comecei a preparação para dar a volta por cima. Só tinha um caminho: fazer o longão no dia seguinte, hoje.

De novo, acordei mais tarde do que tinha planejado, mas nada que me prejudicasse: 6h30 em vez de 6h não é a pior coisa do mundo. Até dar água e comida pros cachorros e alimentar o esqueleto deste quase idoso, abluções matinais e tal e coisa e coisa e tal, uma hora se foi.

O treino iniciou de verdade às 7h28, e meu primeiro objetivo era completar inteiro o terceiro bloco, onde tinha parado na tentativa anterior.

Pois fui. Estou longe de ser um corredor elegante e com boas passadas; as dores velhas rondam meu espírito e, ao correr, meu corpo busca fugir de cada dor passada; assim, músculos se contraem em lugares errados, tentando evitar dores que não vêm e, assim, tornando-se eles mesmos artesãos de novos problemas.

Enfim, vou com calma, devagar, tentando deixar as costas eretas, com o tronco levemente inclinado. Posso ir mais rápido, mas não posso descuidar de como os pés batem no chão. Também não quero me cansar antes da hora.

Mesmo com todas essas tensões chamando minha atenção, consigo acompanhar o que está rolando à minha volta. Afinal, é por isso que corro na rua (veja abaixo o meu caminho de hoje); afinal, corredor de rua corre na rua, precisa aproveitar surpresas do terreno e eventuais sustos com automóveis e bicicletas, fazer de tudo aprendizado para ficar mais esperto na hora da corrida propriamente dita.



Passos pelos Jardins e, mais uma vez, fico impressionado com a riqueza das mansões. Desço até a marginal Pinheiros e sigo para o parque do Povo, onde corri poucos dias depois da inauguração. Para chegar lá, cruzo essa bela passarela...



Eu gosto tanto dessa ponte sobre os automóveis que passam chispando que resolvi fazer uma selfie (autorretrato, como se dizia em outros tempos).
A imagem ficou uma porcaria, mas, enquanto, remexia o celular para devolvê-lo à minha pochete, saiu mais uma chapa. Esta, mais inusitada, vale a pena compartilhar. 


Mal comparando (bem mal comparando, para ser mais preciso), lembra o estilo de certo fotógrafo que costumava produzir imagens geniais, mas absolutamente incompreensíveis (aquilo ali é o quê?, às vezes a gente tinha de perguntar para o cara).

Bom, passei dos dez quilômetros sem parar, com dores, mas sem desânimo. No parque, cheguei aos 12 km e ainda pude cumprir um objetivo de minha jornada, que era fotografar mais uma vez uma escultura  que considero a cara de São Paulo.



Trata-se de “Executivo Fugindo da Chuva”, de Christina Mota. O engravatado corredor estava de novo com seu guarda-chuva, que foi roubado algum tempo atrás...

Assim, enganando o corpo com pequenos prêmios, engatei marcha final para completar o último bloco, que finalizei em frente ao Museu da Casa Brasileira –recomendo a visita; o restaurante também é muito bom--, na Faria Lima.

Sentado, esperando o ônibus, suado, fedendo, contabilizava as dores do primeiro longo do ano, o primeiro longo do resto da minha vida. Foram apenas 14 km e ainda misturados com caminhadas –com certeza, há quem ria desse esforço, mas, aviso aos navegantes: cada um com seu cada qual--, mas me dão esperança de ser capaz de enfrentar meu caminho.

Ainda mais que tenho apoios maravilhosos. Ao chegar em casa, fui longo cuidar da recuperação do velho corpitcho, comendo e bebendo enquanto aproveitava o balouçar da rede.




Assim sim! Vamo que vamo!

25.3.15

Velhinhos brasileiros vão bem de saúde mental, mas precisam ter mais amigos

A rigor, a rigor, considerando os critérios da Organização Mundial da Saúde e do IBGE, o título acima está errado. Isso porque essas instituições consideram “velhos” pessoas de 60 anos ou mais. Acontece que nem todas as pesquisas do mundo usam os mesmo critérios.

Esta que estou usando neste texto, por exemplo, examina as condições de pessoas de mais de 50 anos em 12 países para tentar chegar a um denominador comum sobre o bem estar dos veteranos em cada um dos lugares analisados. 

A pesquisa foi feita para a construção do Indicador Global da Situação da Velhice (o nome em inglês é Global AgeWatch Index 2014) e analisou dados de 96 países.

O Brasil está na parte alta da metade de baixo da tabela, no posto número 58. Mas se saiu bem em alguns dos critérios da pesquisa, como segurança de renda (14ª posição) e saúde da nossa turma (43º lugar). Desandou, porém, quando foram analisadas as condições de inclusão social e oferta de oportunidades para o idoso se manter ativo, como você pode ver no quadro abaixo.


O pessoal do jornal britânico “Guardian” deu uma olhada mais amiudada sobre os dados e produziu uma tabela sobre bem estar geral, baseada em três critérios: bem estar mental relativo (% de pessoas de mais de 50 anos que consideram que sua vida tem sentido, em comparação com % de pessoas de 35 a 49 anos); taxa de pobreza na velhice (% de pessoas maiores de 60 anos com renda inferior à média nacional); e sociabilidade (% de maiores de 50 anos com amigos ou parentes que podem recorrer em caso de problema).

Bueno, o jornal escolheu 12 países, de forma arbitrária, e criou três estágios –melhores, médios e piores. O Brasil fica entre os melhores no primeiro item --bem estar mental relativo; está na média no que se refere à taxa de pobreza e entre os piores nas conexões sociais. Veja como ficou o gráfico produzido pelo “Guardian”.


Como você se sente em relação a esses critérios?

23.3.15

Idade ajuda a melhorar corrida, que melhora a vida, diz atleta de 64 anos

Escrevo estas linhas um pouco emocionado, depois de mais uma vez ler o artigo que BIBA RISSO mandou especialmente para este blog.

Se você não a conhece, não se avexe não. Ela é simplesmente uma cidadã corredora disposta a viver a vida, aproveitando com sofreguidão cada momento, especialmente agora, quando passa dos 60 anos.

Nem sei como conheci a BIBA. Deve ter sido em alguma rede social ou em alguma das centenas de corridas paulistanas –se bem me lembro, ela participou de um teste de percurso de uma São Silvestre em que também estive.

Não importa. O que vale é que agora tenho a oportunidade de dividir com você a experiência que ela generosamente nos relata.

Neste texto, escrito no início de março, ela diz, por exemplo: “A corrida me ajudou quando sofri acidentes, contribui para acelerar minha recuperação, me ajudou a superar momentos tristes e difíceis”. E completa: “A corrida fez um bem enorme ao meu casamento, já que o meu marido acabou indo correr também, nos uniu. Fizemos viagens ótimas correndo por esse mundão”. 

Com o quê, paro de falar e deixo que BIBA fale por ela mesma, enquanto agradeço a ela pela contribuição. As fotos são da página dela em uma rede social, usadas com autorização.



“Meu nome é SILVIA MARIA RUSSO BURGIERMAN, mas todo mundo me chama de BIBA, desde que eu nasci. Tenho 64 anos, sou casada há quase 43 anos com um dos melhores homens que eu conheço.

Tenho três filhos já quarentões, um netão de 15 anos e uma netinha de um anos e oito meses, dois presentes que a vida me deu.

Tive por muito tempo, uma lojinha em uma academia de ginástica, mas ela já fechou há alguns anos. Hoje em dia vivo ocupada, tratando de ser feliz e de curtir a vida. Vivendo e convivendo!

Estou chegando de uma corridinha deliciosa pela Fonseca Rodrigues ao parque Villa Lobos e me lembrei de que o Rodolfo Lucena me pediu um depoimento sobre ser mulher, estar envelhecendo e ser corredora.

Como dizer não a alguém que sempre foi minha inspiração e com quem eu topei tantas vezes nas minhas corridinhas matinais?

Quem me conhece sabe a "Poliana" incorrigível que eu sou. Tem gente que até se irrita. Sempre falo que a melhor fase da vida é a que eu estou.

Tive fases ótimas. A da juventude, a do namoro, a do casamento, a dos filhos pequenos, tantas! Belos momentos!

Mas, se eu fosse escolher a melhor época, escolheria a que estou, a dos 60, 64 e meio para ser exata!

Esse negócio de não precisar mais provar nada para ninguém, de se cobrar cada dia menos, de sentir-se segura, de ser cada dia mais leve, mais desocupada, de aprender a rir de si própria e das besteiras que faz, é bom demais!

De não se importar com os detalhes do seu corpo, e sim em ser uma pessoa melhor a cada dia que passa.

Fora os netos, neto é bom demais!

Quanto a ser corredora, a idade também ajuda.

Costumo falar que habita em mim uma carrasca interior exigente e disciplinada. Uma horrorosa que me tira da cama antes das 5h para correr e depois me manda para academia, fazer alongamento, localizada ou Pilates. Carrasca interior de velhinha é velhinha também, fica mais leve e menos rigorosa.

Hoje o meu maior objetivo é continuar correndo, ouço os sinais que o meu corpo me dá, se estou cansada me permito descansar, respeito meus limites, já não faço mais provas longas e difíceis, não preciso mais ser a primeira da categoria nas corridas que eu participo. Só quero ser feliz!

Devo muito a esse hábito adquirido há quase 20 anos atrás.

A corrida me ajudou quando sofri acidentes, contribui para acelerar minha recuperação, me ajudou a superar momentos tristes e difíceis.

A corrida fez um bem enorme ao meu casamento, já que o meu marido acabou indo correr também, nos uniu. Fizemos viagens ótimas correndo por esse mundão. 

A corrida me deu qualidade de vida, saúde, garra, autoestima, momentos incríveis e amigos maravilhosos.

Enquanto der, enquanto eu puder, quero continuar correndo. Porque quem corre é mais feliz. Tenho certeza!


Bons treinos para todos e vamoquevamo!"