18.2.16

Na rua Eli, Manoel Fiel Filho conheceu o amor de sua vida

Quando nasceu, a rua Eli era uma coisiquinha de nada. Tinha uma casa ali, outra acolá, no meio de um loteamento aberto no início dos anos 1920 pela Companhia Paulista de Terrenos. Só virou rua mesmo, de verdade, com registro na Prefeitura, anos mais tarde: foi entregue ao trânsito público em 1928, por ato assinado no dia 24 de agosto.

Eram apenas dois quarteirões, começando na rua Curuçá, já uma rua importante na Vila Maria –região norte de São Paulo—e terminando em uma leve subida, encostando na rua Araritaguaba, que hoje é larga e bastante movimentada.

Como gente, a rua Eli cresceu, espichou-se, ganhou corpo e comprimento. Novas glebas foram sendo incorporadas, expandia-se o número de quarteirões –os anos de 1940 e 1941 foram de grande expansão, com vários decretos municipais determinando ganhos de área. Apesar da importância crescente no bairro –notada pelo aumentando de quilometragem--, arquivistas, administradores e outros funcionários envolvidos nos registros se esqueceram ou nunca fizeram questão de nos contar a razão e o por que da denominação da artéria.

Vista da rua Eli a partir de seu ponto mais alto, na parte final -- Fotos Rodolfo Lucena


Para os que lá moravam, não fazia diferença, por certo. Chegava-se lá por precisão, necessidade, oportunidade. A rua abrigava gente trabalhadora, operários metalúrgicos, trabalhadores em tecelagens. Apesar do trabalho pesado, os ganhos eram poucos.

Quem podia construía uma peça nos fundos do quintal ou liberava um cômodo da casa para alugar para outros ainda mais precisados, que estavam a recém construindo a vida independente.

Era o caso, no final dos anos 1940, de Manoel Fiel Filho.

Nascido em família pobre, 14º de 17 filhos de um trabalhador do campo, desde pequeno enfrentou a enxada e a terra seca em Quebrangulo, no interior de Alagoas, a cerca de 130 quilômetros de Maceió.

A vida ficou mais difícil depois que a mãe morreu, e o pai teve de cuidar da casa, da roça e do sustento da filharada, que nem sempre tratava com a maior gentileza do mundo.

“Meu avô era um carrasco”, diz a filha caçula de Manoel, Márcia, que hoje vive em Bragança Paulista. Talvez fosse a dureza do cotidiano: “Eles eram sofridos”.

Uma hora não deu mais para Manoel. Com 17 anos, juntou o pouco que tinha, arregimentou os trocados que conseguira economizar, uma muda de roupa ou pouco mais e encarou horas a fio na traseira de um caminhão para chegar a São Paulo.

Foi buscar seus sonhos viajando num pau de arara –o mesmo apelido de instrumento de tortura usado nos porões do DOI-CODI, onde, mais de vinte anos mais tarde, Manoel iria ser assassinado.

Chegou à cidade grande sem saber fazer muita coisa: tinha a experiência das lides do campo e a vontade de trabalhar, ganhar o próprio sustento, conquistar uma vida melhor.

Conseguia um emprego, aprendia o ofício, avançava. Depois de alguns anos em São Paulo, trabalhou em padarias. Depois, foi ser cobrador de ônibus, uma linha que cruzava pela Vila Maria, onde Manoel já morava.

Primeiro, dividiu espaço em uma casa com seu amigo Antonio Pereira, eletricista de profissão. Mais tarde, foi viver nos fundos de uma casa na rua Eli. Lá conheceu o amor de sua vida.

E foi para lá que parti nesta manhã, no segundo dia de minha CORRIDA POR MANOEL. Queria mergulhar na história do cidadão e também aprender um pouco do que as ruas nos contam sobre a cidade em que vivemos.

Meu caminho cruzou a cidade do oeste ao nordeste. Cedinho, desci correndo a Consolação, passando pelo maior shopping a céu aberto de lustres no mundo –pelo menos, no dizer dos lojistas da região.

Logo ao ver o prédio onde funcionou, décadas atrás, o famoso bar Redondo, quebrei para a esquerda, enveredando pela avenida Ipiranga. Bem antes de chegar à festejada esquina com a São João, passei pela não menos famosa boate Love Story.

Inacreditável: às 7h24 de uma quinta-feira, a “casa de todas as casas”, onde o povo que trabalha na noite se reúne depois do expediente, estava bombando. 

O som do baticum chegava à calçada, onde alguns frequentadores ainda se cumprimentavam afetuosamente. Pensei até em fotografar o ambiente, mas o olhar pouco amistoso dos seguranças estilo armário me fez desistir da ideia...



No caminho para a avenida do Estado, passei ao largo do belo e octogenário prédio do Mercado Público, projetado pelo arquiteto  Francisco de Paula Ramos de Azevedo –que hoje é nome de praça ao lado do Theatro Municipal. Do lado de cá da rua, porém, as coisas não estava tão boas: talvez atingido por um carro, um poste mal se equilibrava, caído sobre a calçada.

Cada rua que cruzava contava um pouco da história da cidade. Primeiro, o entorno do mercadão, com suas ruas estreitas e fedidas, pequenos armazéns e distribuidores de mantimentos. A seguir, cortei ruas conhecidas pelo comércio que abrigam, com a São Caetano, a “Rua das Noivas”.

Havia que atravessar a avenida do Estado para adentrar na região norte da cidade. Passei peja João Teodoro, que sai do Bom Retiro e corta o Brás, repleto de lojas de roupas e confecções.

Artéria poderosa, movimentado centro comercial, a João Teodoro tem mais de 140 anos. Seu batismo oficial ocorreu em 1875. O padrinho foi o presidente da Câmara Municipal, Ernesto Mariano da Silva Ramos: "Proponho que se dê em sinal de reconhecimento aos relevantes melhoramentos feitos á esta Capital pelo atual presidente da Província, dê-se à rua que partindo do Campo da Luz se dirige a Ponte dos Lázaros o nome de Rua do Dr. João Theodoro". O homenageado era um jurista, catedrático de direito civil da Faculdade de Direito de São Paulo. Foi até presidente da então Província de São Paulo.

Gente fina, hein! Nada que mude a vida dos que hoje por ali vendem calças e calções, vestidos, camisetas, bonés, roupa de casar e roupa de correr.

Não deu nem para prestar muita atenção nas vitrines: havia que correr para achar a minha ponte para cruzar o rio Tietê. 



O caminho passava por homenagem a outro brasileiro ilustre: a travessia é nomeada em honra do ex-presidente Jânio Quadros (1917-1992), que fez da Vila Maria seu reduto eleitoral.

Jânio gostava do povo desse antigo bairro –na época do Império, dom Pedro Primeiro tinha uma chácara na área.

Em seus discursos na comunidade, Jânio sempre começava conclamando “Povo da Vila Maria”... Certa vez, talvez achando que a identificação não estivesse precisa o suficiente, Jânio Quadro emendou: “...da Vila Maria Alta, da Vila Maria Baixa e, por que não dizer, da Vila Maria do Meio...”

Essa, por certo, não existia. A Vila Maria baixa é a parte mais perto do rio Tietê, onde começa a rua Eli.

É um começo meio tristonho, porque fechado. A rua inicia no número 14, uma transportadora, mas não sai de nenhuma avenida, não nasce na Marginal. Seu início é um muro, dos fundos de uma unidade do Corpo de Bombeiros.


Quebrando a feiura do muro, um portão, saída de veículos, por onde carros e caminhões de bombeiros podem passar em uma emergência, caso a entrada principal esteja bloqueada.

Inteira, de cabo a rabo, a Eli tem pouco mais de um quilômetro e meio --a numeração termina no 1.599.

No meu GPS, deu 1.650 metros, mas eu atravessei a rua várias vezes para fazer fotos. Uma delas é de um muro pintado, o único da rua com desenho, uma bela invenção de espírito infantil (ou assim me pareceu).



Também há apenas um prédio de apartamentos. É uma construção imponente, com vários blocos e mais de seis andares, que se destaca no cenário de casinhas baixas e pequenos sobrados, oficinas de automóveis, escritórios e representações comerciais. Em breve, porém, será desafiado por um edifício mais novo, também de vários andares, que está nas etapas finais da construção.

Para o corredor, o piso da rua Eli manda informações diversas, nem sempre agradáveis. O começo é de asfalto, dá para correr um pouco; logo, porém, temos traiçoeiros paralelepípedos: há que cuidar para não escorregar em uma pedra mais lisa ou evitar uma topada em alguma outra mal instalada.

Mais à frente, assim que passa a marca do primeiro quilômetro, a rua volta a ser asfaltada; estamos então em uma área mais rica do território. Um prédio da Secretaria da Fazenda, em alvenaria bem pintada, parece sinalizar a mudança de perfil da rua Eli, que inicia naquele ponto a subida até a Araritaguaba.


Não foi nesse terreno que Manoel viveu. 

Pela descrição das filhas, a moradia dos parentes de dona Thereza era na área mais baixa da rua, perto de onde ela se inicia: “Era uns pântanos, tinha uns alagados. Acho que era a penúltima casa”, diz Márcia, que hoje tem 56 anos –era uma adolescente de 16 anos quando seu pai foi sequestrado, torturado e morto.

Onde quer que fosse, a casa de dona Alzira, tia de Thereza, não existe mais. Afinal, já se passaram mais de 60 anos desde que a então moçoila, frequentando a casa da tia, botou os olhos no inquilino.

Dona Thereza de Lourdes, 84, dá entrevista na casa de sua filha mais nova, Marcia, em Bragança Pualista - Foto Eleonora de Lucena


“Ele era um homem bonito”, diz ela hoje, como um sorriso que a deixa sonhadora como se fosse a menina de 20 anos de quando conheceu Manoel.

No maior respeito, os dois se conheceram, conversaram, namoraram, casaram. Não puderam ser felizes para sempre, como nos contos de fadas, mas foi bom enquanto durou.

“Tiraram minha felicidade”, diz a Thereza de hoje.



Dia 2 - Corrida Por Manoel
Percurso de 15 km feito em 1h51min31
Distância acumulada: 18,58 km



17.2.16

CORRIDA POR MANOEL começa por caminhada cívica até o DOI-CODI

Concentração na chegada em frente ao prédio do DOI-CODI --fotos Eleonora de Lucena

Uma caminhada cívica marcou na manhã desta quarta-feira o início do projeto CORRIDA POR MANOEL, homenagem jornalístico-esportiva a Manoel Fiel Filho, operário metalúrgico torturado e morto pela ditadura militar há 40 anos.

Dezenas de pessoas se concentraram na sede do Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo eMogi das Cruzes, na Liberdade (região central de São Paulo), onde foi realizado o ato de abertura da CORRIDA POR MANOEL.

Além de integrantes da diretoria do sindicato, como o secretário-geral, Jorge Carlos de Moraes –o Arakém--, e a tesoureira-geral, Elza de Fátima Costa, participaram dirigentes de entidades como Núcleo Memória, Centro de Memória Sindical, aCoordenação de Direito à Memória e à Verdade da Secretaria Municipal deDireitos Humanos e Cidadania, Memorial da Resistência. Aquiles Reis, do MPB4, também disse presente.

Concentração no Sindicato dos Metalúrgicos, estou entre Campos e Arakém; no centro, Elza 


José Francisco Campos, diretor e coordenador do Departamento de Memória Sindical, lembrou a mobilização da diretoria do sindicato em 1976, logo que correu pela “rádio-peão” a notícia da prisão e, depois, da morte de Fiel Filho.

“Nós fomos à casa dele, levar solidariedade a dona Thereza”, disse Campos. Era o fim da tarde de sábado, e um saco de lixo tinha sido atirado em frente à casa dela: era o macacão azul que Manoel vestia quando fora preso.

A informação oficial era de que Manoel havia se enforcado com as meias. “Ele foi preso de chinelos”, afirmou Joaquim dos Santos Andrade, o Joaquinzão, presidente do Sindicato dos Metalúrgicos quando Manoel foi assassinado.


Preparação da caminhada; ao fundo, de camiseta cinza e com cartaz referente à mobilização para marcar os 50 anos do golpe militar, Carla Borges, da Secretaria Municipal dos Direitos Humanos,  


Apesar da mordaça da ditadura, a entidade denunciou a farsa montada no DOI-CODI. Chegou a mandar telegrama ao general Ernesto Geisel, então presidente da República, exigindo investigações e a demissão do comandante do Segundo Exército, que era o responsável pelo DOI-CODI.

Nas bases do movimento sindical, a denúncia e as vozes de protesto também se ouviam. Em poucos dias, panfletos relatando o crime da ditadura e chamando o povo brasileiro à luta por democracia circulavam nos principais centros.

Últimos momentos antes do início da caminhada

O site Documentos Revelados conseguiu recuperar um desses panfletos, feito ainda em máquina de escrever e reproduzido artesanalmente. Foi encontrado pendurado em um gancho em uma passarela na Avenida Brasil (Rio de Janeiro).

Pelo resumo que faz dos fatos envolvendo a morte de Manoel e das lutas populares naquele ano de 1976, eu li o documento no ato do Sindicato dos Metalúrgicos. Eis o texto:

Um operário foi assassinado.
Seu nome: Manoel Fiel Filho.
Era metalúrgico. Trabalhava na fábrica Metal Arte em São Paulo.
No dia 16 de janeiro dois agentes da polícia política prenderam Manoel no trabalho e entregaram aos militares gorilas do II Exército.
Na noite do dia seguinte, um desses agentes jogou no quintal de sua casa um saco de lixo. Dentro do saco estavam as roupas e documentos de Manoel. Manoel estava morto.
O que fez esse companheiro para merecer a morte depois de ser torturado nas mãos dos gorilas assassinos do II Exército?
Que “crime” cometeu esse trabalhador?
Havia contra ele vagas acusações de “atividades subversivas”.
A ditadura o acusava do “crime” de combater o arrocho salarial.
Acusava-o do “crime” de lutar contra a carestia: contra o aumento do pão de leite e de todos os alimentos. Contra o aumento dos aluguéis, da condução, de tudo. Contra a roubalheira do BNH e por uma vida mais decente para os trabalhadores.
Acusava-o de “crime” de reivindicar as liberdades democráticas e lutar por uma sociedade sem exploradores, onde os trabalhadores que tudo produzem sejam também o poder.
Esses “crimes” a ditadura dos patrões não tolera e quando pode pune com a morte.
Mas esses gorilas selvagens que assassinam para defender os lucros dos patrões também são os reis da covardia. Matam mas não reconhecem o crime. E inventam histórias pensando que o povo é idiota e que engole qualquer mentira.
Mandaram dizer pelos jornais que Manoel se suicidou enforcando-se com uma meia.
Onde já se viu alguém se enforcar com uma meia?
Não é a primeira vez que essas desculpas cínicas e covardes são usadas para encobrir os crimes mais monstruosos contra presos acusados de “atividades subversivas”.
Assim foi com o metalúrgico Olavo Hansen, preso e assassinado em maio de 1970 pelo DEOPS paulista. Também disseram que ele se suicidou envenenando-se na prisão.
Assim foi com Mário Alves, Joaquim Câmara Toledo, João Lucas Alves, Paulo Wright, Alexandre Vannucci Leme, Stuart Jones, Lincon Bicalho Roque, Luiz Hirata, Rubens Paiva e muitos outros.
Assim foi com os 17 “desaparecidos”.
Assim foi com o jornalista Vladimir Herzog, assassinado há 3 meses nas mesmas dependências do II Exército. Pelos mesmos torturadores do DOI-CODI. Também disseram que ele se suicidou enforcando-se com um cinto.
Com medo de que esse assassinato provoque uma revolta muito grande, o presidente da república tirou o general Ednardo D’Ávila Mello (responsável direto pelas torturas e assassinatos em São Paulo) do comando do II Exército e isso bastou para que a maioria dos políticos do MDB passasse a elogiar a atitude de Geisel.
Mas porque Geisel não bota esse assassino na cadeia? Por que não manda prender seus cúmplices?  Por que não dissolve o DOI, o CODI, o DOPS, o SNI e todos esses órgãos de repressão através dos quais os militares gorilas perseguem, torturam e matam?
A resposta é simples: É porque Geisel não passa de um cúmplice desses torturadores.
Os políticos do MDB, apesar da censura e das cassações, ainda podem fazer declarações nos jornais. E se não protestam contra esse crime, se não exigem sua apuração, se não exigem que Ednardo e seus gorilas sejam trancafiados atrás das grades, estarão sendo cúmplices também.
Cúmplices dos torturadores: cúmplices de Geisel. Cúmplices da ditadura!
Esse crime não pode ficar em branco, ele tem que ser investigado. Os culpados por esse assassinato têm que aparecer. Têm que ser desmascarados e punidos.
O sangue dos trabalhadores não pode continuar servindo de alimento para saciar a fome e a sede desses gorilas fardados que resolveram, as custas no nosso suor, fazer desse país um paraíso para os grandes patrões e um inferno para os trabalhadores.
Pau neles!
Pela punição do general Ednardo e de todos os assassinos e torturadores de presos políticos – Pelo desmantelamento dos órgãos de repressão e pelo fim das perseguições políticas – Pela anistia completa a todos os presos políticos do país - Lutemos pelas liberdades democráticas e pela derrubada da ditadura – Lutemos pelo fim da exploração e por um governo dos trabalhadores

Com brados de “Manoel Fiel Filho – Presente!” e “Para que não se esqueça – para que nunca mais aconteça”, fechamos o ato ali e começamos a nos preparar para a caminhada.

Caminhada sobe pela rua São Joaquim, no bairro da Liberdade


Além do material organizado pelo Sindicato dos Metalúrgicos, vários grupos trouxeram cartazes e faixas lembrando a importância de preservar a memória das lutas sindicais e populares e dos homens e mulheres que deram suas vidas pela democracia no Brasil.

Foi esse o espírito de nossa caminhada cívica, no início da CORRIDA POR MANOEL: uma homenagem reverente a quem fez por merecer e um alerta para que estejamos todos vigilantes para que crimes como aquele não se repitam.

Manifestação segue pela rua Vergueiro em direção à Paulista


Com animação garantida pelo gogó de experientes agitadores de porta de fábrica, saímos enfim pela Galvão Bueno.

Ocupando parte da rua, descemos a Galvão e subimos a rua São Joaquim, bem no coração da Liberdade, bairro da região central que se tornou famoso por abrigar a comunidade japonesa – hoje, há muitos representantes de outros países asiáticos.

Deu até para a Eleonora fazer uma composição com as nuvens e o céu querendo ficar azul

A faixa que abria nossa passeata já informava a razão e o por que da caminhada, de nossos gritos e de nossa luta: “Salve Manoel Fiel Filho – OP Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo e Mogi das Cruzes reverencia sua memória”.

Para deixar tudo mais claro, porém, os colegas que caminhavam com o megafone faziam breves discursos contando a história de Manoel, afirmando que estávamos na rua para dizer: “Ditadura Nunca Mais”

E foi assim, caminhando e bradando slogans –-que é uma forma de cantar--, que chegamos à rua do Paraíso, avançamos pela Abílio Soares e tomamos a Paulista.
Companheirada cruza a avenida Paulista


Nunca foi tão emocionante caminhar naquele platô, nem mesmo na minha mais rápida e fulgurante chegada em São Silvestre. 

Os corredores sabemos o quanto empolga 
ver a Paulista lá no alto, enquanto resfolegamos pela Brigadeiro; e o quanto acalma e turbilhona a alma quando enfim fazemos a curva derradeira da São Silvestre.

É nóis! Passeata inaugural da CORRIDA POR MANOEL ocupa faixas na avenida Paulista


Pois para mim hoje foi muito mais. Corredores e caminhantes, sindicalistas e músicos, estudantes e trabalhadores estávamos todos revivendo e revigorando a memória com nossas passadas. E parando a cidade e fazendo a cidade parar para ver a passeata passar, parar para ouvir a chamada “Para que não se esqueça – para que nunca mais aconteça”.

A Paulista não era nosso destino na manhã de hoje, mas, para mim, aqueles dois quarteirões tiveram um significado todo especial, de conquista, de alegria, de fraternidade e parceria com todos os que ali estavam.

Descendo a Tomás Carvalhal, luz do sol afogueia bandeira carregada por militante


Descemos enfim a Tomás Carvalhal, no bairro do Paraíso --triste ironia, pois ali funcionou a Sucursal do Inferno.

A essa altura, tínhamos apoio e proteção de carros da Polícia Militar; duas viaturas abriam o caminho, liberando o trânsito para a primeira jornada da CORRIDA POR MANOEL, e uma terceira acompanhava o final da passeata, também protegendo nossos caminhantes.

No final da descida, já encontrávamos muros que cercam o complexo onde funcionou o DOI-CODI. Apontando um portão fechado, não mais utilizado hoje em dia, o ex-preso político Maurice Politi lembrou: “Era por ali que saíam os carros”.

Do lado direito, segurando a faixa, de óculos escuros, o ex-preso político Maurice Politi


Lembrou também que naquelas vizinhanças os moradores conseguiam ouvir os gritos dos torturados nas celas de interrogatório da “Casa da Vovó”, outro apelido irônico, maldoso, para o mais brutal centro de torturas montado no Brasil durante a Ditadura Militar.

O prédio do DOI-CODI foi tombado e deverá virar um centro de memória. No edifício da frente funciona o 36º Distrito Policial.

Foi na entrada desse conjunto, em uma área usada para estacionamento, que nos concentramos para fazer o encerramento da Caminhada pela Vida.

Politi, diretor do Núcleo de Memória, emocionou a todos lembrando sua experiência de sobrevivente (clique AQUI para acompanhar afala de Politi). Ativo militante contra a ditadura, aos 21 anos foi sequestrado e levado para os porões do DOI-CODI, onde foi submetido ao tratamento selvagem que era padrão na época.

“Quando a gente descia do carro já era recebido a porrada com pedaços de pau”, contou ele. A ditadura escondia seus crimes: “Quando minha mãe e meu pai vinham aqui me procurar, diziam para eles que aqui não havia nenhum preso, não havia ninguém”.

E assim torturavam, humilhavam, matavam. 

Já na época, porém, o movimento popular se levantou contra todas essas indignidades, contra esses crimes contra a humanidade.

Concentração  em frente ao complexo de prédios onde funcionou o DOI-CODI - foto Laura Lucena

E, agora, a gente busca relembrar a luta dos que enfrentaram esses regime de terror. A CORRIDA POR MANOEL, como bem diz a coordenadora do Memorial da Resistência, Kátia Neves, “é uma forma original de resistência política contra o esquecimento e, portanto, pela preservação da memória".

Continue com a gente. Amanhã teremos a primeira corrida, o primeiro grande mergulho na história de Manoel Fiel Filho. Concentração às 6h45 e largada às 7h na rua Oscar Freire, em frente à estação Sumaré do metrô.

Venha comigo!

Para que não se esqueça, para que nunca mais aconteça!

Vamo que vamo!

CORRIDA POR MANOEL  - Dia 1
3,58 km feitos em pouco mais de 45min



  


11.2.16

Uma homenagem jornalístico-esportiva a Manoel Fiel Filho

Operário metalúrgico de Alagoas foi assassinado há 40 anos em sessão de tortura nos porões do DOI-CODI de Sâo Paulo

O jornalista, escritor e maratonista Rodolfo Lucena realiza uma homenagem jornalístico-esportiva a MANOEL FIEL FILHO, operário metalúrgico assassinado nos porões da ditadura militar há 40 anos. Manoel foi morto sob tortura no dia 17 de janeiro de 1976 no Doi-Codi de São Paulo.

Para marcar a data, Rodolfo faz a CORRIDA POR MANOEL, 40 dias de corridas por percursos significativos para a vida e a morte do operário assassinado três meses depois da execução de Vladimir Herzog.

Em muitos desses trajetos, que relembrarão a luta contra a ditadura, pela democracia, pela liberdade e pela justiça, o maratonista será acompanhado por convidados.

Além de familiares de Manoel, estão convidados os advogados Samuel Mac Dowell e Marco Antonio Rodrigues Barbosa, que representaram a família de Manoel em processo contra a União, o ex-preso político e diretor do Núcleo Memória Maurice Politi e a coordenadora do Memorial da Resistência, Katia Regina Neves.

"Consideramos que o grande valor da Corrida por Manoel Fiel Filho é justamente por ser uma forma original de resistência política contra o esquecimento e, portanto, pela preservação da memória", afirma Katia.

E Maurice acrescenta: “Homenagear Manoel Fiel Filho, 40 anos após seu brutal assassinato, com essa corrida simbólica, significa resgatar a luta dele como operário metalúrgico, trabalhador consciente de seu papel, e de todos aqueles que deram a vida em favor do fim de um dos regimes mais violentos que tivemos no Brasil republicano”. 

A largada da CORRIDA POR MANOEL será em ato no Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo (rua Galvão Bueno, 782), às 8h da próxima quarta-feira, 17 de fevereiro. A partir dali sairemos na primeira jornada, uma caminhada em memória da vida e da morte do operário.

“Importante esse resgate da luta e da vida de Manoel Fiel Filho”, diz Miguel Torres, presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo. “Oportuno num momento em que as novas gerações não têm acesso ou conhecimento de nossa história.”

Cada trajeto será registrado em foto e vídeo; reportagem sobre o percurso de cada dia, com entrevistas e documentação histórica, será publicada neste blog, que foi especialmente desenhado para o projeto CORRIDA POR MANOEL.

././././././././.

Rodolfo Lucena, 59, é gaúcho de Porto Alegre e estava fazendo o vestibular para jornalismo quando Manoel foi assassinado. Ultramaratonista, fez mais de 30 provas de longa distância, da maratona a corridas de cem quilômetros. É autor de “Maratonando” (Record, 2006) e “+Corrida” (Publifolha, 2009). Repórter da “Folha de S. Paulo”, é colunista da revista de corrida “O2” e blogueiro; desenvolve o projeto Maratonando com o MST, de corridas em assentamentos e acampamentos dos sem terra (http://mstmaratonando.wordpress.com).

Fale com ele pelo e-mail lucena.rodolfo@gmail.com

2.2.16

Sem dó nem piedade, Haile destrói sonhos de velhinho corredor


Pois Haile veio ao Brasil. Os corredores falamos dele assim, com essa intimidade: Haile. A maioria de nós pronuncia Hai-lê, com a tônica na sílaba final; no idioma etíope, porém, a palavra ganha uma delicadeza extra, com a tônica na primeira sílaba, levemente acentuada: Hái-le, sendo a primeira sílaba um ditongo decreste.


O cara, porém, não tem nada de delicado, como mostra sua folha corrida. Nascido pobre na miserável Etiópia, que hoje ocupa a 174ª colocação no ranking Índice de Desenvolvimento Humano –o Brasil está em 75° lugar e a Noruega, em primeiro-, Haile Gebrasellassie dominou o mundo das corridas de longa distãncias por cerca de duas décadas.

Nesse período, estabeleceu 27 recordes mundiais nas mais variadas distâncias –ficou famoso, porém, pelas marcas fabulosas nos 5.000 metros, nos 10.000 m e na maratona. Hoje aposentado do atletismo, aos 42, é um próspero homens de negócios –um ricaço mesmo, dono de vários empreendimentos, de venda de automóveis a um sensacional resort.

Apesar de toda a fama e fortuna –basta dizer que seu apelido é Imperador-, o cara continua fiel a seus patrocinadores. E foi para atender a interesses da fabricante de calçados esportivos cuja marca leva na camisa que Haile veio ao Brasil.

Sua visita foi tão rápida quanto ele mesmo. Chegou na sexta, cumpriu agenda no sábado em São Paulo, viajou para o Rio, onde repetiu a dose, voltou a Sampa e se foi do Brasil neste segunda.

“Sem Carnaval!”, disse ele, todo sorridente, enquanto era abraçado, tocado, homenageado por uma pequena turma de corredores em um recanto próximo à Cidade Universitária, em São Paulo. Eram atletas amadores de uma assessoria esportiva ligada à patrocinadora de Haile.

O programa foi curto: uma pequena corrida festiva com umas poucas dezenas de convidados, participação num evento de entrega de prêmios, sessão de autógrafos e pose para fotos e selfies com os fãs (foto). No final de tudo, teria alguns minutinhos corridíssimos para falar com a imprensa.

Beleza. “Melhor que nada”, pensei, já imaginando o texto iria produzir para minha estreia no serviço on-line da revista “O2” –esta própria coluna que você lê neste momento e que foi publicada originalmente AQUI (clique em AQUI para ver). E queria a chance de correr com mais um monstro do atletismo.

Digo “mais um”, pois já participei de uma corrida festiva, num evento semelhante, com o queniano Geoffrey Mutai, que, na época de nosso enfrentamento no asfalto do Ibirapuera, era o maratonista com a mais rápida marca da história. Não valia para recorde, mas era 2h03min02 –tá bom  prá você?

E não fiquei apenas nos maratonistas. Tive oportunidade de conhecer o jamaicano Asafa Powell –ex-recordista mundial dos 100 m. Corri com ele numa pista improvisada montada sobre a neve, quase no topo de uma montanha gelada na Suíça.

Agora, Haile. O cara era só simpatia quando chegou, fez pose para foto, abriu sorriso, cumprimentou uns e outros, assinou montes de camisetas, caderrnos e cartões (fotos de minha lavra). Daí foi para o asfalto na USP, do ladinho mesmo de onde estávamos.

A massa foi junta, umas 30 ou 40 pessoas, talvez. Alguns se colocaram ombro a ombro com o Imperador. Mais modesto –e confiando no que haviam dito, de que ele sairia na boa-, fiquei um pouco atrás, imaginando que logo poderia até acelera e ficar mais perto do super-hiperrecordista.

Não era, para mim, apenas um sonho de uma noite de verão. Digo por quê.

A marca de Mutai era quase um minuto melhor do que a melhor marca de Haile na maratona e, mesmo assim, naquela sessão no Ibirapuera deu para acompanhá-lo por quase cinco quilômetros –depois ele seguiu mais rápido,e aí só uns poucos foram capazes de se manter com ele.

Imaginando que Haile faria coisa semelhante, acalentei sonhos de correr lado a lado com o Imperador, dois veteranos em amistoso desafio –ainda que eu seja quase 20 anos mais velho do ele; aliás, acho que eu era o mais velho de todos os que estavam naquele evento.

Largamos!!


Não foi nada do que eu esperava, nada do que se tinha combinado, nada do que haviam anunciado. O cara largou correndo e quem pudesse que fosse com ele.
Em poucos segundos, começaram as exclamações, a surpresa de corredores mais lentos com o ritmo que nos era imposto.

Olhei para o meu GPS e quase tive um infarto: estava a 4min30 por quilômetro naquele instante. Saiba você que já fui capaz de manter esse ritmo em corridas por duas oportunidades, em uma prova de oito quilômetros, e em um desafio de seis quilômetros, ambos realizados no século passado.

Por incrível que pareça, aqueles instantes duraram uma eternidade, talvez 15 segundos, talvez 20 segundos, e logo o relógio já marcava 5min30 e caindo (ou subindo, conforme a ótica do leitor).

Não fui só eu o surpreendido. Quando Haile passou o primeiro quilômetro em 3min31 (ou 3min30, segundo outros), o espanto era geral, até mesmo de um dos treinadores que participara da organização da corrida comemorativa.

Bom, antes de completar o primeiro quilômetro eu já nem via mais o pelotão da frente, o que dirá Haile!. Vai daí que, metro sobre metro, suor sobre suor, vi desabar meu sonho de correr ao lado do Imperador. O devaneio deste velhinho corredor foi reduzido a pó, sem dó, pelo ritmo impiedoso do multirrecordista mundial etíope.

Pelo menos tiramos uma foto juntos, que fez muito sucesso nas redes sociais e reproduzo aqui (gentileza da grande fotógrafa Fernanda Paradizo).


E, depois de mais um chá de cadeira, finalmente consegui fazer a entrevista com Haile Gebrselassie, por muitos considerado o mais completo e melhor corredor de longa distância de história.

O tempo de espera para falar com ele foi inversamente proporcional aos escassos minutos em que pude fazer algumas perguntas para o cara. Pelo menos foi uma conversa exclusiva, cara a cara, acompanhada apenas pelos assessores encarregados de controlar o tempo a que tive acesso a Haile.

O resultado está abaixo. Espero que você goste, compartilhe, comente e volte sempre a este novo espaço de minha atuação no mundo internético.

RODOLFO LUCENA – O senhor ainda pensa em se candidatar a presidente da Etiópia?
HAILE GEBRSELASSIE – Sim, eu penso nisso, mas não sei exatamente quando isso poderia acontecer, porque eu estou fazendo muitas coisas hoje em dia. Tenho muitos compromissos, negócios, mas quem sabe? Eu acho que a vida política será meu último objetivo.

O que o senhor pretende fazer se chegar a presidente da Etiópia?
Muitas coisas. Quero compartilhar minha experiência, as coisas que aprendi no mundo. Não é fácil, são 25 anos de experiência que eu tenho [NR.: na elite mundial do atletismo]. Estive em mais de cem países, é muita coisa, acho que posso fazer muito por meu país. Eu quero fazer alguma coisa pelo meu país.

O que o seu país mais precisa?
Educação é a questão mais importante; acabar com a pobreza também. Nós precisamos erradicar a pobreza, alguma coisa precisa ser feito. No meu país há mais de 100 milhões de pessoas, e nós precisamos ter alguma coisa importante, alguma coisa boa para o futuro de todos eles.

O que o senhor pensa das denúncias de corrupção e acobertamento de doping na IAAF? 
Eu digo para você: essa coisa toda está matando o atletismo. Está matando os jovens. Quem será o modelo para eles, para esses jovens que trabalham e suam em suas vilas? Eu gostaria muito que não houvesse um problema como esse. Mas, se as coisas estão mesmo desse jeito, eu acho que eles precisam tomar providências, fazer um movimento sério para nos livrarmos de todos esses problemas. É bom para o esporte. Se deixarem passar batido, protegendo, acobertando os responsáveis, as coisas continuarão do mesmo jeito.
Você ouve todas essas coisas ruins. Escândalo de doping, escândalo de corrupção, eu não entendo porque essa gente está fazendo essas coisas. Eu fico muito triste com isso, eu digo para você: estou muito triste.

Em resposta aos escândalos de doping, surgiu a proposta de desconsiderar os recordes mundiais da última década. O que o senhor pensa disso?
A questão não é sobre os recordes, a questão é sobre os jovens. Nós precisamos pensar nos jovens [atletas]. Imagine os jovens que estão suando, treinando em suas vilas. O que nós vamos ensinar a eles? Em vez de fazer as coisas por suas próprias forças, vão dizer: “Não posso fazer isso sem doping, eu não posso fazer isso sem usar um remédio”. Eu não quero ver isso acontecer. Não quero ver os jovens desenvolvendo esse tipo de mentalidade.
Não tem sentido cancelar tudo o que já foi feito, essa não é a questão. O que está em jogo é o futuro do atletismo. É preciso pensar em algo bom.

O senhor acredita que é possível fazer a maratona em menos de duas horas?
Claro, com certeza, não há dúvida sobre isso. As pessoas falam, pensam que isso só seria possível com doping, mas não é nada disso, não, não, não. Sem pílulas, sem drogas, atletas podem conseguir, podem correr assim. A única coisa que eles precisam saber é a tática, o descanso, o treinamento; combinam tudo isso, eles poderão conseguir alguma coisa.

Quando comecei a correr maratonas, as pessoas diziam que era impossível fazer uma maratona em 2h02. Mas eu estava treinando para fazer duas horas e dois minutos. Eu não consegui, mas pelo menos fiz abaixo de 2h04 [NR.: Haile foi o primeiro homem na história a correr a maratona em menos de duas horas e quatro minutos]. Agora, alguns anos mais tarde, é possível que alguém corra em 2h02.

Mas nós estamos falando agora de maratona em menos de duas horas. Sim, é possível. Quando? Nunca se sabe quando um recorde será quebrado. Quando Abebe Bikila [NR.: etíope vencedor da maratona olímpica de Roma] quebrou o recorde, sua marca foi de 2h15 [NR.:2h15min16]. Isso foi há quase sessenta anos. Então, é possível baixar...

Qual foi o momento mais feliz de sua vida de corredor?
O momento mais feliz de minha vida de corredor foi em Sydney-2000, na Olimpíada [NR.: Haile conquistou a medalha de ouro nos 10.000 depois de uma renhidíssima disputa com o queniano Paul Tergat]. Aquele foi um momento muito especial, quando conquistei meu segundo ouro. E também o recorde mundial em Berlim [NR.: na maratona] e o recorde mundial em Zurique, em 1995 [NR.: nos 5.000 m]. Mas a Olimpíada foi algo muito especial [abre um largo sorriso].

Por que a Olimpíada é tão especial?
É a Olimpíada. Acontece apenas a cada quatro anos. Quantos corredores conseguem se manter em ótima forma por quatro anos? Muito poucos. Então venceu em uma Olimpíada é muito especial.

E qual foi o momento mais triste?

Nova York, 2010 [NR.: naquele ano, com dores, Haile abandonou a maratona e, quase em seguida, anunciou que iria se aposentar do atletismo]. Foi muito, muito duro para mim.


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OBSERVAÇÃO: Com esta texto, inicio uma nova parceria com a revista O2 e com o site ativo.com, o maior site de corridas do país, onde passo a produzir a coluna MARATONANDO COM RODOLFO LUCENA. Venha comigo. A coluna está AQUI.