22.3.16

31 de outubro de 1975, o dia em que a ditadura começou a cair

“Vamos para o Sindicato!”

O grito, vindo não se sabe de quem nem de onde, ecoou no silêncio que dominava o Cemitério Israelita do Butantã, instantes depois do enterro do jornalista Vladimir Herzog, no final da manhã de segunda-feira, 27 de outubro de 1976.

Para o sindicato eles foram. Apesar do medo imposto pela ditadura, apesar das limitações ao direito de reunião e de expressão, apesar da tortura e das mortes no DOI-Codi, centenas de pessoas se encontraram, no final da tarde do mesmo dia, no auditório do Sindicato dos Jornalistas no Estado de São Paulo.

Audálio Dantas, porém, não estava lá. Presidente eleito havia meses numa chapa de oposição, o jornalista tinha sido chamado ao II Exército, convocação que atendeu com outros membros da diretoria.

Foram horas tensas. Depois de uma breve encenação, o general Alberto Pacca da Fonseca disse aos sindicalistas que os militares estavam “preocupados” com o que poderia acontecer na assembleia. E apresentaram o que chamaram de provas de que Vlado havia se suicidado –entre elas, a famosa foto do enforcamento encenado.

Na sede do sindicato, na rua Rego Freitas, a boataria corria solta, mas os dirigentes que já tinham ficado conseguiram manter a calma das cerca de 300 pessoas que lá estavam.

Enfim, Audálio e os outros diretores chegaram, iniciaram a reunião.

Inicio da caminhada de hoje, em frente à sede do Sindicato dos Jornalistas - fotos Eleonora de Lucena


Por aclamação, a assembleia batizou o auditório em  honra de Vladimir Herzog. E foi marcado um Culto Ecumênico para celebrar a memória do jornalista assassinado. Seria na catedral da praça da Sé, no dia 31 de outubro.

Para muitos, os dias até a data do culto foram os mais difíceis, duros, tensos e dramáticos de suas vidas. A máquina da repressão entrou em movimento para tentar dissuadir jornalistas, políticos e líderes religiosos.

Dom Paulo Evaristo Arns, que seria o anfitrião do encontro, espécie de fiador da paz naquele momento, recebeu a visita de dois secretários do então governador Paulo Egydio. Queriam convencer o bispo a não rezar a missa, e não economizar ameaças, como conta Audálio Dantas em seu livro “As Duas Guerras de Vlado Herzog”.

“O senhor não pode rezar a missa, Herzog era judeu”, disse um, enquanto o outro acrescentava: “Poderá haver tiroteio, mortes, e o senhor será o responsável. Haverá mais de quinhentos policiais na praça, com ordem de atirar ao primeiro grito”.

Norte-americano, o rabino Henry Sobel foi ameaçado. Dois generais foram a sua casa para dizer que ele não poderia se manifestar, não podia se envolver em manifestação política.

De nada adiantaram as pressões, as ameaças, as conversas nos corredores, o clima de terror instaurado na cidade. 

Desde cedo, na sexta-feira, a repressão montou barreiras em pontos estratégicos de São Paulo para impedir o acesso à região central, soldados cercaram a Sé, atiradores foram instalados nos edifícios em torno da praça.

Mesmo assim, o povo foi, em pequenos grupos, em silêncio, sem fazer provocações, mas sem se acovardar. Do Sindicato dos Jornalistas, Audálio Dantas saiu com um grupo de 50 pessoas em caminhada até a Sé.

Foi esse percurso que repetimos hoje na 30ª etapa da Corrida por Manoel. 

Liderados por Audálio, no vigor de seus 83 anos, estavam ainda o presidente do Sindicato, Paulo Zocchi, e seu antecessor, Augusto de Camargo, mais alguns jornalistas e uma advogada.

Paulo Zocchi à frente do grupo; ao seu lado, de camiseta, o ex-presidente Augusto de Camargo

Antes do início de nossa jornada, Paulo Zocchi lembrou aquela assembleia de 40 anos atrás. Em entrevista no auditório Vladimir Herzog, disse:

Esse espaço recebeu esse nome no dia 27/10/1975, dois dias após o assassinato do Herzog, quando os jornalistas, logo após o enterro, acabaram vindo para cá, se reuniram, decidiram que esse espaço passaria a ter o nome do Herzog. 

"Decidiram que ia ser um espaço aberto à sociedade civil, aos movimentos sociais, aos movimentos democráticos. Gestaram a ideia de que no sétimo dia fariam um culto ecumênico na praça da Sé. Esse culto ecumênico foi um marco, segundo Dom Hélder Câmara, foi o início do fim da ditadura militar brasileira.”

O dirigente sindical comentou também o significado da jornada de hoje:

“A gente hoje rememora esse episódio fazendo uma caminhada que sai daqui do nosso sindicato, vai até a praça da Sé. Num momento em que o autoritarismo novamente levanta a cabeça do país, é mais importante ainda que a gente rememore esses fatos, para se assegurar que a democracia é um valor perene, e que crimes como a tortura e o assassinato de Herzog não só não se repetirão, como, se depender de nós, não ficarão impunes.”

Como esse espírito, de “não esquecer para que não se repita jamais”, saímos pela rua da Consolação.


Queríamos todos, claro, ouvir Audálio, tentar relembrar como foi a caminhada que estamos reproduzindo agora, 40 anos mais tarde.

O entorno, nos conta ele, não era muito diferente. A Consolação, tirando a novidade da ciclovia, as rotas vermelhas traçadas no corredor central, está tal e qual.

Passamos pelo prédio onde foi o “Diário Popular” e que, na época do assassinato de Herzog, da caminhada do sindicato à Sé, ainda era a sede de “O Estado de S. Paulo”.

Pouco antes de chegarmos ao viaduto 9 de Julho somou-se a nós mais um jornalista das antigas, Genilson Cezar, grande repórter de informática e economia que chegou a ser conhecido como Rei dos Frilas. Ele é velho como eu e ainda tem os cabelos mais compridos.



Seguimos lembrando a história. Contando nossas próprias aventuras no tempo da ditadura, relembrando como vivemos aqueles dias de chumbo –eu estava no Rio Grande do Sul, terminando o ensino médio e trabalhando como repórter no “Informação Política”; Genilson já saíra de sua terra natal na Paraíba, fizera faculdade no Ceará e estava no Rio, trabalhando no “Opinião”; Paulo Zocchi ainda cursava a escola primária.

Quando enfim chegamos à catedral, dois quilômetros depois de iniciada a jornada em frente ao Sindicato dos Jornalistas, a praça estava tomada por um evento sobre saúde; havia até um palco onde, mais tarde, uma bandinha tocaria hinos e marchas.


Nas escadarias da Sé, gravei um breve vídeo em que Audálio Dantas relembra os acontecimentos de 31 de outubro de 1975 e mostra a importância do Culto Ecumênico daquele dia para a luta contra a ditadura militar.

É um fato historicamente registrado e reconhecido a realização do culto ecumênico aqui como o ponto de partida para a queda da ditadura militar. Foi a partir desse culto, onde se verificou uma demonstração ao mesmo tempo de repúdio e contra o assassinato do Vlado, que simbolizava os outros assassinados. Antes do Vlado, tinham sido mortos 21 jornalistas, presos, torturados e mortos O Vlado foi o primeiro a não ser sepultado em silêncio, não dos jornalistas, das vítimas gerais da ditadura militar.

“A multidão que aqui apareceu, oito mil pessoas, significou a primeira grande manifestação de massa depois do Ato Institucional número 5. Isso tem um significado muito importante porque qualquer manifestação era proibida.


“Havia a possibilidade de repressão, nós tínhamos essa praça cercada, metralhadoras apontadas nos prédios vizinhos, e a ameaça de que qualquer manifestação fora do culto significaria a necessidade de reação do aparelho. Tínhamos aqui cerca de 500 policiais espalhados pelo entorno, e infiltrados na multidão. Qualquer movimento, vamos dizer, que extrapolasse o culto, a passeata, o grito de protesto, qualquer coisa.

“Essa multidão deu um exemplo de civilidade, que era exatamente o contrário da truculência da ditadura. Foi essa a demonstração. Porque a multidão, a pedido do Dom Paulo Evaristo Arns e meu, saiu daqui da catedral em silêncio, em pequenos grupos. Dizia o Dom Paulo de uma maneira muito significativa e poética: “A multidão se escoou como as águas limpas dos riachos”. Isso foi, portanto, um momento de grande significado na luta contra a ditadura militar.”

O culto foi celebrado por dom Paulo, pelo rabino Sobel e pelo pastor Jaime Wright. 

Além deles, conta Audálio em seu livro, havia no altar “uma presença inesperada: um homem miúdo, franzino, o corpo arqueado, paramentado de branco, parecia flutuar no altar-mor”.

Era dom Hélder Câmara, arcebispo de Olinda e Recife, recém-chegado de Londres, onde fora receber um prêmio por sua luta em defesa dos direitos humanos. 

No culto, o Arcebispo Vermelho ficou em silêncio. Na sacristia, enquanto a multidão saía em paz e silêncio, escoando “como as águas limpas dos riachos”, dom Hélder disse a Audálio e a dom Paulo:

“A ditadura começou a cair hoje.”



CORRIDA POR MANOEL – 30ª etapa

Destino: Catedral da Sé, percurso de 6,14 km, desde o Sumaré, passando pelo Sindicato dos Jornalistas, realizado em 1h36

Distância acumulada até agora: 306,38 km

EXTRA EXTRA EXTRA  --- ANEXO ESPECIAL

Zocchi e Audálio entrando na catedral


Em seis de janeiro de 1976, quando os órgãos da repressão e os chefes da ditadura militar ainda insistiam na versão de suicídio, os jornalistas brasileiros fizeram um manifesto apontando contradições na versão oficial e reivindicando a apuração completa dos fatos. Assinado por 1.004 jornalistas, o texto foi publicado como matéria paga no jornal “O Estado de S. Paulo”. O texto é o seguinte:

EM NOME DA VERDADE

Nós, abaixo-assinados, jornalistas, que acompanhamos todo o caso da morte de nosso companheiro de trabalho, Vladimir Herzog – uma tragédia que traumatizou não só a nossa categoria, mas a consciência de toda a Nação – interessados na descoberta da verdade e na total elucidação dos
fatos, por força mesmo da natureza da nossa profissão, vimos de público levantar algumas indagações, sugeridas pela leitura do Relatório do
Inquérito Policial-Militar divulgado no último dia 20 de dezembro.
O Relatório contém duas contradições que já foram levantadas  publicamente: a primeira é a estranheza de que o IPM tenha partido de uma Portaria do Comando do II Exército que praticamente já indicava a sua Conclusão, ao
determinar sua instauração “para apurar as circunstâncias em que ocorreu o suicídio”, e não as circunstâncias da morte, como seria de esperar;
na segunda, apontada no mesmo dia de sua publicação, “O Estado de São Paulo” desmentiu o depoimento do jornalista Randolfo Lobato, segundo o qual Vladimir Herzog fora demitido do jornal num expurgo que teria ocorrido em 1963, contra esquerdistas da redação. Além do desmentido, “O
Estado” citou a contradição com o depoimento do chefe da 2 ª Secção do II Exército, que afirma que Herzog foi demitido em 1958. O jornal esclareceu que, na verdade, Herzog pediu demissão espontaneamente em 1965.
Além desses pontos, pretendemos chamar a atenção para outros que para nós, jornalistas, não ficaram devidamente esclarecidos e que poderão ser objeto de novas diligências, agora no âmbito da Justiça Militar, para onde o IPM foi remetido, como determina o Código do Processo Penal Militar.
Este é o nosso interesse, em nome da salvaguarda dos direitos humanos, da justiça e da busca da verdade, na qual o jornalista, por dever de
ofício, tem a obrigação de esgotar todos os recursos possíveis.
Os pontos que ainda consideramos obscuros são estes:
1 – O IPM diz que Vladimir Herzog se enforcou na grade da cela em que
for a colocado “usando para tanto a cinta do macacão que usava”. Não há, porém, em todo o inquérito nenhuma explicação para o preso estar usando macacão com cinto. Esta omissão parece contradizer toda a ênfase que várias testemunhas dão à questão da segurança dos detidos: o chefe da 2ª Secção, o comandante do DOI, um investigador e um carcereiro mencionam, em seus depoimentos, além do fornecimento de roupas
especiais, rondas e fiscalização permanente, como medidas de cautela.
Essas medidas são tomadas, como se sabe, em qualquer repartição policial, e uma delas é a retirada de qualquer objeto que possa servir
de instrumento para um suicídio, inclusive cintos e cordões de sapatos".
E pelo que se conhece do relato de pessoas que já estiveram naquela dependência militar, os macacões fornecidos aos presos não possuem
cinto.
2 – Apoiando-se nos laudos periciais do Instituto Médico Legal, o Relatório acentua a “inexistência de qualquer vício que possa desacreditá-los”. No entanto, existe uma incoerência ainda inexplicada:
o laudo do Exame de Corpo de Delito, dos legistas Harry Shibata e Arildo T. Viana, descreve a roupa com que o corpo chegou vestido para a necrópsia e essa roupa não é o macacão descrito no Laudo de Encontro de Cadáver (com fotos), dos peritos Motoho Shiota e Sílvio Shibata. A roupa com que chegou ao IML, segundo o laudo, é a mesma com que Vladimir Herzog saíra de casa pela manhã, para se apresentar.
Diante disso, perguntamos:
Não se exige que o cadáver seja levado para Exame de Corpo de Delito exatamente como foi encontrado?
Como se explica que o corpo tenha sido encontrado de macacão e depois tenha chegado ao IML com outra roupa?
Outra questão: Por que não foi ouvido no IPM o capitão Ubirajara, oficial do DOI-CODI, cujo nome aparece nos laudos como requisitante da
perícia?
3 – Todas as testemunhas ligadas ao DOI afirmam no IPM que havia ordens expressas para que Vladimir Herzog não pernoitasse na prisão e fosse
libertado logo após escrever seu depoimento. O carcereiro diz mesmo, em seu depoimento, que o encontrou enforcado quando foi à cela “com a
finalidade de retirar Vladimir Herzog a fim de ser liberado”.
Perguntamos:
Como poderiam as autoridades saber de antemão, como ficou registrado no IPM, “ser de pouca relevância o depoimento daquele jornalista nos fatos investigados”?
Se o depoimento era de pouca relevância, porque a tentativa de prendê-lo na véspera, à noite, primeiro em sua casa, e depois em seu local de
trabalho, só consentindo a autoridade com sua apresentação no dia seguinte, após interferência da direção da empresa?
Como era possível saber o teor do depoimento de Vladimir Herzog para se ter certeza de que seria liberado no dia seguinte?
4 – O Relatório do IPM destaca, também, que “o corpo de Vladimir Herzog encontra-se sepultado na Quadra 28, túmulo 64, área em que são enterrados os suicidas”. Essa informação é baseada no depoimento de um membro da Congregação Israelita Paulista.
No entanto, informação diferente foi dada na ocasião da morte de Vladimir Herzog pelo rabino Henry Sobel, que participou do culto ecumênico em memória do jornalista. Numa entrevista publicada no mesmo dia do culto, o rabino disse que os ritos do sepultamento tinham sido
normais, “pois a Chevrah Kadisha não encontrou indícios que comprovassem o suicídio do jornalista, o que implicaria a alteração dos procedimentos, inclusive o sepultamento em local diferente.”. (“O
Estado”, 31.10.75).
São duas versões conflitantes, de dois membros da mesma religião. Qual a verdadeira?
5 – O Relatório do IPM informa que foram ouvidas 21 testemunhas “cujos depoimentos foram tomados sem qualquer constrangimento físico ou moral”.
Pelo que sabemos, algumas testemunhas foram ouvidas enquanto ainda estavam no DOI, sob a custódia, em última instância, das autoridades
cuja atuação no caso da morte de Vladimir Herzog estava sendo investigada. Indagamos: Isto não consistiria, para a testemunha, uma forma de constrangimento?
Diante dessas inconsistências e de outras que ainda preocupam a opinião pública, nós, jornalistas, estamos encaminhando este documento ao Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo, para que
o entregue à Justiça; e da Justiça esperamos a realização de novas diligências capazes de levar à completa elucidação desses fatos e de outros que porventura viessem a ser levantados.




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