13.5.15

Socialista Morena, com quase 50 anos, inicia voo solo, sem rede de proteção

Para os padrões deste blog, ela é quase uma menina. Nem chegou aos cinquenta anos ainda. Mas sua trajetória acaba de incluir uma mudança importante, que ela chama de "continuidade" de sua carreira.

"Estou fundando um veículo de comunicação", diz Cynara Menezes, uma colega jornalista que muitos conhecem melhor pelo nome do blog que criou há três anos, Socialista Morena.

Lá ela fala de política e de outras coisas da vida, dos perrengues cotidianos, dos heróis anônimos nque fazem este mundo tão bacana, divertido e surpreendente.

Durante a maior parte desses já citados três anos, o blog se hospedou em grandes sites de notícias, filhos das empresas em que Cynara trabalhava. Pois há alguns meses, ela decidiu mudar, partiu para voo solo, sem rede de proteção.

Vai daí que resolvi conversar com ela para discutir exatamente essa questão da mudança de vida, que tantos de nós enfrentamos depois da aposentadoria, e que Cynara resolveu agarrar de uma vez. O papo foi eletrônico, digital, mas espero que seja interessante para você.

Primeiro, ela se apresenta; depois, entramos no assunto propriamente dito.



RODOLFO LUCENA - Quem é você? Onde e quando nasceu, um pouco sobre a evolução de sua carreira...
CYNARA MENEZES - Sou Cynara Moreira Menezes, nasci em 1967 em Ipiaú, uma pequena cidade da região cacaueira, na Bahia, mas nunca morei lá. Em compensação, morei na Bahia toda... Meu pai era bancário.

Estudei jornalismo na UFBA, em Salvador. Comecei a carreira fazendo estágio na imprensa sindical, estagiei como jornalista esportiva de TV e depois de formada fui repórter do Jornal da Bahia. De lá, fui para Brasília, onde atuei no Jornal de Brasília, IstoÉ/Senhor, Folha e Estadão.

Fui para a Espanha fazer um doutorado em literatura (não concluí) porque queria migrar da cobertura política para a área cultural e, na volta, fui trabalhar na Folha, desta vez em São Paulo.

Consegui minha meta de escrever sobre literatura, mas vi que na verdade gosto mesmo é de escrever sobre temas variados... Da Folha passei pelo Estadão, Veja, VIP e depois CartaCapital. Há sete anos estou de volta a Brasília.

Quando surgiu o blog Socialista Morena? Por que você escolheu o nome? Qual a mensagem que você quer mandar com esse nome? O blog teve hospedeiros diversos ao longo do tempo? Conte como foi.

Em 2012 criei o Socialista Morena pensando em ter um espaço mais autoral para mim, para minhas ideias –na Carta fazia reportagens, não opinava. O nome é inspirado nas ideias de Darcy Ribeiro e Leonel Brizola, quando voltaram do exílio, de criar um socialismo novo, brasileiro, “moreno”.

Na época, os dois foram massacrados pelos jornais, ridicularizados ao extremo. E, para mim, trata-se de uma utopia maravilhosa, que transmite a ideia central de que outro mundo é possível, de que o Brasil não precisa ser uma cópia dos Estados Unidos para “vencer”, que pode seguir um caminho próprio.

Quando começou, o blog era independente. Daí passou um ano e meio, mais ou menos, hospedado no site da CartaCapital. Há dois meses voltou a ficar “à deriva” dos grandes portais, totalmente independente.

O que você pretende com o blog agora? E com a sua vida?

Quero escrever, tenho muitas idéias de pauta. E ver no que vai dar.

Viver de blog não é fácil. Como você pretende tratar a questão financeira?

Já consegui cerca de 400 assinantes e tenho esperança de que posso alcançar os 2.000, o que seria suficiente para minha manutenção e gastos pessoais. 

Também tenho recebido muitos convites para palestras, algumas delas remuneradas, o que complementa a minha renda.

Penso também em organizar eventos de jornalismo de esquerda para estudantes de jornalismo, vamos ver.

O que vier acima disso será investido na contratação de gente. Preciso urgente de um estagiário!

Conte o que você faz fora de suas atividades profissionais. Será que de vez em quando dá uma corridinha? Praia? Natação? Tricô?

Eu ando de bicicleta, faço musculação e ioga. Adoro andar de bicicleta, agora tenho uma dobrável que é meu xodó.

Gosto muito de fazer atividades físicas e sigo à risca o conselho de Nietzsche de não acreditar em nenhum pensamento que não tenha surgido com o corpo em movimento, com os músculos participando da festa.

Você teve recentemente uma grande perda, a morte de seu ex-marido, pai de seu filho. Como isso impactou suas decisões profissionais?

Na verdade, eu havia decidido tudo pouco antes da morte dele. Foi bem difícil manter os planos, sabendo que meu filho passaria a só poder contar comigo (financeiramente, inclusive) em um momento de mudanças tão radicais em minha vida.

Mas a sorte já estava lançada e essa será mais uma aventura em nossa vida. Dará certo, assim espero.

Imagino que o blog tenha lhe trazido muita satisfação, mas também deve haver muito perrengue, gente xingando, ameaçando. Conte um pouco sobre as reações do público.


O Brasil está infestado de gente ignorante, e eu lamento muito que a mídia participe da disseminação dessa ignorância. É absolutamente provinciano atacarem pessoas apenas por se dizerem socialistas. 

É o que acontece comigo desde que criei o blog: em primeiro lugar, me atacam por me dizer socialista. Mas também é muito gratificante sentir o carinho dos leitores diretamente, saber que está chegando até eles uma mensagem positiva e, sobretudo, sentir que estou compartilhando conhecimento, premissa básica do jornalismo tal qual o vejo.

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