26.4.17

Caminhada com Vitória, 8, alegre guerreira na luta contra o câncer

Meu avô Ary morreu de câncer quando eu tinha onze anos. Devo tê-lo visto saudável, em algum momento, mas essa não é a memória que ficou comigo.
Primeiro neto, parceiro da torcida apaixonada pelo Grêmio e de longas conversar sobre a vida e sobre as galinhas, perus e faisões que ele criava no pátio, me lembro do rosto de meu avô destruído pela doença, um buraco no lugar do nariz, as bochechas em chagas, as mandíbula massacradas, um dente teimoso em aparecer sobre o que restava dos lábios, a voz transformada em série de sons guturais, os únicos ainda possíveis depois da traqueostomia.
O primeiro filho de meu avô, Joaquim, meu pai, também teve câncer. Dois, ambos depois de ele completar setenta anos. Enfrentou, combateu, tratou o que podia ser tratado, operou o que devia ser operado e derrotou os dois. Hoje, com mais de 87 anos, meu pai ainda gosta de ler e declamar versos de “Os Lusíadas”, maior poema épico de todos os tempos, exaltação de combates e de amor, de desbravamentos e de bravuras.
O câncer é uma doença perversa. Assassino cruel, mata a vítima, destrói as economias da família, joga os parentes na depressão. Mas não é imbatível. Pode ser combatido e derrotado.
Essa foi a mensagem que li, vi e ouvi mais uma vez ontem, no sorriso, na alegria e nas palavras da pequena Vitória, uma garotinha de oito anos que passou mais da metade de sua vida enfrentando cirurgias e tratamentos complexos para combater um tipo raro de câncer. A doença atacou quando a menina tinha pouco mais de um ano –os prenúncios foram notados aos oito meses.
Encontrei Vitória na brinquedoteca do prédio do Graacc –Grupo de Apoio ao Adolescente e à Criança com Câncer.
A instituição é um dos baluartes no combate ao câncer em crianças: no ano passado, por exemplo, realizou mais de 30 mil consultas, 1.900 procedimentos cirúrgicos, mais de 50 transplantes de medula óssea e mais de 19 mil sessões de quimioterapia.

Roteiro do "abraço corrido" ao Graacc

O hospital recebe, em média, mais de 300 novos pacientes com câncer de alta complexidade por ano, com chance média de cura de 70%.
Um dos pacientes vitoriosos foi Vitória, que há três anos já não tem sinais da doença. Agora, ela visita o Graacc a cada seis meses para uma consulta de acompanhamento; a cada vez, ela é um raio de alegria no prédio de onze andares na Vila Mariana, pertinho do parque do Ibirapuera.
Vitória, que partiocipou de "abraço corrido" ao Graacc, posa em frente a foto sua durante o período de tratamento

Alegria que ela mantinha mesmo quando estava no auge do tratamento e tinha perdido toda a bela cabeleira. Talvez por seu jeitinho de guerreira do sorriso, foi escolhida na época como uma espécie de garota-propaganda do combate ao câncer.
Sua foto, em proporções colossais, é uma das que tomam conta de uma parede no bazar do Graacc, para que todo mundo que passa pela rua Pedro de Toledo possa ver a determinação no olhar das crianças, para que eles sirvam de exemplo e mostrem que, sim, é possível enfrentar e derrotar o câncer.
Foi a própria Vitória Cristine F. Almeida que chamou a minha atenção para a foto. Nós fazíamos um “abraço corrido” ao Graacc, caminhando juntos, ela, seu pai –Ailton— e eu pelo quarteirão onde ficam as instalações da instituição.


De vez em quando, Vitória não se continha, saía em corrida cheia de pequenos saltos. Eu seguia atrás e chegamos mesmo a disputar carreira em uma das faces do quarteirão.
Dava gosto ver sua disposição, assim como seu desembaraço –que ficou um pouco contido na hora em que liguei a câmera para fazer uma entrevista com pai e filha –abaixo, um trechinho de nossa conversa, que foi transmitida ao vivo pela internet (você pode assistir à integra da entrevista CLICANDO AQUI).




O fato de haver sucesso no combate ao mal não significa que ele esteja menor.
transplantes de medula óssea e mais de 19 mil sessões de quimioterapia. Assim como ocorre em países desenvolvidos, no Brasil o câncer já representa a primeira causa de morte por doença (8% do total) entre crianças e adolescentes de 1 a 19 anos.
As estimativas do Instituto Nacional do Câncer são de que devem surgir neste ano 12.600 novos casos de câncer em crianças –a estimativa de novas casos de câncer em adultos é de 600 mil por ano.
Por isso, nunca é demais falar da importância de entidades como o Graacc, que funciona “de portas abertas” –expressão usada no mundo médico para indicar que acolhe e trata quem precisar, tanto pacientes com convênio médico quanto doentes sem esse recurso.
A instituição atendeu no ano passado 3.449 pacientes –390 casos novos--, com um orçamento sustentado basicamente por doações de pessoas físicas. Há, claro, grandes empresas e pessoas de muitas posses que apoiam, mas o grosso dos recursos vem de milhares de pequenas doações e de campanhas de arrecadação de fundos.
Uma delas, já tradicional em São Paulo, é a Corrida e Caminhada do Graacc, que chega neste ano à décima sétima edição. Com o mote “Corrida dos Sonhos”, vai acontecer no dia 14 de maio –as inscrições estão abertas; saiba tudo sobre a prova CLICANDOAQUI.
Amigos e apoiadores do hospital participam da prova, que também recebe participações muito especiais de ex-pacientes, que vão ao asfalto comemorar sua vitória e servir de inspiração de alegria guerreira.
É o que faz, por exemplo, a pequena Beatriz Kubo, de sete anos, que  participou da corrida no ano passado e promete voltar à linha de largada neste ano.



Bia, que conheci ontem no finzinho de minha visita ao Graacc, foi diagnosticada com leucemia aos quatro anos. Durante dois anos ficou em tratamento no hospital, onde também cursou a escola móvel.
Os métodos disponíveis para o tratamento do câncer em criança possibilitam um alto índice de cura –cerca de 70%, como informa o Graacc. Para manter e ampliar essa taxa é fundamental haver diagnóstico precoce.
A instituição aponta sinais e sintomas da doença:
- dores de cabeça pela manhã e vômito;
- caroços no pescoço, nas axilas e na virilha, ínguas que não resolvem;
- dores nas pernas  que não passam e atrapalham as atividades das crianças;
- manchas arroxeadas na pele, como hematomas ou pintinhas vermelhas;
- aumento de tamanho de barriga;
- brilho branco em um ou nos dois olhos quando a criança sai em fotografias com flash.
O Graacc alerta: “Muitos desses sintomas são semelhantes aos de várias doenças infantis comuns, mas, se eles não desaparecerem em um prazo de sete a dez dias, volte ao médico e insista para obter um diagnóstico mais detalhado com exames laboratoriais ou radiológicos”.
Com o diagnóstico precoce, mesmo tipos de câncer raros e muito agressivos, como o que atingiu a minha amiguinha Vitória, podem ser combatidos com sucesso.
Ela, agora, volta ao Graacc apenas para consultas de rotina. Está estudando, gosta de brincar e praticar esportes. Esbelta, forte e flexível, pretende conseguir uma vaga na natação do centro olímpico. Tomara que consiga: quem sabe Vitória não vira uma atleta...

VAMO QUE VAMO!!!



Percurso de 26 de abril de 2017
5,65 km percorridos em 1h04min49

Acumulado no projeto 60M60A
948,85 km percorridos em 171h23min10






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