16.12.16

Caminhada relembra mortos na Chacina da Lapa, que faz 40 anos

A minha caminhada de hoje foi um mergulho na memória, na história das lutas democráticas em nosso país. Com Eleonora, minha companheira de vida, e Ana Claudia, dos Corredores Patriotas Contra o Golpe, segui na direção da Lapa, na zona oeste da cidade, onde há quarenta anos foram assassinados Ângelo Arroyo e Pedro Pomar, dirigentes do Partido Comunista do Brasil.
Com tiros de metralhadoras e fuzis, pistolas e revólveres, numa fuzilaria desvairada, a execução se deu quando o Exército invadiu uma casinha branca na rua Pio XI, 767, onde tinha sido realizada uma reunião do Comitê Central do PCdoB. A única sobrevivente do ataque foi Maria Trindade, militante do partido que trabalhara como cozinheira durante a reunião.
A reunião tinha terminado no dia anterior. Desde o início da noite do dia 15, um velho corcel azul fizera várias viagens para devolver à cidade os participantes do encontro clandestino, realizado no final de um ano marcado pelo assassinato sob tortura do operário Manoel Fiel Filho.
O que os comunistas não sabiam era que a repressão estava de campana, acompanhando todos os movimentos. E os militantes foram sendo presos, um a um.
A reunião tinha “caído” porque um dos dirigentes comunistas se transformara em informante das forças da repressão. 
Aldo Arantes, um dos sobreviventes da reunião realizada na rua Pio XI em dezembro de 1976
“Havia um traidor, Jover Telles. Foi ele quem dedou”, me disse um dos sobreviventes da reunião, Aldo Arantes, que encontrei na última terça-feira em cerimônia memorial realizada na Câmara de Vereadores de São Paulo.
“Quando houve a traição, o Exército ficou sabendo da casa com antecedência, cercou toda a casa, permaneceu cercando a casa durante todos os dias em que nós fizemos a reunião”, diz Haroldo de Lima, com quem também conversei na cerimônia realizada na Câmara.
Ele segue: “Quando terminou a reunião, eles sabiam, o traidor contou para eles, o mecanismo pelo qual se faria a dispersão. Eles sabiam que os participantes iriam sair dois a dois no carro. A proporção que iam saindo, saiu os primeiros dois, eles prendiam, depois saía a segunda dupla, eles prendiam. E o cabra do carro sempre voltava achando que não tinha acontecido nada porque a prisão acontecia depois, os militantes eram seguidos e presos”, diz Haroldo de Lima, hoje com 77 anos.
A reunião começara alguns dias antes.
“A reunião do Comitê Central foi antecedida por uma reunião da comissão política. Estávamos todos lá, nessa casa na rua Pio XI, que era onde a gente se reunia. O João Amazonas morava lá. E a gente fazia reuniões lá. Nessa reunião discutimos a questão de uma avaliação do Araguaia, mas discutimos também a perspectiva futura, nova etapa de luta. A gente tirou ali diretrizes em defesa do fim dos atos de exceção, de uma constituinte, da anistia, enfim, de um conjunto de bandeiras que marcaram a luta democrática naquele período”, lembra Aldo Arantes, que completa 78 anos no próximo dia 20.
Encontrar-se às escondidas era a única forma de poder, com alguma liberdade, trocar ideias sobre política, comenta Haroldo de Lima:
“Um grupo interessado em discutir o Brasil, as suas perspectivas dos seus problemas, esse grupo, para discutir, tinha que viver na clandestinidade, escondido, e sob risco de morte. Era assim que era o clima na época.  A ditadura é um regime atroz. É um regime em que não existia a liberdade de você conversar, de se encontrar. Liberdade de ir e vir. De fazer reunião. De fazer isso que nós estamos fazendo aqui hoje. Uma entrevista como essa que eu estou fazendo aqui agora com você, nem pensar! Isso tudo não só era proibido, como era duramente castigado”.

Prisão, tortura e morte foram os castigos para o jovem economista João Batista Franco Drummond, então com 24 anos. Ele chegara à direção do PCdoB depois de anos de militância nos movimentos estudantis e camponês, além de participação em campanhas eleitorais.
João Batista foi um dos primeiros a sair da reunião. Ele e Wladimir Pomar foram levados no Corcel azul dirigido por Joaquim Celso de Lima e tendo como acompanhante de segurança a veterana comunista e ex-guerrilheira do Araguaia Elza Monnerat, então com 63 anos.
Deixados nas proximidades da avenida Nove de Julho, na região central, os dois são seguidos. João Batista é preso antes de embarcar em um ônibus que o levaria a Goiás, Wladimir chega a perceber a perseguição e tenta escapar, mas acaba preso na avenida Santo Amaro. Os dois são levados para o DOI-CODI, no Paraíso. João Batista é assassinado sob tortura durante na madrugada do dia 16 de dezembro.
Enquanto isso, o Corcel azul tinha voltado para buscar a segunda dupla de dirigentes, Aldo Arantes e Haroldo de Lima –os dois que entrevistei para esta reportagem. Aldo foi preso perto da estação Paraíso, Haroldo foi seguido até a casa que morava e preso na manhã seguinte.
Por volta das seis da manhã do dia 16, Joaquim e Elza fazem a última viagem no carro, levando agora José Gomes Novaes e Jover Telles, o traidor. As forças da repressão deixam os dois escaparem, talvez para tornar mais verossímil a fuga do informante, segundo avalia Aldo Arantes.
Mas Joaquim e Elza não escapam. Na volta para a Lapa, o corcel azul é cercado na avenida Faria Lima por quatro fuscas, com agentes à paisana.
Elza foi encapuzada e jogada dentro de um dos carros. Enquanto era arrancado da direção do Corcel, Joaquim ainda conseguiu ouvir um dos agentes dizer ao rádio: “Tudo limpo. Pode tocar a operação”.
A mensagem, segundo registra o livro “Massacre na Lapa”, de Pedro Estevam da Rocha Pomar, foi o sinal para o tenente-coronel Rufino Ferreira Neves, que comandava o cerco da casa da rua Pio XI, iniciar o ataque à casa da Lapa [que hoje não existe mais; no local foi construído um prédio em que funciona uma clínica médica).
Os 40 agentes policiais e militares, transportados em dez veículos do Exército, não economizaram tiro. Foi bala de metralhadora, fuzil e revólver para todo o lado, destruindo portas e janelas e tirando reboco das paredes.
A cozinheira saiu para a rua e foi imediatamente presa (ao ouvir a voz dela, horas mais tarde, em um dos cubículos do DOI-Codi, Elza Monnerat teve a certeza de que a reunião tinha “caído”).
Arroyo foi fuzilado ao sair do banheiro, Pomar morreu na sala.



“Não tinha um revólver na casa, não tinha nada, absolutamente nada”, afirma Haroldo de Lima, explicando: “A tese que o Partido sustentava naquela época era de que a nossa defesa principal não podia ser a defesa armada. Porque nós não tínhamos correlação de forças para enfrentar. Se tivéssemos que entrar num confronto, num tiroteio, com as Forças Armadas nós perdíamos de longe”.

As Forças Armadas não fizeram nenhum esforço para prender com vida Ângelo Arroyo e Pedro Pomar, acusa Haroldo de Lima.
“Eles poderiam ter feito isso com a maior facilidade, porque eles estavam cercando tudo. Eles tinham toda a força, tinham uma quantidade de gente enorme. Eles eram dois, três. Prendia tudo, ali na hora. Não fizeram nenhum esforço para prender. Foram logo trucidando. Vinte minutos de fuzilaria. Batendo forte para destruir, quase que a casa. Paredes da casa. E os dois morreram de imediato. É a morte premeditada. É a morte planejada. Deliberada, comandada.”
A memória desses combatentes deve ser preservada, e sua luta sempre lembrada por todos nós, afirma Aldo Arantes: “É o momento de você homenagear aqueles que morreram, homenagear aqueles que foram torturados, mas ao mesmo tempo é o momento de reforçar as convicções para a continuidade da luta. Reforçar as convicções, refletir sobre os erros e acertos, para nós estarmos armados ideologicamente, mas estarmos armados também politicamente para operar nessas novas circunstâncias, difíceis, complexas, que impõem para nós tarefas táticas imediatas, mas impões retenção, novo projeto, que possa exatamente incorporar os milhões de brasileiros, um novo momento da luta política brasileira.”
Foi com a luta desses homens e mulheres, lembra Haroldo de Lima, que o Brasil conquistou a democracia: “Foi com muito esforço. Com muito suor, lágrimas e sangue”.

Haroldo de Lima, sobrevivente da reunião do Comitê Central do Partido Comunista do Brasil realizada em dezmebro de 1976

As conquistas democrática estão hoje novamente ameaçadas, diz Haroldo: “Eu acho que hoje nós temos a tarefa de lutar firme para afastar esse governo golpista que está aí, e lutar por uma eleição direta para presidente da república. Essa é a ideia básica. Às vezes zerar um pouco essa história. Para zerar a história você tem que devolver ao povo a soberania popular. O povo delibera quem vai ser o próximo presidente da República. Nós devemos lutar por isso”.
Relembrar as lutas passadas, como fizemos na caminhada de hoje, é também uma forma de se preparar para as lutas presentes, na opinião de Aldo Arantes:
“Eu acho que é algo extremamente importante. É o momento de você homenagear aqueles que morreram, homenagear aqueles que foram torturados, mas ao mesmo tempo é o momento de reforçar as convicções para a continuidade da luta. Reforçar as convicções, refletir sobre os erros e acertos, para nós estarmos armados ideologicamente, mas estarmos armados também politicamente para operar nessas novas circunstâncias, difíceis, complexas, que impõem para nós tarefas táticas imediatas, de construção de um novo projeto, que possa exatamente incorporar os milhões de brasileiros, um novo momento da luta política brasileira”.


VAMO QUE VAMO!!!


600 aos 60 – etapa 32 – 2016 dez 16

5,71 km caminhados em 1h22min41

Quilometragem acumulada: 143,87 km

Tempo acumulado: 30h08min39









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