13.3.16

Polícia da ditadura persegue Manoel Fiel Filho até depois da morte

Miúda e morena, a menina de apenas 16 anos se revoltou conta os policiais, homens soturnos, que não se apresentavam e ficavam rondando entre os amigos e familiares de Manoel Fiel Filho durante o enterro do operário, em 18 de janeiro de 1976.

Os agentes chegaram ao cúmulo de subir na campa na hora de o caixão ser colocado na terra. Foi demais para a menina: “O que vocês estão fazendo aqui? Já viram o que tinham de ver!”, ela gritou.

Foi o único protesto naquele momento, em meio ao silêncio imposto à família pelos agentes da ditadura militar.

Manoel morreu por volta do meio dia em uma sala de tortura no prédio do DOI-Codi, na rua Tutóia. Uma hora depois a encenação estava pronta, o corpo estirado em um catre com as meias atadas em torno do pescoço.

Foi quando os carcereiros chamaram os outros presos, levaram os prisioneiros até a cela de Manoel, como se fosse preciso tê-los de testemunhas para o suicídio que não houve.

Só no início da noite do dia 17 de janeiro de 1976 a família ficou sabendo da morte. Dois sobrinhos e um irmão de Manoel foram ao IML para liberar o corpo.

No começo, só ouviram negativas, enganações, enrolações. Finalmente, o pessoal do Instituto Médico Legal reconheceu que o corpo estava lá. Mas Manoel só seria devolvido à família em troca do silêncio sobre o crime.

“Falaram que, se fosse para fazer bagunça, o corpo não ia sair, ia direto para o cemitério da Vila Formosa, enterrado como indigente”, lembra Márcia, a filha caçula de Manoel, 56, durante conversa que tivemos em Bragança Paulista, onde a família mora hoje.

“E não iam permitir fazer o velório”, diz a filha mais velha, Aparecida, 60, que também estava na nossa entrevista, assim como sua mãe, dona Thereza de Lourdes, 83.

O velório foi realizado, ainda que às pressas. A igreja Nossa Senhora de Lourdes, onde aconteceu a cerimônia, foi minha primeira parada na corrida de hoje, que teve como destino o cemitério onde Manoel foi enterrado.



É uma igreja imponente, ainda que não muito grande. Chega-se a ela por escadarias disposta em semicírculo; bem em frente à porta principal, alguns degraus abaixo, há uma fonte toda branca. Do lado direito de quem olha o prédio principal se ergue a torre do sino.

Quando cheguei, a missa das 8h estava em andamento. Esperei e logo depois fui recebido pelo padre Dervili. Novo na paróquia, ainda que religioso experiente, ele disse não saber de registros do velório de Manoel Fiel Filho.

Pudera. Foi tudo feito na surdina, direto do IML para a igreja.

É impossível hoje saber qual o caminho feito pelo carro que levou o corpo. Imagino que pode ter passado por parte do trajeto que fiz hoje. Cruzei da zona oeste, passando a um quarteirão do IML, até o início da zona leste, onde ficam a igreja e o cemitério.

Como sempre, o caminho principal foi a rua da Moóca. Quando ele cruza a Paes de Barros, uma das principais avenidas do bairro, dá para ver um dos prédios que a historiografia da cidade segue sem dar a devida importância.

Pudera! O edifício em tijolos vermelhos, que lembra um castelo ou um palácio presidencial, é uma das testemunhas da Revolução Esquecida, a Revolução de 1924. São os restos de uma fábrica construída no final do século 19, hoje aproveitados por uma rede de supermercados.


Inaugurado em 1897, o Cotonifício Rodolfo Crespi era uma potência. No prédio de três andares, com cerca de 50 mil metros quadrados, funcionavam 500 teares, 14 mil fusos; havia fiação, tecelagem, tinturaria e malharia.


Foi um dos principais pontos da grave greve dos tecelões em 1917. Bem depois que a poeira abaixou, em abril de 1924, os funcionários da fábrica fundam o glorioso Juventus. Três meses depois o edifício é atingido por bombardeio do governo federal, que tenta debelar a revolta que brota em São Paulo.


“Os bairros da Mooca, Braz e Belenzinho foram atingidos por um canhoneiro tão pesado que as ruas ficaram repletas de cadáveres. Os coveiros não davam conta de cavar sepulturas para enterrar todos os mortos, o que levou muitas famílias a enterrar os mortos nos quintais de suas casas”, segundo o site Portal da Mooca.

Foi o mais sangrento conflito vivido por São Paulo. A revolta demorou 23 dias e deixou como saldo, segundo os números oficiais, 503 mortos e 4.846 feridos, a maioria deles civis.  Historiados contestam os dados. O livro “Bombas Sobre São Paulo” contabiliza 720 mortos.

É uma demonstração de que muito antes da ditadura os poderosos procuravam maquiar dados e manipular informações para que a história não registrasse as barbaridades praticadas.

Para mim, ficou a reflexão enquanto seguia pela rua da Mooca, que iniciava então um sobe e desce. Em um de seus pontos mais altos, preciso seguir para a esquerda, começa a descer em direção à Água Rasa, onde fica a igreja.

Passo por uma silenciosa rua chamada Porto Feliz, parte de um conjunto de vias dispostas em semicírculos concêntricos, se é que existe essa definição. Espero que tenha dado para entender: são ruas curvas, que lembra o desenho de um C deitado, cada uma um pouco maior do que a outra.

De um lado da Porto Feliz há casas; do outro, uma série de edifícios baixos. Tudo ali me fez lembrar o querido bairro do IAPI, em Porto Alegre –na minha adolescência, pronunciávamos cada letra da sigla que identifica o Instituto de Aposentadorias e Pensões dos Industriários; hoje, é mudérno dizer iápi, como se fosse uma palavra.

Os prédios em Porto Alegre são mais simples, e a população que lá vive provavelmente tem renda menor do que os moradores da rua Porto Feliz; mas há uma parecença. Entre um bloco de prédios e outro, encontrei uma estátua com a figura de um rosto maltratado, pichado e sem identificação do homenageado.


Segui caminho na minha homenagem particular a Manoel Fiel Filho. Não é surpresa descobrir que não há memória dele na igreja onde foi realizado o velório. Na época mesmo tudo foi feito às pressas, de maneira secretiva, no silêncio imposto pelos agentes da ditadura, conforme registra o repórter Ricardo Kotscho em texto publicado em “O Estado de S. Paulo”.


“Aquela hora, seis da manhã, como fazem todos os domingos, chegavam para a missa das seis os muitos amigos que Manoel deixou na rua Imbó, na Agua Rasa, ali pertinho da igreja, onde conheceu sua mulher Teresinha e morou muitos anos na casa dos sogros.

“Só nesse momento, ao ver a movimentação do velório, eles ficaram sabendo que Manoel estava morto. Uma antiga vizinha, de 73 anos, forte sotaque lusitano, queria saber do que ele tinha morrido --logo ele que sempre foi tão forte e nunca se queixou de doença. A explicação que lhe deram e aos outros amigos: "Manoel sentiu-se mal no serviço, foi levado para o Hospital das Clínicas e morreu".


“Três elementos estranhos à família controlavam todos os movimentos no velório e conversavam entre si em voz baixa. Os parentes só puderam ver um corte, "que ia da garganta até o peito", certamente consequência da autópsia.”

O velório durou duas horas, tal como imposto pelas forças repressivas. Depois o enterro seguiu para o cemitério da Quarta Parada, a poucos quarteirões da igreja. Apenas 30 pessoas –sem contar os policiais-- acompanharam o caixão, que foi levado para a quadra 101 do cemitério.


Hoje, na casa de Márcia, a filha caçula de Manoel, ainda se faz um silêncio dolorido quando pergunto sobre aqueles momentos. As frases vêm de cada uma delas, Márcia, Aparecida e Thereza, como se uma puxasse a memória da outra, montando um desenho daquela manhã de 18 de janeiro de 1976.
Dona Therea com as filhas Márcia (de vermelho) e Aparecida - Foto Eleonora de Lucena

Márcia reafirma: “Foram duas horas de velório”.

Dona Thereza, a mãe, a viúva, traz memória de outro dia, como se fosse uma segunda morte de seu marido: “Me chamaram na polícia, perguntaram: “O que a senhora acha dessas mortes?” Eu falei: “Não sei, um morreu enforcado, o outro com as meias, porque isso”. Ele falou desse jeito: “O Herzog era covarde, e o seu marido é um homem envergonhado, decente, ficou com vergonha da família então ele se matou, ficou com vergonha que está preso.” Eu falei: “Jamais ele ia ter vergonha da família.”


As ofensas a Manoel e a humilhação de dona Thereza aconteceram durante fase de instrução do IPM, Inquérito Policial Militar. A viúva ainda hoje se revolta com a farsa que tentaram lhe impingir quando esteve no prédio do DOI-Codi: “Mataram lá em cima, trouxeram ele para baixo, com as meias no pescoço”.


Trago a conversa de volta para o dia do velório, pergunto se alguém chegou a ver o corpo. “Meus primos e meu tio, no IML”, diz Aparecida. “Abriram uma porta, deixaram eles olharem de longe, mas perto do corpo ninguém chegou”.

No velório, o caixão pode ser aberto. “A gente viu o nariz quebrado”, diz Aparecida. “O nariz estava torto”, completa Márcia. E sua irmã acrescenta: “Tinha marcas, uns roxos...”.

As duas lembram que havia muita gente estranha no velório, “uns homens”. Dona Thereza fala: “Ninguém podia abrir a boca. Tinha sempre um para escutar as conversas”.



No cemitério, a perseguição se repetiu, conforme elas contam, em frases que se completam.

Aparecida: Até na hora de enterrar, do caixão descer, eles subiram todos assim para olhar.

Márcia: Em volta. Por trás, tudo.

Thereza (apontando para a filha caçula): Essa daqui brigou com eles. Ela falou: “O que vocês estão fazendo aqui? Já viram o que tem que ver!”

Márcia: O corpo já estava descendo lá dentro, o que os caras estavam olhando?! Em cima lá no buraco. Queriam o quê?! Certeza que ele estava sendo colocado lá dentro?! Não dava! Sabe quando começa a descer o corpo?  Porque o nosso túmulo da família é daqueles que têm as gavetas em volta, estão estava descendo, os caras tudo em cima do buraco!

Os gritos da menina Márcia, no dia do enterro, talvez tenham sido o estopim para iniciar a reação da família. Na farsa do IPM, o crime ficou mascarado. Dona Thereza prosseguiu buscando Justiça, porém, até provar: “Meu marido foi assassinado!”



CORRIDA POR MANOEL – 23ª etapa

Destino: Cemitério da Quarta Parada, passando por igreja Nossa Senhora de Lourdes, percursos de 18,55 km realizado em 2h33min55


Distância total percorrida: 235,57  km

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