18.10.17

Torcidas progressistas defendem Pacaembu e apoiam ato em homenagem a Carlos Lamarca

O topo do mundo –ou, pelo menos de uma parte de São Paulo—foi o destino de meu percurso de hoje na terceira etapa de minha série de oito corridas em homenagem a Carlos Lamarca, nascido em 23 de outubro de 1937 –faria oitenta anos na próxima segunda-feira, se não tivesse sido covardemente assassinado em 17 de setembro de 1971 na região de Pintada, Brotas de Macaúbas, Bahia.
Depois de mais de catorze quilômetros de corrida, cheguei à avenida São Luís, onde fica o edifício Louvre, uma das obras-primas projetadas na década de 1950 pelo arquiteto João Artaxo Jurado.
Da cobertura, onde há piscina e área para caminhadas, a vista é sensacional: de um lado as curvas do Copan, de outro as copas das árvores da praça Dom José Gaspar e o desenho da biblioteca Mário de Andrade, mais ao longe a catedral da Sé e quanto mais o visitante conseguir perceber entre os meandros dos edifícios paulistanos.

Foi lá que gravei entrevista com o arquiteto Henrique Ferraz, um dos cérebros por trás do blog Teóricos do Futebol e participante do movimento de torcidas progressistas Agir --Arquibancada Ampla, Geral e Irrestrita.
A Agir faz parte de um movimento em defesa de São Paulo contra a sanha privatista do presente alcaide. Também integra o seleto grupo de organizadores do ato LAMARCA VIVE!, que será realizado na próxima segunda-feira.


Conversamos sobre as origens da Agir e sobre as lutas pela democratização do esporte e da própria cidade de São Paulo. Ele explicou tudo tintim por tintim, razão pela qual preferi reproduzir aqui a fala dele em vídeo do que “traduzir” tudo para o texto. Clique na imagem abaixo e acompanhe a nossa conversa, que está recheada de informações sobre os movimentos progressistas da cidade.



VAMO QUE VAMO!!!


PS.: CLIQUE AQUI para saber mais informações sobre o evento da próxima segunda-feira. Se puder, já deixe avisado que você haverá de comparecer; se for de seu agrado, compartilhe com seus amigos das redes sociais. Obrigado.

17.10.17

Jabuticabeira e comunista espanhola no trajeto de corrida em homenagem a Lamarca

Uma jabuticabeira carregada, carregadinha, carregadinha de minúsculas frutinhas verdes, redondinhas como só elaszinhas, agarradinhas aos galhos mirrados me recebe quando chego à praça, o destino de hoje no segundo dia de minha sequência de oito corridas em homenagem ao aniversário de oitenta anos de Carlos Lamarca.
Plantada numa área que, na manhã de hoje, não recebia muita luz, a árvore está com mais jeito de arbusto superdimensionado, mas é linda, convidativa como soem ser as jabuticabeiras. É uma espécie de arauto do que vem pela frente, uma bela horta e campos abertos para caminhadas, exercícios ou simplesmente estar, calado, meditando, olhando para o fim do mundo sem nada ver.
Pensando na visão de mundo de Lamarca, escolhi hoje como destino um território paulistano que homenageia uma das grandes comunistas de nossa história. A praça que comento tem como madrinha Dolores Ibárruri, a ardente líder da luta contra o fascismo na Espanha, combatente no que chamam de Guerra Civil Espanhola, mas foi sim uma reação do povo ao golpe desfechado contra a democracia por Franco e seus asseclas.
LA PASIONARIA, como ela mesma se apelidou ainda nos verdes anos de sua juventude, atuou durante muitos anos como jornalista, escrevendo no “Mundo Obrero”, o órgão oficial do Partido Comunista da Espanha naquela época (seu primeiro artigo foi publicado em 1918).
Sobre ela, reproduzo a seguir trecho de pequena biografia publicada pelo jornal “A Verdade” (clique AQUI para ler o texto completo).


“Em 1931, cai a Monarquia. Espanha Republicana. Dolores vai para a Constituinte, eleita pelo Partido Comunista nas Astúrias. Em 1934, visita Moscou, conhece Stálin e preside o I Congresso das Mulheres Comunistas da Espanha. Espanha no coração/No coração de Neruda,/No vosso e em meu coração./Espanha da liberdade,/Não a Espanha da opressão./Espanha republicana:/ A Espanha de Franco, não!”
A Frente Popular de Esquerda vence as eleições, mas a direita não aceita a perda de poder e se lança à guerra para restaurar a monarquia. O verão de 1936 marca o início da guerra. São três anos de luta com mais de 400 mil mortes. Dolores escreve, discursa, anima os combatentes nas frentes de batalha. Comunista, ela defende conventos de freiras e religiosos da sanha anticlerical de setores anarquistas da Frente. Amada e admirada, ela é a heroína da República e todos (as) vibram ao ouvir seus slogans: “Antes morrer de pé que viver de joelhos!”, “Os fascistas não passarão!”, “É melhor ser a viúva de um herói, que a mulher de um covarde!”.
A divisão interna da Frente Popular Republicana (Comunistas x trotskistas x anarquistas) facilita a vitória das forças franquistas, que contam com apoio total dos nazistas alemães. No ano de 1939, Dolores, como tantos outros comunistas, partem para Moscou.
Foram 38 anos de exílio, durante os quais, a revolucionária não descansou. Atuou com Dimitrov na Internacional Comunista (III Internacional), visitou países socialistas, foi eleita, em 1942, secretária-geral do PCE e, em 1960, sua presidenta.
SI! SI! SI! DOLORES A MADRID
Com este grito, a multidão emocionada e entusiástica, recebeu Dolores de volta à pátria, em 1977, um ano após a morte de Franco, num momento de transição democrática. A velha revolucionária se aproximava dos 82 anos, mas não se aposentou. Foi novamente eleita para a Assembleia Constituinte, participou de vários eventos, escreveu suas memórias “O único Caminho”.  “Quem não a segue?/Nunca ao vento deu uma bandeira mais paixão/ não ardeu mais intensamente um coração”.
Morreu no dia 12 de novembro de 1989, aos 93 anos. No seu enterro, diante da multidão chorosa, Julio Anguita falou para ela: “…Dizem, Dolores, que morreste! Que asneira! Vives em cada um dos que te amam, e são tantos! Comunista exemplar, és de todos: de todos que levantam o punho, de todo o povo; tu ensinaste que o Partido não se organiza para si próprio, mas para todos os oprimidos. Que exemplo para mulheres e homens, mulher cheia de ternura e de firmeza. Fecha os olhos e sonha com o teu povo! Dorme, companheira Ibárruri! Repousa, camarada Pasionaria.”

A praça que homenageia a líder basca fica na zona oeste de São Paulo, encarapitada em uma das colinas paulistas –por isso mesmo, foi organizada em platôs e é cheia de escadas que levam de um andar a outro do terreno.
A tal horta é cuidada pelos moradores da região, que se revezam para aguar as plantas e fazer outras tarefas de manutenção –saiba mais sobre o trabalho deles CLICANDO AQUI.
A praça é minha velha conhecida. Não é boa para correr, por causa das pirambeiras, mas é um ótimo terreno para exercícios de força, exatamente por causa das pirambeiras e escadarias. Já por várias vezes escrevi sobre ela, como neste texto que você pode conferir CLICANDO AQUI.
Hoje, como já é praxe nesta série de corridas em homenagem a Lamarca, fiz uma breve transmissão ao vivo apresentando a praça (veja abaixo). Tive a satisfação de contar, na audiência, com o grande, insuperável RONALDO DA COSTA, o mineirim que em 1998 não apenas quebrou o recorde mundial da maratona como também festejou dando uma estrela no asfalto. Há dez anos, fiz uma entrevista com ele –você pode ler ou reler o texto CLICANDO AQUI (o link não é direto, tem de rolar a página até chegar à entrevista com Ronaldo).


Aliás, eu tenho procurado (não sei se estou conseguindo) melhorar minhas habilidades tanto na realização de vídeos ao vivo, como o que você acabou de assistir, quanto na captação de imagens e edição de clipes, ainda que usando programas rudimentares.
Veja, por exemplo, o material que produzi sobre a participação da estupenda jornalista Eleonora de Lucena na Semana Nacional pela Democratização da Comunicação. Ela falou durante mesa redonda sobre Mídia e Crise no Brasil, realizada ontem e organizada pelo Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé. Vale a pena conferir as reflexões de Eleonora.


É que temos para hoje.
VAMO QUE VAMO!!!

Percurso de 17 de outubro de 2017, segundo dia da série de oito corridas em homenagem aos oitenta anos do nascimento de Carlos Lamarca


6,92 quilômetros percorridos em 1h32min10

Percurso acumulado no projeto 60M60A
2.235,47 quilômetros percorridos em 396h52min07


PS.: A Eleonora também participa de ato em homenagem a Lamarca na próxima segunda-feira, 23 de outubro. Saiba mais sobre o evento conferindo o cartaz abaixo.






16.10.17

Oito corridas pelos oitenta anos do nascimento de Carlos Lamarca

No próximo dia 23 acontece o aniversário de oitenta anos do nascimento do capitão Carlos Lamarca. O menino carioca, filho de sapateiro, virou soldado, defensor da paz, instrutor de tiro e um dos maiores combatentes pela democracia e pela pátria que nosso país já gerou. Há um dito religioso que afirma: “Não há amor maior do que dar a vida pelo seu irmão”. Foi o que Lamarca fez: entregou sua vida ao povo brasileiro.
Trato aqui de fazer uma homenagem ao meu estilo, correndo. A partir de hoje, faço oito corridas em celebração à vida de Lamarca, que todos chamamos de capitão, mas que virou coronel depois dos procedimentos de anistia. O encerramento desse ciclo de treinos será no dia mesmo do aniversário, quando também será realizado um ato de homenagem ao Capitão da Esperança.
Neste primeiro dia da CORRIDA LAMARCA VIVE, fui até o parque Luiz Carlos Prestes, um percurso de cerca de treze quilômetros encerrado nessa área verde da zona oeste. Escolhi lembrar Prestes porque é o maior nome do comunismo na história do Brasil, exemplo de fortitude e retidão, disciplina e dedicação à causa do povo.

Gaúcho de Porto Alegre, muito antes de se filiar ao Partido Comunista do Brasil (mais tarde, Partido Comunista Brasileiro), Prestes capitaneou movimentos revolucionários. Ao lado do grande Miguel Costa, dirigiu no final da década de 1920 a coluna que percorreu vinte e cinco mil quilômetros dos intestinos brasileiros para denunciar os atentados contra o país que o governo cometia.
Militar como Prestes, Lamarca também usou seu conhecimento das armas e das lides castrenses em defesa do povo, tornando-se um dos maiores líderes da luta contra a ditadura no Brasil.
Por isso mesmo, é sempre lembrado com carinho e emoção por todos quantos também se batem pela democracia e pela soberania nacional. No ano passado, quando transcorreram 45 anos de seu assassinato, foi feito um ato na localidade de Pintada, em Brotas de Macaúbas, na Bahia, onde aconteceu o crime.

Capitão Carlos Lamarca em sessão de instrução de tiro com funcionárias do Bradesco

Sua filha, Claudia, mandou então uma mensagem aos participantes da homenagem. Eis o texto enviado por Claudia Lamarca:

“Prezados companheiros,

Prezado Povo de Brotas,

FORA TEMER!

Foi com muita honra que recebi o convite para participar de mais essa homenagem prestada pelos diversos setores da sociedade àqueles que tombaram no enfrentamento, nesta terra de Brotas de Macaúbas.
Saúdo a todos e peço licença para me dirigir a vocês e deixar algumas palavras. Peço desculpas pela ausência. Infelizmente não pude comparecer, porém essa é, ainda na minha vida, uma importante meta a cumprir. Acompanho as homenagens e me emociono toda vez que tenho conhecimento do carinho e respeito prestado ao Zequinha e ao Lamarca. Muitos dos bons filhos desta Pátria, não se conformaram diante das arbitrariedades impostas e se insurgiram contra o governo ditatorial instaurado à força e ousaram buscar uma sociedade mais justa e igualitária.
Na data de hoje, em 1971, José Campos Barreto (Zequinha) e Carlos Lamarca ( meu pai) tiveram suas vidas ceifadas covardemente pelo regime militar. Regime esse imposto mediante um golpe militar, assim como estamos vivenciamos a concretização do golpe branco impetrado pelos representantes das classes dominantes no país.
Retornam ao poder os velhos senhores do poder, os velhos coronéis de terras e de fortunas, usurpando um governo eleito pela maioria do nosso povo brasileiro. Como ratos, tramaram e ainda tramam, ardilosamente, o golpe contra o governo da nossa verdadeira presidenta, Dilma Rousseff, mulher guerreira e digna e contra quem não recai nenhuma sombra de dúvida da sua honradez e postura retilínea. Entram em cena os seus algozes, maculados de denúncias de corrupção, desvio de dinheiro e divisas. Entram em cena os traidores do povo, aqueles que têm em pauta a retaliação aos direitos sociais e trabalhistas a fim de manter a dominação a massa trabalhadora.
Diversos setores da sociedade brasileira não reconhecem esse governo golpista e não cansaremos de denunciar e de protestar contra tudo e todos que promoveram o golpe e financiaram esse terrível retrocesso.
Pela memória de todos que tombaram, pela memória dos nossos heróis e mártires, sejamos firmes e fortes pela manutenção dos direitos sociais e trabalhistas.
Desejo a todos um excelente evento
OUSAR LUTAR, OUSAR VENCER”

A frase com que ela encerrou sua mensagem era a marca registrada dos textos de Lamarca, sempre finalizados com essa palavra de ordem, esse apelo, esse comando.
A corrida de hoje, lembrando Prestes e Lamarca, também foi dedicada a ainda outro combatente do povo, o grande Ricardo Zarattini, que morreu ontem aos oitenta e dois anos.
Tive a honra de, por um breve período no início da década de 1980, militar com ele na mesma organização de combate à ditadura militar. Também fui colega de redação, por algum tempo, de sua filha, a fotógrafa Mônica Zarattini.
O velório do “Velho Zara”, como era chamado, foi um desfile de figuras emblemáticas da resistência democrática e da reconstrução da democracia no Brasil. Numa roda, por exemplo, conversavam Franklin Martins e José Genoíno. Mais além, estava José Luiz Del Roio, para citar apenas alguns.
Sobre Zarattini, o melhor texto que encontrei foi o breve obituário publicado pelo site “Nocaute”, de Fernando Morais. Reproduzo a seguir partes daquele texto:
Zarattini em seu escritório , foto de Mônica Zarattini
"Zara, como era conhecido, nasceu em Campinas (SP) no dia 06 de fevereiro de 1935, filho de Ricardo Zarattini e Annita Zarattini. Iniciou sua militância política em 1952, na campanha “O petróleo é nosso”, quando se aproximou do Partido Comunista do Brasil (PCB). Foi presidente da União Estadual dos Estudantes de São Paulo entre 1959 e 1960. Em 1961 participou da mobilização pela posse de João Goulart na Presidência.
Zara se formou em engenharia civil pela Escola Politécnica da USP em 1962. Trabalhou na Companhia Siderúrgica Paulista (COSIPA), período em que atuou em conjunto com os operários metalúrgicos da Baixada Santista de diversas lutas sindicais e greves, incluindo a conquista do 13º salário. Foi diretor do Sindicato dos Metalúrgicos da cidade de Santos.
Demitido da Cosipa após participar de uma greve na empresa, trabalhou na Máquinas Moreira, que produzia equipamentos agrícolas e que o transferiu para Pernambuco, quando se aproximou do movimento estudantil e do movimento sindical da zona canavieira.
Após o golpe de 1964 passou para a clandestinidade e militava na reorganização do movimento sindical dos trabalhadores rurais no Nordeste.
Em 10 de dezembro de 1968, três dias antes da decretação do AI-5, Zarattini foi preso em companhia do italiano Dario Canale sob a acusação de terem entrado ilegalmente no Brasil com armas para a luta contra a ditadura.
Zara, além disso, era acusado por um atentado a bomba no Aeroporto dos Guararapes, em Recife que matou duas pessoas e feriu catorze. O alvo da ação era o então candidato e depois presidente, marechal Costa e Silva. Ele desembarcaria às 8h30 do dia 25 de julho de 1968 no Recife.
Anos depois soube-se que ele nada tivera a ver com a explosão. Em depoimento à Comissão Estadual da Verdade, Zarattini disse: “O que fere mais é essa coisa que fica até hoje, de as pessoas falarem ‘ah, esse é aquele da bomba do aeroporto?’”.
Chamado de “Professor”, quando preso no Quartel Dias Cardoso, no Recife, ensinou matemática e português a cabos e sargentos. Graças à colaboração deles, fugiu da prisão. Após a fuga, obteve abrigo no Convento das Dorotéias, com ajuda de Dom Helder Câmara, até voltar para São Paulo no ano seguinte.
Em São Paulo, Zarattini foi preso novamente no dia 26 de julho de 1969 pela OBAN (Operação Bandeirantes) do DOPS (Departamento de Ordem Política e Social) e foi torturado mais uma vez.
Ainda em 1969, uma ação conjunta da ALN (Ação Libertadora Nacional) e do MR8 (Movimento Revolucionário 8 de outubro) exigiu a libertação de 15 presos políticos, entre eles Gregório Bezerra, Vladimir Palmeira, José Dirceu e o próprio Ricardo Zarattini, em troca da libertação do embaixador norte-americano Charles Burke Elbrick, sequestrado por essas organizações.
O governo militar decretou o banimento indefinido para os 15 presos políticos libertos naquela ação. Zarattini deixou a prisão para o exílio no México. Lá foi redator do jornal Excelsior, e depois foi para Cuba, onde viveu por quase dois anos.
Depois de viajar pela Coréia do Norte, China, URSS, Itália e França, ficou no Chile em 1971 na condição de exilado político. Quando Salvador Allende foi deposto pelo golpe, em 1973, Zarattini foi para a Argentina. Em 1974 retornou ao Brasil e permaneceu na clandestinidade.
Em maio de 1978, Zarattini foi preso, levado para a Rua Tutóia, sede do Doi-Codi, sofrendo diversas sessões de tortura. Após semanas, foi transferido para o presídio militar do Barro Branco onde ficou até 1979, quando a Anistia foi aprovada. Zarattini foi o primeiro brasileiro a ter o banimento revogado.
Filiou-se ao Partido Democrático Brasileiro (PDT), de Leonel Brizola.
No início dos anos 1980, Zarattini participou da Conferência Nacional das Classes Trabalhadoras (CONCLAT) e do apoio às greves dos metalúrgicos do ABC paulista.
Em 1982, Zarattini foi candidato a deputado federal pelo Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB), na condição de militante e dirigente do MR-8 (Movimento Revolucionário 8 de outubro), mas não foi eleito.
Trabalhou como assessor parlamentar na Assembleia Nacional Constituinte entre 1987 e 1988.
Em 1992, coordenou a primeira campanha do filho Carlos Zarattini, candidato a vereador da cidade de São Paulo, que obteve uma suplência.
Em 1993, a convite de Leonel Brizola, foi trabalhar na Assessoria Técnica da Liderança do PDT na Câmara dos Deputados. Participou das campanhas de Lula nos anos de 1994 e 1998. Foi assessor da liderança do PDT, embora filiado ao PT, até 2002.
Em 2002, Zarattini candidatou-se a deputado federal em São Paulo pelo PT, obtendo uma suplência. Trabalhou na Casa Civil por 13 meses, de 2003 a 2004, como assessor especial da Secretaria de Relações Parlamentares da Casa Civil, com a missão de acompanhar no Congresso Nacional a tramitação das Medidas Provisórias editadas pelo presidente Lula.
Em janeiro de 2004, com a posse de Aldo Rebelo como ministro da Coordenação Política e Relações Institucionais do governo Lula, Zarattini ocupa a vaga de deputado federal.
Zarattini exerceu o mandato de deputado federal até junho do mesmo ano, quando Zé Dirceu deixa a Casa Civil para retornar a Câmara dos Deputados.
Em abril de 2005 foi lançada a biografia de Ricardo Zarattini, “Zarattini – a paixão revolucionária”, escrito por José Luiz Del Roio, com prefácio de Franklin Martins, ministro da Comunicação Social do governo Lula.
Em 2007 recebeu da Câmara Municipal de São Paulo o título de Cidadão Paulistano.
Zara teve um casal de filhos, a fotógrafa Monica Zarattini e o engenheiro Carlos Zarattini, que atualmente é deputado federal por São Paulo pelo PT.”
Como o que encerro o registro de hoje, dizendo:
LAMARCA PRESENTE, HOJE E SEMPRE!
VAMO QUE VAMO!!!

Percurso de 16 de outubro de 2017, primeiro dia da CORRIDA POR LAMARCA

13,85 quilômetros percorridos em 2h20min42
Percurso acumulado no projeto 60M60A
2.228,55 quilômetros percorridos em  395h19min57





9.10.17

Confira avaliação do Core Rush, da nova linha de calçados de corrida da New Balance

Se bem me lembro, esta é a primeira vez que faço uma avaliação de calçado de corrida da New Balance. Lutei, ao longo dos testes e na produção deste texto, para ser o mais isento possível. Mas devo dizer que que tenho uma certa simpatia atávica pela empresa.
Explico: foi dessa marca o primeiro tênis de corrida “de verdade” que eu comprei, lá no final do século passado. Estava nos Estados Unidos a trabalho e, numa folga das visitas, entrevistas e conferências, me embrenhei numa enorme casa de artigos esportivos num desses gigantescos conjuntos de lojas de descontos.
Na época (e ainda hoje), era ávido leitor dos guias de tênis publicados nas revistas estrangeiras, buscava promoções e ofertas, analisava calçados pelo tipo, gênero, cor, flexibilidade, resistência etc. e tal e coisa e tal e tal e coisa. E fui testar o tal modelo da New Balance recomendado “para mim” de acordo com um guia especializado.
Testei nada. Foi calçar o bicho e me sentir nas nuvens. Até então usuário de calçados “originais”, “genuínos”, “iguaizinhos aos de fábrica”, nunca tinha experimentado tal conforto. Vem daí minha simpatia pelos modelos da marca; pretendo não deixar que esse sentimento perturbe a acuidade desta avaliação.
Durante alguns anos, fui fiel à marca, que, por sua vez, nem sempre foi fiel aos corredores –na primeira década deste milênio, investiu mais no consumidor dito “casual”, se oferecendo como tênis “de balada”.
Chegou a fazer uma campanha de merchandising calçando os personagens de uma versão modernizada da ópera “La Bohème” apresentada no Municipal aqui de São Paulo. Imagine Rodolfo cantando “Que mãozinha gelada”, e Mimi respondendo com “Me chamo Mimi e gosto de poesia”, ambos empoleirados em flamantes calçados esportivos –modelos alto esporte, como se diz nas colunas sociais (acho eu).
Nas lojas, porém, era difícil encontrar os modelos de corrida. Por essas e por outras, acabei mudando de marca –costuma usar três tênis em rodízio, nem todos da mesma fabricante. Nunca mais experimentei tênis da New Balance.


Até agora, quando a empresa parece fazer um novo esforço para conquistar o mercado brasileiro  --ou, pelo menos, atrair para si fatia significativa dos compradores.
Suas armas nessa campanha de conquista são os novos modelos da linha FuelCore, apresentados como calçados de corrida indicados para quem busca mais desempenho, mais velocidade (que fique claro, porém, que é o corredor que corre...).
O modelo Cell, por exemplo, “tem sola de EVA que proporciona maior propulsão a cada passada”. O Sonic traz um “solado moldado que proporciona maior flexibilidade”. E o Rush é equipado com “contraforte modado que dá mais segurança ao calcanhar”. Tudo no dizer do material de divulgação distribuído pela assessoria de imprensa da empresa.
Recebi para testes o modelo Rush, o primeiro a estar disponível nas lojas brasileiras.
A sensação, ao calçar o tênis pela primeira vez, foi semelhante àquela experimentada no século passado. Muito conforto, uma sola de bom amortecimento sem ser molenga.
Achei que dava para sair direto para testes de corrida, sem passar por amaciamento em caminhadas.
Deu certo. No primeiro dia de avaliação, meti quinze quilômetros sem problemas. Desde então, já fiz mais de cento e cinquenta quilômetros com o calçado, que se comportou muito bem ao longo de todo o período.
Seu solado denso dá segurança --quem prefere mais flexibilidade talvez não goste. O principal, porém, é o bem estar do pé.
Trata-se de modelo relativamente leve, considerando a espessura da sola. O peso informado é de 274 gramas, quase cem gramas a menos do que o modelo que costumo usar. O drop (diferença de espessura da sola no calcanhar e na parte mais fina) é de 6 milímetros; no meu calçado costumeiro, é de dez milímetros. Não notei diferença.

Sobre o conforto, porém, é preciso deixar um aviso. Testei um calçado número 44 (tamanho 12 norte-americano) que me serviu perfeitamente, com conforto na largura e na ponta do pé, usado com ou sem palmilha.
Acontece que meu número é 11,5 (43 no Brasil; às vezes, até 42, se o calçado for largo e alto). Isso pode significar, portanto, que as proporções da forma do Rush são mais modestas do que as do padrão. Portanto, se o seu número de sempre não servir, experimente um maior...
Volto à questão da flexibilidade: nos dias de hoje, há muita propaganda baseada nesse elemento, e uma parcela do público pode ter se acostumado a tênis em que é possível fazer a ponta dobrar ao ponto de encostar no calcanhar.
Isso não acontece com o Rush. É um tênis firme, de boa sustentação e bom amortecimento. Ainda que mais leve que modelos tradicionais da linha de calçados de amortecimento, é confortável para corredores mais pesados (como eu).
Quanto ao design, é absolutamente tradicional. As cores são clássicas, basicamente tom sobre meio tom, ainda que eu tenha visto modelos de azul brilhante com verde... O que eu testei é supersóbrio, preto com cinza, solado branco. Muito elegante.
Como todos os calçados da New Balance, traz na lateral um “N” magricelo e expandido, de linhas retas e frias, que achei horrível quando foi lançado e continuo achando feio demais. Ainda mais se for comparado com o “N” gordinho e saudável usado no século passado –tão bom que é ainda visto em coleções especiais da marca.
O Rush é o “mais barato” dessa linha agora trazida ao Brasil pela New Balance –se é de dá para chamar de barato um calçado com preço de lista de R$ 499,90.
Esse valor está na mesma faixa de concorrentes da Mizuno ou da Asics. Por conta de seu maior tempo no mercado, porém, é possível encontrar modelos anteriores do Cumulus (Asics) e ProRunner (Mizuno) de coleções passadas por preços bem mais baixos.   
De qualquer forma, trata-se de um calçado que, por sua qualidade e preço, tem boas condições de disputar espaço no mercado com modelos mais conhecidos dos corredores brasileiros.




3.10.17

Duzentos dias de treino, cinquenta maratonas já completadas e prossegue o desafio do neossexagenário

Três de outubro de 2017. Realizei hoje meu ducentésimo dia de treino neste ano em que completei sessenta anos e me tornei oficialmente velho. Não, não corro todos os dias: este ano já viu passarem 276 manhãs; em muitas delas, fiquei dormindo; em outras tantas, fingi que não era comigo. Na grande maioria, porém, na escuridão ou em dia claro, sob frio, vento ou alto calor, atirei no chão a preguiça, derrotei por algum tempo a modorra, superei aos talagaços a angústia e meti o pé no asfalto.
Meu objetivo era... meu objetivo era ter um bom motivo para me levantar a cada manhã e fazer alguma coisa. Chegar aos sessenta anos é muito bom, ainda mais aposentado, sem ter de responder a chefe ou patrão –o problema é que a aposentadoria é uma mirreca, as entradas minguam, não há trabalho nem emprego para os sexagenários (aliás, hoje em dia tem muito cinquentão e quarentão desempregado, também sem muitas perspectivas...), a gente fica o dia inteiro sem ter o que fazer e começa a pensar besteira (para mim, isso é superfácil).
Então inventei essa: percorrer, ao longo do ano de meus sessenta anos, distância equivalente à de sessenta maratonas. Em números absolutos, isso dá 2.532 quilômetros, o que será um recorde na minha vida corrida, iniciada tardiamente, aos 41 anos. Mesmo nos primeiros tempos de grande entusiasmo, o máximo que acumulei ao longo de um ano foi algo em torno dos 2.400 quilômetros. Agora, quero mais.
Estou conseguindo. Ontem, caminhando em volta do estádio do Pacaembu –conquista do povo paulistano, que o atual gestor quer entregar para empresas privadas--, superei a marca das cinquenta maratonas. Claro que não fiz neste ano cinquenta maratonas –na minha vida toda, completei 36 provas desse tipo e mais longas, de até cem quilômetros. O que aconteceu é que a distância percorrida nos meus treinos deste ano totaliza mais do que a soma dos percursos de cinquenta maratonas.
Então, neste três de outubro, no dia de meu treino número duzentos, começo o sexto final de minha jornada: falta apenas o equivalente a dez maratonas. É bastante, mas menos do que quando dei a largada. E fui bem, sem dores. Enfrentando uma chuvinha fria e fina, usando a energia da corrida para manter o corpo aquecido e disposto, completei mais de catorze quilômetros dando voltas na pista de caminhada/bicicleta da avenida Sumaré, um dos bons legados da administração Haddad.
Estou falando de números e mais números, mas meu objetivo no projeto das sessenta maratonas aos sessenta anos não se restringe à contabilidade de quilômetros. Ao longo das corridas e caminhadas, busco informações e procuro refletir sobre a situação de saúde, qualidade de vida e inserção social dos mais velhos, dos idosos, do povo da Terceira Idade.
Precisamos conversar sobre os velhos.
Somos uma população crescente. Nunca o Brasil e o mundo tiveram tantos homens e mulheres maiores de sessenta anos. E nem é preciso analisar um período muito longo para constatar isso. Basta olhar, por exemplo, as pirâmides etárias de 1980 e deste ano (projeção), produzidas pelo IBGE; os gráficos desenham bem a progressão da presença dos mais velhos no conjunto da população.
A longevidade é uma conquista da humanidade, resultado de melhores condições de vida e de saneamento, dos desenvolvimentos científicos, do crescimento econômico; em suma, a longevidade é fruto de nosso trabalho.
Os velhos e o envelhecimento são, portanto, algo a ser saudado por todos nós. São evidência de que alguma coisa de bom temos produzido. O que acontece, porém, é o contrário.
Os velhos são vistos como um peso na sociedade –ainda que grande parte dos maiores de sessenta anos continue trabalhando e seja arrimo de família. São deixados de lado com suas mazelas, reclamações, angústias, ainda que muitos de nós sejamos fisicamente capazes e intelectualmente produtivos (mesmo que não fôssemos, não deveríamos ser desprezados e desrespeitados).
Tivemos no Brasil, ao longo dos governos petistas, importantes conquistas para a terceira idade. Muitas estão sendo destruídas ou sabotadas pelo governo golpista que usurpou o poder no país. Isso é inaceitável.
Hoje os maiores de sessenta anos somos mais de 11% da população brasileira; em números absolutos, somamos cerca de 24 milhões de homens e mulheres. Muitos vivendo em situação precária ou de abandono.
Levantamento feito pela Organização das Nações Unidas mostra que, no Brasil, 36,5% das pessoas com mais de 50 anos apresentam algum tipo de incapacidade funcional ou dificuldade para realizar tarefas simples, como atravessar a rua ou subir escadas.
Nas faixas etárias mais altas, a situação fica ainda pior, de acordo com estudo feito em São Paulo pelas Fundação Seade: 46% dos entrevistados com idades entre 65 e 69 anos necessitavam de auxílio para realizar atividades simples do dia a dia, como ir da cama para o sofá, vestir-se, comer ou cuidar da própria higiene.
Não por acaso, cresce o número de suicídios entre os mais velhos. A turma de maiores de sessenta anos é a faixa etária que mais se mata no Brasil –oito casos por cem mil pessoas foram registrados em 2012. A causa mais importante, segundo o estudo “Suicídio no Brasil, de 200 a 2012”, de Diana Machado e Darci dos Santos, é a inabilidade de lidar com o processo de envelhecimento e suas implicações, como problemas de saúde e pressões emocionais”.   
Claro que isso é muito genérico, falho e insuficiente, jogando toda a responsabilidade para o indivíduo, deixando de ver as responsabilidades da sociedade. São muitas e muito significativas, conforme ressalta o economista Gilberto Braga: “As atuais políticas públicas de saúde voltadas para idosos não são suficientes para aumentar a qualidade de vida dessa parcela da população”.
Para ele, o mais importante seria adotar políticas públicas e um modelo de práticas de saúde que ajudem a evitar as doenças que vêm com a idade. Em todos os manuais e cartilhas sobre o envelhecimento, a prática de atividade física aparece com destaque; é uma necessidade para que a gente não apenas siga com saúde mas também com vontade de viver.
Caminhar e correr é muito bom. Não precisa muito –ainda que eu goste muito: trinta minutos por dia, cinco dias por semana, já são suficientes para dar uma força para o funcionamento do coração e do sistema respiratório. Médicos também recomendam beber bastante água para tentar manter os rins em boas condições de operação.
Estou tentando fazer isso.
Correndo e caminhando, completei  2.127 quilômetros e 960 metros neste três de outubro. É uma data muito especial para o Brasil, e não por que eu tenha completado duzentos dias de treino, minha egolatria ainda não chegou a tanto.
Três de outubro é especial porque ...
...em 1930, foi a data em que começou a revolução comandada por Getúlio Vargas; a ação que detonou o movimento foi a tomada do quartel-general do Terceiro Exército, em Porto Alegre.
...em 1950, foi a data das eleições presidenciais que deram um novo mandato para o mesmo Getúlio Vargas, que iniciaria então o governo que consolidou o Brasil como país soberano e independente.
Montagem com imagens de Getúlio Vargas e Lula com a mão empetrolada, marcando a luta do Brasil pela soberania energética
...em 1953, foi a data de fundação da Petrobrás, na esteira da campanha nacionalista “O Petróleo é Nosso”, que reivindicava para o Brasil e os brasileiros o direito de decidir sobre a pesquisa e o uso de suas reservas naturais, condição essencial para a independência econômica e para a construção de um projeto nacional.
...em 1964, foi a data do primeiro assassinato cometido pelo Esquadrão da Morte, grupo clandestino paramilitar nascido nos porões da ditadura, formado por policiais e seus apaniguados, agindo à margem da lei (como era a praxe durante o golpe militar); “Cara de Cavalo” foi morto com cinquenta tiros.
...em 1968, ainda durante a ditadura militar, foi a data do assassinato do secundarista José Carlos Guimarães, 20, durante a “Batalha da Maria Antônia”, conflito entre estudantes da USP e do Mackenzie (apoiadores da ditadura); o acusado do crime, um membro do Comando de Caça aos Comunistas e informante da polícia, nunca foi punido.
...em 2010, na democracia conquistada com o sangue de José Carlos e tantos outros, foi a data em que os brasileiros deram a Dilma Rousseff a vitória no primeiro turno das eleições presidenciais; no segundo turno, Dilma foi eleita a primeira presidenta do Brasil. Reeleita quatro anos depois, foi derrubada em 2016 por um golpe parlamentar.


...neste 2017, é mais um dia de luta contra o golpe e contra os golpistas, que entregam as riquezas nacionais, solapam direitos dos trabalhadores e, entre tantos outros crimes, atentam contra os velhos e as velhas do Brasil. No Rio de Janeiro, com a presença do presidente Lula, é realizada uma Caminhada pela Soberania Nacional até a sede da Petrobras –que, como vimos, foi criada exatamente num dia três de outubro.
Ao que digo: VAMO QUE VAMO!!!

Percurso do dia três de outubro de 2017


14,13 quilômetros percorridos em 2h04min46

Acumulado no projeto 60M60A    

2.127,96 quilômetros percorridos em 377h59min

24.9.17

Na maratona de Berlim, a montanha pariu um rato

A montanha fazia tanto barulho que todos no vilarejo suspeitaram que algo terrível
estava por acontecer. Nas rodas de conversas, o falatório corria solto.
-Ai de nós! A montanha vai explodir.
-É um aviso sobre o fim do mundo.
-Deus nos livre de ser um terremoto!
Adivinhando uma tragédia, muitos moradores partiram para bem longe. Outros se
esconderam em cavernas escuras. Até o jornal local deixou de circular, pois os parafusos das
máquinas impressoras emperraram de medo. O povo do vilarejo mal respirava de tanta
expectativa.
Então a montanha tremeu e rachou ao meio. O barulho foi ouvido a centenas de
quilômetros de distância.
E, para surpresa de todo, de uma imensa nuvem de poeira saiu...um pequenino rato.
Foi a piada do ano. (“O Parto da Montanha”, Jean de La Fontaine)

Pois foi o que aconteceu na manhã de hoje na maratona de Berlim: nada. A montanha pariu um rato.
Ao longo dos últimos dias, a blogosfera esportiva corredística internacional e nacional reverberou às pampas material produzido pelas assessorias da maratona de Berlim e de seus patrocinadores. Estava em gestação não apenas novo recorde mundial, mas a perspectiva de esmigalhar, transformar a atual marca em pó de nitrato de pelo de rato.
O noticiário e o entusiasmo tinham bases em fatos reais, concretos. Berlim tem sido o palco de praticamente todos os recordes recentes na maratona, desde que, em 1998, o brasileiro Ronaldo da Costa detonou marca que durava dez anos e ainda comemorou dando uma estrela no asfalto germânico.
Além disso, nesse percurso plano em que a maratona é geralmente corrida sob clima muito adequado, duelariam hoje algumas das mais rápidas figuras da história da maratona. Pela primeira vez, duelariam (ou trielariam, se é que me entendem) o campeão olímpico Eliud Kipchoge, o ex-recordista mundial da maratona Wilson Kipsang, ambos quenianos, e o etíope Kenenisa Bekele, recordista mundial dos 10.000 m e dos 5.000 m.
Berlim amanheceu com chuva, porém, e o asfalto molhado, escorregadio, não ajudou. Também não ajudou o entusiasmo exagerado dos marcadores de ritmo nos primeiros quilômetros. Apesar das condições adversas do piso, cruzaram a marca do km 5 em ritmo que, se mantido, permitiria fechar a maratona em duas horas e dois minutos!!!
A partir daí, foi uma bagunça só, com altos e baixos exagerados, como mostra gráfico produzido pelo pessoal do site The Science of Sport apontando as marcas a cada bloco de cinco quilômetros.


Só na metade da maratona eles com seguiram voltar ao ritmo de recorde mundial, mas foi por pouco tempo e provocou vítimas: Bekele ficou para trás no km 25 e Kipsang parou no km 30, deixando Kipchoge a cavaleiro para seguir para a vitória.

O desencanto do ex-recordista mundial Wilson Kipsang
Aí entrou um novato na brincadeira. O estreante Guye Adola, etíope de 26 anos, especialista em meia maratona, se apresentou para enfrentar o campeão olímpico. Chegou a ficar na frente por algumas centenas de metros, por volta do km 38, mas sua alegria durou pouco.
Mesmo assim, o duelo fez a alegria do público, àquela altura já desanimado quanto a uma eventual quebra de recorde.
À direita, o estreante Guye Adola enquanto ainda tinha esperanças de se ombrear com o campeão olímpico Eliud Kipchoge (de branco)
Para contrabalançar, as mulheres corriam muito bem, em ritmo de quebra de recorde do percurso (2h19min12), o que já é melhor do que nada.
Bom, no km 40 Kipchoge colocou ordem na casa e seguiu para vencer em 2h03min32 e colocar no bolso 70 mil euros (40 mil pela vitória e 30 mil de bônus por tempo, ainda que não tenha quebrado nenhuma marca).
A disputa feminina também acabou em pizza, sem nem um recordezinho de percurso para festeja. A queniana Gladys Cherono, campeã em 2015 com 2h19min25, passou a marca do km 35 na frente e não largou mais a liderança, fechando em 2h20min23.
Eu acompanhei tudinho pelo site oficial e por uma transmissão ao vivo pela internet. Depois, fui correr para desabafar e abraçar São Paulo.
Os caras fizeram uma maratona em pouco mais de duas horas, eu fiz uma meia maratona em pouco menos de três horas...
Corri por tudo: Doutor Arnaldo, Minhocão, Centro Velho, Praça da Sé, Liberdade, Paulista...


Depois de ter me divertido com as figuras curiosas que ficam na saída da boate Love Story, segui pela praça da República e encontrei centenas, talvez milhares de ciclistas que participavam de um passeio pela cidade. Saquei do celular para filmar a história, mas não transmiti ao vivo.
Tudo bem. Uns tantos quilômetros depois, na praça da Sé, voltei a me encontrar com eles e daí fiz uma tomada melhorzinha. Olha só:


Ao longo do percurso, recebi vários cumprimentos, menos por minha pessoa e mais pela camiseta que vestia, estampada com os dizeres: “NENHUM DIREITO A MENOS”.
Na subida da Brigadeiro, por exemplo, uma jovem senhora gritou: “Volta, Lula!”. Na Paulista, uma senhora já não tão jovem apontou a camiseta e repetiu a frase: “Nenhum direito a menos, é isso aí!”.
Nesse clima mais politizado, encontrei na Paulista um grupo fazia em frente ao Masp uma manifestação pela independência da Catalunha. Tive de parar e conversar com eles, é claro.


A esta altura, já tinha feito mais de 18 quilômetros. Era só seguir em frente. Foi o que fiz, chegando em casa com mais 21 quilômetros computados neste ano de meu sexagenário, em que pretendo totalizar distância equivalente à de sessenta maratonas: 2.532 quilômetros. Ainda falta muito, mas menos do que quando comecei.

VAMO QUE VAMO!!!  

Percurso de hoje, 24 de setembro de 2017
21,18 quilômetros percorridos em 2h52min20
Percurso acumulado no projeto 60M60A
2.065, 88 quilômetros percorridos em 365h33min25 

22.9.17

Caminhar pelas beiradas é um bom jeito de conhecer São Paulo

Hoje foi dia de encontro. Parti de madrugada para atravessar a cidade, cruzar linhas de trens e grandes avenidas, atravessar pontes, subir escadas, enfrentar pirambeiras, me esgueirar pelo trânsito infernal, me equilibrar nas calçadas traiçoeiras, tudo para me encontrar com uma turma que está caminhando num percurso que eles chamam de “pelas bordas de São Paulo”
Trata-se de um evento promovido pela Bienal de Arquitetura que está rolando na cidade (saiba mais CLICANDO AQUI). A ideia é do urbanista alemão Martin Köhler, que há oito anos vem fazendo caminhadas transversais por grandes cidades –começou em Seul, na Coréia.
Aqui em São Paulo, o rolê foi diferente: em vez de cruzar metrópole de uma ponta a outra, inventaram um trajeto por parte do contorno da cidade.
"O percurso pela geografia urbana paulistana e o registro de sua trajetória tem como objetivo desconstruir os significados atribuídos à dicotomia centro-periferia, insuficientes para descrever o espaço e sua experiência na metrópole. A caminhada oferece uma experiência de costura e articulação de agentes e práticas diversos no território. Enquanto prática política, a caminhada desvela a multiplicidade e potência da produção sociocultural ligadas ao território percorrido", teoriza Köhler, segundo material de divulgação distribuído pelo pessoal da Bienal.
A caminhada iniciou no dia 16 passado e vai até amanhã. As jornadas variam a cada dia: houve trechos de apenas sete quilômetros e outros de cerca de vinte quilômetros, devendo totalizar 120 quilômetros de caminhada.
Para me encontrar com a turma, hoje eu corri 17 quilômetros até o Jardim Damasceno, de onde sairia a penúltima perna do percurso. Com isso, sigo acrescentando quilômetros ao meu trajeto particular, que pretende totalizar neste ano distância equivalente à de sessenta maratonas.
Agora já faltam menos de quinhentos quilômetros, o que me deixa muito entusiasmado, pois crescem as chances de que eu venha efetivamente a cumprir, a vencer o desafio que coloquei para mim mesmo neste ano em que completo sessenta anos.
Os participantes da caminhada pelas bordas da cidade também estavam bastante entusiasmados com as próprias realizações, como você pode ver neste vídeo que produzi ao me encontrar com eles.



VAMO QUE VAMO!!!!

Percurso de hoje, 22 de setembro de 2017
17,03 quilômetros percorridos em 2h03min49


Acumulado no projeto 60M60A
2.036,66 quilômetros percorridos em 361h24min42


20.9.17

Dois mil quilômetros já se foram: Vamo que vamo!

Hoje passei a marca dos dois mil quilômetros percorridos ao longo deste ano em que completei sessenta anos. Meu objetivo é chegar  aos –talvez passar dos—2.532 quilômetros, que é a distância equivalente à soma de sessenta maratonas. Ao longo do ano, venho discutindo, aqui no blog, questões referentes à saúde, à qualidade de vida e à inserção social dos mais velhos.
Velhos, pelos regulamentos brasileiros e pela classificação da Organização Mundial da Saúde, são aqueles que passam dos sessenta anos (nos países desenvolvidos, a nota de corte é de sessenta e cinco anos). É um bom momento para refletir sobre o que fizemos, o que ainda queremos fazer (ou podemos), para onde vamos, afinal.
A maioria de nós, velhos, não tem condições nem chances de pensar sobre isso, não tem querer nem poder. Por falta de condições financeiras, homens e mulheres de mais de sessenta (e até antes disso) são relegados ao sofá, ao quarto dos fundos, ao abrigo –muitas vezes, ao desabrigo.
Isso, apesar de, em grande parte das famílias brasileiras e, mesmo, em bom número de cidades do país, os velhos e os recursos que recebem como aposentadoria são o sustentáculo econômico do grupo. Números: em quase um quarto dos lares brasileiros o idoso aposentado é o arrimo da família.
Ainda que a população brasileira seja jovem, a participação dos velhos no conjunto aumentou muito, mais do que o próprio crescimento populacional. Em 1960, os brasileiros éramos setenta milhões; em cinquenta anos, esse número quase triplicou, passando a 190 milhões em 2010.
A população dos velhos, por seu lado, MAIS DO QUE QUADRUPLICOU no mesmo período, passando de 3,3 milhões de maiores de sessenta anos em 1960 para 14,5 milhões ao final da primeira década deste nosso século. São consequências do desenvolvimento econômico –ainda que mal distribuído--, das melhores condições sanitárias no país, da evolução da medicina.
Nossa gente está vivendo mais e, pelo menos em um pequeno percentual, vivendo mais com saúde razoável. Somos capazes de continuar contribuindo para o desenvolvimento da sociedade, ainda que a sociedade não esteja adequadamente preparada para receber nossa contribuição.
São coisas assim que venho debatendo nestas páginas, ao longo dos quilômetros sem fim que percorro pelo mundo. Se conseguir chegar ao meu objetivo, terei batido meus recordes de volume anual. Quando comecei a correr, no século passado, ainda no vigor de meus quarenta e poucos anos, corria em média 2.400 quilômetros por ano.
Esse volume decaiu consideravelmente depois que eu passei da casa dos 50 anos, especialmente na segunda parte dessa faixa etária. Sofri mais lesões e levei mais tempo para me recuperar delas; o ritmo de recuperação dos treinos longos também aumentou.
Deixei de fazer umas quantas maratonas por ano. Para comparar: em 2007/2008, quando entrei nos 50 anos, fiz onze maratonas e provas mais longas, de até cem quilômetros, em apenas nove meses!!! Neste 2017, em que completei 60 anos, apenas pensei em fazer uma maratona, mas a ideia foi deixada de lado; afinal, tinha e tenho um objetivo maior, que é chegar a essa enorme quilometragem acumulada no ano.
A estratégia está dando certo. Não tive nenhuma lesão neste ano, nada de dores nas costas nem pernas machucadas com ites de todo o tipo; em contrapartida, levei um tombo violento, em que quebrei dois dedos em vários pontos além de quebrar também um osso do braço.
Tudo está mais ou menos consertado, tenho sequelas desses problemas todos, mas dá para correr. Tanto que, em maio/junho passado, fiz três meias maratonas em três fins de semana seguidos. Uma delas foi a Palio Del Drappo Verde, a corrida mais antiga do mundo ainda em realização –sua jornada inaugural foi em 1208 em Verona, Itália!!! (saiba mais sobre essa história CLICANDO AQUI).
Outro destaque destes primeiros dois mil quilômetros foi a CAMINHADA DA RESISTÊNCIA, que, junto com meus amigos do grupo Corredores Patriotas Contra o Golpe, organizei para marcar a luta dos democratas e patriotas contra o golpe militar de 1964. A caminhada foi um mergulho na história de São Paulo e do Brasil, uma demonstração de como o exercício pode ser alavanca para o jornalismo e para a educação, para a descoberta de amigos e de informações (saiba mais sobre aquela jornada CLICANDO AQUI).
Lembro agora apenas desses dois momentos, ainda que minha vontade fosse falar de cada uma das 197 corridas/caminhadas que fiz, em 189 dias de atividade (em alguns dias, fiz duas ou três sessões de treino). O processo foi todo muito bacana, especialmente por causa de sua participação acompanhando a jornada e pelos apoios amigos que venho recebendo, como o do pessoal da Força Dinâmica –meu treinador, Alexandre Blass, e o fisioterapeuta Marcelo Semiatzh—e do Instituto Vita.
Amigos contribuíram de várias formas. O ilustrador e corredor Jan Limpens-Doenraedt, por exemplo, gentilmente criou os cartuns que estão nesta página. Aproveitei para conversar com ele, que é austríaco, casado com uma brasileira, tem anos e dois filhos. Você pode conhecer outros trabalhos dele CLICANDO AQUI. Antes porém, confira a seguir a breve entrevista que fiz com ele:

Desde quando está no Brasil, por que resolveu viver no Brasil, o que acha de viver no Brasil?
Numa viagem visitei Brasil em 1995, conheci a minha esposa. Moramos seis anos em Viena e em 2001 nos mudamos para SP. Era onde a vida me levou, não teve motivo. Mudei a minha opinião sobre Brasil fortemente umas quatro vezes desde eu estou aqui. Então, o que concluir disso? O Brasil tem camadas muito diferentes, contrastantes e com o tempo a gente descobre uma por uma...

Como você descobriu que queria ser desenhista/ilustrador e que tinha condições para viver disso?
Quando vim [para o Brasil], ainda trabalhei na área da tecnologia, me dei razoavelmente bem com isso ainda na Áustria. Aqui foi mais difícil, mas era possível, mesmo assim: muito complicado para crescer. Comecei a ilustrar livros infanto-juvenis e quadrinhos, primeiro para um site austríaco, depois para a Folhateen, onde eu tinha ganhado um concurso. Lá na Áustria eu tinha feito parte de um grupo de teatro, filmes e clubes (para dançar) e, quando cheguei aqui, transformei parte disso em HQs. Faz uns 8 anos +/- vivo exclusivamente da ilustração.

Quando começou a correr? Por que começou a correr? O que a corrida tem de bom?
Comecei a correr faz cerca de 2 anos, depois de uma fisioterapia no Marcelo [Semiatzh, da Força Dinâmica; Jan é meu colega de treinamento. Estava ficando velho (me sentindo mais velho no mínimo, ganhando peso com dores nas costas, caindo nas escadas etc.). Correndo, mais do que recuperei a minha forma, os meus reflexos: é bom para ventilar a minha cabeça. É uma espécie de meditação para mim --eu acho, não sei, porque nunca meditei. Mas essa concentração continua em um movimento harmônico e fluido, na postura certa e na frequência certa, levam a uma certa paz e me deixam com melhor humor. Coisa necessária hoje em dia.

VAMO QUE VAMO!!!


Percurso do dia 20 de setembro de 2017
14,5 quilômetros percorridos em 2h08min34

Acumulado no projeto 60M60A

2.009,5 quilômetros percorridos em 356h45min47