
Não
só sabe, mas já fez todas as piadas sobre o assunto, começando por aquela tal
que diz que os quarenta e dois são fáceis, o que mata mesmo são aqueles cento e
noventa e cinco metrinhos no final.
Se
você fizer parte da turma que também adora estudar um pouco de história do
esporte e acompanha o mundo das maratonas com alguma atenção, talvez saiba até
mesmo a razão e o porquê da existência desses metricos quebradinhos depois dos
tão elegantes e redondos quarenta e dois quilometrozões.
Se
não sabe, eu conto: essa distância foi estabelecida na maratona dos Jogos
Olímpicos de Londres em 1908. O trajeto da corrida foi aumentado para que a
família real britânica pudesse ver a largada das janelas do castelo onde vivia
e, depois, aplaudir a chegada bem defronte ao camarote real, no estádio
olímpico.
Alguns
anos mais tarde, as 26 milhas 365 jardas traduzidas em 42.195 metros foram
referendadas como distância oficial da maratona pela entidade internacional que
rege o atletismo.
Pois
isso é o que está escrito na regra; nas ruas, a coisa é diferente.
Aqui,
cada vez que a gente sai para um treino é uma maratona que enfrentamos. Talvez
não a épica, gloriosa, oficial e assustadora em sua monumental distância; mas a
das calçadas quebradas, do suor que entra no olho, do calor abrasador, da
preguiça maldita que precisa ser derrotada, da barriga que teima em crescer
apesar dos esforços em contrário.
Há
até a maratona da idade, a maratona da luta para enfim se ver livre do trabalho
enlouquecedor. Como você sabe, uma delas eu venci faz pouco tempo: depois de 40
anos de carteira assinada e mais de 35 anos de contribuição à previdência,
finalmente consegui minha aposentadoria.
Sou
um dos poucos –menos de 10% do conjunto—dos aposentados por tempo de
contribuição. A vantagem é que saímos quando ainda não estamos totalmente
acabados pelo tempo. Dá até para comemorar um aniversário ou mesmo vários...
Pois
foi o que fiz hoje. Saí para correr em homenagem aos 58 anos que completei por
volta das dez da manhã desde 14 de fevereiro.
Aproveitei
o dia para acordar tarde e fui para a rua quando o sol já estava alto. Não era
para correr muito; afinal, como talvez você saiba, estou retomando o
treinamento para maratona depois de quase dois anos sem conseguir me dedicar a
essa distância tão querida.
Apesar
de minhas mais de trinta provas de longa distância e dos quase quarenta mil
quilômetros percorridos em treinos, hoje começo como um debutante, que aos
poucos acumula volume corrido, metro sobre metro.
Na
minha planilha, por exemplo, estava escrito que minha “maratona” de hoje teria
um total de seis quilômetros. E nem todos corridos. Para tentar fugir de lesões
e, mesmo assim, ganhar quilometragem, meus treinos são quebrados entre
caminhada e corrida. Hoje seriam quatro blocos de 1.100 metros corridos e 400
metros caminhados.
Escrevia “seriam” porque pretendia festejar na corrida
meu aniversário. Pensei em chegar, por exemplo, aos catorze quilômetros, por
causa da data. Mas, considerando a hora tardia em que comecei o treino e a
canícula que já dominava o dia, parti para algo mais modesto.
Faria o treino comme Il faut, tal e qual o mestre mandou.
No final, porém, não terminaria (gostou dessa? Deve haver alguma figura de
linguagem que explique a contradição...); seguiria em frente por mais 580
metros, dez para cada ano de vida. Uma homenagem a mim mesmo, se é que isso é
permitido, e um agradecimento à corrida, ao asfalto, à terra, à grama, às
árvores, ao ar, às montanhas e a todas as gentes deste mundo velho sem
porteira.
Vai daí que os metricos quebrados de minha “maratona”
seriam 580 depois dos seis quilometrões oficiais (finalmente, eis aqui
explicado aquele título, que parecia não ter coisa com coisa).
O último bloco, subindo a Sumaré, foi bem sofrido. Saí
sem dinheiro, sem cinto de água, sem lenço nem documento, só eu e meu GPS. Já
na metade do treino tinha sentido a falta de água, fiquei me recriminando pelo
desleixo com o treino, supostamente pequeno. Isso que eu sempre digo: qualquer
distância é distância, precisa ser coberta e enfrentada, respeitada e
admirada...
A sorte é que havia um vendedor de água de coco instalado
numa sombra pouco antes de iniciar a parte mais íngreme, digamos assim
(“digamos” porque aquele trecho está longe de ser íngreme, é apenas uma
subidinha leve que fica mais acentuada). Eu não tinha dinheiro para comprar uma
água gelada, mas meti as caras e perguntei: “Consegue um pedaço de gelo aí,
chefia??!!”
O cara talvez não tenha gostado muito, mas, na maior
simpatia, catou um gelão lá do meio do carrinho e deu para este esfaimado de
líquido (pode isso, produção, ter fome de bebida??). Foi um Carnaval nas
internas deste corpo cinquentaoitão. Ainda tive a cara de pau de meditar sobre
a assepsia do gelo, mas o pensamento foi muito mais lerdo do que o ato...
Refrescado, completei os seis quilômetros, passei mais um
pouco, quando me dou conta já estou nos 490 metros. Olhei firme para o relógio,
caminhei uns passos para ter parâmetros das mudanças de metragem no visor,
combinei comigo mesmo que voltaria a olhar nos 550 metros, e segui viagem.
Pois viajei mesmo, me perdi em pensamentos, planos,
projetos, sonhos. É incrível o quanto a corrida permite ao vivente mergulhar em
si mesmo em breves instantes.
Cadê?, me perguntei, onde estou?, olhei para o relógio, e
o GPS foi inclemente: 6.61 (ele marca assim, com ponto em vez de vírgula).
Fiquei furioso! Quase me bati, arranquei os cabelos,
imaginei até se seria possível fazer algo para voltar a algum ponto antes dos
580 metros. Claro que o tempo não para, não volta, tal como a flecha disparada,
mas a gente pensa cada coisa na hora do aperto.
Pensei então que não havia o que fazer, só parar o
cronômetro, desligar o relógio, me maldizer por mais essa falha, essa
desatenção, esse descuido --pelo menos,
não foi tão grave quanto aquele em que deixei escorregar a faca para me atorar
o dedo indicador esquerdo...
Assuntei comigo mesmo se os 61 não seriam um sinal, uma
indicação, um prenúncio, um presságio. Mas, ai de mim!, sou incréu de
carteirinha, papel passado, carimbado e registrado em cartório; nem em bruxas
acredito, ainda que, dizem, que las hay las hay.
Assim meus 58 anos não foram homenageados por 580 metros
extras, quebraditos no final da corrida do dia, mas por 610 metros exatos,
calculados e registrados pela alta tecnologia gepessística mais modernosa que
meu dinheiro pôde comprar. E também quebrados depois de quilometrozões, tal
como os cento e noventa e cinco que servem para completar a maratona.
Fiquei chateado, peço desculpas a mim mesmo e ao leitor
pela falta de precisão, mas devo dizer que me perdi nos cuidados do GPS por
boas razões: aqueles tais sonhos de que falei antes.
Durante aqueles metros corridos entre a marca de 6,49 km
e 6,61 km, fiz toda uma história sobre o ano que vem, teci planos, imaginei
projetos. Até ganhei dinheiro!
É que em maio de 2016 completam-se dez anos do lançamento
de meu primeiro livro de corridas, o “MARATONANDO”.

Talvez fazer uma nova edição, mais bonita, cheia de
fotos, comemorativa, celebrativa e muito cara –uma obra de arte para ter na
estante. Quem sabe produzir uma versão revista, ampliada e melhorada, em
formato eletrônico, muito barata, para todo mundo poder comprar, ler,
discutir...
Fiquei pensado nas cartas que recebi de leitores do
“MARATONANDO”, em gente que disse ter começado a correr por causa do livro ou
ter escolhido essa ou aquela prova graças às coisas lá escritas. Fiquei muito
agradecido a todos os leitores, pensei que iria precisar de muito apoio,
patrocínio, que preciso ir atrás disso logo se quiser realmente produzir
algo...
Pensei, sonhei, viajei e passei dos 580 metros... Mas
ganhei mais um projeto na vida.
Se você souber de empresas, instituições ou pessoas que
possam querer apoiar esse sonho novo, não se avexe, não: avise, mande mensagem
eletrônica, zapzap , o que quiser. A gente está sempre correndo; qualquer hora
se encontra pelo asfalto do mundo.
Vamo que vamo!
gostei do blog! Muito legal
ReplyDeletedepois quero marcar um dia para conversar-mos. Quem sabe dêr uma mãozinha em meu projeto
se precisar de ajuda, grita eu!
até +
obgd, abs
DeleteParabéns pela data, pela trajetória.
ReplyDeleteSaúde e muitos quilômetros de vida pela frente!
Ps. Sou um dos inspirados pelo "Maratonando"
Abços
Marco
@marcoprimeiro
Grato pela leitura, Marco
DeleteParabéns Lucena, vida longa!
ReplyDeleteGrato, Harry!
DeleteIsso é uma grande verdade..... cada treino tem seus desafios e limites..... as vezes quebrados ou nao..... seja longo ou curto ... com hidratacao ou sem .... rsrarra.... isso ja aconteceu comigo ... so nao tinha o cara do gelo .... mas venci aquele desafio .... e aasim sao os corredores ....q lutam e vencem todos os dias....
ReplyDeleteBoa, parabéns, Marcelo!
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